Helder Proença (1956-2009)
Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes
Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mãos
negras como breu o silêncio da resposta
Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres
em toda a terrae em todos os homens
Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a “Deus Pai todo poderoso criador dos céus e da terra”
Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais
as amaldiçoavam cada existência nossa
Quando te propus
abraçar a história, amor
tantas foram as esperanças comidas
insondável a fé forjada
no extenso breu de canto e morte
Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!
Amigos do Fingidor
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Antidelação
Vasco Cabral (1926-2005)
A noite veio,
disfarçada em dia
e ofereceu-me a luz,
diáfana como a aurora.
Mas eu disse que não.
Depois veio a serpente
disfarçada em virgem
e ofereceu-me os seios e os braços nus.
Mas eu disse que não.
Por fim veio Pilatos,
disfarçado em Cristo,
e numa voz humana e doce
disse: “se quiseres eu dou-te o paraíso
mas conta a tua história...”
Mas eu disse que não,
que não, não, não!
E continuei um Homem!
E eles continuaram
os abutres do medo e do silêncio.
A noite veio,
disfarçada em dia
e ofereceu-me a luz,
diáfana como a aurora.
Mas eu disse que não.
Depois veio a serpente
disfarçada em virgem
e ofereceu-me os seios e os braços nus.
Mas eu disse que não.
Por fim veio Pilatos,
disfarçado em Cristo,
e numa voz humana e doce
disse: “se quiseres eu dou-te o paraíso
mas conta a tua história...”
Mas eu disse que não,
que não, não, não!
E continuei um Homem!
E eles continuaram
os abutres do medo e do silêncio.
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