Ode sobre uma Urna Grega
John Keats (1795-1821)
______________________I
Tu, ainda não violada noiva do repouso,
Criança, de que o silêncio e o tardo tempo cuidam,
Silvestre historiadora, que assim podes exprimir
Um florido conto com maior doçura do que a nossa rima:
Que legenda franjada de folhagens te rodeia a forma
De divindades ou mortais, ou de umas e outros,
Pelo vale de Tempe ou nos da Arcádia?
Que homens são esses ou que deuses? Que virgens relutantes?
Doida perseguição! Que luta por fugir?
Que frautas e pandeiros? Que furor selvagem?
_____________________II
É doce a melodia que se escuta; mais ainda,
Aquela que não se ouve; soai pois, ó brandas frautas;
Não para o ouvido material, porém mais gratas
Tocai-nos para o espírito árias insonoras:
Formoso jovem sob as árvores, não podes mais cessar
Tua canção, nem estas árvores despir-se;
Jamais, jamais, afoito amante, podes tu beijar,
Embora próximo da meta – entanto não te aflijas;
Ela não pode se fanar: se não alcanças teu prazer,
Para sempre a amarás e ela será formosa!
____________________III
Felizes, ah! felizes ramos! não podeis perder
As vossas folhas, nem dizer adeus à primavera;
Melodista feliz, infatigável,
Para sempre a modular cantigas para sempre novas;
Oh mais feliz amor! oh mais feliz, feliz amor!
Ardendo para sempre e sempre a ser fruído,
Arfando para sempre e para sempre jovem!
Amor acima das paixões dos homens que respiram,
Essa que deixou o coração desconsolado e farto,
A testa em fogo e ressequida a língua.
____________________IV
Quem serão estes que estão vindo para o sacrifício?
Para que verde altar conduzes, misterioso sacerdote,
Esta novilha que levanta para os céus o seu mugido,
Tendo os sedosos flancos revestidos por guirlandas?
Que pequenina urbe junto a rio ou mar
Ou construída em montanha, com tranquila cidadela,
Por esta gente é abandonada, esta manhã piedosa?
Cidadezinha, para sempre tuas ruas ficarão silentes,
Nem alma alguma voltará jamais para dizer
Por que razão estás desabitada.
____________________V
Ó forma ática! Atitude bela! com um entrelace
De virgens e varões de mármore a cercar-te,
Com ramos de floresta e com pisadas ervas,
Tu, forma silenciosa! como a eternidade
Além do pensamento nos perturbas: fria pastoral!
Quando a velhice destruir a geração de agora,
Tu permanecerás, no meio de outras dores,
Não das nossas, amiga do homem, a quem dizes:
“A beleza é a verdade, a verdade a beleza” – é tudo
O que sabeis na terra, e tudo o que deveis saber.
(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)
Amigos do Fingidor
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sábado, 26 de setembro de 2009
sábado, 11 de julho de 2009
Poesia em tradução
II Bucólica – Aléxis
Virgílio (70-19 a.C.)
Córidon, o pastor, ardia pelo belo Aléxis,
delícias de seu dono, mas não tinha o que esperar.
Apenas frenquentava as faias densas, de sombrias
copas, junto das quais lançava aos montes e florestas,
com vã paixão, sozinho, estes lamentos mal cuidados:
“Não prestas atenção, cruel Aléxis, nos meus cantos?
Não tens pena de nós? Assim acabarei morrendo.
Agora até os rebanhos buscam o frescor e as sombras;
agora escondem-se nas sarças os lagartos verdes,
e, para os ceifadores que o calor esfalfa, Téstilis
ervas de cheiro antigo esmaga com serpilho e alho.
Contudo, enquanto os rastros eu te sigo ao sol ardente,
soam comigo os arvoredos, roucos de cigarras.
Não seria melhor sofrer as iras aflitivas
e os soberbos desprezos de Amarílis? Ou Menalcas,
moreno embora seja ele, quando tu és alvo?
Não te fies demais nas cores, ó menino belo:
caem as brancas alfenas, colhem-se os murtinhos negros.
Tu me desprezas, nem indagas quem sou eu, Aléxis,
quantos rebanhos tenho, quanto leite cor de neve;
erram nos montes da Sicília as minhas mil cordeiras;
não me falta no estio leite fresco, nem no inverno;
eu canto o que cantava habitualmente Anfião de Dirce
no atiço Aracinto, se chamava os seus rebanhos.
