Soneto LXXIII
William Shakespeare (1564-1616)
Em mim tu podes ver a quadra fria
Em que as folhas, já poucas ou nenhumas,
Pendem do ramo trêmulo onde havia
Outrora ninhos e gorjeio e plumas.
Em mim contemplas essa luz que apaga
Quando no poente o dia se faz mudo
E pouco a pouco a negra noite o traga,
Gêmea da morte, que cancela tudo.
Em mim tu sentes resplender o fogo
Que ardia sob as cinzas do passado
E num leito de morte expira logo
Do quanto que o nutriu ora esgotado.
Sabê-lo faz o teu amor mais forte
Por quem em breve há de levar a morte.
(Trad. Ivo Barroso)
Amigos do Fingidor
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sábado, 26 de fevereiro de 2011
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Poesia em tradução
Quatro haicais
Matsuo Bashô (1644-1694)
Quatro horas soaram.
Levantei-me nove vezes
para ver a lua.
Fecho a minha porta.
Silencioso vou deitar-me.
Prazer de estar só...
A cigarra... Ouvi:
nada revela em seu canto
que ela vai morrer.
Quimonos secando
ao sol. Oh aquela manguinha
da criança morta!
(Trad. Manuel Bandeira)
Matsuo Bashô (1644-1694)
Quatro horas soaram.
Levantei-me nove vezes
para ver a lua.
Fecho a minha porta.
Silencioso vou deitar-me.
Prazer de estar só...
A cigarra... Ouvi:
nada revela em seu canto
que ela vai morrer.
Quimonos secando
ao sol. Oh aquela manguinha
da criança morta!
(Trad. Manuel Bandeira)
sábado, 29 de janeiro de 2011
Poesia em tradução
Visões de Akira Kurosawa
Ana Mercedes Vivas
Milhares de homens
caminham
pelo túnel do silêncio.
Arcanjos da vida galopam
sobre cavalos azuis
desalados?
Um beija-flor desce
pelo raio de luz
até um girassol
enamorado ao vento.
Máscara de sonho,
sombras enlutadas,
pombas brancas
estrelas
para beber o dia
passos de solidão
entre os mortos.
(Trad. Thiago de Mello)
Ana Mercedes Vivas
Milhares de homens
caminham
pelo túnel do silêncio.
Arcanjos da vida galopam
sobre cavalos azuis
desalados?
Um beija-flor desce
pelo raio de luz
até um girassol
enamorado ao vento.
Máscara de sonho,
sombras enlutadas,
pombas brancas
estrelas
para beber o dia
passos de solidão
entre os mortos.
(Trad. Thiago de Mello)
sábado, 22 de janeiro de 2011
Poesia em tradução
O amor transido
Anacreonte (Século VI a.C.)
A noite passada,
à hora em que a Ursa
mais perto discursa
da mão do Boieiro;
e o sono profundo
no grêmio fagueiro
por todo esse mundo
restaura os mortais,
em meio era a noite;
o exemplo dos mais
no leito eu seguia;
sereno dormia . . .
À porta imprevisto
Cupido me bate!
À pressa me visto;
redobra o rebate;
acudo a correr.
“Sou eu, – diz de fora, –
não tens que temer;
sou um pequenino
que vaga, a tal hora,
molhado e sem tino,
perdido no escuro,
pois lua não há.”
Ouvi-lo gemendo
de mágoa me corta;
a lâmpada acendo,
franqueio-lhe a porta. . .
em casa me está!
Descubro (em verdade
mentido não tinha)
gentil criancinha
com arco e carcás.
Remexo nas brasas
da minha lareira;
restauro a fogueira;
as mãos, que são gelo,
lhe aqueço nas minhas,
lhe espremo o cabelo,
lhe enxugo as asinhas;
já frio não faz.
“Vejamos se a chuva
(dizia e sorria)
a corda do arco
me não danaria!”
Levanta-o do chão;
recurva-o, dispara
no meu coração.
A frecha que o vara
parece um tavão.
Eu, dores danadas,
e o doido às risadas,
de gosto a pular!
