Visões de Akira Kurosawa
Ana Mercedes Vivas
Milhares de homens
caminham
pelo túnel do silêncio.
Arcanjos da vida galopam
sobre cavalos azuis
desalados?
Um beija-flor desce
pelo raio de luz
até um girassol
enamorado ao vento.
Máscara de sonho,
sombras enlutadas,
pombas brancas
estrelas
para beber o dia
passos de solidão
entre os mortos.
(Trad. Thiago de Mello)
Amigos do Fingidor
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sábado, 29 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Ontem sonhei com três rinocerontes
Thiago de Mello
Ontem sonhei com três rinocerontes
que me chamavam, rosas no unicórnio,
pelo nome que tive de menino.
Mordidos pelos pássaros noturnos,
pupilas assombradas, me chamavam
a com eles partir, antes da aurora,
para o lugar onde as estrelas nascem,
enquanto se afundavam numa lama
coberta de ametistas e de garças.
Quero ficar. Mas antes que se afundem,
a pele, peço, a pele que me deixem,
em carne viva sigam pelos pântanos,
mas a pele me deixem, que proteja
o que no peito meu finda de infância.
Ontem sonhei com três rinocerontes
que me chamavam, rosas no unicórnio,
pelo nome que tive de menino.
Mordidos pelos pássaros noturnos,
pupilas assombradas, me chamavam
a com eles partir, antes da aurora,
para o lugar onde as estrelas nascem,
enquanto se afundavam numa lama
coberta de ametistas e de garças.
Quero ficar. Mas antes que se afundem,
a pele, peço, a pele que me deixem,
em carne viva sigam pelos pântanos,
mas a pele me deixem, que proteja
o que no peito meu finda de infância.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Amazonas
Celdo Braga
O rio se banha de luz
murmureja e vai seguindo
de porto em porto esculpindo
as margens do seu destino
Destino de ser caminho
de ser barco e navegante
de ser leme e comandante
do seu próprio caminhar
Canaranas, matupás
membecas e murerus
são ilhas de arribação
no regime das enchentes
Nas vazantes borda praias
onde o rito da desova
aninha nos tabuleiros
tartarugas tracajás
E no ciclo das areias
a vida eclode apressada
pra ser de novo tocada
pelo compasso do rio
Quantas vezes este rio
brincou comigo de pira
lavou roupas nas beiradas
foi a fonte do meu pão...
Em silencio e solitário
vai vencendo desafios
se envereda em paranás
bebe as águas de outros rios
Guarda os segredos dos lagos
se embrenha nos igapós
sabe notícia da mata
na boca do igarapé
Ao desfolhar a paisagem
de imagens já distantes
dos primeiros navegantes
acordando o seu silêncio
O rio acende memórias
de lendas de encantamentos
fragmentos de mistérios
que borbulham do seu leito
Carrega todos os sonhos
do olhar das ribanceiras
que se enche de esperança
ao ver o barco passar
Sempre que um gesto impensado
tolda as águas mancha a vida
o rio geme lá no fundo
a ferida que já sangra
O sol míngua no poente
brisa mansa maresia
o rio se aquieta e dorme
em noturna romaria
No amanhecer ainda brilha
a luz dos últimos astros
que à noite se banharam
no firmamento do rio
Rio de saber, santuário
onde os pajés, os sacacas
em mirações milenares
beberam da sua luz
Luz de versos que caminham
alumiando os barrancos
que choram terras caídas
à procura de outro de outro chão
Com jeito de cobra grande
o rio das águas barrentas
rumo leste busca o mar
talvez para se perder
talvez para se encontrar
A Thiago de Mello
O rio se banha de luz
murmureja e vai seguindo
de porto em porto esculpindo
as margens do seu destino
Destino de ser caminho
de ser barco e navegante
de ser leme e comandante
do seu próprio caminhar
Canaranas, matupás
membecas e murerus
são ilhas de arribação
no regime das enchentes
Nas vazantes borda praias
onde o rito da desova
aninha nos tabuleiros
tartarugas tracajás
E no ciclo das areias
a vida eclode apressada
pra ser de novo tocada
pelo compasso do rio
Quantas vezes este rio
brincou comigo de pira
lavou roupas nas beiradas
foi a fonte do meu pão...