E não sou feio assim: vi-me na praia há pouco tempo,
com o mar tranquilo sob o vento: não receio Dáfnis,
sendo tu mesmo o juiz, se não enganam as imagens.
“Oh!, se quisesses tão-somente repartir comigo
uma choupana humilde em pobre campo, flechar veados,
levar cabritos, em rebanho, ao verde malvaísco!
Junto comigo, imitarás cantando Pã nas selvas.
Pã ensinou-nos a ligar com cera várias canas,
Pã cuida dos rebanhos e dos guias dos rebanhos.
Não te aborreças de esfregar os lábios nessa frauta;
para outro tanto conhecer, que não fazia Amintas?
De sete tubos desiguais, pertence-me uma frauta
que Dametas me deu, em dias idos, de presente,
dizendo-me ao morrer: “Agora és o segundo a tê-la.”
Dametas disse, e Amintas, o insensato, teve inveja.
Dois cabritos também, que achei em vale não seguro,
ainda têm na pele manchas brancas, e por dia
secam dois ubres de uma ovelha, guardo-os para ti.
Algum tempo já faz que Téstilis os quer levar,
e os levará, que te repugnam os presentes nossos.
“Vem para cá, belo menino; as Ninfas para ti
trazem cestas de lírios; para ti a branca Náiade
colhe violetas pálidas, também papoulas altas,
e narcisos lhes junta, e a perfumada flor do aneto;
então tecendo-os com a lauréola e outras ervas suaves,
orna os murtinhos tenros com os tegetes amarelos.
E frutos brancos, de lanugem branda, eu colherei,
e essas castanhas que a Amarílis minha tanto amava;
ameixas cor de cera juntarei, assim honrando-as;
e colher-te-ei, ó louro, e próximo de ti porei
o mirto: juntos, misturais vossos odores suaves.
“Córidon, és um tonto! Aléxis foge a teus presentes,
e, se lutares com presentes, poderás com Iolas?
Ah, mísero, que fiz? Lancei perdido o Austro nas flores,
e javalis eu atirei nas fontes transparentes.
De quem foges, demente? Os deuses habitaram selvas,
e Páris, o dardânio. More Palas nos baluartes
que ela fundou; antes que tudo agradem-nos as selvas.
De olhar feroz, a leoa busca o lobo; o lobo, a cabra;
a cabra amiga de brincar busca o florido cítiso;
Córidon a ti, Aléxis: cada qual com o seu prazer.
Vê: o arado suspenso ao jugo puxam-no os novilhos,
e o sol a decair duplica as sombras que se alongam.
Contudo ardo de amor; que meio-termo tem o amor?
“Córidon, Córidon, ah que demência te tomou?
Semipodada tens a vide no frondoso olmeiro;
por que antes não preparas algo que faz falta ao uso,
entretecendo o vime e, a par, o junco tão flexível?
Se Aléxis te desdenha, encontrarás um outro Aléxis.”
(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)
Virgílio (70-19 a.C.)
Córidon, o pastor, ardia pelo belo Aléxis,
delícias de seu dono, mas não tinha o que esperar.
Apenas frenquentava as faias densas, de sombrias
copas, junto das quais lançava aos montes e florestas,
com vã paixão, sozinho, estes lamentos mal cuidados:
“Não prestas atenção, cruel Aléxis, nos meus cantos?
Não tens pena de nós? Assim acabarei morrendo.
Agora até os rebanhos buscam o frescor e as sombras;
agora escondem-se nas sarças os lagartos verdes,
e, para os ceifadores que o calor esfalfa, Téstilis
ervas de cheiro antigo esmaga com serpilho e alho.
Contudo, enquanto os rastros eu te sigo ao sol ardente,
soam comigo os arvoredos, roucos de cigarras.
Não seria melhor sofrer as iras aflitivas
e os soberbos desprezos de Amarílis? Ou Menalcas,
moreno embora seja ele, quando tu és alvo?
Não te fies demais nas cores, ó menino belo:
caem as brancas alfenas, colhem-se os murtinhos negros.
Tu me desprezas, nem indagas quem sou eu, Aléxis,
quantos rebanhos tenho, quanto leite cor de neve;
erram nos montes da Sicília as minhas mil cordeiras;
não me falta no estio leite fresco, nem no inverno;
eu canto o que cantava habitualmente Anfião de Dirce
no atiço Aracinto, se chamava os seus rebanhos.
