Amigos do Fingidor

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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Estante do tempo

Papéis velhos... roídos pela traça do Símbolo
Maranhão Sobrinho (1879-1915)



Primeira folha


Velhos papéis... de versos. São pedaços
da minhalma, batidos pelo vento,
como as folhas do outono... Guardam traços
de um tempo, que passou, sem pensamento...

Preso nalgema dos teus alvos braços
teci-os; cada um lembra um momento
do nosso amor que, por eternos laços,
outrora, nos unia a um firmamento...

Se alguma glória tem, formosa, é esta:
todos o teu celeste amor perfuma,
em todos há tualma em riso e festa!

Velhos papéis, meu último conforto!
sois uma nódoa efêmera de espuma
perdida à face azul dum lago morto...



Última folha


...E o mais dos carunchosos manuscritos
não se lê, pela traça que os carcome;
são páginas, talvez, feitas de gritos,
mas ilegíveis no mais breve nome...

Vê-se, porém, que mãos e olhos aflitos
traçaram-nas chorando, à sede e à fome
de beijos e de abraços infinitos,
em qualquer folha que nas mãos se tome...

A poeira de séculos de mágoa
deu às restantes folhas a tristeza
das ravinas e córregos sem água...

E à traça a mesma antiga opacidade
da história assíria, escrita nas aspereza
dos mármores sem-fim de Khorsabad...

domingo, 30 de janeiro de 2011

Minha pátria é minha língua

Conclusão

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)




Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.

Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

I don’t like myself

Geraldo Carneiro


queria ser outro, perambular

entre as bandeiras enfunadas de pasárgada

bailar no bas-fond de Baudelaire

navegar no barco de Rimbaud

às vezes veranear nos subúrbios do Inferno

na selva selvagem de Dante

sempre argonauta de ultramares

sem o terror narcísico do espelho:

o mesmo círculo a mesma escrita o mesmo rosto

o mesmo animal confinado

em sua ridícula circunstância

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Soneto 340 – Sintético

Glauco Mattoso



De como a poesia é definida
depende a trajetória do poeta.
Qual é, pergunto, a fórmula secreta
que traça em poucas linhas uma vida?

Segundo Rilke, a lira não duvida.
Mas Eliot é turrão, e tudo objeta.
Bashô quanto mais crê menos se aquieta.
Pessoa diz que é fé na dor fingida.

Divergem tantos mestres só no tom.
Não há por que dar tratos ao bestunto:
há química no verso, não um dom.

Qualquer opinião, qualquer assunto
será, verdade ou não, poema bom
se for densa a fração, breve o conjunto.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Minha pátria é minha língua

O martírio do artista
Augusto dos Anjos (1884-1914)




Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Ideia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
É como o paralítico que, à mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma aula, quase um poema (ou vice-versa)

Dedé Rodrigues


Um bom leitor é também um bom criador de experiência poética.
(Antônio Paulo Graça)

decompor o todo em partes
comer cada pedaço
buscar a Poesia no objeto
depois fazer a síntese
a análise do poema
finalmente
depositar os restos
numa página e cobri-la
para sempre

um poema não deve conter apenas
pedaços de Poesia
porque a Poesia não pode ser despedaçada
arrancada de seu todo
ter expostos os nervos
numa aula de anatomia

um poema deve ser degustado
integralmente
digerido dia após dia
até que se decomponha
circule em nossas veias
e faça parte da nossa vida

de resto não é Poesia
são rabiscos – apenas

domingo, 12 de dezembro de 2010

Minha pátria é minha língua

Inania Verba
Olavo Bilac (1865-1918)




Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
– Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O poema

Luiza Neto Jorge (1939-1989)




                       I


Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta

e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme



                      II


Piso do poema
chão de areia

Digo na maneira
mais crua e mais
           intensa

de medir o poema
pela medida inteira

o poema em milímetro
de madeira

ou apodrece o poema
ou se ateia

ou se despedaça
a mão ateia

ou cinco seis astros
se percorre

antes que o deserto
mate a fome

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Poética I

Alencar e Silva



Não o poema-verso simplesmente,
mas o poema-coisa, sim: substância
inefável, sim: coisa que funcione
como relógio e o que ele preconiza.

