Amigos do Fingidor

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sábado, 6 de novembro de 2010

Poesia em tradução

O Junco e o cipreste
D. Guillermo Gana
(datas desconhecidas)




Ao lúgubre cipreste em voz plangente
O junco melancólico dizia:
– Que triste sorte a minha!
Ergui-me tão alegre e tão contente
            Quando a alvorada vinha!

E já sem força e já sem energia
Curvo a cabeça... E lânguido e sozinho
Sinto que vou morrer. Ah! por que a sorte
Dando-te vida, só me guarda morte?

            E o cipreste dizia:
– A dor foi sempre eterna,
Mas a fortuna só perdura um dia!

            E o junco respondia:
Em ti simbolizaram a tristeza,
Em mim somente o anelo
            Dos que no amor esperam.
Como é que nunca dobras a cabeça,
Nem a raiva das chuvas e dos ventos
            A cor sequer te alteram?

Daqueles que de tudo desesperam
Para lembrar a lúgubre aflição,
Só existe uma cor, disse o cipreste...
            E se jamais tu viste
Curvar minha folhagem para o chão...
É que desprezo o mundo baixo e triste
E mergulho a cabeça n’amplidão.


(Trad. Castro Alves)

domingo, 18 de janeiro de 2009

Minha pátria é minha língua

Adormecida
Castro Alves (1847-1871)


Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço de horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos – beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava, ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P’ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! – tu és a virgem das campinas!
Virgem! – tu és a flor de minha vida!..."