E não sou feio assim: vi-me na praia há pouco tempo,
com o mar tranquilo sob o vento: não receio Dáfnis,
sendo tu mesmo o juiz, se não enganam as imagens.
“Oh!, se quisesses tão-somente repartir comigo
uma choupana humilde em pobre campo, flechar veados,
levar cabritos, em rebanho, ao verde malvaísco!
Junto comigo, imitarás cantando Pã nas selvas.
Pã ensinou-nos a ligar com cera várias canas,
Pã cuida dos rebanhos e dos guias dos rebanhos.
Não te aborreças de esfregar os lábios nessa frauta;
para outro tanto conhecer, que não fazia Amintas?
De sete tubos desiguais, pertence-me uma frauta
que Dametas me deu, em dias idos, de presente,
dizendo-me ao morrer: “Agora és o segundo a tê-la.”
Dametas disse, e Amintas, o insensato, teve inveja.
Dois cabritos também, que achei em vale não seguro,
ainda têm na pele manchas brancas, e por dia
secam dois ubres de uma ovelha, guardo-os para ti.
Algum tempo já faz que Téstilis os quer levar,
e os levará, que te repugnam os presentes nossos.
“Vem para cá, belo menino; as Ninfas para ti
trazem cestas de lírios; para ti a branca Náiade
colhe violetas pálidas, também papoulas altas,
e narcisos lhes junta, e a perfumada flor do aneto;
então tecendo-os com a lauréola e outras ervas suaves,
orna os murtinhos tenros com os tegetes amarelos.
E frutos brancos, de lanugem branda, eu colherei,
e essas castanhas que a Amarílis minha tanto amava;
ameixas cor de cera juntarei, assim honrando-as;
e colher-te-ei, ó louro, e próximo de ti porei
o mirto: juntos, misturais vossos odores suaves.
“Córidon, és um tonto! Aléxis foge a teus presentes,
e, se lutares com presentes, poderás com Iolas?
Ah, mísero, que fiz? Lancei perdido o Austro nas flores,
e javalis eu atirei nas fontes transparentes.
De quem foges, demente? Os deuses habitaram selvas,
e Páris, o dardânio. More Palas nos baluartes
que ela fundou; antes que tudo agradem-nos as selvas.
De olhar feroz, a leoa busca o lobo; o lobo, a cabra;
a cabra amiga de brincar busca o florido cítiso;
Córidon a ti, Aléxis: cada qual com o seu prazer.
Vê: o arado suspenso ao jugo puxam-no os novilhos,
e o sol a decair duplica as sombras que se alongam.
Contudo ardo de amor; que meio-termo tem o amor?
“Córidon, Córidon, ah que demência te tomou?
Semipodada tens a vide no frondoso olmeiro;
por que antes não preparas algo que faz falta ao uso,
entretecendo o vime e, a par, o junco tão flexível?
Se Aléxis te desdenha, encontrarás um outro Aléxis.”
(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)
sábado, 2 de maio de 2009
Poesia em tradução
Eutanásia
Lord Byron (1788-1824)
Quando o tempo trouxer, ou cedo ou tarde,
Esse sono sem sonhos para me embalar,
Sobre meu leito de agonia possa, Olvido!
Tua asa langue levemente tremular.
Nem rois de amigos nem de herdeiros lá estarão,
Para chorar, ou desejar, o que há de vir,
Nem virgem de cabelo desgrenhado
Para sentir dor decorosa, ou bem fingir.
Sem ter por perto carpidores oficiosos,
Deixai que a terra me recubra silencioso:
Que eu não tire à amizade uma só lágrima,
Que eu não estrague um só momento jubiloso.
Contudo o Amor, se o Amor em tal momento
Seus inúteis soluços nobre contivesse,
Poderia mostrar a sua força última
Na que ficasse viva ou no que então morresse.
Seria doce até o fim, ó minha Psique!
Ver as tuas feições ainda serenas;
Para ti sorriria a própria Dor,
Esquecida de suas idas penas.
Mas é vão o desejo – dado que a Beleza
Se retrairá, ao esgotar-se o último alento;
E o pranto da mulher, que rola a belprazer,
Engana em vida, abate no último momento.
Sozinho eu fique pois em minha hora final,
Sem que mostre pesar, sem um gemido;
Para milhares já não franze o cenho a Morte,
E passageira ou ignorada a dor tem sido.
“Ah! morrer todavia e ir-se para sempre!”
Aonde todos foram ou já devem ir!
