Amigos do Fingidor

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quarta-feira, 2 de março de 2011

Antes o mundo não existia

Zemaria Pinto
(para Umúsin Panlõn Kumu e Tolamã Kenhíri)



Quando o mundo inda era nada
Yebá-Buró, não criada
do nada fez os trovões
e os rios e a luz foram feitos
mas o universo perfeito
a humanidade pedia
foi então que ela criou
Yebá-Gõãmu, o criador

Umukosurã-Panami, Umukosurã

Das entranhas da serpente
em canoa transformada
fez-se então a humana gente
e a terra foi povoada

Tukano, Tapuia, Desana
Baniwa, Maku, Siriana
entre si distribuíram
as riquezas do Trovão

Umukosurã-Panami, Umukosurã

Quando o branco apareceu
tendo ao lado o missionário
cumpriu-se o ciclo esperado
inventou-se o tal pecado
e nunca mais houve paz
nos caminhos da canoa

Com o lento passar do tempo
toda forma se transforma:
o um no todo se enforma
e o todo se enforma em um
– o um do nada criado
ao todo um dia retorna
fundindo a fôrma com a forma
e o todo se torna um

Umukosurã-Panami, Umukosurã

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

noturno

Zemaria Pinto



noite
o sol ilumina o oriente
a lua cheia incendeia a noite dos trópicos
a luz elétrica transborda pelas ruas
o mercúrio das praças acabou

desacatando todas as possibilidades prováveis
um disco voador pousa no alto da torre do relógio municipal

às 9 horas da noite
todos os namorados estão de línguas dadas
os casados discutem o orçamento familiar
os mais velhos contam estórias
crianças brincam de roda
homens verdes passeiam nas ruas
bebem chope, vão ao cinema

uma guerrilheira assassina um oficial da armada
no portão do cemitério cumprem-se obrigações religiosas
nos jardins do cemitério, por entre as mangueiras
casais adolescentes acariciam a noite
o tempo estaciona para os bêbados
(ontem? hoje?)
na falta de um lugar para amar
pernas entrecruzam-se nos bancos da praça escura

meia-noite
o o. v. i. levanta voo
vampiros devoram a cidade

a esta hora todas as mães estão dormindo
todos os seios estão rígidos
todas as mãos estão suadas
todos os soldados estão atentos
todos os peitos estão arfando
todas as pernas estão cansadas
todos os bêbados estão chorando
– mulheres e homens, todos de pé!

no céu constelações faíscam
uma virgem suicida-se
outra mulher chora sua insônia
um marido flagra um adultério
um vira-latas morde a perna de um guarda-noturno
um pederasta mata uma prostituta
uma missa negra é celebrada
um cientista descobre uma fórmula
um louco mastiga uma rosa
uma criança nasce na calçada
rompem da noite todos os gritos
fogem da cara todos os medos
– a humanidade quer dormir!

um galo canta
a lua já desapareceu por detrás dos armazéns do cais
as mulheres, as meninas da praça agora vão dormir
– também uma mulher insone –
os bêbados apressam-se para o trabalho
na casa funerária não houve um minuto de descanso

neste momento,
independente de todos os calendários e relógios
apenas um fato pode ser dito consumado:
o sol já voltou do oriente

                                         (1975)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dabacuri – da natureza das coisas 6

Zemaria Pinto




hora do néctar –

o beija-flor e a papoula

suspensos no ar





chuva de verão

esparge no meio-dia

carícias na terra

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

o povo e o poema

Zemaria Pinto



sobre um poema
que não seja propriedade particular

sobre um poema/canção de guerra
a clamar
por todos esses soldados

sobre um poema de operários
camponeses, guerrilheiros

sobre um poema em que a fome
tome sua verdadeira forma de fome

sobre um poema concreto
de aço e cimento e queda

sobre um poema de enchente
de seca, de lepra

sobre um poema mendigo

sobre um poema de grito
de espanto

sobre um poema de sangue
de bomba, de pus e de raça

sobre um poema menor
de índio, de puta e de dor

sobre um poema que cale
a voz do generalato

sobre um poema oprimido
espremido, pichado

sobre um poema sem classes

é sobre esse poema que marcha o meu povo.


                                                               (1977)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dabacuri – da natureza das coisas 5

Zemaria Pinto




a rã mitológica

já não quer saber de tanques

no azul da piscina





rã bashoniana

não percebe meu espanto:

brinca na piscina

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

legado

Zemaria Pinto



eis um pedaço de mim,
exposto
feito carne putrefata

eis um pedaço de mim,
ferida
aberta em pus, necrosada

eis um pedaço de mim,
retrato
de todo o horror do passado

eis um pedaço de ti,
devolvido
para que não esqueças de mim


                                              (1978)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Dabacuri – da natureza das coisas 4

Zemaria Pinto




à beira do lago,

o lírio branco floresce

– manhã de novembro




ploóp... ploóp... ploóp...