Em silencio e solitário
vai vencendo desafios
se envereda em paranás
bebe as águas de outros rios
Guarda os segredos dos lagos
se embrenha nos igapós
sabe notícia da mata
na boca do igarapé
Ao desfolhar a paisagem
de imagens já distantes
dos primeiros navegantes
acordando o seu silêncio
O rio acende memórias
de lendas de encantamentos
fragmentos de mistérios
que borbulham do seu leito
Carrega todos os sonhos
do olhar das ribanceiras
que se enche de esperança
ao ver o barco passar
Sempre que um gesto impensado
tolda as águas mancha a vida
o rio geme lá no fundo
a ferida que já sangra
O sol míngua no poente
brisa mansa maresia
o rio se aquieta e dorme
em noturna romaria
No amanhecer ainda brilha
a luz dos últimos astros
que à noite se banharam
no firmamento do rio
Rio de saber, santuário
onde os pajés, os sacacas
em mirações milenares
beberam da sua luz
Luz de versos que caminham
alumiando os barrancos
que choram terras caídas
à procura de outro de outro chão
Com jeito de cobra grande
o rio das águas barrentas
rumo leste busca o mar
talvez para se perder
talvez para se encontrar
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Canção para os fonemas da alegria
Thiago de Mello
Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.
Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.
Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano,
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,
e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas
são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.
Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:
porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,
e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão
que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem,
mas um modo de amar – e de ajudar
o mundo a ser melhor.
Peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:
ele atravessa os campos espalhando
a boa nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,
contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.
Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:
canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.
A Paulo Freire
Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.
Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.
Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano,
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,
e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas
são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.
Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:
porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,
e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão
que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem,
mas um modo de amar – e de ajudar
o mundo a ser melhor.
Peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:
ele atravessa os campos espalhando
a boa nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,
contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.
Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:
canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Num campo de margaridas
Thiago de Mello
Sonhei que estavas dormindo
num campo de margaridas
sonhando que me chamavas,
que me chamavas baixinho
para me deitar contigo
num campo de margaridas.
No sonho ouvia o meu nome
nascendo como uma estrela,
como um pássaro cantando.
Mas eu não fui, meu amor,
que pena!, mas não podia,
porque eu estava dormindo
num campo de margaridas
sonhando que te chamava
que te chamava baixinho
e que em meu sonho chegavas,
que te deitavas comigo
e me abraçavas macia
num campo de margaridas.
Sonhei que estavas dormindo
num campo de margaridas
sonhando que me chamavas,
que me chamavas baixinho
para me deitar contigo
num campo de margaridas.
No sonho ouvia o meu nome
nascendo como uma estrela,
como um pássaro cantando.
Mas eu não fui, meu amor,
que pena!, mas não podia,
porque eu estava dormindo
num campo de margaridas
sonhando que te chamava
que te chamava baixinho
e que em meu sonho chegavas,
que te deitavas comigo
e me abraçavas macia
num campo de margaridas.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Silêncio e palavra
Thiago de Mello
I
A couraça das palavras
protege nosso silêncio
e esconde aquilo que somos.
Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.
Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.
Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora de nossa boca.
.
II
Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)
Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transfaremos.
E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta – humilde e pura –
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos palavra e homem.
I
A couraça das palavras
protege nosso silêncio
e esconde aquilo que somos.
Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.
Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.
Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora de nossa boca.
.
II
Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)
Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transfaremos.
E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta – humilde e pura –
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos palavra e homem.
sábado, 16 de maio de 2009
Poesia em tradução
Pedra negra sobre uma pedra branca
Cesar Vallejo (1892-1938)
Eu morrerei em Paris com aguaceiro,
um dia que meu peito já relembra.
Morrerei em Paris, talvez – não fujo –
numa quinta de outono, igual à de hoje.
Quinta-feira há de ser. Hoje, que proso
estes versos e mal me tenho os húmeros,
é quinta e, como nunca, hoje voltei
com todo o meu caminho a me ver só.
Morreu César Vallejo, o que apanhava
de todos sem que nada lhes fizesse;
lhe davam duro com um pau e duro
com a corda também; são testemunhas
as quintas-feiras, os meus ossos húmeros,
a solidão, a chuva e os caminhos.
(Trad. Thiago de Mello)
Cesar Vallejo (1892-1938)
Eu morrerei em Paris com aguaceiro,
um dia que meu peito já relembra.
Morrerei em Paris, talvez – não fujo –
numa quinta de outono, igual à de hoje.
Quinta-feira há de ser. Hoje, que proso
estes versos e mal me tenho os húmeros,
é quinta e, como nunca, hoje voltei
com todo o meu caminho a me ver só.
Morreu César Vallejo, o que apanhava
de todos sem que nada lhes fizesse;
lhe davam duro com um pau e duro
com a corda também; são testemunhas
as quintas-feiras, os meus ossos húmeros,
a solidão, a chuva e os caminhos.
