Papéis velhos... roídos pela traça do Símbolo
Maranhão Sobrinho (1879-1915)
Primeira folha
Velhos papéis... de versos. São pedaços
da minhalma, batidos pelo vento,
como as folhas do outono... Guardam traços
de um tempo, que passou, sem pensamento...
Preso nalgema dos teus alvos braços
teci-os; cada um lembra um momento
do nosso amor que, por eternos laços,
outrora, nos unia a um firmamento...
Se alguma glória tem, formosa, é esta:
todos o teu celeste amor perfuma,
em todos há tualma em riso e festa!
Velhos papéis, meu último conforto!
sois uma nódoa efêmera de espuma
perdida à face azul dum lago morto...
Última folha
...E o mais dos carunchosos manuscritos
não se lê, pela traça que os carcome;
são páginas, talvez, feitas de gritos,
mas ilegíveis no mais breve nome...
Vê-se, porém, que mãos e olhos aflitos
traçaram-nas chorando, à sede e à fome
de beijos e de abraços infinitos,
em qualquer folha que nas mãos se tome...
A poeira de séculos de mágoa
deu às restantes folhas a tristeza
das ravinas e córregos sem água...
E à traça a mesma antiga opacidade
da história assíria, escrita nas aspereza
dos mármores sem-fim de Khorsabad...
Amigos do Fingidor
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
domingo, 30 de janeiro de 2011
Minha pátria é minha língua
Conclusão
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.
Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.
Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.
De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.
Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.
Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.
De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
I don’t like myself
Geraldo Carneiro
queria ser outro, perambular
entre as bandeiras enfunadas de pasárgada
bailar no bas-fond de Baudelaire
navegar no barco de Rimbaud
às vezes veranear nos subúrbios do Inferno
na selva selvagem de Dante
sempre argonauta de ultramares
sem o terror narcísico do espelho:
o mesmo círculo a mesma escrita o mesmo rosto
o mesmo animal confinado
em sua ridícula circunstância
queria ser outro, perambular
entre as bandeiras enfunadas de pasárgada
bailar no bas-fond de Baudelaire
navegar no barco de Rimbaud
às vezes veranear nos subúrbios do Inferno
na selva selvagem de Dante
sempre argonauta de ultramares
sem o terror narcísico do espelho:
o mesmo círculo a mesma escrita o mesmo rosto
o mesmo animal confinado
em sua ridícula circunstância
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Soneto 340 – Sintético
Glauco Mattoso
De como a poesia é definida
depende a trajetória do poeta.
Qual é, pergunto, a fórmula secreta
que traça em poucas linhas uma vida?
Segundo Rilke, a lira não duvida.
Mas Eliot é turrão, e tudo objeta.
Bashô quanto mais crê menos se aquieta.
Pessoa diz que é fé na dor fingida.
Divergem tantos mestres só no tom.
Não há por que dar tratos ao bestunto:
há química no verso, não um dom.
Qualquer opinião, qualquer assunto
será, verdade ou não, poema bom
se for densa a fração, breve o conjunto.
De como a poesia é definida
depende a trajetória do poeta.
Qual é, pergunto, a fórmula secreta
que traça em poucas linhas uma vida?
Segundo Rilke, a lira não duvida.
Mas Eliot é turrão, e tudo objeta.
Bashô quanto mais crê menos se aquieta.
Pessoa diz que é fé na dor fingida.
Divergem tantos mestres só no tom.
Não há por que dar tratos ao bestunto:
há química no verso, não um dom.
Qualquer opinião, qualquer assunto
será, verdade ou não, poema bom
se for densa a fração, breve o conjunto.
domingo, 19 de dezembro de 2010
Minha pátria é minha língua
O martírio do artista
Augusto dos Anjos (1884-1914)
Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!
Tarda-lhe a Ideia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!
Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
É como o paralítico que, à mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra
Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!
Augusto dos Anjos (1884-1914)
Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!
Tarda-lhe a Ideia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!
Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
É como o paralítico que, à mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra
Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Uma aula, quase um poema (ou vice-versa)
Dedé Rodrigues
decompor o todo em partes
comer cada pedaço
buscar a Poesia no objeto
depois fazer a síntese
a análise do poema
finalmente
depositar os restos
numa página e cobri-la
para sempre
um poema não deve conter apenas
pedaços de Poesia
porque a Poesia não pode ser despedaçada
arrancada de seu todo
ter expostos os nervos
numa aula de anatomia
um poema deve ser degustado
integralmente
digerido dia após dia
até que se decomponha
circule em nossas veias
e faça parte da nossa vida
de resto não é Poesia
são rabiscos – apenas
Um bom leitor é também um bom criador de experiência poética.
(Antônio Paulo Graça)
decompor o todo em partes
comer cada pedaço
buscar a Poesia no objeto
depois fazer a síntese
a análise do poema
finalmente
depositar os restos
numa página e cobri-la
para sempre
um poema não deve conter apenas
pedaços de Poesia
porque a Poesia não pode ser despedaçada
arrancada de seu todo
ter expostos os nervos
numa aula de anatomia
um poema deve ser degustado
integralmente
digerido dia após dia
até que se decomponha
circule em nossas veias
e faça parte da nossa vida
de resto não é Poesia
são rabiscos – apenas
domingo, 12 de dezembro de 2010
Minha pátria é minha língua
Inania Verba
Olavo Bilac (1865-1918)
Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
– Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...
O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.
Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?
E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?
Olavo Bilac (1865-1918)
Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
– Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...
O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.
Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?
E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
O poema
Luiza Neto Jorge (1939-1989)
I
Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem
falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme
II
Piso do poema
chão de areia
Digo na maneira
mais crua e mais
intensa
de medir o poema
pela medida inteira
o poema em milímetro
de madeira
ou apodrece o poema
ou se ateia
ou se despedaça
a mão ateia
ou cinco seis astros
se percorre
antes que o deserto
mate a fome
I
Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem
falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme
II
Piso do poema
chão de areia
Digo na maneira
mais crua e mais
intensa
de medir o poema
pela medida inteira
o poema em milímetro
de madeira
ou apodrece o poema
ou se ateia
ou se despedaça
a mão ateia
ou cinco seis astros
se percorre
antes que o deserto
mate a fome
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Sexta-feira
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Poética I
Alencar e Silva
Não o poema-verso simplesmente,
mas o poema-coisa, sim: substância
inefável, sim: coisa que funcione
como relógio e o que ele preconiza.
Assim, sem asco aceito-o integral
como uma pedra ou coisa-viva incômoda
que fere e entanto dá-se em forma e gosto
à natureza que a urdiu. Poema:
eia! deserto povoado. Fruto
onde a fome espreitava a presa. Chuva
onde a sede lavrava seu incêndio.
Incessante doar-se em ponte e veículo
ao evento da coisa – corpo vivo
intato sobre as águas do poema.
Não o poema-verso simplesmente,
mas o poema-coisa, sim: substância
inefável, sim: coisa que funcione
como relógio e o que ele preconiza.
Assim, sem asco aceito-o integral
como uma pedra ou coisa-viva incômoda
que fere e entanto dá-se em forma e gosto
à natureza que a urdiu. Poema:
eia! deserto povoado. Fruto
onde a fome espreitava a presa. Chuva
onde a sede lavrava seu incêndio.
Incessante doar-se em ponte e veículo
ao evento da coisa – corpo vivo
intato sobre as águas do poema.
domingo, 26 de setembro de 2010
Minha pátria é minha língua
Fuga
Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)
Aos ventos espalhei a cinza dos meus gestos.
Num desprezo de mim, fiz-me poeta,
traí os meus sonhos, enchendo vãos papéis
de traços sem sentido e talvez falsos.
Fui poeta como alguns se suicidam,
como outros partem sem destino certo.
Sonhei-me longe de tudo o que possuo
– longe de mim, longe de quem? –
afastado, sem contas a prestar...
