Marco Catalão
Todos os jovens poetas são
ridículos.
Não seriam jovens poetas se não fossem
ridículos.
Também fui em meu tempo um jovem poeta,
como os outros,
ridículo.
Os jovens poetas, se são jovens, e ainda por cima poetas,
têm de ser
ridículos.
Mas, afinal,
só as criaturas que nunca escreveram
versos na juventude
e nunca os publicaram em revistas que nunca duravam mais que três números
é que são
ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
sem dar por isso
poemas exaltados comovidos rebeldes
e ridículos.
A verdade é que hoje
as minhas memórias
desses poemas
é que são
ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
como os sentimentos esdrúxulos,
como os quarentões cheios de escrúpulos,
são naturalmente
ridículas.)
Amigos do Fingidor
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Arte poética
Mauricio Matos
baixei do lugar de onde vim
e dentro em mim mesmo desci
sem longe nem perto ou aqui
sem rumo princípio nem fim
eu mesmo cavalo-de-mim
baixei do lugar de onde vim
e dentro em mim mesmo desci
sem longe nem perto ou aqui
sem rumo princípio nem fim
eu mesmo cavalo-de-mim
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Romance
Marcos Ferreira
Hoje eu me sinto imensamente triste,
e triste tudo em minha vida eu sinto.
Já não mais canto como já me ouviste
cantar feliz o meu querer distinto...
Nada mais resta e nada mais existe
além das cinzas desse amor extinto.
O tempo agora, com seu dedo em riste,
é tão diverso quanto mais sucinto.
Não há mais nada para nos dizermos.
A nossa história se resume agora
a um calhamaço de sonhos enfermos.
E assim se acaba tudo o que vivemos.
Nós dois que fomos tanta coisa outrora,
nada mais somos, nada mais seremos.
Hoje eu me sinto imensamente triste,
e triste tudo em minha vida eu sinto.
Já não mais canto como já me ouviste
cantar feliz o meu querer distinto...
Nada mais resta e nada mais existe
além das cinzas desse amor extinto.
O tempo agora, com seu dedo em riste,
é tão diverso quanto mais sucinto.
Não há mais nada para nos dizermos.
A nossa história se resume agora
a um calhamaço de sonhos enfermos.
E assim se acaba tudo o que vivemos.
Nós dois que fomos tanta coisa outrora,
nada mais somos, nada mais seremos.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Mar e lua
Chico Buarque
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
– Todo mundo conta –
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
– Todo mundo conta –
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
I don’t like myself
Geraldo Carneiro
queria ser outro, perambular
entre as bandeiras enfunadas de pasárgada
bailar no bas-fond de Baudelaire
navegar no barco de Rimbaud
às vezes veranear nos subúrbios do Inferno
na selva selvagem de Dante
sempre argonauta de ultramares
sem o terror narcísico do espelho:
o mesmo círculo a mesma escrita o mesmo rosto
o mesmo animal confinado
em sua ridícula circunstância
queria ser outro, perambular
entre as bandeiras enfunadas de pasárgada
bailar no bas-fond de Baudelaire
navegar no barco de Rimbaud
às vezes veranear nos subúrbios do Inferno
na selva selvagem de Dante
sempre argonauta de ultramares
sem o terror narcísico do espelho:
o mesmo círculo a mesma escrita o mesmo rosto
o mesmo animal confinado
em sua ridícula circunstância
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Se eu tiver que partir...
Antonio Lazaro de Almeida Prado
Se eu tiver que partir, que seja à noite,
Quando inda restam a esperança e o anseio
De, cedo, reencontrar-me nos teus sonhos.
Se eu tiver que partir, que seja à noite...
De noite, tu dirás que apenas durmo,
Que após rápido sono, curta ausência,
Hei-de voltar para o marcado encontro...
Se eu tiver que partir, que seja à noite...
De dia, não será, porque de dia
Sabemos que o navio parte, e não volta...
Se eu tiver que partir, que seja à noite...
Então, tu poderás fechar-me os olhos,
Beijar-me o rosto, minha doce amada,
Porque te deixarei somente à noite...
(Para Themis)
Se eu tiver que partir, que seja à noite,
Quando inda restam a esperança e o anseio
De, cedo, reencontrar-me nos teus sonhos.
