Amigos do Fingidor

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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Homem do caminho

Rosa Clement



Meus olhos cantam para o homem que passa,
seu porte macho, peito de concreto,
o qual percorro com olhar discreto
por ser a fêmea dessa sua raça.
Deve ter gosto de boa cachaça,
porém de amor indica estar repleto,
ou já tem uma dona que por certo
também muito lhe quer e não disfarça.
Ai homem do caminho, que felino,
só deixa mais bonita essa paisagem
e leva mais um sonho feminino...
Vai homem, vai seguir o teu destino –
És barco que não volta de viagem,
e esse meu canto, um porto repentino...

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sonho de Poema

Rosa Clement



Há um belo poema no meu sonho
que nunca vem comigo quando acordo
pois só enquanto durmo é que recordo
de todas as estrofes que componho.

Meu semblante se torna mais risonho
e surpresa com minha arte transbordo
em risos certa que trarei a bordo
de minha mente os versos que disponho.

Porém a ilusão é um defeito
do sonho que me traz a poesia
e a vaidade que me invade o peito.

Então sinto que tudo está desfeito.
As palavras não são as que eu queria
e o meu poema fica preso ao leito.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Teares

Rosa Clement


Se a aranha no teto tece,
aqui embaixo também teço,
tricoto no escuro espaço
e fios de pensamentos
em sonhos desembaraço.

Ela espera a calmaria
sem desfile de ruídos.
Eu insisto em devaneios
para tecer as lembranças,
combinando os entremeios.

Meu tear vai fabricando
com deslumbre do passado
os tecidos mais brilhantes,
vai cerzindo os esgarçados,
e compõe dias distantes.

Vejo a aranha em pleno plano,
sábia da paz planejada,
só esperando a comida.
Sou eu agora essa presa
em sua trama perdida.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Confissão

Rosa Clement

Nunca fui de pegar na enxada
ou de ralar mandioca.
Meus pés não trazem as rachas
das mais longas caminhadas.
Minhas costas não se curvaram
ao peso dos paneiros cheios.
Minha pele não conta histórias de sol.

Não pratico a arte de fazer beiju.
De peixe, só sei as manhas de comê-lo.
As águas não acatam minhas remadas,
Pouco entendo sobre o humor do tempo
ou os mistérios da mata.

Ainda assim sou cabocla.
Nasci com a essência da terra
e a resistência de suas raízes.
Sei do prazer de tomar banho de rio,
manejar com jeito uma cuia,
dançar ao som de uma toada,
balançar o amor dentro de uma rede.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Flores incandescentes

Rosa Clement

Como um rio, ele molha as flores do meu vestido,
e em suas águas me convida a mergulhar.
Meu corpo se aquece,
meus pensamentos se incendeiam,
ao seu doce sussurrar...
Suas carícias são ondas mornas
que embalam e fazem desabrochar
as flores molhadas do meu vestido,
que nessas águas do rio,
logo se deixam levar...