Amigos do Fingidor

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Elegia do adeus

Tenório Telles
Para Anisio Melo



Este canto é para celebrar
não a tua ausência
ou o teu corpo silencioso,
frágil e despovoado de sonhos.

Este canto é para celebrar
o que deixaste plantado
no coração dos amigos,
dos familiares e filhos:
nos jardins de todos
que te quiseram bem.

Este canto é para celebrar
teu coração generoso
e o menino que o habitava
– que resistia a ficar grande
com a casmurrice dos adultos.

Caminhante dessas r(o)tas,
cumpriste a travessia:
carregando no peito a delicadeza das flores
e no ser, sonhos que, como pássaros,
fugiram para longe – e te acompanham
nessa que será a viagem definitiva
dessa travessia feita de perdas,
de dores, sonhos, de anseios
que poderiam ter sido...
– flores caídas no bosque da existência.

Aqui jaz teu corpo,
que como um passarinho
abatido pela sorte inglória,
acolhe a ternura e a proteção
dos que te acompanharam
e choram tua partida.

O que fica de ti
é essa lembrança
de saudade e dor.
O que fica de ti
é o testemunho de uma vida
feita de simplicidade e trabalho.
O que fica de ti
é a delicadeza e humanidade
dos versos que nasceram das tuas mãos.
O que fica de ti
é a gratidão de todos
que aprenderam contigo
o milagre da criação:
de dar forma ao informe
de dar vida ao inefável.
O que fica de ti
são as grandes janelas
da velha casa
onde tua mãe te ensinou
a sonhar e brincar com as cores do arco-íris.
A mesa onde ensinavas
a magia das cores aos teus alunos
e recebias com pão e vinho os amigos.
A velha máquina onde imprimias tuas palavras
– agora silenciosa e órfã dos teus sentimentos,
do teu poder de encantamento.

Vai bom amigo e cumpre
com a coragem e serenidade habituais
essa última imposição do destino.
Que a tua chegada à outra margem
desse mar de náufragos
seja tranquila e que o ventos
protetores te conduzam.

O que levas é o que deixas:
tua poesia,
as cores com que enalteceste a vida,
os teus amigos.
Deixas especialmente
teu exemplo de bondade.

Vai em paz, bom amigo.
Em mim fica o testemunho
da tua passagem
por este mundo
– precário mundo:
deserto de esquecimento,
cidadela da solidão,
jardim de silêncio
– de lírios brancos
– de rubras rosas
– de agudos cardos:

Em que somos matéria e sonho,
sangue e poesia: forma em construção.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Anisio Mello (21/06/1927-11/04/2010)

Título desconhecido.

Estante do tempo

Vendaval de sonhos
Anisio Mello (21/06/1927-11/04/2010)




A solidão que envolve esta minhalma errante
Na cratera sem luz do último poder
É a mesma catacumba que a sorrir triunfante
Há de levar-me um dia à glória do não ser.

Eu vivo sempre assim: sorriso agonizante,
Sem poder encarar esta alegria de ter
A dulce compreensão de um ideal de instante
Num vendaval de sonhos que deixei nascer...

O ideal não morre e cada dia prospera
Na múltipla visão de quem paciente espera
O fruto do porvir que é verdadeiro e são.

Solitária visão de tudo que me envolve,
A vida é sempre assim, e ela por si resolve
As mágoas do viver que atingem o coração...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Lembranças

Anisio Mello


Na lembrança ficaste de permeio
a momentos de amor com que te vi.
Foste rosa em meu peito e com receio
a primavera augusta então vivi.

Nos teus lábios agora me tonteio
e na luz dos teus olhos refleti
todo um sonho feliz e agora creio
que o amor é como o beijo que senti.

Este amor que flutua mansamente
e encandece a manhã tão de repente,
mais parece o delírio de um adeus.

Um dia partirei, quem sabe quando?
Lembranças levarei sempre cantando,
com teus lábios impressos sobre os meus...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A semente

Anisio Mello

De Tua alta mansão banhas as montanhas,
com o fruto de Tuas obras sacias a terra.
(Salmo 103, St.º Thomás)


De pau e pedra cresce a montanha
que se espreguiça no âmago telúrico
e forma em monumentos
os mamilos da terra
de onde jorra o maná por entre as pedras
e o cascalho reluz em micas e cristais.

São brilhantes de garimpo azul
que se escondem no negro e fundo,
onde não há luz de todo este princípio,
onde nasceu o primeiro pensamento e o raciocínio.

De pau e pedra cresce a montanha
com o resto que sobrou
de gerações soterradas pelo ódio,
pela guerra, pela morte, enfim.

São restos de galeras e de arcas,
múmias do acaso incensadas pelo tempo,
bálsamo da salvação
e de todos os milagres,
do meu, do teu, do nosso, pois pensamos,
e sabemos que um dia não sabemos
que montanhas hão de ser, o eu que sou,
e nós, que perdemos na luta inglória
de crer, de construir e de amar.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Kaleidoscópio - I

Anisio Mello

Balé de felino
entre as flores do verde:
traição à vista.

Foi buscar o sol
e com suas asas de cera
o sonho acabou.

No vaso quebrado
os retalhos de uma vida:
lembranças da China.

Num dia quentíssimo
com um balde d’água na mão
apaguei o sol.

Caindo do céu
como se fosse cristal
molha o chão: a chuva.

Olho o céu escuro
uma estrela abandonada
faz o meu luar.

Relógio-de-sol
com medo da tempestade
atrasou o dia.

Brotando do asfalto
o trilho do bonde é visto:
praça da Saudade.

Saudade e lembrança
duas emoções que se unem
na velha cidade.

Madeira no campo.
Polpa, papel e palavra:
o livro está pronto.