Se eu tiver que partir, que seja à noite...
De noite, tu dirás que apenas durmo,
Que após rápido sono, curta ausência,
Hei-de voltar para o marcado encontro...
Se eu tiver que partir, que seja à noite...
De dia, não será, porque de dia
Sabemos que o navio parte, e não volta...
Se eu tiver que partir, que seja à noite...
Então, tu poderás fechar-me os olhos,
Beijar-me o rosto, minha doce amada,
Porque te deixarei somente à noite...
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Lições de arquitetura
Ferreira Gullar
No ombro do planeta
(em Caracas)
Oscar depositou
para sempre
uma ave uma flor
(ele não faz de pedra
nossas casas:
faz de asa)
No coração de Argel sofrida
fez aterrizar uma tarde
uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida
(com seu traço futuro
Oscar nos ensina
que o sonho é popular)
Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos
com matéria dura:
o ferro o cimento a fome
da humana arquitetura
nos ensina a viver
no que ele transfigura:
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo
Oscar nos ensina
que a beleza é leve
Para Oscar Niemeyer
No ombro do planeta
(em Caracas)
Oscar depositou
para sempre
uma ave uma flor
(ele não faz de pedra
nossas casas:
faz de asa)
No coração de Argel sofrida
fez aterrizar uma tarde
uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida
(com seu traço futuro
Oscar nos ensina
que o sonho é popular)
Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos
com matéria dura:
o ferro o cimento a fome
da humana arquitetura
nos ensina a viver
no que ele transfigura:
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo
Oscar nos ensina
que a beleza é leve
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Soneto 340 – Sintético
Glauco Mattoso
De como a poesia é definida
depende a trajetória do poeta.
Qual é, pergunto, a fórmula secreta
que traça em poucas linhas uma vida?
Segundo Rilke, a lira não duvida.
Mas Eliot é turrão, e tudo objeta.
Bashô quanto mais crê menos se aquieta.
Pessoa diz que é fé na dor fingida.
Divergem tantos mestres só no tom.
Não há por que dar tratos ao bestunto:
há química no verso, não um dom.
Qualquer opinião, qualquer assunto
será, verdade ou não, poema bom
se for densa a fração, breve o conjunto.
De como a poesia é definida
depende a trajetória do poeta.
Qual é, pergunto, a fórmula secreta
que traça em poucas linhas uma vida?
Segundo Rilke, a lira não duvida.
Mas Eliot é turrão, e tudo objeta.
Bashô quanto mais crê menos se aquieta.
Pessoa diz que é fé na dor fingida.
Divergem tantos mestres só no tom.
Não há por que dar tratos ao bestunto:
há química no verso, não um dom.
Qualquer opinião, qualquer assunto
será, verdade ou não, poema bom
se for densa a fração, breve o conjunto.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Descobrimento
Noémia de Souza (1926-2002)
Quando a tua mão macia e serena de branco
e estendeu fraternalmente para mim
e através Índicos de preconceitos
apertou com carinho meus dedos mulatos enclavinhados;
quando teus olhos inchados de compreensão
pousaram no mapa doloroso do meu rosto de África;
quando a piroga do teu amor e fez ao mar
e veio aportar ao meu peito ensanguentado e céptico;
ah, quando a tua voz doce e fresca como um lanho
me trouxe a bandeira branca da palavra “IRMÔ,
é que eu senti, profunda como um selo em brasa
verrumando a carne,
a força terrível e única do nosso abraço fraterno,
a inquebrantável cadeia das nossas mãos enfim juntas,
a indestrutível resistência da muralha erguida
por nossas maravilhosas juventudes unidas.
Ah, amigo, quando a tua mão certa e serena de branco
procurou o desespero da minha mão sem rumo…
(Ao J. Mendes)
Quando a tua mão macia e serena de branco
e estendeu fraternalmente para mim
e através Índicos de preconceitos
apertou com carinho meus dedos mulatos enclavinhados;
quando teus olhos inchados de compreensão
pousaram no mapa doloroso do meu rosto de África;
quando a piroga do teu amor e fez ao mar
e veio aportar ao meu peito ensanguentado e céptico;
ah, quando a tua voz doce e fresca como um lanho
me trouxe a bandeira branca da palavra “IRMÔ,
é que eu senti, profunda como um selo em brasa
verrumando a carne,
a força terrível e única do nosso abraço fraterno,
a inquebrantável cadeia das nossas mãos enfim juntas,
a indestrutível resistência da muralha erguida
por nossas maravilhosas juventudes unidas.
