Amigos do Fingidor

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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Angústia

Dedé Rodrigues
...Confesse a si mesmo se (...)
morreria caso fosse proibido de escrever.
(R. M. Rilke)


O que me mantém viva
é a pena que se fixou em minhas mãos
o que me impele a continuar lúcida
é a certeza de que posso ser mais
do que em verdade sou...

O início de tudo
o ventre materno
se me apresenta hoje
nestas páginas
que insisto em escrever:

versos sem Poesia,
estilhaços da Solidão.

Porque tu és a estrada derradeira
porque és tu minha estrela, meu guia
assim eu te quero, assim:

turbilhão de angústias
vento, tempestade!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma aula, quase um poema (ou vice-versa)

Dedé Rodrigues


Um bom leitor é também um bom criador de experiência poética.
(Antônio Paulo Graça)

decompor o todo em partes
comer cada pedaço
buscar a Poesia no objeto
depois fazer a síntese
a análise do poema
finalmente
depositar os restos
numa página e cobri-la
para sempre

um poema não deve conter apenas
pedaços de Poesia
porque a Poesia não pode ser despedaçada
arrancada de seu todo
ter expostos os nervos
numa aula de anatomia

um poema deve ser degustado
integralmente
digerido dia após dia
até que se decomponha
circule em nossas veias
e faça parte da nossa vida

de resto não é Poesia
são rabiscos – apenas

terça-feira, 20 de julho de 2010

Ciúme

Dedé Rodrigues


O Ciúme corrói minha armadura
e me lança em delírio à ira
à angústia ao medo ao terror...

E a Insegurança que rasteja
e bate à minha porta
é a visitante noturna
que vem se abrigar
em seu próprio horror:

– terra desolada
de onde parte em desatino
deixando somente
disforme abantesma,
seu rastro de dor.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Recorrências

Dedé Rodrigues




          I


No sonho submisso
voltavas maculado
e tentávamos recompor
o nosso passado:

– cúmplices do mesmo fracasso.


          II


O abraço que não veio
a mensagem que não recebi:

– aniversário de ausências!

terça-feira, 30 de março de 2010

De ofício ou carta de fã

Dedé Rodrigues


Para o Chico



um dia eu quis descrever o teu feminino
e embarquei numa viagem
de mulheres estranhas
submissas e abandonadas – miseráveis
travestidas – mulheres violadas
mulheres fortes – prostitutas
viúvas – homossexuais

embarquei na loucura
de um bicho tão desconhecido
tão próximo
e tão íntimo
penetrei em minha própria alucinação
um mundo de amantes suicidas
de temporais violentos
e namorei com o vento
desamarrei os barcos
numa viagem sem retorno

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sobejo

Dedé Rodrigues


Paira
nas retinas já cansadas
bela dança de fossados
e de amantes suicidas
esquecidos além-mar...

Lutam
na memória enfurecida
reis cruzados e templários
velhos mundos
outros sonhos...
minha parte do espólio!

Vago
como a musa enclausurada
nos despojos de Jerusalém
a mim me cabe
o consolo da rotina:

– remover as pedras
e desenterrar meus mortos!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Em tempo

Dedé Rodrigues


São poemas de dor
os que escrevo
herança de Florbela e de outras
da horda – que mesmo renegando –
faço parte.

É que as mulheres
mesmo amadas e prósperas
carregam no ventre a culpa
a expulsão do paraíso
e por isso sofrem...

sofrem mesmo sem saber
sofrem mesmo na alegria
sofrem e sofrem e sofrem:

– isso lhes basta.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Trabalho de parto

Dedé Rodrigues

brotam de meu ventre
versos repulsivos
abortos involuntários
criações de assombro
incham-me o sexo
secam-me as tetas
deixando em seu rastro
nessa casa maculada
a solidão do casulo

fina casca enegrecida
hábitat de sonhos