Foi longo o meu engano. Agora vejo
que nunca de mim eu me afastei...
Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)
Aos ventos espalhei a cinza dos meus gestos.
Num desprezo de mim, fiz-me poeta,
traí os meus sonhos, enchendo vãos papéis
de traços sem sentido e talvez falsos.
Fui poeta como alguns se suicidam,
como outros partem sem destino certo.
Sonhei-me longe de tudo o que possuo
– longe de mim, longe de quem? –
afastado, sem contas a prestar...
Foi longo o meu engano. Agora vejo
que nunca de mim eu me afastei...
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sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Poesia no porta-retratos
Antonio Miranda
Para Anderson Braga Horta I
Sempre
quase sempre
(nem sempre...)
eu me vejo ridículo
escrevendo poemas.
Mais ridículo ainda
lendo-os, relendo-os
infinitamente.
A poesia tornou-se um exercício
maneirista, narcisista, preciosista
masoquista e, para quebrar a rima
um precipício
um verdadeiro estropício
um hospício a céu aberto.
Uma espécie de autoflagelação
ou de endeusamento
sem qualquer encantamento
ou absolvição: a negação da negação.
II
Ferreira Gullar, por exemplo
colocou o poema no liquidificador
na sua Luta Corporal.
Tristan Tzara, o dadaísta
usou a tesoura porque não havia
a máquina picotadora
e saiu fazendo colagem de letras
em arquiteturas indecifráveis.
Mallarmé lançou seus dados ao azar
E. E. Cummings construiu edifícios verbais
e Sousândrade violentou a gramática
enquanto Bilac cinzelava versos
e J. G. de Araújo Jorge acaramelava
os amores imaginários.
Antes, Bécquer elevava-os em seu andores.
Mais perto de nós, Nikolas von Behr
ventríloquo pelo umbigo
faz discurso libertário
rebeldia em verso livre, e de livro.
Tem ainda a iconoclastia de Leminski
a hipocondria de Manuel Bandeira
e a ecclesia dos irmão Campos
com o concretista Pignatari
na tradição do novo
na renovação.
Tradição do novo é conceito sartreano.
Bem podia ser pernambucano!
III
Eu me reconheço
medíocre
e apelo para as musas defuntas
ou aposentadas.
A poesia é um caminho viciado
ou é inovação e criação
(nunca inspiração)
e o poeta queima as próprias roupas
incinera as vãs convicções, crenças
deserta do mundo e suas ideologias
e destrói a própria torre de marfim
seu último refúgio.
E não sabe o que fazer
com a própria liberdade.
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Sexta-feira
sábado, 31 de julho de 2010
Poesia em tradução
Dante Gabriel Rossetti (1828-1882)
Soneto é um monumento do momento, –
Da Alma, memorial da eternidade
Ao morto, hora imortal. Na integridade,
Que seja rito em luz ou só portento,
Dessa árdua plenitude reverente:
No mármore ou no ébano, cinzele-o,
Ditam a Noite e o Dia; e o Tempo a vê-lo:
Pérolas, crista em flor e o oriente.
O soneto é moeda: a cara dela
Mostra a alma, – e a coroa a que Senhor
Deve: – ou por taxa ou por quem augusto apela
À Vida, ou dom na corte alta do Amor,
Serve: ou, no arfar poroso em cais sem norte,
Paga à mão de Caronte o som da Morte.
(Trad. José Lino Grünewald)
Soneto é um monumento do momento, –
Da Alma, memorial da eternidade
Ao morto, hora imortal. Na integridade,
Que seja rito em luz ou só portento,
Dessa árdua plenitude reverente:
No mármore ou no ébano, cinzele-o,
Ditam a Noite e o Dia; e o Tempo a vê-lo:
Pérolas, crista em flor e o oriente.