Ah, amigo, quando a tua mão certa e serena de branco
procurou o desespero da minha mão sem rumo…
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Câmara de ecos
Waly Salomão (1943-2003)
Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.
Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.
Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.
Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
O poema
Luiza Neto Jorge (1939-1989)
I
Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem
falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme
II
Piso do poema
chão de areia
Digo na maneira
mais crua e mais
intensa
de medir o poema
pela medida inteira
o poema em milímetro
de madeira
ou apodrece o poema
ou se ateia
ou se despedaça
a mão ateia
ou cinco seis astros
se percorre
antes que o deserto
mate a fome
I
Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem
falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme
II
Piso do poema
chão de areia
Digo na maneira
mais crua e mais
intensa
de medir o poema
pela medida inteira
o poema em milímetro
de madeira
ou apodrece o poema
ou se ateia
ou se despedaça
a mão ateia
ou cinco seis astros
se percorre
antes que o deserto
mate a fome
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Sexta-feira
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Amor século XXI
Pedro Lindoso
Escrevi um poema de amor.
Deixei-o num pen drive,
que perdi.
Tirei fotos importantes.
Deixei-as no computador.
Foram deletadas.
Fiz juras de amor,
dispersas no espaço virtual.
Muito tempo depois,
encontrei o poema,
postado por inteiro
num site de amigos.
As fotos retornaram,
por e-mail.
As juras estavam intactas.
Salvas na memória e no coração,
de um grande e real amor.
Escrevi um poema de amor.
Deixei-o num pen drive,
que perdi.
Tirei fotos importantes.
Deixei-as no computador.
Foram deletadas.
Fiz juras de amor,
dispersas no espaço virtual.
Muito tempo depois,
encontrei o poema,
postado por inteiro
num site de amigos.
As fotos retornaram,
por e-mail.
As juras estavam intactas.
Salvas na memória e no coração,
de um grande e real amor.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Pandemos (Soneto 1 a Afrodite Anadiómena)
Jorge de Sena (1919-1978)
Dentífona apriuna a veste iguana
de que se escalca auroma e tentavela.
Como superta e buritânea amela
se palquitonará transcêndia inana!
Que vúlcios defuratos, que inumana
sussúrrica donstália penicela,
às trícotas relesta demiquela,
fissivirão bolíneos, ó primana!
Dentívolos palpículos, baissai!
lingâmicos dolins, refucarai!
Por mamivornas contumai a veste!
E, quando prolifarem as sangrárias,
lambidonai tutílicos anárias,
tão placitantos como o pedipeste.
Dentífona apriuna a veste iguana
de que se escalca auroma e tentavela.
Como superta e buritânea amela
se palquitonará transcêndia inana!
Que vúlcios defuratos, que inumana
sussúrrica donstália penicela,
às trícotas relesta demiquela,
fissivirão bolíneos, ó primana!
Dentívolos palpículos, baissai!
lingâmicos dolins, refucarai!
Por mamivornas contumai a veste!
E, quando prolifarem as sangrárias,
lambidonai tutílicos anárias,
tão placitantos como o pedipeste.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
A negra
Caetano de Costa Alegre (1864-1890)
Negra gentil, carvão mimoso e lindo
Donde o diamante sai,
Filha do sol, estrela requeimada,
Pelo calor do Pai,
Encosta o rosto, cândido e formoso,
Aqui no peito meu,
Dorme, donzela, rola abandonada,
Porque te velo eu.
Não chores mais, criança, enxuga o pranto,
Sorri-te para mim,
Deixa-me ver as pérolas brilhantes,
Os dentes de marfim.
No teu divino seio existe oculta
Mal sabes quanta luz,
Que absorve a tua escurecida pele,
Que tanto me seduz.
Eu gosto de te ver a negra e meiga
E acetinada cor,
Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada
Pelas chamas do amor;
Que outrora foste neve e amaste um lírio,
Pálida flor do vale,
Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te
O seio virginal.
