Saudade
Guimarães de Paula (1932-1996)
Um gosto antigo de lua
veio-me até a memória.
Aves mortas renasceram
no canto forte e metálico.
O vento trouxe os fantasmas
e os olhos riram de novo
o riso filho da infância
à aproximação de um boneco.
Tudo porque na lembrança
coisas, gestos e palavras
conservaram forma e cor.
Amigos do Fingidor
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Estante do tempo
Cascata
Guimarães de Paula (1932-1996)
Raio de lua
rolando cai
na pedra negra
unido ao frio
e se esvai
como um rio
sobre
outro rio.
Guimarães de Paula (1932-1996)
Raio de lua
rolando cai
na pedra negra
unido ao frio
e se esvai
como um rio
sobre
outro rio.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Estante do tempo
Os rebanhos da fuga
Guimarães de Paula (1932-1996)
Pelos campos da vida
meus sonhos sombras de mim mesmo
tais como rebanhos
sem água e sem pasto
fogem à procura de Deus.
Guimarães de Paula (1932-1996)
Pelos campos da vida
meus sonhos sombras de mim mesmo
tais como rebanhos
sem água e sem pasto
fogem à procura de Deus.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Estante do tempo
Elegias – Quinta
Guimarães de Paula (1932-1996)
Esta é a quinta estação da vida: a da lembrança,
a que reúne a primavera, o verão, o outono e o inverno,
e expressa a visão do que foi, do que é e do que será.
Opimas uvas foram esmagadas no passado e hoje
o vinho delas escorre e se bebido só produz ressaca...
Faces, mãos e sexos esmaecem sob a sépia do tempo
que – tal um polvo – aperta os seus tentáculos.
Das canções de ninar e dos colóquios de amor
apenas ecos longínquos reverberam em ouvidos agora imperfeitos.
O tato não mais capta a macia sensação do veludo da pele
que cobria ancas mornas e seios em fogo e
não percebe a ardência de púbis juvenis tumescentes na espera do cio.
Em tudo agora o que aflora é um titilar de saudade.
Há cinza, muita cinza se espalhando sobre antigas brasas
– rescaldo sem Phoenix...
Há musgo, muito musgo crescendo, pois o que era humano transformou-se em argila...
Há tédio, muito tédio consumindo a vida e
ninguém, ninguém pode ajudar ou amparar
porque tudo o que devia ser já foi escrito.
Jamais haverá retorno à primavera! Consumatum est!
Caput mortuum! Cinzas, cinzas
que os ventos da noite soprarão para o além!
enquanto teus gestos e o mês
chegando intocados
trazem o cálice para o esquecimento.
Guimarães de Paula (1932-1996)
Esta é a quinta estação da vida: a da lembrança,
a que reúne a primavera, o verão, o outono e o inverno,
e expressa a visão do que foi, do que é e do que será.
Opimas uvas foram esmagadas no passado e hoje
o vinho delas escorre e se bebido só produz ressaca...
Faces, mãos e sexos esmaecem sob a sépia do tempo
que – tal um polvo – aperta os seus tentáculos.
Das canções de ninar e dos colóquios de amor
apenas ecos longínquos reverberam em ouvidos agora imperfeitos.
O tato não mais capta a macia sensação do veludo da pele
que cobria ancas mornas e seios em fogo e
não percebe a ardência de púbis juvenis tumescentes na espera do cio.
Em tudo agora o que aflora é um titilar de saudade.
Há cinza, muita cinza se espalhando sobre antigas brasas
– rescaldo sem Phoenix...
Há musgo, muito musgo crescendo, pois o que era humano transformou-se em argila...
Há tédio, muito tédio consumindo a vida e
ninguém, ninguém pode ajudar ou amparar
porque tudo o que devia ser já foi escrito.
Jamais haverá retorno à primavera! Consumatum est!
Caput mortuum! Cinzas, cinzas
que os ventos da noite soprarão para o além!
enquanto teus gestos e o mês
chegando intocados
trazem o cálice para o esquecimento.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Estante do tempo
Espelho e face
Guimarães de Paula (1932-1996)
Mata-nos o não vermos
no espelho de hoje
a nossa face de ontem.
Flor de alegria ou de mágoa
que outrora nascia de nós
crestou-se (ignota) no tempo.
A cada dia
quanto mais nos conhecemos
deixamos de ser nós mesmos,
dispersados, divididos,
em não sei quantos milhares
de faces dessemelhantes.
Guimarães de Paula (1932-1996)
Mata-nos o não vermos
no espelho de hoje
a nossa face de ontem.
Flor de alegria ou de mágoa
que outrora nascia de nós
crestou-se (ignota) no tempo.
A cada dia
quanto mais nos conhecemos
deixamos de ser nós mesmos,
dispersados, divididos,
em não sei quantos milhares
de faces dessemelhantes.
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