O soneto é moeda: a cara dela
Mostra a alma, – e a coroa a que Senhor
Deve: – ou por taxa ou por quem augusto apela
À Vida, ou dom na corte alta do Amor,
Serve: ou, no arfar poroso em cais sem norte,
Paga à mão de Caronte o som da Morte.
(Trad. José Lino Grünewald)
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domingo, 18 de julho de 2010
Minha pátria é minha língua
Musa impassível II
Francisca Júlia (1871-1920)
Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.
Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.
Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,
E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.
Francisca Júlia (1871-1920)
Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.
Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.
Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,
E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.
domingo, 27 de junho de 2010
Minha pátria é minha língua
Profissão de Fé
Carvalho Júnior (1855-1879)
Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.
Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos do lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.
Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpos de alfenim.
Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.
Carvalho Júnior (1855-1879)
Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.
Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos do lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.
Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpos de alfenim.
Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.
terça-feira, 8 de junho de 2010
Sonho de Poema
Rosa Clement
Há um belo poema no meu sonho
que nunca vem comigo quando acordo
pois só enquanto durmo é que recordo
de todas as estrofes que componho.
Meu semblante se torna mais risonho
e surpresa com minha arte transbordo
em risos certa que trarei a bordo
de minha mente os versos que disponho.
Porém a ilusão é um defeito
do sonho que me traz a poesia
e a vaidade que me invade o peito.
Então sinto que tudo está desfeito.
As palavras não são as que eu queria
e o meu poema fica preso ao leito.
Há um belo poema no meu sonho
que nunca vem comigo quando acordo
pois só enquanto durmo é que recordo
de todas as estrofes que componho.
Meu semblante se torna mais risonho
e surpresa com minha arte transbordo
em risos certa que trarei a bordo
de minha mente os versos que disponho.
Porém a ilusão é um defeito
do sonho que me traz a poesia
e a vaidade que me invade o peito.
Então sinto que tudo está desfeito.
As palavras não são as que eu queria
e o meu poema fica preso ao leito.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Viceversando
Donaldo Mello
Fogem as palavras do poema
quando ele vem por inteiro.
A escrita, como um puçá,
colhe suavemente as ideias
com um jeito matreiro.
Mas o rumor, como uma
gargalhada de humor,
extrai do inteiro um pé.
Fica às vezes capenga
aquilo que fora poema.
Um verso somente
sem trema
o canto da seriema.
Fogem as palavras do poema
quando ele vem por inteiro.
A escrita, como um puçá,
colhe suavemente as ideias
com um jeito matreiro.
Mas o rumor, como uma
gargalhada de humor,
extrai do inteiro um pé.
Fica às vezes capenga
aquilo que fora poema.
Um verso somente
sem trema
o canto da seriema.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Poemas
Jorge Tufic
I
Amo arrumar palavras. Porque sei
que há traças percorrendo
em rios os papéis.
Coisa difícil é dar. Difícil
como saber se damos quando damos
ou tiramos quando tiramos.
Mas as traças são cegas.
Cega a vontade de morrer
mais cega a de escrever.
Palavras são sangue, mesmo
as que gravadas sem propósito.
E ninguém mais do que as traças
sabe disso.
II
Ouvi um chamado distante,
sem voz. Em seguida a surpresa
de assistir à queda de um ovo
pintado com as cores do arco-íris.
─ Algum anjo brincalhão
Querendo tirar barrigada.
Depois outro ovo e mais outro,
tantos, de tantas cores,
que ao chegar em meu quarto
estava transfigurado. Decerto
não atendi ao chamado da poesia...
III
O poeta vai pela rua.
Ninguém está vendo o poeta
porque o poeta é transparente.
O poeta atravessa a ponte
o poeta desfolha a rosa
o poeta contempla o mar.
Ninguém está vendo o poeta.
Mas duvido que ninguém sinta
a sua presença abstrata.
I
Amo arrumar palavras. Porque sei
que há traças percorrendo
em rios os papéis.
Coisa difícil é dar. Difícil
como saber se damos quando damos
ou tiramos quando tiramos.
Mas as traças são cegas.
