Estudo IX
Alcides Werk (1934-2003)
Fez-se uma curta pausa. E a noite baça
estendeu seus lençóis sobre as cidades.
Ventos frios de morte andavam soltos,
e formas embuçadas destruíam
restos vagos de luz. Alguns senhores
guardaram pressurosos seus haveres
para a estranha vigília dos sonâmbulos.
Nas sombrias e extensas avenidas
as multidões dos homens deserdados
prosseguiram seus ritos no silêncio
de uma noite sem tempo. E os anciãos
das várias tribos foram convocados
para o mister pacífico das aras
e a glorificação das horas mortas.
Amigos do Fingidor
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Estante do tempo
Papéis velhos... roídos pela traça do Símbolo
Maranhão Sobrinho (1879-1915)
Primeira folha
Velhos papéis... de versos. São pedaços
da minhalma, batidos pelo vento,
como as folhas do outono... Guardam traços
de um tempo, que passou, sem pensamento...
Preso nalgema dos teus alvos braços
teci-os; cada um lembra um momento
do nosso amor que, por eternos laços,
outrora, nos unia a um firmamento...
Se alguma glória tem, formosa, é esta:
todos o teu celeste amor perfuma,
em todos há tualma em riso e festa!
Velhos papéis, meu último conforto!
sois uma nódoa efêmera de espuma
perdida à face azul dum lago morto...
Última folha
...E o mais dos carunchosos manuscritos
não se lê, pela traça que os carcome;
são páginas, talvez, feitas de gritos,
mas ilegíveis no mais breve nome...
Vê-se, porém, que mãos e olhos aflitos
traçaram-nas chorando, à sede e à fome
de beijos e de abraços infinitos,
em qualquer folha que nas mãos se tome...
A poeira de séculos de mágoa
deu às restantes folhas a tristeza
das ravinas e córregos sem água...
E à traça a mesma antiga opacidade
da história assíria, escrita nas aspereza
dos mármores sem-fim de Khorsabad...
Maranhão Sobrinho (1879-1915)
Primeira folha
Velhos papéis... de versos. São pedaços
da minhalma, batidos pelo vento,
como as folhas do outono... Guardam traços
de um tempo, que passou, sem pensamento...
Preso nalgema dos teus alvos braços
teci-os; cada um lembra um momento
do nosso amor que, por eternos laços,
outrora, nos unia a um firmamento...
Se alguma glória tem, formosa, é esta:
todos o teu celeste amor perfuma,
em todos há tualma em riso e festa!
Velhos papéis, meu último conforto!
sois uma nódoa efêmera de espuma
perdida à face azul dum lago morto...
Última folha
...E o mais dos carunchosos manuscritos
não se lê, pela traça que os carcome;
são páginas, talvez, feitas de gritos,
mas ilegíveis no mais breve nome...
Vê-se, porém, que mãos e olhos aflitos
traçaram-nas chorando, à sede e à fome
de beijos e de abraços infinitos,
em qualquer folha que nas mãos se tome...
A poeira de séculos de mágoa
deu às restantes folhas a tristeza
das ravinas e córregos sem água...
E à traça a mesma antiga opacidade
da história assíria, escrita nas aspereza
dos mármores sem-fim de Khorsabad...
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Estante do tempo
Rio de sono
Ernesto Penafort (1936-1992)
este é um rio de sono,
senhora.
este é um rio sem barcos
e tem toda feita em arcos
sua submersa flora.
pois este mesmo rio,
senhora,
que além de ser de sono
e sentir-se inavegável
(como se fosse de outono
sua eterna bruma de cobre)
é também um rio nobre.
inobstante ser pobre
de qualquer navegação,
pulsa nele, quando cai,
o dia, no fim do olhar,
o sol – seu coração.
