Amigos do Fingidor

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Lições de arquitetura

Ferreira Gullar

Para Oscar Niemeyer


No ombro do planeta
(em Caracas)
Oscar depositou
para sempre
uma ave uma flor

(ele não faz de pedra
nossas casas:
faz de asa)

No coração de Argel sofrida
fez aterrizar uma tarde
uma nave estelar
                           e linda
como ainda há de ser a vida

(com seu traço futuro
Oscar nos ensina
que o sonho é popular)

Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos
com matéria dura:
o ferro o cimento a fome
da humana arquitetura

nos ensina a viver
no que ele transfigura:
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo

Oscar nos ensina
que a beleza é leve

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Glauber morto

Ferreira Gullar



O morto
não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem na lapela
uma flor
                  não calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Poema obsceno

Ferreira Gullar


Façam a festa
______cantem dancem
que eu faço o poema duro
_______________o poema-murro
_______________sujo
_______________como a miséria brasileira
Não se detenham:
façam a festa
_____________Bethânia Martinho
_____________Clementina
Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
gente de Vila Isabel e Madureira
_______________________todos
_______________________façam
_________a festa
enquanto eu soco este pilão
____________este surdo
______________poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)

Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
________Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
________o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
__________– e espreitam.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Traduzir-se

Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?