Não chores mais, criança, a quem eu amo,
Ó lindo querubim,
O amor é como a rosa, porque vive
No campo, ou no jardim.
Tu tens o meu amor ardente, e basta
Para seres feliz;
Ama a violeta que a violeta adora-te
Esquece a flor-de-lis.
Negra gentil, carvão mimoso e lindo
Donde o diamante sai,
Filha do sol, estrela requeimada,
Pelo calor do Pai,
Encosta o rosto, cândido e formoso,
Aqui no peito meu,
Dorme, donzela, rola abandonada,
Porque te velo eu.
Não chores mais, criança, enxuga o pranto,
Sorri-te para mim,
Deixa-me ver as pérolas brilhantes,
Os dentes de marfim.
No teu divino seio existe oculta
Mal sabes quanta luz,
Que absorve a tua escurecida pele,
Que tanto me seduz.
Eu gosto de te ver a negra e meiga
E acetinada cor,
Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada
Pelas chamas do amor;
Que outrora foste neve e amaste um lírio,
Pálida flor do vale,
Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te
O seio virginal.
Não chores mais, criança, a quem eu amo,
Ó lindo querubim,
O amor é como a rosa, porque vive
No campo, ou no jardim.
Tu tens o meu amor ardente, e basta
Para seres feliz;
Ama a violeta que a violeta adora-te
Esquece a flor-de-lis.
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Sexta-feira
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Hoje não
Anne Lucy
Hoje não quero fazer nada!
Tirem-me daqui as convenções
O costume e a moral
Hoje quero ser eu em estado vegetal!
Quero não pensar demais
Não ter preocupações
Sair do convencional
Tirar-me as ocupações
Buscar apenas a felicidade
Com muito ócio e banalidades
Uma vida dionisíaca
Ser de Baco uma amiga
Hoje me quero vazia!
Estou cansada de transbordar
Diversos sentimentos
Em risos e lágrimas me acabar
Quero ser niilista, egoísta
Narcisista, vigarista, masoquista
Rotulem-me, decifrem-me
Quem poderá me absorver?
Hoje é dia de feira das emoções
Quem pagará por um sentimento?
Eu transformo tudo em canções
E escapo de qualquer julgamento.
Hoje não quero fazer nada!
Tirem-me daqui as convenções
O costume e a moral
Hoje quero ser eu em estado vegetal!
Quero não pensar demais
Não ter preocupações
Sair do convencional
Tirar-me as ocupações
Buscar apenas a felicidade
Com muito ócio e banalidades
Uma vida dionisíaca
Ser de Baco uma amiga
Hoje me quero vazia!
Estou cansada de transbordar
Diversos sentimentos
Em risos e lágrimas me acabar
Quero ser niilista, egoísta
Narcisista, vigarista, masoquista
Rotulem-me, decifrem-me
Quem poderá me absorver?
Hoje é dia de feira das emoções
Quem pagará por um sentimento?
Eu transformo tudo em canções
E escapo de qualquer julgamento.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
O fazedor de versos
Eliakin Rufino
Hoje chegou na cidade
um poeta fingidor
um fazedor de versos
um cantor.
Escreve versos de amor
para os amantes
escreve versos de adeus
para os distantes.
Versos de esperança
e de carinho
pra quem necessita de luz
em seu caminho.
Verso de todo tamanho
para qualquer situação
verso água-com-açúcar
verso bala de canhão.
Hoje chegou na cidade
um poeta fingidor
um fazedor de versos
um cantor.
Escreve versos de amor
para os amantes
escreve versos de adeus
para os distantes.
Versos de esperança
e de carinho
pra quem necessita de luz
em seu caminho.