no silêncio da manhã,

a rã na piscina

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

o século

Zemaria Pinto




no espelho partido eu vi minha face torta
vi meu olho derramado
em órbitas desesperadas
meu olho tentando sobreviver
eu vi o mar nos meus olhos
e senti o gosto, o gosto horrível do sal
queimar minha língua impura
eu vi uma cortina de sangue sobre minha cabeça
ouvi o ranger dos dentes
o abrir e fechar das portas
– como é difícil, pai!
o espelho refletia a miséria dos meus olhos
a miséria que eu via embaçada
a insegurança de ser
cada vez mais forte dentro de mim
tudo o mais natural
tudo trêmulo, trânsito
– tão difícil de entender

no espelho partido vi minha face torta
uma mulher morta vestida com um punhal
patético como uma vida
natural como uma vida
– estético para planos dramáticos –
quem furou o olho do rei?
quem matou o filho do deus?
– como é difícil explicar um espelho!
a sala escura fechou-me para o mundo
foi o espelho partido a última visão
a face torta, a frase morta
a frase oca, a face louca
o espelho mentindo através dos séculos
– mentem mais os espelhos partidos

no espelho partido vi uma face torta
vi um olho derramado
vi o mar
e bebi o sal, o maravilhoso sal
que me abriu a boca às impurezas do mundo
e vi sangue, vi dentes
vi portas exangues
vi também uma mulher vestida de preto
com um punhal na mão
o rei o deus a sala eu vi
– eu vi o século refletido em um espelho justo!


                                                             (1974)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dabacuri – da natureza das coisas 3

Zemaria Pinto




no alto da mangueira,

o sanhaço faz seu ninho

– vida renovada




manhã de novembro,

aragem primaveril

– promessa de sol

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

poema com homem, mulher e flor

Zemaria Pinto




um homem atravessou correndo a rua
uma mulher deu-me adeus
uma flor brotou do chão

um idiota atravessou cantando a noite
uma mulher despiu seus véus
um louco brotou do chão

uma mulher rasgou os seios
um homem mamou seu sangue
uma flor brotou do leite

um louco morreu cheio de ódio
uma mulher grávida suicidou-se
um grito brotou do escuro

uma mulher matou um homem
uma flor suicidou-se
um louco morreu no escuro

um homem caiu na rua
uma flor brotou no chão
um seio brilhou no escuro

uma mulher brotou na rua
uma flor jorrou veneno
um homem morreu no escuro

uma mulher acenando-me
um seio jorrando sangue
um adeus

                              (1974)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Dabacuri – da natureza das coisas 2

Zemaria Pinto



a grama cortada

espalha um perfume novo

no velho jardim




lua minguante –

sob o teto da manhã

a passarada canta

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

pernas que se perdem

Zemaria Pinto



pernas que se perdem

peitos que se abrem

sonhos que adormecem

dentes que se quebram

noite que me abraça

chuva que me molha


                              (1973)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Dabacuri – da natureza das coisas 1

Zemaria Pinto




notícias do sol –

os pássaros da manhã

cantam na varanda




o pouso silente

da borboleta de seda

celebra a manhã

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

meu corpo feito falo

Zemaria Pinto



meu corpo feito falo

no teu corpo

transparente

corpo

meu falo-corpo

consumindo a tua sombra

a dançar essa

macumba

no meu peito

(1974)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Dabacuri – amazônica 27

Zemaria Pinto




trocadilho tolo:

a lua Jaci levanta

cheia, no horizonte




lago Espelho da Lua,

conversa em volta do fogo

– plenilúnio

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

noturno, opus 1

Zemaria Pinto



tua sombra salta do chão
e vai além da minha cabeça

teu olho majestoso e nu
clareia o espaço em minha volta

estás nua e todo teu corpo brilha
indiferente à incandescência dos faróis
e ao gemer dos edifícios em chamas

                                                   (1974)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

negra

Zemaria Pinto



na praia eu vi
o sol
na água doce eu bebi
o sal
dos teus seios negros
na praia eu bebi
o sal
na água fria eu queimei
o sol
dos teus seios negros

as civilizações perdidas
o medo
teu corpo negro
no mato
jaz
vivo de amor
candente
terra fecunda
raiz brotando do chão negro

na negrura do horizonte
se reflete teu destino
eu traço o caminho vivo
eu vivo o caminho-espaço
no vazio do teu sonho
eu piso o caminho-vida
e em teu ventre me acalentas

no espaço das tuas pernas
há o último delírio
tua língua vermelha rasga a praia
teu grito afoga o rio

teus olhos vigiam o mundo

                                          
                                            (1974)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dabacuri – amazônica 25

Zemaria Pinto




por trás da cidade,

o sol, imensa laranja,

se põe mansamente



finda a luz da tarde,

a flor da vitória-régia

abre-se às estrelas

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dabacuri – amazônica 24

Zemaria Pinto




as nuvens vermelhas,

o sol sumindo no rio

– silêncio noturno




hora de voltar –

a noite chega nas luzes

refletidas n’água

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

exercício nº 16

Zemaria Pinto




Setembro não tem sentido,
                                          nas mãos
encanecidas e nas cãs vibráteis
à força do vento,
                           nós invisíveis
de forcas plantadas
                               sobre o caminho.

Setembro não tem sentido,
                                          nas pedras
que o tempo acumulou com precisão
sob nossas retinas
                             tão fatigadas
e nossos pés vegetais,
                                   tão inúteis.

Os dias fastos são lembranças fúteis
forjadas na temperança
                                     do ocaso
de nossas últimas desesperanças.

A nós nos resta agora esse torpor
mal encoberto em raras alegrias:
                                                  nonadas.
Setembro não tem sentido.