“– Meu caro hospedeiro,
(me diz prazenteiro)
agora é folgar.
Permite me ausente;
meu arco está são...
Quem fica doente
é teu coração!”
(Trad. Antônio Feliciano de Castilho)
Anacreonte (Século VI a.C.)
A noite passada,
à hora em que a Ursa
mais perto discursa
da mão do Boieiro;
e o sono profundo
no grêmio fagueiro
por todo esse mundo
restaura os mortais,
em meio era a noite;
o exemplo dos mais
no leito eu seguia;
sereno dormia . . .
À porta imprevisto
Cupido me bate!
À pressa me visto;
redobra o rebate;
acudo a correr.
“Sou eu, – diz de fora, –
não tens que temer;
sou um pequenino
que vaga, a tal hora,
molhado e sem tino,
perdido no escuro,
pois lua não há.”
Ouvi-lo gemendo
de mágoa me corta;
a lâmpada acendo,
franqueio-lhe a porta. . .
em casa me está!
Descubro (em verdade
mentido não tinha)
gentil criancinha
com arco e carcás.
Remexo nas brasas
da minha lareira;
restauro a fogueira;
as mãos, que são gelo,
lhe aqueço nas minhas,
lhe espremo o cabelo,
lhe enxugo as asinhas;
já frio não faz.
“Vejamos se a chuva
(dizia e sorria)
a corda do arco
me não danaria!”
Levanta-o do chão;
recurva-o, dispara
no meu coração.
A frecha que o vara
parece um tavão.
Eu, dores danadas,
e o doido às risadas,
de gosto a pular!
“– Meu caro hospedeiro,
(me diz prazenteiro)
agora é folgar.
Permite me ausente;
meu arco está são...
Quem fica doente
é teu coração!”
(Trad. Antônio Feliciano de Castilho)
sábado, 15 de janeiro de 2011
Poesia em tradução
Da prisão
Adrienne Rich
Sob minhas pálpebras outro olho se abriu
e olha cruamente
a luz
que penetra vindo do mundo da dor
mesmo enquanto durmo
Fixamente ele encara
tudo que eu enfrento
e mais
ele vê os cassetetes e as coronhas
levantando e baixando
ele vê
o detalhe que a TV não mostra
os dedos da polícia feminina
esquadrinhando a boceta da jovem prostituta
ele vê
as baratas caindo dentro da panela
onde preparam carne de porco
no presídio
ele vê
a violência
encravada no silêncio
Este olho
não é para chorar,
sua visão
deve ser nítida
apesar das lágrimas em meu rosto
seu objetivo é a lucidez
nada deve ser esquecido
(Trad. Olga Savary)
Adrienne Rich
Sob minhas pálpebras outro olho se abriu
e olha cruamente
a luz
que penetra vindo do mundo da dor
mesmo enquanto durmo
Fixamente ele encara
tudo que eu enfrento
e mais
ele vê os cassetetes e as coronhas
levantando e baixando
ele vê
o detalhe que a TV não mostra
os dedos da polícia feminina
esquadrinhando a boceta da jovem prostituta
ele vê
as baratas caindo dentro da panela
onde preparam carne de porco
no presídio
ele vê
a violência
encravada no silêncio
Este olho
não é para chorar,
sua visão
deve ser nítida
apesar das lágrimas em meu rosto
seu objetivo é a lucidez
nada deve ser esquecido
(Trad. Olga Savary)
sábado, 8 de janeiro de 2011
Poesia em tradução
Este poema é dos pássaros
Gary Snyder
Pássaros em vórtice convergem sobre os tetos
Milhafres mergulham, pendem para a forma de neblina enrolada
Da costa: pontos mudando linhas em linhas na altura,
definido o futuro.
Espane fumaça dos olhos,
poeira da mente,
Com o abano de rêmiges de águia.
Um falcão flutua rumo ao céu distante.
Uma marmota sibila entre rochas enormes.
Chuva nas colinas californianas.
