Por enquanto, não
Hemetério Cabrinha (1892-1959)
Disseram que eu morrera. Ainda é tão cedo
Para deixar em paz o velho mundo,
Onde, por entre espinhos me enveredo,
Como um simples rafeiro vagabundo.
Bem quisera eu fugir deste degredo!
Deste terrível lupanar imundo,
Onde, hoje, a vida é simplesmente o enredo
De um romance de fel e dor fecundo.
Para que viver mais, quem sobre os ombros,
A cruz da vida tem pesado tanto,
E trá-la a tropeçar por entre escombros?
Disseram que eu morrera. No entretanto,
Como um fantasma vil causando assombros
Ainda arrasto o cadáver por enquanto.
Amigos do Fingidor
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Estante do tempo
A Pororoca
Hemetério Cabrinha (1892-1959)
Calmo, sereno, plácido, espelhante,
Nas horas de luar, frias e brancas,
O Mearim, gargalhando nas barrancas,
Se estende, estica e perde-se distante.
O céu, como uma concha de safira
Emborcada por toda a Natureza,
Enche a paisagem de real grandeza
Enquanto o rio pelo chão se estira.
A floresta conserva-se parada;
Nenhuma folha quebra-lhe o silêncio.
E o intérmino trajeto, o rio vence-o
Calmo dentro da noite enluarada.
Mas, um rumor, ao longe, de repente,
Ecoando à distância, estruge, esturra...
Uma invisível força o rio empurra
De encontro às margens assombrosamente.
As águas fervem, tumultuam, crescem
Alagando, destruindo, aniquilando,
Num furor infernal arrebatando
Árvores altas que nas águas descem.
As raízes do solo se deslocam
Sob a fúria dos bruscos elementos.
Ondas revoltas, vagalhões violentos,
Na agonia das margens se rebolam.
Em derredor das ribeirinhas zonas
Nada fica que o rio não ameace;
Como se no seu dorso galopasse
Um tropel de raivosas amazonas.
Embarcações desgarram-se, afundando,
Quebrando amarras, rebentando mastros.
E a Pororoca, em seus sinistros rastros,
Rola por entre abismos esturrando.
Depois... Volta o silêncio. O rio desce;
Plácido e manso o curso continua.
Enquanto branca e só se esconde a lua
Como se nada acontecido houvesse...
Mesmo assim somos nós, nas nossas trocas
De amores e emoções. Tranquilamente,
Quando mal esperamos, de repente
Rebentam n’alma doidas pororocas.
Hemetério Cabrinha (1892-1959)
Calmo, sereno, plácido, espelhante,
Nas horas de luar, frias e brancas,
O Mearim, gargalhando nas barrancas,
Se estende, estica e perde-se distante.
O céu, como uma concha de safira
Emborcada por toda a Natureza,
Enche a paisagem de real grandeza
Enquanto o rio pelo chão se estira.
A floresta conserva-se parada;
Nenhuma folha quebra-lhe o silêncio.
E o intérmino trajeto, o rio vence-o
Calmo dentro da noite enluarada.
Mas, um rumor, ao longe, de repente,
Ecoando à distância, estruge, esturra...
Uma invisível força o rio empurra
De encontro às margens assombrosamente.
As águas fervem, tumultuam, crescem
Alagando, destruindo, aniquilando,
Num furor infernal arrebatando
Árvores altas que nas águas descem.
As raízes do solo se deslocam
Sob a fúria dos bruscos elementos.
Ondas revoltas, vagalhões violentos,
Na agonia das margens se rebolam.
Em derredor das ribeirinhas zonas
Nada fica que o rio não ameace;
Como se no seu dorso galopasse
Um tropel de raivosas amazonas.
Embarcações desgarram-se, afundando,
Quebrando amarras, rebentando mastros.
E a Pororoca, em seus sinistros rastros,
Rola por entre abismos esturrando.
Depois... Volta o silêncio. O rio desce;
Plácido e manso o curso continua.
Enquanto branca e só se esconde a lua
Como se nada acontecido houvesse...
Mesmo assim somos nós, nas nossas trocas
De amores e emoções. Tranquilamente,
Quando mal esperamos, de repente
Rebentam n’alma doidas pororocas.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Estante do tempo
Em busca da perfeição
Hemetério Cabrinha (1892-1959)
A alma que busca exílio nas clausuras
Emotivas da vida transitória,
Traz em sua odisseia, em sua história
As consequências das ações impuras.
Absorvida nas dores, nas torturas,
Nos desesperos de uma luta inglória,
Percorre amargurada trajetória
Em sucessivas existências duras.
Reparando a fraqueza de seus atos,
Como o cego levado pelos tatos,
Busca na treva a meta desejada.
Até que um dia, em vestes vaporosas,
Abre no espaço as asas luminosas
E conquista a Mansão Iluminada.
Hemetério Cabrinha (1892-1959)
A alma que busca exílio nas clausuras
Emotivas da vida transitória,
Traz em sua odisseia, em sua história
As consequências das ações impuras.
Absorvida nas dores, nas torturas,
Nos desesperos de uma luta inglória,
Percorre amargurada trajetória
Em sucessivas existências duras.
Reparando a fraqueza de seus atos,
Como o cego levado pelos tatos,
Busca na treva a meta desejada.
Até que um dia, em vestes vaporosas,
Abre no espaço as asas luminosas
E conquista a Mansão Iluminada.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Estante do tempo
Velho tronco
Hemetério Cabrinha (1892-1959)
Olha esse tronco de árvore esgalhado,
levado à toa pela correnteza.
Quem nos sabe contar o seu passado?
Quem nos diz sua história? Com certeza
Floriu, frutificou, teve seu fado,
foi luz, foi pão, foi ouro, foi grandeza,
teve um viver de inveja saturado,
foi um sorriso aberto à natureza.
Vê! como ele vai sereno, a esmo,
arrastando o cadáver de si mesmo
para um destino torturante, triste...
No entanto, quantas vezes não enchera
de frutos bons, a mão que o abatera!
...Como esse tronco muita gente existe!
Hemetério Cabrinha (1892-1959)
Olha esse tronco de árvore esgalhado,
levado à toa pela correnteza.
Quem nos sabe contar o seu passado?
Quem nos diz sua história? Com certeza
Floriu, frutificou, teve seu fado,
foi luz, foi pão, foi ouro, foi grandeza,
teve um viver de inveja saturado,
foi um sorriso aberto à natureza.
Vê! como ele vai sereno, a esmo,
arrastando o cadáver de si mesmo
para um destino torturante, triste...
No entanto, quantas vezes não enchera
de frutos bons, a mão que o abatera!
...Como esse tronco muita gente existe!
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