Almir Diniz
Chuvisca. Cristais líquidos descem
pelas faces polidas das vidraças
e rolam e escorregam e se esvaem
tecendo brilhos nas janelas baças.
As gotas polvilhadas recrudescem
transformadas em rocios e ameaças
e como névoa adensada caem
ou sobem a compor nuvens esparsas.
Imitando neblinas esvoaçam
e feitas nuvens úmidas perpassam
lençóis perenes de cendradas massas.
E os pingos que se alongam nos vitrais
são lágrimas de nossos ancestrais
enchendo, mansas, invisíveis taças.
Amigos do Fingidor
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
quinta-feira, 11 de março de 2010
Tristeza
Almir Diniz
Cavalgo, triste, meu corcel alado
Pelas pistas sem fim do pensamento,
De rédea solta, solto meu lamento,
Meu protesto de lágrimas molhado.
Galopando sem rumo, e magoado,
Carpindo no selim meu sofrimento,
Chego a pensar que todo este tormento
É mero sonho, e sonho malfadado...
Mas, se passo trotando contra o vento
E ouço um tropel alegre pelo prado,
Aperto o arreio... sem... eis-me acordado!
Aí, sim, sofro a dor que me vai dentro,
Essa dor que mais dói, sem ferimento,
Que as feridas de todo o meu passado!
Cavalgo, triste, meu corcel alado
Pelas pistas sem fim do pensamento,
De rédea solta, solto meu lamento,
Meu protesto de lágrimas molhado.
Galopando sem rumo, e magoado,
Carpindo no selim meu sofrimento,
Chego a pensar que todo este tormento
É mero sonho, e sonho malfadado...
Mas, se passo trotando contra o vento
E ouço um tropel alegre pelo prado,
Aperto o arreio... sem... eis-me acordado!
Aí, sim, sofro a dor que me vai dentro,
Essa dor que mais dói, sem ferimento,
Que as feridas de todo o meu passado!
quinta-feira, 4 de junho de 2009
O lago do Marajá
Almir Diniz
Além do paraná, do campo aberto,
das estreitas restingas e baixios,
além dos igapós, aquém dos rios
abre-se o lago, místico, deserto.
Não aparece nos mapas, não! Decerto
por ser absconso causa desvarios,
silencioso, até dá calefrios
enquanto gera lendas... tão de perto.
É esquisito, sim, todos lhe sabem
o estranho poder extraterreno
– mescla rara de temor e panteísmo.
E embora seu fascínio todos gabem,
é certo que de seu conjunto ameno,
deriva, sempre, imenso misticismo.
Além do paraná, do campo aberto,
das estreitas restingas e baixios,
além dos igapós, aquém dos rios
abre-se o lago, místico, deserto.
Não aparece nos mapas, não! Decerto
por ser absconso causa desvarios,
silencioso, até dá calefrios
enquanto gera lendas... tão de perto.
É esquisito, sim, todos lhe sabem
o estranho poder extraterreno
– mescla rara de temor e panteísmo.
E embora seu fascínio todos gabem,
é certo que de seu conjunto ameno,
deriva, sempre, imenso misticismo.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
A magia da arribação
Almir Diniz
Ao poeta Zemaria Pinto, cultor dos bens da Natureza
O passaredo chega, vem trissando,
buscando o arroz nativo, pendoado,
nas restingas, onde o enxame alvoroçado
colhe o néctar, na fonte, voejando.
Antes da dieta o bando, asas ruflando,
faz escala na praça – vem cansado! –
a arribação é cósmica! – do outro lado
do mundo há muito frio e está nublado.
Vede o tremor nas fímbrias da galhada
e o fremir dos remígios? – a nortada
tange as penas orladas de neblina.
A arribação, sabeis? é piracema,
alada: é inspiração! luz! um poema
de coletivo amor – lição divina!...
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