(Trad. Thiago de Mello)
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Thiago de Mello
Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade,
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.
Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.
Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Santiago do Chile,
abril de 1964.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
O menino e os poetas
Dori Carvalho
quando menino ganhei não presentes caros
mas cheios de sabedoria, delicados e raros
quatro livros de poesia, pura poesia
meu Deus, que descoberta, que alegria
Carlos Drummond de Andrade
ensinou-me a sentir a alma das cidades
Manuel Bandeira, mil bandeiras,
desde aí, caminhei sem eira nem beira
Pablo, isla negra, Neruda
mostrou-me a ternura e a vida desnuda
Thiago, amazônico Thiago de Mello
cantou-me que o mundo ainda pode ser belo
um livro de muitas batalhas
El Che, Ernesto Guevara
sangrou-me o quanto a vida é cara
e uma pataca de prata de quatrocentos réis
presente de aniversário do meu padrinho
por isso, ando com esse sentimento do mundo
que tanto me faz sofrer e faz sonhar
por isso, o silêncio e a palavra
por isso, essa dureza e essa ternura
por isso, a sede de liberdade e as canções desesperadas
por isso, levo em meu coração um pouco de poesia
por isso, trago em minha boca um copo de pasárgada
que tanto me faz amar e viver
por isso, carrego na lembrança
o fuzil, que, in-felizmente, nunca usei
e a pataca de prata que perdi
e nunca soube multiplicar.
(a Thiago de Mello)
quando menino ganhei não presentes caros
mas cheios de sabedoria, delicados e raros
quatro livros de poesia, pura poesia
meu Deus, que descoberta, que alegria
Carlos Drummond de Andrade
ensinou-me a sentir a alma das cidades
Manuel Bandeira, mil bandeiras,
desde aí, caminhei sem eira nem beira
Pablo, isla negra, Neruda
mostrou-me a ternura e a vida desnuda
Thiago, amazônico Thiago de Mello
cantou-me que o mundo ainda pode ser belo
um livro de muitas batalhas
El Che, Ernesto Guevara
sangrou-me o quanto a vida é cara
e uma pataca de prata de quatrocentos réis
presente de aniversário do meu padrinho
por isso, ando com esse sentimento do mundo
que tanto me faz sofrer e faz sonhar
por isso, o silêncio e a palavra
por isso, essa dureza e essa ternura
por isso, a sede de liberdade e as canções desesperadas
por isso, levo em meu coração um pouco de poesia
por isso, trago em minha boca um copo de pasárgada
que tanto me faz amar e viver
por isso, carrego na lembrança
o fuzil, que, in-felizmente, nunca usei
e a pataca de prata que perdi
e nunca soube multiplicar.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
A caranguejeira feliz
Thiago de Mello
Estão afáveis os ferrões da aranha
pousada na madeira da manhã.
Caçadora noturna, ela está imóvel,
as pernas cabeludas estendidas.
Chego mais perto: dorme fatigada
sob o possante resplendor do dia.
Cada pêlo é um olho, e em cada olho
um brilho denso de felicidade.
Sobre a parede de maçaranduba,
na luz da antemanhã, antes a vira:
tinha o dorso coberto por um corpo
em tudo igual ao seu, só que mais negro.
Maravilhado vi: eram lentíssimos
os movimentos, sombra sobre sombra,
suavidades. No abraço vertical,
o amante delicado lhe agradava
os flancos com as patas eriçadas.
Deixei os dois na paz feita de fúria
no sonoro silêncio da floresta.
Ferrões afáveis, pernas distendidas,
indiferente à claridão, a aranha
amazônica dorme, e talvez sonhe
com quem feliz a fez antes da aurora.
Estão afáveis os ferrões da aranha
pousada na madeira da manhã.
Caçadora noturna, ela está imóvel,
as pernas cabeludas estendidas.
Chego mais perto: dorme fatigada
sob o possante resplendor do dia.
Cada pêlo é um olho, e em cada olho
um brilho denso de felicidade.
Sobre a parede de maçaranduba,
na luz da antemanhã, antes a vira:
tinha o dorso coberto por um corpo
em tudo igual ao seu, só que mais negro.
Maravilhado vi: eram lentíssimos
os movimentos, sombra sobre sombra,
suavidades. No abraço vertical,
o amante delicado lhe agradava
os flancos com as patas eriçadas.
Deixei os dois na paz feita de fúria
no sonoro silêncio da floresta.
Ferrões afáveis, pernas distendidas,
indiferente à claridão, a aranha
amazônica dorme, e talvez sonhe
com quem feliz a fez antes da aurora.
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