Amigos do Fingidor

Mostrando postagens com marcador Almino Affonso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Almino Affonso. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A solidão do morto

Almino Affonso


Na calçada,
inexoravelmente só,
um homem morto.

As pessoas
chegam
param
passam:
são baratas espantadas
como em dia de chuva.

Nenhuma lágrima:
o homem na solidão da morte.

Nas mãos
(rigidamente cruzadas ao peito),
onde o carinho
o amor
a lascívia
onde um resto ao menos de vida?

Nos sapatos
(cujas extremidades apontam
o céu
com irreverência),
ainda se vê o barro
do chão distante que pisaram.

Quantos caminhos trilharam
esses pés
agora juntos, atados, inertes?

A folha de jornal
cobre o morto indefeso:
mas ele não vê
mas ele não sente
mas ele não sabe...

Não há como fugir:
diante da morte
(só
na calçada
como um cão atropelado
ou numa cama
entre cambraias finas)
o homem,
pobre bicho-homem de palavras e gestos,
está só, infinitamente só.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Velho Tronco

Almino Affonso

Aos últimos clarões de um sol que expira,
Entre as escumas da corrente, à tona,
Um tronco desce... e como que ressona,
E no seu sono, a sonhar, delira!

Sonha, quiçá, sua fronde esmeraldina,
Onde as brisas cantavam serenatas,
E as aves, em sutis bandolinatas,
Abriam a voz numa explosão divina...

Frutos pendentes a dourar seus galhos
E as lianas vivendo de sua vida...
A fera, à sombra, a lhe pedir guarida,
Vindo sentir-lhe os mágicos retalhos...

Sonha, de certo, as noites de luar,
E o Madeira, tranqüilo, como em cisma,
Tendo nos versos do poeta – a crisma,
E no vento – um seresteiro a cantar.

Depois... a luta, o vendaval rugindo...
Folhas serpeando em doudos espirais...
Galhos rangendo entre gemidos e ais,
Ao chicotear dos ventos se partindo!

E os ninhos a rolarem pelo chão...
Aves implumes a chorar, piando...
E mais e mais, em fúrias, vergastando,
O temporal ribomba no trovão!

E por fim, a estrugir, fraqueja, cai
Sobre as águas barrentas do Madeira
– Líquida estrada de escumante esteira,
Onde sua vida, lenta, já se esvai!...

Velho Tronco! eu te entendo neste instante!
No teu silêncio eu descobri tua vida...
E em tua raiz, para o infinito erguida,
Uma bênção... um perdão edificante!

Ah! tu que foste fruto e sombra e ninho...
És sublime, ó Tronco, e eu te bendigo,
Pois rolando pra morte ainda és abrigo
Das garças e gaivotas do caminho!

* * *

Aprende, coração! E se na vida,
Em troca do bem, do amor que semeares,
Vires a ingratidão lá nos altares
A rir de ti, de tua ilusão sentida...

Relembra o Velho Tronco! E, já sumindo
Os últimos lampejos da existência,
Ampara o fraco e a tímida inocência,
E sentirás a vida reflorindo!