Mariscos se prendem a pedras do mar
Sugando as marés da Primavera
Chuvas empapam o pardo restolho
Campos repletos de patos
Chuvas varrem o eucalipto
Estranhos pinheiros na costa
folhas agulheadas duas por feixe
O céu inteiro tremula ao vento
Andorinhões
Voando pela tempestade
Volteando por perto escutam silvo agudo de asas
Maçaricos
cinza pálido
lençóis pluviais desenrolando-se lentos,
Negros andorinhões.
...os andorinhões declaram
Enquanto disparam: Vê agora ou jamais!
(Trad. Paulo Vizioli)
Gary Snyder
Pássaros em vórtice convergem sobre os tetos
Milhafres mergulham, pendem para a forma de neblina enrolada
Da costa: pontos mudando linhas em linhas na altura,
definido o futuro.
Espane fumaça dos olhos,
poeira da mente,
Com o abano de rêmiges de águia.
Um falcão flutua rumo ao céu distante.
Uma marmota sibila entre rochas enormes.
Chuva nas colinas californianas.
Mariscos se prendem a pedras do mar
Sugando as marés da Primavera
Chuvas empapam o pardo restolho
Campos repletos de patos
Chuvas varrem o eucalipto
Estranhos pinheiros na costa
folhas agulheadas duas por feixe
O céu inteiro tremula ao vento
Andorinhões
Voando pela tempestade
Volteando por perto escutam silvo agudo de asas
Maçaricos
cinza pálido
lençóis pluviais desenrolando-se lentos,
Negros andorinhões.
...os andorinhões declaram
Enquanto disparam: Vê agora ou jamais!
(Trad. Paulo Vizioli)
sábado, 1 de janeiro de 2011
Poesia em tradução
Prólogo do Intermezzo
Heinrich Heine (1797-1856)
Um cavalheiro havia, taciturno,
Que o rosto magro e macilento tinha.
Vagava como quem de algum noturno
Sonho levado, trépido caminha.
Tão alheio, tão frio, tão soturno,
Que a moça em flor e a lépida florinha,
Quando passar tropegamente o viam,
Às escondidas dele escarneciam.
A miúdo buscava a mais sombria
Parte da casa, por fugir à gente;
Daquele posto os braços estendia
Tomado de desejo impaciente.
Uma palavra só não proferia.
Mas, pela meia-noite, de repente,
Estranho canto e música escutava,
E logo alguém que à porta lhe tocava.
Furtivamente então entrava a amada
O vestido de espumas arrastando,
Tão vivamente fresca e tão corada
Como a rosa que vem desabrochando;
Brilha o véu; pela esbelta e delicada
Figura as tranças soltas vão brincando;
Os meigos olhos dela os dele fitam,
E um ao outro de ardor se precipitam.
Com a força que amor somente gera,
O peito a cinge, agora afogueado;
O descorado as cores recupera,
E o retraído acaba namorado,
O sonhador desfaz-se da quimera...
Ela o excita, com gesto calculado;
Na cabeça lhe lança levemente
O adamantino véu alvo e luzente.
Ei-lo se vê em sala cristalina
De aquático palácio. Com espanto
Olha, e de olhar a fábrica divina
Quase os olhos lhe cegam. Entretanto,
Junto ao úmido seio a bela ondina
O aperta tanto, tanto, tanto, tanto...
Vão as bodas seguir-se. As notas belas
Vêm tirando das cítaras donzelas.
As notas vêm tirando, e deleitosas
Cantam, e cada uma a dança tece
Erguendo ao ar as plantas graciosas.
Ele, que todo e todo se embevece,
Deixa-se ir nessas horas amorosas...
Mas o clarão de súbito fenece,
E o noivo torna à pálida tristura
Da antiga, solitária alcova escura.
(Trad. Machado de Assis)
Heinrich Heine (1797-1856)
Um cavalheiro havia, taciturno,
Que o rosto magro e macilento tinha.
Vagava como quem de algum noturno
Sonho levado, trépido caminha.
Tão alheio, tão frio, tão soturno,
Que a moça em flor e a lépida florinha,
Quando passar tropegamente o viam,
Às escondidas dele escarneciam.