Ernesto Penafort (1936-1992)
este é um rio de sono,
senhora.
este é um rio sem barcos
e tem toda feita em arcos
sua submersa flora.
pois este mesmo rio,
senhora,
que além de ser de sono
e sentir-se inavegável
(como se fosse de outono
sua eterna bruma de cobre)
é também um rio nobre.
inobstante ser pobre
de qualquer navegação,
pulsa nele, quando cai,
o dia, no fim do olhar,
o sol – seu coração.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Estante do tempo
Da noite do rio
Alcides Werk (1934-2003)
Nesta noite sem medida
eu todo banhado em sombras
fugi de casa, fugi
para o branco desta praia,
como se a aurora que busco
neste rio se afogou.
Preciso acordar o rio
que está cansado de viagens
para ver se me alivio
da morte que trago em mim
com falas de cobras-grandes
e de mortos pescadores
que fazem parte do rio
e estão assim como estou.
No céu repleto de nuvens
há nuvens cheias de chuva:
por que não chove? Quisera
molhar-me dentro da noite,
tremer de fome e de frio
por remissão dos meus males
deixar meu corpo vazio
guardando o castelo inútil
e partir buscando a aurora
para que venha depressa
banhar as águas do rio
e minha face marcada
dos ventos com que lutei.
Alcides Werk (1934-2003)
Nesta noite sem medida
eu todo banhado em sombras
fugi de casa, fugi
para o branco desta praia,
como se a aurora que busco
neste rio se afogou.
Preciso acordar o rio
que está cansado de viagens
para ver se me alivio
da morte que trago em mim
com falas de cobras-grandes
e de mortos pescadores
que fazem parte do rio
e estão assim como estou.
No céu repleto de nuvens
há nuvens cheias de chuva:
por que não chove? Quisera
molhar-me dentro da noite,
tremer de fome e de frio
por remissão dos meus males
deixar meu corpo vazio
guardando o castelo inútil
e partir buscando a aurora
para que venha depressa
banhar as águas do rio
e minha face marcada
dos ventos com que lutei.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Estante do tempo
Bolero das águas
Anibal Beça (1946-2009)
O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento cálice
em submerso bolero de águas tantas.
A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a língua de couro, lixa tântala,
alisando palavras rebuçadas.
Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as oiças,
é rito muezim ditando a dança:
no dois pra cá me levo em dois pra lá,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.
Anibal Beça (1946-2009)
O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento cálice
em submerso bolero de águas tantas.
A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a língua de couro, lixa tântala,
alisando palavras rebuçadas.
Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as oiças,
é rito muezim ditando a dança:
no dois pra cá me levo em dois pra lá,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Estante do tempo
Estudo XII
Alcides Werk (1934-2003)
Impossível voltar. A caminhada
já foi longe demais, e não me encontro.
Há marcas fundas do caminho antigo,
mas não posso sentir, vivo agitado.
Vejo em volta de mim alguns pedaços
do meu ser dividido. E tento, às vezes,
fraco e mesquinho como um delinquente,
redescobrir a minha identidade.
Impossível voltar, e continuo.
Elaboro miragens e as persigo
com a determinação dos suicidas.
E, passo a passo, cada dia cumpro
a função de votar o que me resta
em sacrifício a ti, num rito amargo.
Alcides Werk (1934-2003)
Impossível voltar. A caminhada
já foi longe demais, e não me encontro.
Há marcas fundas do caminho antigo,
mas não posso sentir, vivo agitado.
Vejo em volta de mim alguns pedaços
do meu ser dividido. E tento, às vezes,
fraco e mesquinho como um delinquente,
redescobrir a minha identidade.
Impossível voltar, e continuo.
Elaboro miragens e as persigo
com a determinação dos suicidas.
E, passo a passo, cada dia cumpro
a função de votar o que me resta
em sacrifício a ti, num rito amargo.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Estante do tempo
A lucidez da pedra
Antísthenes Pinto (1929-2000)
A lucidez é a loucura plena
como a pedra é água desde o início.
