Bosco Ladislau
É mentira o que dizem estes senhores todos – estes
que afirmam identificarem-se com a geração subjugada,
mas que nunca trazem as mãos fedendo a cigarro barato
e nem recebem salário mínimo.
São, apenas, arautos
das Nações e de Sociedades
(corruptas e criminosas como as noites do Terceiro Mundo).
Disto sabem os deuses e os governantes
que nos conduzem à desgraça
quando simulamos a dissolução de seus sacramentos.
Disto sabem os deuses e os governantes
que nos limitam a uma existência louca.
É uma existência súbita e cruel;
como o preço do pão,
como a falta do feijão,
como os 99 cruzeiros mensais
das professoras do Nordeste
no Hemisfério Ocidental,
como os 60% de desempregados
de algum lugar dispensados
em 1976,
como os crimes
que cortam as tardes no Hyde Park
ou na Praça da República!
Estes são os homens de ternos cinzas;
meros executivos que lêem García Lorca,
ou fazem grandes projetos para o amanhã.
No fim do dia
discutem entre si e dizem:
“Como são estranhos os homossexuais e as prostitutas que se beijam
e se consolam na desgraça... Complexos são os camponeses que trabalham
fazendo canções... Ordinários são os poetas, que falam de amor e do
Oceano Pacífico apenas para revelarem o choro dos oprimidos...”
Amigos do Fingidor
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terça-feira, 15 de setembro de 2009
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
O amargo da terra
Bosco Ladislau
Saúdo-te por último,
meu caro amigo. Antes que regresses
novamente ao teu escuro quarto de pensão,
arrebentado, cego e traído
pela estúpida moral de todas as filosofias.
Eu venho de bares e mercados
tristes e impenetráveis
como as raízes de meu cérebro.
A vida dos encarniçados
que aí se exilam e se embriagam
é tão cheia de tragédias
que me faz dar gritos de agonia.
Por isso tenho repulsa à tranqüilidade
e a canções de amor.
Não tenho paz, senão quando vejo
a fome ausente de um operário
e um sorriso obstinado
na boca de uma mulher grávida.
Fora disso sou intratável
rebelde
louco
sem rumo;
vivo e cruzo a cidade
nas noites que se erguem sedutoras
como o sal terrestre.
No entanto, amigo,
sou como tu és: prefácio decadente
de uma raça extinta pela necessidade.
Ah, se morrêssemos de fartura
numa noite de domingo!
Entretanto, estamos presos à vida
que é a arte do impossível. Por ela
nos tornamos irmãos
entre jardins de papoulas.
Viva e claramente
não mais nos assustamos
quando dizem: “LO AMARGO DE LA TIERRA
CANTA ENCIMA DE LOS PUEBLOS!”,
porque temos
um relincho selvagem que se multiplica
sempre e sempre
no hoje e no amanhã;
porque somos a última geração que luta.
Nós, o ácido da Terra,
nascidos da discórdia
entre Deus e o Diabo.
Saúdo-te por último,
meu caro amigo. Antes que regresses
novamente ao teu escuro quarto de pensão,
arrebentado, cego e traído
pela estúpida moral de todas as filosofias.
Eu venho de bares e mercados
tristes e impenetráveis
como as raízes de meu cérebro.
A vida dos encarniçados
que aí se exilam e se embriagam
é tão cheia de tragédias
que me faz dar gritos de agonia.
Por isso tenho repulsa à tranqüilidade
e a canções de amor.
Não tenho paz, senão quando vejo
a fome ausente de um operário
e um sorriso obstinado
na boca de uma mulher grávida.
Fora disso sou intratável
rebelde
louco
sem rumo;
vivo e cruzo a cidade
nas noites que se erguem sedutoras
como o sal terrestre.
No entanto, amigo,
sou como tu és: prefácio decadente
de uma raça extinta pela necessidade.
Ah, se morrêssemos de fartura
numa noite de domingo!
Entretanto, estamos presos à vida
que é a arte do impossível. Por ela
nos tornamos irmãos
entre jardins de papoulas.
Viva e claramente
não mais nos assustamos
quando dizem: “LO AMARGO DE LA TIERRA
CANTA ENCIMA DE LOS PUEBLOS!”,
porque temos
um relincho selvagem que se multiplica
sempre e sempre
no hoje e no amanhã;
porque somos a última geração que luta.
Nós, o ácido da Terra,
nascidos da discórdia
entre Deus e o Diabo.
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