Amigos do Fingidor

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terça-feira, 18 de maio de 2010

Das dores ou sublingual

Grace Cordeiro




Não, não compreendo a minha lida
Sina algoz, feroz, fútil
Não é túnel nem fuzil
Nem fósforo aceso na escuridão
(lembrança de Érico Veríssimo)

Caminha-se só
Caminha-se nó
Na garganta, o som disfarçado de flecha
No pescoço, o alvo da ideia retilínea

E aquela luz é doce e seca e morta
E aquela escuridão é luz morta
Luzes apagadas, afogadas
Luzes que se foram

Por que entender se nada faz sentido
Por que ser, se somos todos um
Anil, anis, anéis

Sei da lima que corta
O ferro velho:
Enferrujado, enrugado, servil
A guilhotina,
Ferro novo:
Mente aberta, cabeça caída

Luz, escuridão, luz
Descansando no caos
Não há motivo óbvio
Para se descansar
– manter coração e razão –

Há sim...Carmim, jasmim, curumim
Há...Sobrevivência, subversão, subvenção

Subir a escada e não cair
Descer carregando a amada
(Ah! Das Dores)
E voltar íntegro, com as lavas
Eternas da inquietude que lambe
O mel da juventude

Sobreviver para sobreviver
Não para amar, odiar, ler
Escrever, apenas sobreviver
O resto, o reto, o gesto são consequências.

O canto do galo ao meio-dia.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Dia & Rio

Grace Cordeiro

o dia refaz a rotina da sina
bela e naufragante rotina
o dia acende o osso
(Dylan Thomas)

o dia rói o osso
o dia queima o osso
o dia come o osso
porque o osso dói no dia

o pão nosso que nos redime
e nos oprime
marcha lentamente pelas vitrines

o dia consola a amante, diamante
o dia sorri solenemente, diariamente
o dia cospe na grama, diagrama

diadorim, diabrura
diarréia, diabetes
o dia brilha nos olhos
a noite morre nos olhos
fossas, olhos, ossos – o rio leva

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

oLHo de PeixE

Grace Cordeiro
Para Max Rodrigues

Um minuto para o grito de paz de Israel.
Um minuto para a reverência ao trabalhista Tony Blair, primeiro-ministro inglês.
Trinta anos para o líder rebelde zairense Laurent Kabila colher seus frutos
Saló. Manias, Sangue. Pasolini. Libertinos ou Libertários?
Cem anos de Pixinguinha.
Duzentos anos de brincadeiras guerreiras.
Roubo não é pilhagem, é expropriação.
Tuyaka. Kinja. Comércio de bugigangas às avessas. O circo está na cidade.
Terra! Querer Terra!
Clava, Suor que nada, é dizimação mesmo! Deles!
Caos. Corpo. Fogo e Indignidade.

Sebastião Salgado para os seus.
A rede balança de sonhos crioulos, louros e alfamegatizados.
Iara será cortesã do século XXI, quando os alquimistas
Do capitalismo transformarem água em ouro,
Ela será matéria rara no meu bit sexual.
A floresta despida e prostituída sem vaselina alguma.

Bocage voltará fantasiado de Paulo Francis.
Lima Barreto terá clones; os bordeis bêbados
Do Porto de Lenha serão empestados por fingidores-
Gênios danificados (Humanos?!)
Um Coração sob Sotaina. Os Desertos do Amor.
Prosas Evangélicas e Carta do Barão P.
- Rimbaud desistiu de uma 10a. edição.

Fujimori fugiu para Nicarágua travestido de anjo pela
Rede Globo.
Caetano se embalsamou com seu terno lilás .
Jefferson Péres teve um infarto tentando soletrar
N-E-O-L-I-B-E-R-A-L-I-S-M-O,
Ele cansou de quebrar murinhos.

O menino que recebeu a carta do pai guerrilheiro morto
Tomou a virgindade da neta do ditador.
Pena! Ela não tinha nada a ver com a história.
Saiu o filme de Scott, Cidadão Kane sem Rosebud.

E eu, sem memória computadorizada, ainda lembro
Dela , que tinha na bunda o que Gorbatchev tinha
Na testa do mundo.
O grito saiu sem ecos: seios virados para as estrelas, ou
Era algo mais.

A voz de Lucinha Cabral consola almas fujimundas* no
Casarão-bar da rua 24 de Maio.

A vida inteira que poderia ter sido e é.

* Palavra “emprestada” de um poema de Haroldo Campos. S/anotação.