Assim, sem asco aceito-o integral
como uma pedra ou coisa-viva incômoda
que fere e entanto dá-se em forma e gosto
à natureza que a urdiu. Poema:

eia! deserto povoado. Fruto
onde a fome espreitava a presa. Chuva
onde a sede lavrava seu incêndio.

Incessante doar-se em ponte e veículo
ao evento da coisa – corpo vivo
intato sobre as águas do poema.

domingo, 26 de setembro de 2010

Minha pátria é minha língua

Fuga
Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)



Aos ventos espalhei a cinza dos meus gestos.
Num desprezo de mim, fiz-me poeta,
traí os meus sonhos, enchendo vãos papéis
de traços sem sentido e talvez falsos.
Fui poeta como alguns se suicidam,
como outros partem sem destino certo.
Sonhei-me longe de tudo o que possuo
– longe de mim, longe de quem? –
afastado, sem contas a prestar...
Foi longo o meu engano. Agora vejo
que nunca de mim eu me afastei...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Poesia no porta-retratos

Antonio Miranda
Para Anderson Braga Horta


I


Sempre
quase sempre
(nem sempre...)
eu me vejo ridículo
escrevendo poemas.

Mais ridículo ainda
lendo-os, relendo-os
infinitamente.

A poesia tornou-se um exercício
maneirista, narcisista, preciosista
masoquista e, para quebrar a rima
um precipício
um verdadeiro estropício
um hospício a céu aberto.

Uma espécie de autoflagelação
ou de endeusamento
sem qualquer encantamento
ou absolvição: a negação da negação.


II


Ferreira Gullar, por exemplo
colocou o poema no liquidificador
na sua Luta Corporal.

Tristan Tzara, o dadaísta
usou a tesoura porque não havia
a máquina picotadora
e saiu fazendo colagem de letras
em arquiteturas indecifráveis.

Mallarmé lançou seus dados ao azar
E. E. Cummings construiu edifícios verbais
e Sousândrade violentou a gramática
enquanto Bilac cinzelava versos
e J. G. de Araújo Jorge acaramelava
os amores imaginários.
Antes, Bécquer elevava-os em seu andores.

Mais perto de nós, Nikolas von Behr
ventríloquo pelo umbigo
faz discurso libertário
rebeldia em verso livre, e de livro.

Tem ainda a iconoclastia de Leminski
a hipocondria de Manuel Bandeira
e a ecclesia dos irmão Campos
com o concretista Pignatari
na tradição do novo
na renovação.

Tradição do novo é conceito sartreano.
Bem podia ser pernambucano!


III


Eu me reconheço
medíocre
e apelo para as musas defuntas
ou aposentadas.

A poesia é um caminho viciado
ou é inovação e criação
(nunca inspiração)
e o poeta queima as próprias roupas
incinera as vãs convicções, crenças
deserta do mundo e suas ideologias
e destrói a própria torre de marfim
seu último refúgio.

E não sabe o que fazer
com a própria liberdade.

sábado, 31 de julho de 2010

Poesia em tradução

Dante Gabriel Rossetti (1828-1882)



Soneto é um monumento do momento, –
Da Alma, memorial da eternidade
Ao morto, hora imortal. Na integridade,
Que seja rito em luz ou só portento,
Dessa árdua plenitude reverente:
No mármore ou no ébano, cinzele-o,
Ditam a Noite e o Dia; e o Tempo a vê-lo:
Pérolas, crista em flor e o oriente.
O soneto é moeda: a cara dela
Mostra a alma, – e a coroa a que Senhor
Deve: – ou por taxa ou por quem augusto apela
À Vida, ou dom na corte alta do Amor,
Serve: ou, no arfar poroso em cais sem norte,
Paga à mão de Caronte o som da Morte.


