Garça feliz
Quintino Cunha (1873-1943)
Um lago, a cuja flor, nas canaranas,
Impossível, traiçoeiro, repelente,
Um jacaré assustadoramente
Estruge e tange as gárrulas ciganas.
Depois margina a sombra das oeiranas,
Vendo uma garça, sorrateiramente,
Solta-lhe a cauda e um jato de repente
D’água, desfaz-se no ar em filigranas.
E, quando morta a triste garça eu via,
Como um toque ilusório de alegria,
No coração sensível da tristeza,
Rosna perto uma onça e o monstro solta
A embiara feliz, que as asas volta
Para o bonito Céu de azul-turquesa!
Amigos do Fingidor
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Estante do tempo
A Enchente
Quintino Cunha (1873-1943)
Sinistro cresce o rio bom de outrora,
Mas hoje um cruel, fazendo mil estragos,
Já não tem coração, não tem afagos,
Para si mesmo, o Solimões d’agora;
Mas, em compensação, há nisto uns vagos
Tons de alegria impressionadora:
É que alegres os peixes vão-se embora,
Pelos igarapés, para os seus lagos.
E, do oeiranal, pousadas tristemente,
Com a mesma tristeza com que a gente
Se prostra, às vezes, quando sente mágoas,
As garças olham como a praia há de
Em breve se esconder, naquelas águas,
As garças olham... tristes de saudade!...
Quintino Cunha (1873-1943)
Sinistro cresce o rio bom de outrora,
Mas hoje um cruel, fazendo mil estragos,
Já não tem coração, não tem afagos,
Para si mesmo, o Solimões d’agora;
Mas, em compensação, há nisto uns vagos
Tons de alegria impressionadora:
É que alegres os peixes vão-se embora,
Pelos igarapés, para os seus lagos.
E, do oeiranal, pousadas tristemente,
Com a mesma tristeza com que a gente
Se prostra, às vezes, quando sente mágoas,
As garças olham como a praia há de
Em breve se esconder, naquelas águas,
As garças olham... tristes de saudade!...
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Estante do tempo
Encontro das águas
(Rios Negro e Solimões)
Quintino Cunha (1873-1943)
Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este
É o rio Negro, aquele é o Solimões.
Vê bem como este contra aquele investe,
Como as saudades com as recordações.
Vê como se separam duas águas,
Que se querem reunir, mas visualmente;
É um coração que quer reunir as mágoas
De um passado, às venturas de um presente.
É um simulacro só, que as águas donas
Desta terra não seguem curso adverso,
Todas convergem para o Amazonas,
O real rei dos rios do Universo;
Para o velho Amazonas, Soberano
Que, no solo brasílio, tem o Paço;
Para o Amazonas, que nasceu humano,
Porque afinal é filho de um abraço!
Olha esta água, que é negra como tinta,
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.
Aquela outra parece amarelaça,
Muito, no entanto, é também limpa, engana;
É direito a virtude quando passa
Pela flexível porta da choupana.
Que profundeza extraordinária, imensa,
Que profundeza mais que desconforme!
Este navio é uma estrela, suspensa
Neste céu d’água, brutalmente enorme.
Se estes dois rios fôssemos, Maria,
Todas as vezes que nos encontramos,
Que Amazonas de amor não sairia
De mim, de ti, de nós que nos amamos!...
(Rios Negro e Solimões)
Quintino Cunha (1873-1943)
Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este
É o rio Negro, aquele é o Solimões.
Vê bem como este contra aquele investe,
Como as saudades com as recordações.
Vê como se separam duas águas,
Que se querem reunir, mas visualmente;
É um coração que quer reunir as mágoas
De um passado, às venturas de um presente.
É um simulacro só, que as águas donas
Desta terra não seguem curso adverso,
Todas convergem para o Amazonas,
O real rei dos rios do Universo;
Para o velho Amazonas, Soberano
Que, no solo brasílio, tem o Paço;
Para o Amazonas, que nasceu humano,
Porque afinal é filho de um abraço!
Olha esta água, que é negra como tinta,
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.
Aquela outra parece amarelaça,
Muito, no entanto, é também limpa, engana;
É direito a virtude quando passa
Pela flexível porta da choupana.
Que profundeza extraordinária, imensa,
Que profundeza mais que desconforme!
Este navio é uma estrela, suspensa
Neste céu d’água, brutalmente enorme.
Se estes dois rios fôssemos, Maria,
Todas as vezes que nos encontramos,
Que Amazonas de amor não sairia
De mim, de ti, de nós que nos amamos!...
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