Cega a vontade de morrer
mais cega a de escrever.
Palavras são sangue, mesmo
as que gravadas sem propósito.
E ninguém mais do que as traças
sabe disso.
II
Ouvi um chamado distante,
sem voz. Em seguida a surpresa
de assistir à queda de um ovo
pintado com as cores do arco-íris.
─ Algum anjo brincalhão
Querendo tirar barrigada.
Depois outro ovo e mais outro,
tantos, de tantas cores,
que ao chegar em meu quarto
estava transfigurado. Decerto
não atendi ao chamado da poesia...
III
O poeta vai pela rua.
Ninguém está vendo o poeta
porque o poeta é transparente.
O poeta atravessa a ponte
o poeta desfolha a rosa
o poeta contempla o mar.
Ninguém está vendo o poeta.
Mas duvido que ninguém sinta
a sua presença abstrata.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Estante do tempo
Didática
Luiz Ruas (1931-2000)
Palavra por palavra
compõe-se a arquitetura.
O canto é limpo timbre.
É rosa a rosa. Rosa.
Desnuda geometria
espaço libertado:
no campo indevassado
na página tranqüila
desenho desprovido
de inúteis arabescos
os pontos se projetam
em linhas e figuras
os semitons banidos
só restam sombra e luz.
Palavra é só palavra:
Indício fruto ou véu.
Por fim se ordenam símbolos
em lúdica harmonia
Fundindo o lucicanto
Ou coisadedizer.
Luiz Ruas (1931-2000)
Palavra por palavra
compõe-se a arquitetura.
O canto é limpo timbre.
É rosa a rosa. Rosa.
Desnuda geometria
espaço libertado:
no campo indevassado
na página tranqüila
desenho desprovido
de inúteis arabescos
os pontos se projetam
em linhas e figuras
os semitons banidos
só restam sombra e luz.
Palavra é só palavra:
Indício fruto ou véu.
Por fim se ordenam símbolos
em lúdica harmonia
Fundindo o lucicanto
Ou coisadedizer.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Poesia em tradução
Meus livros
Jorge Luis Borges (1899-1986)
Meus livros (que não sabem que eu existo)
São tão parte de mim como este rosto
De fontes grises e de grises olhos
Que inutilmente busco nos cristais
E que com a mão côncava percorro.
Não sem alguma lógica amargura
Penso que as palavras essenciais
Que me expressam se encontram nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Vão me dizer para sempre.
(Trad. Josely Vianna Baptista)
Jorge Luis Borges (1899-1986)
Meus livros (que não sabem que eu existo)
São tão parte de mim como este rosto
De fontes grises e de grises olhos
Que inutilmente busco nos cristais
E que com a mão côncava percorro.
Não sem alguma lógica amargura
Penso que as palavras essenciais
Que me expressam se encontram nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Vão me dizer para sempre.
(Trad. Josely Vianna Baptista)
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Josely Vianna Baptista,
Sabado
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
exercício nº 17
Zemaria Pinto
de cinco mil sementes repartidas
em outras cinco mil repetições
transforma-se a parede num festim
de gritos e sussurros sem sentido
miríades de sonhos e de sons
de um outro inferno ainda refletidas
são fugas recorrentes de mim mesmo
na sordidez do tempo aprisionadas
da câmara sombria um som se eleva
em timbres modulados na memória
buscando a quintessência do silêncio
na velha luta vã contra as palavras
pois o poema é nada mais que isso
música para surdos – nada mais
de cinco mil sementes repartidas
em outras cinco mil repetições
transforma-se a parede num festim
de gritos e sussurros sem sentido
miríades de sonhos e de sons
de um outro inferno ainda refletidas
são fugas recorrentes de mim mesmo
na sordidez do tempo aprisionadas
da câmara sombria um som se eleva
em timbres modulados na memória
buscando a quintessência do silêncio
na velha luta vã contra as palavras
pois o poema é nada mais que isso
música para surdos – nada mais
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