Verso de todo tamanho
para qualquer situação
verso água-com-açúcar
verso bala de canhão.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Em busca da flor, além
Domingos Florentino
Porque procuras o Sol
no infinito
irei contigo às estrelas
à procura do Sol
Porque sentes o aroma da flor
no cimo da montanha
irei contigo além
em busca da flor
Porque vives na noite
de um dia para nascer
esperarei contigo
pela vinda da aurora
Porque morres sozinho
sonhando
viverei contigo
na morte pela vida
Porque procuras o Sol
no infinito
irei contigo às estrelas
à procura do Sol
Porque sentes o aroma da flor
no cimo da montanha
irei contigo além
em busca da flor
Porque vives na noite
de um dia para nascer
esperarei contigo
pela vinda da aurora
Porque morres sozinho
sonhando
viverei contigo
na morte pela vida
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Soneto da palavra sem flor
Alaor Tristante
Neste momento de silêncio
já não ouço palavras
só as penso, caladas,
levadas ao vento.
Falaria sem dúvida
tanta coisa escondida
tanta coisa perdida
tanta coisa da vida.
Mas o silêncio da voz
deixa o grito da mente
cada minuto mais só.
E assim se faz pó
a palavra que calo
só penso e não falo.
Neste momento de silêncio
já não ouço palavras
só as penso, caladas,
levadas ao vento.
Falaria sem dúvida
tanta coisa escondida
tanta coisa perdida
tanta coisa da vida.
Mas o silêncio da voz
deixa o grito da mente
cada minuto mais só.
E assim se faz pó
a palavra que calo
só penso e não falo.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Litania do Corpo
Daniel Mazza
O corpo assim como é salso
É doce assim como é gozo
É assim também doloroso
É do homem o cadafalso.
É o estômago empacotado,
É o pênis enrijecido,
É o intestino retorcido,
É o sêmen ejaculado.
É o rim no dorso empedrado,
É a vagina umedecida,
É a vulva aberta, florida,
É o pulmão todo manchado.
É também a axila e a mão,
As viscosas reentrâncias
Que recendem as fragrâncias
Com aroma de excreção.
É também a messalina,
Boca cheia de saliva.
A êmese copulativa
Perfumada de endorfina.
É também a febre ardente,
O frio calor nos ossos.
E o bombear dos remorsos
Do coração fervescente.
É também o suor frio
E os artelhos putrefatos.
O nojo em olhar os pratos
E os enjoos do fastio.
O corpo é um cadafalso
É um gozo que é doloroso
É um limpo que é asqueroso
É um doce que é também salso.
É a morada dos covardes,
Das vísceras traiçoeiras,
Caladas, mas sempre arteiras,
Planejando enfermidades.
É a morada dos suplícios
Dos temores, das fraturas,
Dos tumores, das agruras,
Das tormentas e dos vícios.
É também o combustível
Dos caules e das raízes.
E o sangue das hemoptises
É um adubo imprescindível.
É também a lauta mesa
Dos vermes intestinais,
Das larvas dos funerais:
Empregados da limpeza.
O corpo assim como é salso
É doce assim como é gozo
É assim também doloroso
É do homem o cadafalso.
O corpo assim como é salso
É doce assim como é gozo
É assim também doloroso
É do homem o cadafalso.
É o estômago empacotado,
É o pênis enrijecido,
É o intestino retorcido,
É o sêmen ejaculado.
É o rim no dorso empedrado,
É a vagina umedecida,
É a vulva aberta, florida,
É o pulmão todo manchado.
É também a axila e a mão,
As viscosas reentrâncias
Que recendem as fragrâncias
Com aroma de excreção.
É também a messalina,
Boca cheia de saliva.
A êmese copulativa
Perfumada de endorfina.
É também a febre ardente,
O frio calor nos ossos.
E o bombear dos remorsos
Do coração fervescente.
É também o suor frio
E os artelhos putrefatos.
O nojo em olhar os pratos
E os enjoos do fastio.
O corpo é um cadafalso
É um gozo que é doloroso
É um limpo que é asqueroso
É um doce que é também salso.
É a morada dos covardes,
Das vísceras traiçoeiras,
Caladas, mas sempre arteiras,
Planejando enfermidades.
É a morada dos suplícios
Dos temores, das fraturas,
Dos tumores, das agruras,
Das tormentas e dos vícios.
É também o combustível
Dos caules e das raízes.
E o sangue das hemoptises
É um adubo imprescindível.
É também a lauta mesa
Dos vermes intestinais,
Das larvas dos funerais:
Empregados da limpeza.
O corpo assim como é salso
É doce assim como é gozo
É assim também doloroso
É do homem o cadafalso.
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