Amigos do Fingidor

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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cuia

Simão Pessoa

(Poema feito a partir de um quadro do artista plástico Turenko Beça)



De longe como Matisse
Que a desnudando vestisse
Ela revela a natureza
Que a esconde por inteiro

E a esconde por inteiro
Do olho que a devassa:
O vão desdobrado em quilha
Recoberto por limalha

De luz é sua textura
Que ao toque se adivinha
Como as bordas da pupila
Refletindo água-marinha

Tem a aparência furtiva
De uma fruta adocicada
Daquela que nos convida
Na a comer – a olhá-la.

De luminosos cristais
Sua curvatura se veste:
O gosto de qualquer fruta
Nela é as dobras da pele

É fruta de carne e osso
Silêncio sonho e medula.
É fruta de mil desejos
Na língua mais que na gula.

É uma paisagem de dunas
Com casulos emborcados.
É uma ópera intestina
De conchas no alagado

É uma onda sem mistério
Tirando arestas da areia.
É uma maçã que mordida
O baixo ventre incendeia

É o ovo da serpente
Como que moldado em pedra.
É a cúpula do teatro
Na sua forma geodésica

No mais não é uma cuia
Arquitetada por Gaudí.
É uma cuia (mas nativa)
De tacacá e açaí.

Que uma bunda não é nunca
O silêncio de uma tela:
É uma vontade profunda
De se perder dentro dela.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

a metafísica é uma mocinha

Simão Pessoa



                  a metafísica é uma mocinha

muito bonita e prendada

não tivesse um caso nebuloso

com o processo ôntico do tempo

                  juro que trepava com ela

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Confraria

Simão Pessoa



O pássaro metálico ilumina
o grande pórtico
em que circunavegam poetas absurdos
na elétrica comunhão irrevelada
Gestos guardando segredos
tristeza
cinzelando
transitiva
os rumores adivinhados por presságio
Nenhum pássaro alçando vôo novamente
nenhum centauro perseguindo
o impossível:
Apenas náufragos
inflamados pelo ócio
quebrando a vida e seus cacos reluzentes
na transparência do sorriso estagnado

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Político aprendiz

Simão Pessoa



Equilibro este pânico na memória
Dou um salto e assumo todo o risco
Tiro algumas mentiras da cartola
E dou por iniciado o comício

Alinhavo palavras descuidadas
Um ar de enfado quase inútil
Gomalina misturo com cabala
E prometo de concreto o absurdo

Olho fixo a multidão entediada
Acrobata do verbo sem sentir
Imobilizo o olhar vesgo da massa
Agradeço peço palmas vou dormir

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Rio Negro

Simão Pessoa



Invejo o silêncio escuro destas águas

como objeto de límpida inocência

onde o deslumbramento transitório

deste agressivo rio-mar

repousa equivocado e gasto.

Sou fluido e gesto

na paisagem radiante

que estas águas anunciam

além do pólen e da luz.

Como sede no deserto

assim me quero água:

retratando a fauna entristecida,

refazendo a flora devastada.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Dois poemas do Carajo

Simão Pessoa


I


Um dia junto os cacos
E corto os pulsos
Um dia queimo os sonhos
Nego tudo
Um dia mato um rico
Muito puto
Um dia deixo de lado
Esses escrúpulos...



II


Ó primavera insubmissa
que pernoitas no deserto
decerto que não percebes
a mágoa que nos aflige:
esse verão miserável
circunscrito em seu casulo
de nódoa sujou o nicho
reduplicando a carência
agora resseca os campos
o gado a gente as primícias
vem logo ao nosso encontro
ó primavera sem vísceras!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Zona Franca

Simão Pessoa


Esta zona nunca foi franca
mas falsa:
com seu estilo decadente
de art noveau sem graça.

Ali onde havia macacaúba,
marupá, louro e andiroba
hoje é só vidro fumé
(concreto armado
com portas pantográficas
e dégradé).

Ali onde nadava o matrinxã,
piramutaba, tucunaré e jaraqui
hoje é só veio de lama
(esgotos fétidos
com suas imundas
ratazanas).

Ali onde cantava o japiim,
pipira, curió, uirapuru
hoje é só banco de mármore
(carrinho de pipoca
com a praça da Matriz
e da Saudade).

Ali onde andava o tracajá
capitari, iaçá e cabeçudo
hoje é só vão de dentro
(urubu sobrevoando
com cunhãs catando
o lixo).

Ali onde comia o caititu,
queixada, tamanduá e capivara
hoje é só desmatamento
(conjuntos do BNH
com gente cabisbaixa
dentro)

esta zona franca nunca passou
de um rendez-vous:
com suas polacas new society
e seus homens-guabiru.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Butterfly

Simão Pessoa

Pode
pode ser
pode ser que
pode ser que nada
pode ser que nada mude
pode ser que nada mude agora
pode ser que nada mude agora é hora
pode ser que nada mude agora é hora de partir
pode ser que nada mude agora é hora
pode ser que nada mude agora
pode ser que nada mude
pode ser que nada
pode ser que
pode ser
Pode
pode ser
pode ser que
pode ser que mude
pode ser que mude sendo
pode ser que mude sendo assim
pode ser que mude sendo assim não
pode ser que mude sendo assim não vou partir
pode ser que mude sendo assim não
pode ser que mude sendo assim
pode ser que mude sendo
pode ser que mude
pode ser que
pode ser
pode

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Antropologia

Simão Pessoa

tembé oiampii assurini parakanã
xikrin gorotiré apalaí kaxuyana
tiryo arara parakatagé karipuna
galibi palikur makuxi wapixana
fora dos livros de história
estes nomes não dizem nada
só trazem talvez remorso
pela memória apagada
txikuna miranha kulina kaxinawá
tapirapé paresi iranixe karajá
xavante bacairi javaé nambikuara
krinati guajajara krahó apinagé
fora dos livros de história
estes nomes nada nos dizem
só trazem talvez espanto
pela miséria visível
guajá xerente pataxó atroari
pankararé tupiniquim krenak tuxã
waimiri kaimbé potiguara xoko
kiriri ianomâmi apurinã kadiwé
fora dos livros de história
estes nomes nos mostram tudo:
o homem lobo do homem
na apoteose do jugo

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Soneto ao fingidor

Jorge Tufic


Revejo a praça, o bar, o teatro, a igreja.
A tarde deixa o dia ali na esquina.
Logo chega o Simão, e a noite ensina
que antes do papo venha uma cerveja.

Agora o bar do Armando é uma oficina.
Em cada peito um fingidor lateja...
Zemaria sussurra, alguém troveja,
mas tudo é festa, brinde, serpentina.

Que seria de nós ou da Poesia,
se além da “crise” bar virasse banco,
praça, estacionamento, o que seria

das estrelas, do nimbo e do luar,
se de repente um verso – azul ou branco –
já não tivesse mais onde pousar?