A miúdo buscava a mais sombria
Parte da casa, por fugir à gente;
Daquele posto os braços estendia
Tomado de desejo impaciente.
Uma palavra só não proferia.
Mas, pela meia-noite, de repente,
Estranho canto e música escutava,
E logo alguém que à porta lhe tocava.
Furtivamente então entrava a amada
O vestido de espumas arrastando,
Tão vivamente fresca e tão corada
Como a rosa que vem desabrochando;
Brilha o véu; pela esbelta e delicada
Figura as tranças soltas vão brincando;
Os meigos olhos dela os dele fitam,
E um ao outro de ardor se precipitam.
Com a força que amor somente gera,
O peito a cinge, agora afogueado;
O descorado as cores recupera,
E o retraído acaba namorado,
O sonhador desfaz-se da quimera...
Ela o excita, com gesto calculado;
Na cabeça lhe lança levemente
O adamantino véu alvo e luzente.
Ei-lo se vê em sala cristalina
De aquático palácio. Com espanto
Olha, e de olhar a fábrica divina
Quase os olhos lhe cegam. Entretanto,
Junto ao úmido seio a bela ondina
O aperta tanto, tanto, tanto, tanto...
Vão as bodas seguir-se. As notas belas
Vêm tirando das cítaras donzelas.
As notas vêm tirando, e deleitosas
Cantam, e cada uma a dança tece
Erguendo ao ar as plantas graciosas.
Ele, que todo e todo se embevece,
Deixa-se ir nessas horas amorosas...
Mas o clarão de súbito fenece,
E o noivo torna à pálida tristura
Da antiga, solitária alcova escura.
(Trad. Machado de Assis)
sábado, 25 de dezembro de 2010
Poesia em tradução
A tela
Efraín Rodríguez Santana
Na praça há uma vaca e está amarrada
e junto à vaca aparece uma tela de televisão,
chove dentro dessa tela, é uma imagem superposta,
sentem-se a umidade e o gotejar veloz da chuva,
mas também poderia ser a película da água sobre um campo gris,
mas também poderia ser o remanso da água sobre a crista
de uma onda,
mas também poderia ser o cristal de um aquário encostado
ao cristal líquido da televisão.
As pessoas fugiram da praça e se refugiaram nas casas,
não querem ouvir esse borbulhar sobre as janelas e os tetos.
Não importa que a água caia sobre aquela imagem perturbadora,
como nas velhas sequências de naufrágios as cabeças aparecem
e os corpos estão cortados e as mãos se inclinam em um sentido
e outro.
A tela não encerrará seu programa, eles estão mortos de medo,
é a praça principal do mencionado país.
(Trad.: Claudio Daniel)
Efraín Rodríguez Santana
Na praça há uma vaca e está amarrada
e junto à vaca aparece uma tela de televisão,
chove dentro dessa tela, é uma imagem superposta,
sentem-se a umidade e o gotejar veloz da chuva,
mas também poderia ser a película da água sobre um campo gris,
mas também poderia ser o remanso da água sobre a crista
de uma onda,
mas também poderia ser o cristal de um aquário encostado
ao cristal líquido da televisão.
As pessoas fugiram da praça e se refugiaram nas casas,
não querem ouvir esse borbulhar sobre as janelas e os tetos.
Não importa que a água caia sobre aquela imagem perturbadora,
como nas velhas sequências de naufrágios as cabeças aparecem
e os corpos estão cortados e as mãos se inclinam em um sentido
e outro.
A tela não encerrará seu programa, eles estão mortos de medo,
é a praça principal do mencionado país.
(Trad.: Claudio Daniel)
sábado, 18 de dezembro de 2010
Poesia em tradução
Profecia
Alfred Tennyson (1809-1892)
Porque imergi no futuro,
até onde o olho humano pode ver,
Vislumbrei a Visão do mundo,
e todo o encanto que podia ser;
Vi os céus cheios
de naus, corsários, velas de magia,
Pilotos do crepúsculo
rubro tombando em cargas de valia;
Ouvi os céus cheios de gritos,
e lá choveu um lívido orvalhar
Das vistosas esquadras
das nações no azul central a atacar;
Bem longe, o murmurar no mundo inteiro
do vento sul nesse ímpeto que esquenta,
Com os emblemas dos povos
mergulhando nos raios da tormenta;
Até que o tambor de guerra
não soasse e bandeiras ao reverso
No Parlamento do homem,
Federação de todo este universo.
