Amigos do Fingidor

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sábado, 11 de dezembro de 2010

Poesia em tradução

Salvat Monho (1749-1821)



Baco não quer altar nem quer admiração.
Para os homens deixou somente uma instrução:
o vinho sem a água à vontade beberem,
se da morte manter-se a distância quiserem.

Se pensam que viver se reduz a existir,
felizes vamos ser e um bom gole ingerir.
Pois não sabemos como a vida prolongar,
deixemo-nos beber se o coração mandar.

Se alguém se dá ao trabalho, então não perca a vez:
o copo está vazio, pode enchê-lo outra vez.
Gozar, até esquecer o que nos aborrece
e as lembranças ruins que ninguém esquece.

Bebamos outra vez; é como sói dizer:
que dois copos depois, o terceiro é um dever.
E se esse coração no fundo ainda é triste,
talvez o quarto copo enfim o reconquiste.

 
(Trad. Fábio Aristimunho Vargas)

sábado, 4 de dezembro de 2010

Poesia em tradução

Soneto a Filida
Xosé Cornide (1734-1803)




Viste, Filida amada, o passarinho
que arando desses ares pelo prado
se emaranha nas linhas, descuidado,
que astuto caçador põe no caminho?

Viste que força faz para soltar-se
e levar aos filhotes os bocados
(parte do coração, filhos amados),
que os deixara no ninho ao remontar-se?

Pois viste a quem te adora mais que a vida,
que, caído na armadilha de um disfarce,
busca aqui, busca ali uma saída

para fugir, podendo assim livrar-se
e aninhar-se seguro no teu seio,
em que chorara atento o próprio anseio.


(Trad. Fábio Aristimunho Vargas)

sábado, 27 de novembro de 2010

Poesia em tradução

Como o touro ao deserto vai fugido
Ausiàs March (1397-1459)




Como o touro ao deserto vai fugido

se vencido por seu igual, que o força,

não volta até recuperada a força

para destruir quem o haja ofendido,

assim com me afastar de ti condiz,

pois teu gesto o meu brio tem confundido:

não voltarei até que haja vencido

tal medo que me impede ser feliz.



(Trad. Fábio Aristimunho Vargas)

sábado, 14 de agosto de 2010

Poesia em tradução

À morte de Nise
Francesc Fontanella (1615?-1680?)

Oh duras flechas do meu fado extraídas,
extraídas por ferir tão dolorosas,
que, levando-me as plumas amorosas,
deixam no peito as plumas mais compridas!

Flamas mais eclipsadas que vencidas,
auroras algum dia luminosas,
sombras de minha vista tenebrosas,
tenebrosas, mortais, porém queridas.

Triste início de penas desumanas,
término tão feliz da alma afligida,
que por alívio sua dor adora;

flechas serão e flamas soberanas
se ao coração me levam triste vida
para aos olhos me dar eterna aurora.


(Trad. Fábio Aristimunho Vargas)