Amigos do Fingidor

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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Jorge de Lima

Elson Farias



Jorge de Lima pousa sobre a lama
e mergulha em seu mundo o corpo todo,
seu verso é laborado com o limo
das histórias de escravos e feitores.

O espírito do pai tocou seu peito
mas as visões domaram o menino,
dominaram as mãos maduras do homem
na construção do verso buliçoso.

Donzelas nas janelas desgrenhadas
as negras cabeleiras pelas noites
de lua, luar mórbido nas telhas
das casas senhoriais abandonadas,

é o verso e o reverso dos inventos
desse Orfeu, exilado na sua ilha,
Prometeu condenado, sem saída.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Canção dos passarinhos

Elson Farias



Para compor minha música
aprendi tocar nos ares
instrumentos de capim,
poucos me ouviram o som,
só os minúsculos seres
moradores do jardim.

Até o vento chegar
com seu gênio de menino
e remexer no meu canto,
saí brincando de dor
mais leve dos meus pecados,
menos molhado de pranto.

Saí, enfim, caminhando
no compasso da canção
tecida de sol e chuva,
guardada dentro do peito,
flor de mato transformada
num ramo de amor perfeito.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Balada

Elson Farias


O sol retorce a paisagem
sobre pés de pedra dura.
Estalam verdes do rio.
Peixes redondos, prateados
como escamas esmaltadas
nas tarrafas de chumbadas.

Uruás partem seus cascos
no barro virgem das grotas.
Alguidares se restauram.
No mormaço das mangueiras
as mulheres temporãs
tecem tarrafas chumbadas.

De torrentes concentradas
vive meu verso bisonho,
sustido em fibras telúricas
do sítio, favas de sol.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Romance da noite-chuva

Elson Farias


Tremia o trovão na terra.

Talhavam a face torva
gota a gota os seringais,
era o deus que era raivoso
e vinha nos temporais.

Bramia o rumor do rio
nas noites de escuro e chuvas,
caía a faixa da terra,
piavam surdo as corujas.

Um noturno canto-pranto
cortava o céu em dois meios,
nosso deus vinha vestido
de nós e os nossos receios.

*

– Minha mãe, onde é que eu acho
a lamparina da noite?
– Meu filho, ela deve estar
pendurada lá no alpendre.
– Minha mãe, por que a coruja
pia agora sem parar?
– Meu filho, certo que existe
um defunto a amortalhar.
– Quero dormir, minha mãe,
dentro das trevas desta hora,
mas não posso me embrulhar,
o meu lençol me apavora.
– Meu filho, dorme, não chora,
que o dia custa a vir,
reza as três ave-marias,
muda a roupa e vai dormir.

*

A terra tremia toda.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Romance do banho

Elson Farias

Era morena tostada,
forte, esbelta como um cão,
os cabelos eram claros
de saboroso castanho;
longas tiras escorriam
na costa vincada em curvas
– eram cobras encravadas
no dorso de uma raiz;
o calcanhar era firme,
seu andar arroliçado,
as ilhargas mal roçavam
nas pregas da saia fina.

*

Fendeu-se o cerrado verde
de patativas e anus,
filhos de caba, sol quente,
ventos gerais, água e mel;
ela vinha – balde, cuia,
dentes expostos, carnudos
os lábios, flor de papoula
a cantar e a se despir.

*

Ela vinha, mas menino
balador de passarinhos,
não sabia descobri-la;
pressentia apenas vagos
sons das patas elegantes
dos poldros do meu instinto,
rachando cones de pedra
no meu raciocínio mole.

*

Ela esfalfou-se nas águas,
misturou-se com os peixes,
camarões a beliscaram,
escamas, pés, gumes virgens;
o relampejo das palmas
como línguas de uma faca;
a sombra escura no fundo,
as coxas alvas e turvas;
peixes, menina de banho,
anáguas brancas ao sol.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O Rio Amazonas

Elson Farias

Rio, lavras tua gula,
comedor de terra e espuma,
trazes os teus peixes todos,
sol ardente sobre lâmina.

Manhã clara consumada,
hereditária da chuva,
água tranqüila na cuia
do verão que te saúda.

Noite nova sobre as árvores,
sombras nos ombros da lua,
os duendes antigos vivos,
mulher deitada na grama.

Não és um rio caduco,
mas uma fera atiçada.
Contra a fome te concentras
como o fixo olhar da garça.