Amigos do Fingidor

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terça-feira, 1 de março de 2011

A primeira vez que nos amamos

João Sebastião
(para Angélica de Lis, doce memória)



A primeira vez que nos amamos
senti vibrar teu corpo de alegria
apesar de uma lágrima furtiva
e do teu rosto contraído
numa singela expressão de dor.

A primeira vez que nos amamos
havia música barroca no ar
pontuando a estranha melancolia
e a fortuita liberdade
que nem tu nem eu sabíamos explicar.

A primeira vez que nos amamos
e que nossos corpos se envolveram com paixão
nem a dor nem o sangue ou o suor
macularam a inocência de um encontro
forjado pela febre do desejo mútuo.

A primeira vez que nos amamos
havia pássaros nos laranjais
trilando melodias merencórias
um tom acima do coro de anjos
que em nossa cela nos abençoava.

A primeira vez que nos amamos
um poema em teu corpo eu tatuei
com minhas mãos meus lábios e meu sexo
e te amei como nunca amei ninguém
e tu me amaste como Eva amou Adão.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Ausência & Perda

João Sebastião



não te ter fisicamente
sentir tua pele
         tua língua
         teus dentes
não poder tocar tuas mãos
                         teus seios
                         tuas coxas
não ter teu sexo
– que se realiza em cada nanômetro do teu corpo nu
não é nada – não será nada
se há a mais infinitésima possibilidade de te ter de novo
                   (ainda que sobre cada encontro
                    paire a terrível ameaça
                    de ser a última vez)

a perda é o nada
             é o caos
o mundo em desordem
o império do medo
o horror o horror

te perder será voltar às trevas
em que – eu não sabia – sempre vivi?

terça-feira, 13 de julho de 2010

Tempo tempo

João Sebastião



A ti que não te dás tempo
vou te dizer sobre o tempo.

O presente é uma invenção
fadada a virar passado
a cada instante que passa.

O futuro, uma promessa
nunca dantes realizada
somatório de presentes
transmudados em passado.

E o passado, como passa?
O passado se repete
se reparte acumulado
em cada dobra de tempo
em cada lençol dobrado.

O passado se repete
nem sempre com o mesmo brilho
no choro de nossos filhos
nas histórias que se contam
nas contas que se recontam
nos contos de faz-de-conta.

Se repete feito farsa
às vezes, feito tragédia
mas quase sempre é comédia
a dividir nossas vidas
porque viver é mais nada
que nadar contra essa onda
que nos maltrata e consome
de procurar ser feliz.

E o que pouca gente sabe:
a felicidade é um grão
perdido pelo salão
abarrotado de vícios.

Grão de messe, grão de posse
ser feliz é uma ilusão
encantamento, magia
deve ter parte com o demo
pois dá uma puta alegria
despudorado tesão
parece até carnaval.

E a carne, fraca, possessa
de sorriso escancarado
despe a máscara que o tempo
engessou-lhe sobre a face
e vê-se então o que há por baixo:
um sorriso renovado
fresco, doce, quase ingênuo
de um tempo de ser feliz
que todos nós conhecemos
um pouco antes ou além
nalgum lugar do passado.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

beijo

João Sebastião


a secretária anota um recado
a tua voz rouca
                         apressada

era natal? carnaval? eleição?

aguardo novo chamado
e o beijo
                         extraviado
não o beijo ocasional das despedidas mecânicas
mas, o beijo
            beijobeijo
            beijomel
            beijoflor
            beijodor
            beijofel
            beijomaçã
            beijoflama

que não cabe na língua digital
de uma secretária eletrônica

terça-feira, 10 de novembro de 2009

o tempo mensurável

João Sebastião


a chegada do circo
em 3 pequenos barcos
é a folia matinal

chove – e o ar que se respira
_____-é um misto de merda e mijo

Bão, Quara, Antônio Mocinha
disputam um cernambi retorto

domadores débeis
palhaços tristes
uma trapezista de alabastro
(quiçá estrela principal
dos dramas anunciados)
ajudam no desembarque mais leve

meus olhos
que nunca estiveram sob a lona
passeiam indiferentes
pelo enfadonho espetáculo

são 11 da manhã de um dia qualquer
numa cidadezinha sonolenta – 1968
– mergulho na urina quente dos leões
_-e me afogo em minha primeira
_-lição de ecologia

terça-feira, 9 de junho de 2009

do outro lado da sombra do vento

João Sebastião


do outro lado da sombra do vento
passa um rio de águas transparentes
onde pássaros brincam de manja-pega
com peixes e pequenos roedores

do outro lado da sombra do vento
o leite dá em árvores
o mel brota das flores
e os pães espalham-se entre as pedras das encostas

do outro lado da sombra do vento
medra o vinho nas parreiras
o néctar, nas palmeiras
e os frutos flutuam como nuvens ao alcance da mão

do outro lado da sombra do vento
eu alimento um desejo proibido:
construir contigo um sonho
de sermos um para o outro mais que amigos...