Lá o senso comum da maioria
suporta um febril reino em sobressalto,
E a benévola terra
dormirá envolta em norma universal.
(Trad. José Lino Grünewald)
Alfred Tennyson (1809-1892)
Porque imergi no futuro,
até onde o olho humano pode ver,
Vislumbrei a Visão do mundo,
e todo o encanto que podia ser;
Vi os céus cheios
de naus, corsários, velas de magia,
Pilotos do crepúsculo
rubro tombando em cargas de valia;
Ouvi os céus cheios de gritos,
e lá choveu um lívido orvalhar
Das vistosas esquadras
das nações no azul central a atacar;
Bem longe, o murmurar no mundo inteiro
do vento sul nesse ímpeto que esquenta,
Com os emblemas dos povos
mergulhando nos raios da tormenta;
Até que o tambor de guerra
não soasse e bandeiras ao reverso
No Parlamento do homem,
Federação de todo este universo.
Lá o senso comum da maioria
suporta um febril reino em sobressalto,
E a benévola terra
dormirá envolta em norma universal.
(Trad. José Lino Grünewald)
sábado, 11 de dezembro de 2010
Poesia em tradução
Salvat Monho (1749-1821)
Baco não quer altar nem quer admiração.
Para os homens deixou somente uma instrução:
o vinho sem a água à vontade beberem,
se da morte manter-se a distância quiserem.
Se pensam que viver se reduz a existir,
felizes vamos ser e um bom gole ingerir.
Pois não sabemos como a vida prolongar,
deixemo-nos beber se o coração mandar.
Se alguém se dá ao trabalho, então não perca a vez:
o copo está vazio, pode enchê-lo outra vez.
Gozar, até esquecer o que nos aborrece
e as lembranças ruins que ninguém esquece.
Bebamos outra vez; é como sói dizer:
que dois copos depois, o terceiro é um dever.
E se esse coração no fundo ainda é triste,
talvez o quarto copo enfim o reconquiste.
(Trad. Fábio Aristimunho Vargas)
Baco não quer altar nem quer admiração.
Para os homens deixou somente uma instrução:
o vinho sem a água à vontade beberem,
se da morte manter-se a distância quiserem.
Se pensam que viver se reduz a existir,
felizes vamos ser e um bom gole ingerir.
Pois não sabemos como a vida prolongar,
deixemo-nos beber se o coração mandar.
Se alguém se dá ao trabalho, então não perca a vez:
o copo está vazio, pode enchê-lo outra vez.
Gozar, até esquecer o que nos aborrece
e as lembranças ruins que ninguém esquece.
Bebamos outra vez; é como sói dizer:
que dois copos depois, o terceiro é um dever.
E se esse coração no fundo ainda é triste,
talvez o quarto copo enfim o reconquiste.
(Trad. Fábio Aristimunho Vargas)
sábado, 4 de dezembro de 2010
Poesia em tradução
Soneto a Filida
Xosé Cornide (1734-1803)
Viste, Filida amada, o passarinho
que arando desses ares pelo prado
se emaranha nas linhas, descuidado,
que astuto caçador põe no caminho?
Viste que força faz para soltar-se
e levar aos filhotes os bocados
(parte do coração, filhos amados),
que os deixara no ninho ao remontar-se?
Pois viste a quem te adora mais que a vida,
que, caído na armadilha de um disfarce,
busca aqui, busca ali uma saída
para fugir, podendo assim livrar-se
e aninhar-se seguro no teu seio,
em que chorara atento o próprio anseio.
(Trad. Fábio Aristimunho Vargas)
Xosé Cornide (1734-1803)
Viste, Filida amada, o passarinho
que arando desses ares pelo prado
se emaranha nas linhas, descuidado,
que astuto caçador põe no caminho?