(Trad. José Lino Grünewald)

domingo, 18 de julho de 2010

Minha pátria é minha língua

Musa impassível II
Francisca Júlia (1871-1920)



Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.

domingo, 27 de junho de 2010

Minha pátria é minha língua

Profissão de Fé
Carvalho Júnior (1855-1879)



Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.

Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos do lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.

Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpos de alfenim.

Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sonho de Poema

Rosa Clement



Há um belo poema no meu sonho
que nunca vem comigo quando acordo
pois só enquanto durmo é que recordo
de todas as estrofes que componho.

Meu semblante se torna mais risonho
e surpresa com minha arte transbordo
em risos certa que trarei a bordo
de minha mente os versos que disponho.

Porém a ilusão é um defeito
do sonho que me traz a poesia
e a vaidade que me invade o peito.

Então sinto que tudo está desfeito.
As palavras não são as que eu queria
e o meu poema fica preso ao leito.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Viceversando

Donaldo Mello



Fogem as palavras do poema

quando ele vem por inteiro.

A escrita, como um puçá,

colhe suavemente as ideias

com um jeito matreiro.

Mas o rumor, como uma

gargalhada de humor,

extrai do inteiro um pé.

Fica às vezes capenga

aquilo que fora poema.

Um verso somente

sem trema

o canto da seriema.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Poemas

Jorge Tufic




I


Amo arrumar palavras. Porque sei
que há traças percorrendo
em rios os papéis.

Coisa difícil é dar. Difícil
como saber se damos quando damos
ou tiramos quando tiramos.

Mas as traças são cegas.
Cega a vontade de morrer
mais cega a de escrever.

Palavras são sangue, mesmo
as que gravadas sem propósito.
E ninguém mais do que as traças
sabe disso.


II


Ouvi um chamado distante,
sem voz. Em seguida a surpresa
de assistir à queda de um ovo
pintado com as cores do arco-íris.

─ Algum anjo brincalhão
Querendo tirar barrigada.

Depois outro ovo e mais outro,
tantos, de tantas cores,
que ao chegar em meu quarto
estava transfigurado. Decerto
não atendi ao chamado da poesia...


III


O poeta vai pela rua.
Ninguém está vendo o poeta
porque o poeta é transparente.

O poeta atravessa a ponte
o poeta desfolha a rosa
o poeta contempla o mar.

Ninguém está vendo o poeta.
Mas duvido que ninguém sinta
a sua presença abstrata.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Estante do tempo

Didática
Luiz Ruas (1931-2000)




Palavra por palavra
compõe-se a arquitetura.
O canto é limpo timbre.
É rosa a rosa. Rosa.

Desnuda geometria
espaço libertado:
no campo indevassado
na página tranqüila

desenho desprovido
de inúteis arabescos
os pontos se projetam
em linhas e figuras

os semitons banidos
só restam sombra e luz.
Palavra é só palavra:
Indício fruto ou véu.

Por fim se ordenam símbolos
em lúdica harmonia
Fundindo o lucicanto
Ou coisadedizer.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Poesia em tradução

Meus livros
Jorge Luis Borges (1899-1986)




Meus livros (que não sabem que eu existo)

São tão parte de mim como este rosto

De fontes grises e de grises olhos

Que inutilmente busco nos cristais

E que com a mão côncava percorro.

Não sem alguma lógica amargura

Penso que as palavras essenciais

Que me expressam se encontram nessas folhas

Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.

Melhor assim. As vozes dos mortos

Vão me dizer para sempre.


(Trad. Josely Vianna Baptista)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

exercício nº 17

Zemaria Pinto


de cinco mil sementes repartidas
em outras cinco mil repetições
transforma-se a parede num festim
de gritos e sussurros sem sentido

miríades de sonhos e de sons
de um outro inferno ainda refletidas
são fugas recorrentes de mim mesmo
na sordidez do tempo aprisionadas

da câmara sombria um som se eleva
em timbres modulados na memória
buscando a quintessência do silêncio
na velha luta vã contra as palavras

pois o poema é nada mais que isso
música para surdos – nada mais