Amigos do Fingidor

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sábado, 26 de setembro de 2009

Poesia em tradução

Ode sobre uma Urna Grega
John Keats (1795-1821)


______________________
I

Tu, ainda não violada noiva do repouso,
Criança, de que o silêncio e o tardo tempo cuidam,
Silvestre historiadora, que assim podes exprimir
Um florido conto com maior doçura do que a nossa rima:
Que legenda franjada de folhagens te rodeia a forma
De divindades ou mortais, ou de umas e outros,
Pelo vale de Tempe ou nos da Arcádia?
Que homens são esses ou que deuses? Que virgens relutantes?
Doida perseguição! Que luta por fugir?
Que frautas e pandeiros? Que furor selvagem?

_____________________II

É doce a melodia que se escuta; mais ainda,
Aquela que não se ouve; soai pois, ó brandas frautas;
Não para o ouvido material, porém mais gratas
Tocai-nos para o espírito árias insonoras:
Formoso jovem sob as árvores, não podes mais cessar
Tua canção, nem estas árvores despir-se;
Jamais, jamais, afoito amante, podes tu beijar,
Embora próximo da meta – entanto não te aflijas;
Ela não pode se fanar: se não alcanças teu prazer,
Para sempre a amarás e ela será formosa!

____________________III

Felizes, ah! felizes ramos! não podeis perder
As vossas folhas, nem dizer adeus à primavera;
Melodista feliz, infatigável,
Para sempre a modular cantigas para sempre novas;
Oh mais feliz amor! oh mais feliz, feliz amor!
Ardendo para sempre e sempre a ser fruído,
Arfando para sempre e para sempre jovem!
Amor acima das paixões dos homens que respiram,
Essa que deixou o coração desconsolado e farto,
A testa em fogo e ressequida a língua.

____________________IV

Quem serão estes que estão vindo para o sacrifício?
Para que verde altar conduzes, misterioso sacerdote,
Esta novilha que levanta para os céus o seu mugido,
Tendo os sedosos flancos revestidos por guirlandas?
Que pequenina urbe junto a rio ou mar
Ou construída em montanha, com tranquila cidadela,
Por esta gente é abandonada, esta manhã piedosa?
Cidadezinha, para sempre tuas ruas ficarão silentes,
Nem alma alguma voltará jamais para dizer
Por que razão estás desabitada.

____________________V

Ó forma ática! Atitude bela! com um entrelace
De virgens e varões de mármore a cercar-te,
Com ramos de floresta e com pisadas ervas,
Tu, forma silenciosa! como a eternidade
Além do pensamento nos perturbas: fria pastoral!
Quando a velhice destruir a geração de agora,
Tu permanecerás, no meio de outras dores,
Não das nossas, amiga do homem, a quem dizes:
“A beleza é a verdade, a verdade a beleza” – é tudo
O que sabeis na terra, e tudo o que deveis saber.


(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)