Viste que força faz para soltar-se
e levar aos filhotes os bocados
(parte do coração, filhos amados),
que os deixara no ninho ao remontar-se?
Pois viste a quem te adora mais que a vida,
que, caído na armadilha de um disfarce,
busca aqui, busca ali uma saída
para fugir, podendo assim livrar-se
e aninhar-se seguro no teu seio,
em que chorara atento o próprio anseio.
(Trad. Fábio Aristimunho Vargas)
sábado, 27 de novembro de 2010
Poesia em tradução
Como o touro ao deserto vai fugido
Ausiàs March (1397-1459)
Como o touro ao deserto vai fugido
se vencido por seu igual, que o força,
não volta até recuperada a força
para destruir quem o haja ofendido,
assim com me afastar de ti condiz,
pois teu gesto o meu brio tem confundido:
não voltarei até que haja vencido
tal medo que me impede ser feliz.
(Trad. Fábio Aristimunho Vargas)
Ausiàs March (1397-1459)
Como o touro ao deserto vai fugido
se vencido por seu igual, que o força,
não volta até recuperada a força
para destruir quem o haja ofendido,
assim com me afastar de ti condiz,
pois teu gesto o meu brio tem confundido:
não voltarei até que haja vencido
tal medo que me impede ser feliz.
(Trad. Fábio Aristimunho Vargas)
sábado, 20 de novembro de 2010
Poesia em tradução
Meu Cavaleiro
José Martí (1853-1895)
De manhã cedo
meu pequerrucho
me despertava
com um grande beijo.
Logo montado
sobre meu peito
freios forjava
com meus cabelos.
Ébrios de gozo
tanto eu como ele
me esporeava
meu cavaleiro:
que suave espora
seus dois pés frescos!
E como ria
meu cavaleiro!
Como eu beijava
seus pés pequenos
dois pés que cabem
juntos num beijo!
(Trad. Henriqueta Lisboa)
José Martí (1853-1895)
De manhã cedo
meu pequerrucho
me despertava
com um grande beijo.
Logo montado
sobre meu peito
freios forjava
com meus cabelos.
Ébrios de gozo
tanto eu como ele
me esporeava
meu cavaleiro:
que suave espora
seus dois pés frescos!
E como ria
meu cavaleiro!
Como eu beijava
seus pés pequenos
dois pés que cabem
juntos num beijo!
(Trad. Henriqueta Lisboa)
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Sabado
sábado, 13 de novembro de 2010
É tão gentil e tão honesto o ar
Dante Alighieri (1265-1321)
É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.
Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.
Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.
E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d’alma vai dizer: “Suspira!”
(Trad. Ivo Barroso)
É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.
Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.
Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.
E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d’alma vai dizer: “Suspira!”
(Trad. Ivo Barroso)
sábado, 6 de novembro de 2010
Poesia em tradução
O Junco e o cipreste
D. Guillermo Gana (datas desconhecidas)
Ao lúgubre cipreste em voz plangente
O junco melancólico dizia:
– Que triste sorte a minha!
Ergui-me tão alegre e tão contente
Quando a alvorada vinha!
E já sem força e já sem energia
Curvo a cabeça... E lânguido e sozinho
Sinto que vou morrer. Ah! por que a sorte
Dando-te vida, só me guarda morte?
E o cipreste dizia:
– A dor foi sempre eterna,
Mas a fortuna só perdura um dia!
E o junco respondia:
Em ti simbolizaram a tristeza,
Em mim somente o anelo
Dos que no amor esperam.
Como é que nunca dobras a cabeça,
Nem a raiva das chuvas e dos ventos
A cor sequer te alteram?
Daqueles que de tudo desesperam
Para lembrar a lúgubre aflição,
Só existe uma cor, disse o cipreste...
E se jamais tu viste
Curvar minha folhagem para o chão...
É que desprezo o mundo baixo e triste
E mergulho a cabeça n’amplidão.
(Trad. Castro Alves)
D. Guillermo Gana (datas desconhecidas)
Ao lúgubre cipreste em voz plangente
O junco melancólico dizia:
– Que triste sorte a minha!
