Amigos do Fingidor

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A sombra

Cláudio Fonseca

Oh Morte, vem calada
como costumas vir na flecha
(Anônimo sevilhano)


Dormes nesta hora. A sombra enorme
veio olhar teu corpo em abandono.
E as coisas que amaste, em tua volta
começam a dissipar-se... como um sonho.

As luzes do teu dia tecem o manto.
Eu vejo a tua aurora derradeira.
Hoje, ao acordares deste sono,
o pouco que te resta é a vida inteira.

E a casa já aguarda o gesto triste –
as mãos abrindo a agenda... de utopia.
No campo um musgo aflora, que por certo
apagará teu nome, e o deste dia.

E o dia (amanhã com nomes outros)
matura, nesta hora, seus enredos.
As naus já estão partindo... e sem retorno.
A tua ficará entre os rochedos.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Chamas

Cláudio Fonseca



Ele ergueu a sua taça e fez-se o brinde
com lampejos de punhal e de alegria.
Tu quiseste aquele amor que refletia
o fulgor do castiçal dentro dos olhos.

E quiseste a fina mão, que acendia,
com seus dedos de marfim, outras centelhas.
Não notaste no vazio entre as estrelas
os meandros do amor também abismo.

Quando a aurora refulgiu, fez-se um sinistro
calafrio que sabem os potros e os videntes:
eram crostas de poeira, de repente,
todo o brilho dos talheres e do vinho.

Longos dias se passaram. À mesma hora
era aceso o castiçal. E à mesa posta
vinham ecos da longínqua melodia
que exala dos porões das casas mortas.

Certos sonhos temem ao fogo dessas velas
escorrer, em toscas lágrimas de cera.
E “escondem suas faces nas montanhas”
como Yeats escreveu, junto à lareira.

Há um vulto num solar ou num casebre,
um odor de velhas flores e mortalha,
à espera de alguém - que nunca chega
(para sermos mais diretos com a navalha).

Ou se chega, há um oco de silêncio
escutando os pés subirem ao patamar –
quando chama pelo nome, só atendem
ressonâncias de uma calma de luar.

E assim os jovens rostos se apagam
como círios que adornaram belos ritos.
Ele um dia voltará. Mas em teu quarto
restará um lancinante grito.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

As mãos

Cláudio Fonseca



Vem-me sempre essa visão:
sou levado pela mão
em uma escadaria.

Tão antiga a outra mão...
E que forte a impressão
em sua anatomia!

Que saudade é essa mão?
Quem seria o charlatão
de ourivesaria

que repõe as nossas mãos,
com a doce ilusão
e uma simetria?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Ninguém

Cláudio Fonseca


Um dia ele chegou à beira deste lago.
E aqui seu coração tombou, feito em destroços.
Veio a solidão da pedra e da serpente
e um leve refluir de rostos sobrepostos.

Ninguém lhe viu cair, da face, o brilho quente.
Nem seu mergulhar nas águas transparentes.

Ninguém viu sua dor correr pela cidade,
bater em cada esquina e porta, como um dardo.
Ninguém viu transpirar das árvores um grito.
E nem dali voar o pássaro assustado....

Nem a dor voltar em busca de um ausente.
Nem seu mergulhar nas águas transparentes.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Ela

Cláudio Fonseca


Essa que o recebe à porta, que acolhe
à luz do candeeiro, as mãos silenciosas
(desse homem que eu não sou). A que aceita
o beijo, o peixe fresco, algumas rosas...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Balada dos três meninos

Cláudio Fonseca


Iam sob o mormaço
como em todas as tardes, iam.
Pão da merenda no bolso
cadernos sujos num laço,
botas no pó, já sumidas,
passavam cercas e prados.

Iam olhando as mangueiras
como em todas as tardes, iam.
Mangas carnudas, douradas,
que os dois meninos nem viam.
Ao longo as carroças passavam
alegres. Os dois seguiam.

Iam por sobre a ponte
como em todas as tardes, iam.
Mas de repente, pararam,
olharam as águas do rio
e as três varinhas de pesca
ocultas sob o plantio.

E foram pelo atalho
do cemitério, sombrios.
Olharam a cruz de Laurinho
que ia ao lado, sozinho,
silencioso e frio.

quinta-feira, 5 de março de 2009

A noite dos magos

Cláudio Fonseca

                                                      

Para Luiz Bacellar

 

Ele sentava ali,

na eternidade.

Não mais que um porão cheio de ratos,

atlas, adagas, moedas antigas,

bengalas, gravuras, discos, relíquias...

 

Livros e livros.

Obras de arte,

recortes, aranhas, ...monte de trastes.

 

Ele ali –

...na eternidade.

 

Eu, escondido, na madrugada,

à hora em que a sala se transmutava.

 

Primeiro – acordes na flauta de Pã.

E entrava, alegre,

uma rã.

 

À mesa enorme, arturiana,

chegavam secretos, senhores, damas...

A luz vinha em tochas, em vidros azuis.

Dentro, profano – um luar cigano,

um cego chorava e cantava blues.

 

Depois, entre si trocavam grinaldas

de cobras, com escamas de esmeraldas.

 

Seus rostos e nomes mudavam constante.

Iam à estante, sumiam em livros.

Outros, medonhos, migravam em mitos.

 

Velhas estátuas tomavam vida

e voltavam em busca da forma antiga.

Cada relíquia que era tocada

gritava em dor. Pela escada

desciam, subiam, e sumiam fadas.

 

As velhas paredes viravam planos

de outras visões e arcanos.

 

Viam-se torres. Em suas janelas

passava cortejo e uma donzela.

Sóis penetravam, lentos, nos rios,

deixando fagulhas de ouros frios.

Vi caravanas em dunas gigantes.

Tribos Masais logo adiante.

Celtas forjando bronzes e lendas.

Keats passando... todo poemas.

 

(Um dia, na sala, quase alvorada,

um galeão espanhol saiu das águas.)

 

Os magos, sinceros em seus ofícios,

brindavam às vezes, com o suicídio –  

quando perdiam o fervor à Arte

ardiam em piras – círios de mártires!

(Suas origens teriam sido

de linhas puras

de infinito.)

 

Eu ansiava, noites e dias,

ser o jogral dessa confraria.

Lorca, Pessoa, Rilke... enfim,

que um dia tocassem meu pobre Mim.


terça-feira, 30 de setembro de 2008

Antígona

Cláudio Fonseca
Para D. Hermes da Fonseca

As grevas se iluminam ao sol do meio-dia.
Rubros, saem da névoa os corpos retalhados,
lâminas quebradas gotejando trevas
sob o olhar de tédio dos cavalos.

Fúrias que se ocultam em rosto vário
deixam nesta hora o plano imenso.
Quando, nos punhais, serão gravados
nossos nomes, nossa hora, em silêncio?

No trio, em silêncio, um vulto chega.
A mortalha em farrapos sobe ao vento. Esse encarne
do Amor (que nos corpos apodrece) chora
a carne em solidão - o negro templo.

Abre a multidão, caída, sob o férreo sol
da estação de Tebas. A brutal cidade
hoje uma chaga aberta
numa entorpecida América selvagem.

Como um cão divino, transparente e grave
passa a grande sombra sobre o fio das facas.
Não purificou, o Tempo, a sua arca
de agonias, de miséria e sangue.

O meio-dia tange a lágrima de bronze
sobre bondes e pedreiros e peões cansados
e garis suados. Pai, é teu cadáver
que Antígona levanta em seus braços.