Amigos do Fingidor

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Estante do tempo

O Desterrado
Francisco Gomes de Amorim (1827-1891)

Na foz do rio Negro, em 1842

Como são brancas as flores
Deste verde laranjal!
É doce a sua fragrância,
Como a deste roseiral;
Mas têm mais suave aroma
As rosas de Portugal.

O solo destas florestas
O brilhante e o oiro encerra;
São imensos estes rios,
Imensos o vale e a serra;
Porém não têm a beleza
Dos campos da minha terra.

Estes astros são mais belos?
É mais belo o seu fulgor?
Mas luzem no céu do exílio
Não lhes tenho igual amor.
Ai! astros da minha terra
Quem me dera o vosso alvor!

De amores embriagada
A rola suspira aqui;
Com estes vivos perfumes
Tudo ama, folga, e ri!
Mas oh! que tem mais encantos
A terra aonde eu nasci!

Lá era a lua mais linda,
Mais para os olhos as flores;
As noites da primavera
São ali mais para amores;
E nos bosques de salgueiros
Também há meigos cantores.

Oh! não; não é belo o sítio
Do meu desterro infeliz
Onde tudo – a toda a hora –
Que sou proscrito me diz.
Não, não há terras formosas
Senão as do meu país!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Estante do tempo

O caçador e a tapuia
Francisco Gomes de Amorim (1827-1891)


“Tapuia, linda tapuia,
Que fazes no cacaual?”
– Por aqui é meu caminho
Para ir ao cafezal.

“Nem por aqui faz caminho,
Nem há café que apanhar;
Tapuia, linda tapuia,
Que vinhas aqui buscar?”

– Eu ia apanhar goiabas
Para dar a meu irmão.
“Ficam à beira do rio
Não é nesta direção”.

– Ando em busca de baunilha,
Que minha mãe me pediu.
“Menina, nos cacaueiros
Nunca a baunilha subiu”.

– Pois então... eu vou ao lago,
Donde meu pai há de vir...
“Ao lago por estes sítios!
Para que estás a mentir?”

– Se o branco tanto pergunta,
Que já não sei responder...
“Se tu dizer-me não queres,
O que vens aqui fazer!

Todos os dias te vejo
No meu cacaual andar;
Sempre seguindo meus passos,
Meus olhos sempre a fitar.

Pergunto-te o que me queres,
E tu olhas para mim;
Ou para longe te afastas,
Sorrindo-te sempre assim!

Vens assustar-me as cotias,
Pois nenhuma inda avistei;
Mas se tornas a seguir-me,
A teu pai me queixarei”.

– Adeus, branco; vou-me embora
Para não tornar a vir;
Se o branco não achou caça,
Não fui eu que a fiz fugir.

Não assusta a minha idade;
Que sou bela o branco diz;
Mas o que meus olhos mostram,
O meu branco ver não quis.

Eu sozinha atrás do branco,
Pelo cacaual andei;
E o branco se vem queixar
De que a caça lhe assustei!

Era a caça quem caçava
Ao cego do caçador!...
Quem vê tão pouco não caça,
Quem caça... adeus, meu amor.

“Anda cá, linda tapuia,
Não vás assim a fugir;
Tuas palavras tão doces
Volve, volve a repetir”.

– Para trás não volve a caça,
Meu branco, aprenda a caçar;
Quem deseja caça fina
Deve-a saber farejar.

Disse a tapuia, e na selva
Para sempre se ocultou;
Mas o caçador das dúzias
Parvo da caça ficou.