Ergui-me tão alegre e tão contente
Quando a alvorada vinha!
E já sem força e já sem energia
Curvo a cabeça... E lânguido e sozinho
Sinto que vou morrer. Ah! por que a sorte
Dando-te vida, só me guarda morte?
E o cipreste dizia:
– A dor foi sempre eterna,
Mas a fortuna só perdura um dia!
E o junco respondia:
Em ti simbolizaram a tristeza,
Em mim somente o anelo
Dos que no amor esperam.
Como é que nunca dobras a cabeça,
Nem a raiva das chuvas e dos ventos
A cor sequer te alteram?
Daqueles que de tudo desesperam
Para lembrar a lúgubre aflição,
Só existe uma cor, disse o cipreste...
E se jamais tu viste
Curvar minha folhagem para o chão...
É que desprezo o mundo baixo e triste
E mergulho a cabeça n’amplidão.
(Trad. Castro Alves)
sábado, 30 de outubro de 2010
Poesia em tradução
Ganhando dinheiro
James Laughlin (1914-1997)
O homenzinho sentado ao
piano no bar ganha seu
dinheiro para sorrir o
tempo todo que toca e
a loura cintilante no
vestido de Dior recebe
dinheiro para dar-se por
satisfeita quando tem de
dormir com o gordo & feio
que ganhou dinheiro para
trair os sócios naquele
famoso negócio & eu que
dinheiro ganho quem paga
o poeta por um poema?
(Trad. Mário Faustino)
James Laughlin (1914-1997)
O homenzinho sentado ao
piano no bar ganha seu
dinheiro para sorrir o
tempo todo que toca e
a loura cintilante no
vestido de Dior recebe
dinheiro para dar-se por
satisfeita quando tem de
dormir com o gordo & feio
que ganhou dinheiro para
trair os sócios naquele
famoso negócio & eu que
dinheiro ganho quem paga
o poeta por um poema?
(Trad. Mário Faustino)
sábado, 23 de outubro de 2010
Poesia em tradução
Dias
Ralph Waldo Emerson (1803-1882)
Prole do Tempo, Dias hipocríticos,
Tampados, mudos, dervixes descalços,
Seguindo sós em fila sem mais fim,
Com diademas e adornos nas mãos.
Oferecem regalos para todos,
Pão, reinos, astros e céu que os sustém.
Eu, em meu jardim curvo, olhava a pompa,
Esquecia os desejos matinais,
Na pressa, peguei ervas e maçãs,
E saiu e voltou, silente, o Dia.
Vi tarde, em seu solene aro, o desdém.
(Trad. José Lino Grünewald)
Ralph Waldo Emerson (1803-1882)
Prole do Tempo, Dias hipocríticos,
Tampados, mudos, dervixes descalços,
Seguindo sós em fila sem mais fim,
Com diademas e adornos nas mãos.
Oferecem regalos para todos,
Pão, reinos, astros e céu que os sustém.
Eu, em meu jardim curvo, olhava a pompa,
Esquecia os desejos matinais,
Na pressa, peguei ervas e maçãs,
E saiu e voltou, silente, o Dia.
Vi tarde, em seu solene aro, o desdém.
(Trad. José Lino Grünewald)
sábado, 16 de outubro de 2010
Poesia em tradução
Fim do mundo
Else Lasker-Schüler (1869-1945)
Há um choro no mundo,
Como se o bom Deus Chegasse ao final,
E a nuvem plúmbea cai ao fundo,
Em peso sepulcral.
Vem, escondamo-nos juntos em plenitude...
A vida está no coração de todos
Como em ataúdes.
Tu! Profundamente nos beijemos –
No mundo palpita uma saudade,
Da qual morreremos.
(Trad. Claudia Cavalcanti)
Else Lasker-Schüler (1869-1945)
Há um choro no mundo,
Como se o bom Deus Chegasse ao final,
E a nuvem plúmbea cai ao fundo,
Em peso sepulcral.
Vem, escondamo-nos juntos em plenitude...
A vida está no coração de todos
Como em ataúdes.