Ser o nada que eu era, anteriormente
A nascer para a vida e para a dor curtir!
As alegrias conta que tuas horas viram,
Conta os teus dias sem nenhum sofrer:
E sabe, não importa o que hajas sido,
É bem melhor não ser.
(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)
Lord Byron (1788-1824)
Quando o tempo trouxer, ou cedo ou tarde,
Esse sono sem sonhos para me embalar,
Sobre meu leito de agonia possa, Olvido!
Tua asa langue levemente tremular.
Nem rois de amigos nem de herdeiros lá estarão,
Para chorar, ou desejar, o que há de vir,
Nem virgem de cabelo desgrenhado
Para sentir dor decorosa, ou bem fingir.
Sem ter por perto carpidores oficiosos,
Deixai que a terra me recubra silencioso:
Que eu não tire à amizade uma só lágrima,
Que eu não estrague um só momento jubiloso.
Contudo o Amor, se o Amor em tal momento
Seus inúteis soluços nobre contivesse,
Poderia mostrar a sua força última
Na que ficasse viva ou no que então morresse.
Seria doce até o fim, ó minha Psique!
Ver as tuas feições ainda serenas;
Para ti sorriria a própria Dor,
Esquecida de suas idas penas.
Mas é vão o desejo – dado que a Beleza
Se retrairá, ao esgotar-se o último alento;
E o pranto da mulher, que rola a belprazer,
Engana em vida, abate no último momento.
Sozinho eu fique pois em minha hora final,
Sem que mostre pesar, sem um gemido;
Para milhares já não franze o cenho a Morte,
E passageira ou ignorada a dor tem sido.
“Ah! morrer todavia e ir-se para sempre!”
Aonde todos foram ou já devem ir!
Ser o nada que eu era, anteriormente
A nascer para a vida e para a dor curtir!
As alegrias conta que tuas horas viram,
Conta os teus dias sem nenhum sofrer:
E sabe, não importa o que hajas sido,
É bem melhor não ser.
(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Poesia em tradução
A uma dama, tendo-a visto menina, e depois moça feita
Luis de Góngora y Argote (1561-1627)
Se, entre as plumas do ninho seu, Cupido
o arbítrio me prendeu, que fará agora
que em teus olhos, dulcíssima senhora,
armado voa, já que não vestido?
Eu entre as violetas fui ferido
pela áspide que hoje entre os lírios mora:
igual força mostravas, sendo aurora,
à que tens como sol já bem nascido.
Saudarei tua luz com voz dolente,
qual terno rouxinol em prisão dura
despede queixas, mas bem docemente.
De raios vi, direi, tua fronte ardente
coroada; e que te faz a formosura
cantar as aves e chorar a gente.
(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)
Luis de Góngora y Argote (1561-1627)
Se, entre as plumas do ninho seu, Cupido
o arbítrio me prendeu, que fará agora
que em teus olhos, dulcíssima senhora,
armado voa, já que não vestido?
Eu entre as violetas fui ferido
pela áspide que hoje entre os lírios mora:
igual força mostravas, sendo aurora,
à que tens como sol já bem nascido.
Saudarei tua luz com voz dolente,
qual terno rouxinol em prisão dura
despede queixas, mas bem docemente.
De raios vi, direi, tua fronte ardente
coroada; e que te faz a formosura
cantar as aves e chorar a gente.
(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)
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sábado, 7 de fevereiro de 2009
Poesia em tradução
Hamlet
William Shakespeare (1564-1616)
Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer... dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais – herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejemos com fervor.
Dormir... talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte os sonhos que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
– Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse atônita a resolução,
Nem nos fizesse tolerar os nossos males
De preferência a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação.
(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)
Ato III, Cena I (Solilóquio)
William Shakespeare (1564-1616)
Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer... dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais – herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejemos com fervor.
Dormir... talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte os sonhos que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
– Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse atônita a resolução,
Nem nos fizesse tolerar os nossos males
De preferência a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação.
(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)
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sábado, 22 de novembro de 2008
Poesia em tradução
Ode XI (Livro I)
Horácio (65-8 a.C.)
Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
melhor é suportar
tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
Enquanto conversamos,
foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.
(Trad.: Péricles Eugênio da Silva Ramos)
Horácio (65-8 a.C.)
Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
melhor é suportar
tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
Enquanto conversamos,
foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.
(Trad.: Péricles Eugênio da Silva Ramos)
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