Tu! Profundamente nos beijemos –
No mundo palpita uma saudade,
Da qual morreremos.
(Trad. Claudia Cavalcanti)
sábado, 9 de outubro de 2010
Poesia em tradução
O instinto
Cesare Pavese (1908-1950)
O homem velho e já sem esperança nas coisas,
da soleira de casa ao sol morno da tarde,
olha o cão e a cadela aplacando o instinto.
Em sua boca sem dentes as moscas passeiam.
Sua mulher já morreu há um bom tempo, e não é
que gostasse de sexo – tampouco as cadelas –,
mas o instinto era vivo. O homem velho fungava
– tinha ainda seus dentes –, a noite caía,
se metiam na cama. O instinto era belo.
O que agrada no cão é a total liberdade.
De manhã e de noite vagueia nas ruas;
e ora come, ora dorme, ora cruza as cadelas:
não espera sequer pela noite. Reflete
com o faro, e os cheiros que sente são seus.
O homem velho recorda uma vez de manhã
em que fez como os cães, em um campo de trigo.
Esqueceu a cadela, mas lembra o sol alto
e o suor e a vontade de nunca ter fim.
Era como na cama. Se os anos voltassem,
gostaria de sempre o fazer num trigal.
Uma mulher desce a rua e detém-se a olhar;
passa o padre e se volta. Mas no meio da praça
qualquer ato é possível. E até a mulher,
que receia virar para o homem, detém-se.
Só um rapaz, entre todos, não quer ver o jogo
e recorre a pedradas. O homem velho se irrita.
Janeiro de 1936
Cesare Pavese (1908-1950)
O homem velho e já sem esperança nas coisas,
da soleira de casa ao sol morno da tarde,
olha o cão e a cadela aplacando o instinto.
Em sua boca sem dentes as moscas passeiam.
Sua mulher já morreu há um bom tempo, e não é
que gostasse de sexo – tampouco as cadelas –,
mas o instinto era vivo. O homem velho fungava
– tinha ainda seus dentes –, a noite caía,
se metiam na cama. O instinto era belo.
O que agrada no cão é a total liberdade.
De manhã e de noite vagueia nas ruas;
e ora come, ora dorme, ora cruza as cadelas:
não espera sequer pela noite. Reflete
com o faro, e os cheiros que sente são seus.
O homem velho recorda uma vez de manhã
em que fez como os cães, em um campo de trigo.
Esqueceu a cadela, mas lembra o sol alto
e o suor e a vontade de nunca ter fim.
Era como na cama. Se os anos voltassem,
gostaria de sempre o fazer num trigal.
Uma mulher desce a rua e detém-se a olhar;
passa o padre e se volta. Mas no meio da praça
qualquer ato é possível. E até a mulher,
que receia virar para o homem, detém-se.
Só um rapaz, entre todos, não quer ver o jogo
e recorre a pedradas. O homem velho se irrita.
Janeiro de 1936
(Trad. Maurício Santana Dias)
sábado, 2 de outubro de 2010
Poesia em tradução
O puro não
Oliverio Girondo (1891-1967)
o não
o não inóvulo
o não nonato
o innão
o não póslodocosmos de pésteos zeros que nãoam nãoam nãoam
e nãoãoam
e pluriuno noam ao morbo amorfo innão
não dêmono
não deo
sem som sem sexo nem órbita
o hirto inósseo innão no uníssolo amódulo
sem poros já sem nódulo
nem eu nem cova nem fosso
o macro não não pó
o não mais nada tudo
o puro não
sem não
(Trad. Augusto de Campos)
Oliverio Girondo (1891-1967)
o não
o não inóvulo
o não nonato
o innão
o não póslodocosmos de pésteos zeros que nãoam nãoam nãoam
e nãoãoam
e pluriuno noam ao morbo amorfo innão
não dêmono
não deo
sem som sem sexo nem órbita
o hirto inósseo innão no uníssolo amódulo
sem poros já sem nódulo
nem eu nem cova nem fosso
o macro não não pó
o não mais nada tudo
o puro não
sem não
(Trad. Augusto de Campos)
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