O amor, essa coisa mítica e terrena
é o fruir da ave – um artifício.
A loucura há de me levar acima,
amplamente, além das convenções,
há de retornar também em implosões
de seres e paisagens, aquém da rima.
O retorno é sempre um passo à frente
porque indescobrível como a aurora.
E é por isso que, hirto ou indolente,
perscruto o universo a toda hora.
Antísthenes Pinto (1929-2000)
A lucidez é a loucura plena
como a pedra é água desde o início.
O amor, essa coisa mítica e terrena
é o fruir da ave – um artifício.
A loucura há de me levar acima,
amplamente, além das convenções,
há de retornar também em implosões
de seres e paisagens, aquém da rima.
O retorno é sempre um passo à frente
porque indescobrível como a aurora.
E é por isso que, hirto ou indolente,
perscruto o universo a toda hora.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Estante do tempo
Sonetos autobiográficos 1
L. Ruas (1931-2000)
Fecundar o próprio sêmen sem ter medo
De em si mesmo dar o ser ao monstro azul.
Escalar o próprio abismo desmedido
E sorrir a cada passo dado em falso.
Desmembrar a tessitura do mistério,
Dissecar a óssea face em frente ao espelho
Estancando a imagem tola no momento
Da mentira venerável — prece infame —...
E depois compor de novo a melodia,
Restaurar as cores todas distendidas,
Refazer o mesmo poema delicado
E ficar paradamente na vidraça
Contemplando a chuva grossa e intermitente
Escorrendo em borbotões pelas sarjetas.
L. Ruas (1931-2000)
Fecundar o próprio sêmen sem ter medo
De em si mesmo dar o ser ao monstro azul.
Escalar o próprio abismo desmedido
E sorrir a cada passo dado em falso.
Desmembrar a tessitura do mistério,
Dissecar a óssea face em frente ao espelho
Estancando a imagem tola no momento
Da mentira venerável — prece infame —...
E depois compor de novo a melodia,
Restaurar as cores todas distendidas,
Refazer o mesmo poema delicado
E ficar paradamente na vidraça
Contemplando a chuva grossa e intermitente
Escorrendo em borbotões pelas sarjetas.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Estante do tempo
Onanismo
Farias de Carvalho (1930-1997)
Na vulvática flor da cadela saciada
os olhos do menino acenderam mistérios.
À noite, na penumbra, as lobas deslizaram
pelos punhos da rede. Mãos infantes
pela primeira vez bailaram lúcidas
a acrobacia atônita do sexo.
Farias de Carvalho (1930-1997)
Na vulvática flor da cadela saciada
os olhos do menino acenderam mistérios.
À noite, na penumbra, as lobas deslizaram
pelos punhos da rede. Mãos infantes
pela primeira vez bailaram lúcidas
a acrobacia atônita do sexo.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Estante do tempo
Por enquanto, não
Hemetério Cabrinha (1892-1959)
Disseram que eu morrera. Ainda é tão cedo
Para deixar em paz o velho mundo,
Onde, por entre espinhos me enveredo,
Como um simples rafeiro vagabundo.
Bem quisera eu fugir deste degredo!
Deste terrível lupanar imundo,
Onde, hoje, a vida é simplesmente o enredo
De um romance de fel e dor fecundo.
Para que viver mais, quem sobre os ombros,
A cruz da vida tem pesado tanto,
E trá-la a tropeçar por entre escombros?
Disseram que eu morrera. No entretanto,
Como um fantasma vil causando assombros
Ainda arrasto o cadáver por enquanto.
Hemetério Cabrinha (1892-1959)
Disseram que eu morrera. Ainda é tão cedo
Para deixar em paz o velho mundo,
Onde, por entre espinhos me enveredo,
Como um simples rafeiro vagabundo.
Bem quisera eu fugir deste degredo!
Deste terrível lupanar imundo,
Onde, hoje, a vida é simplesmente o enredo
De um romance de fel e dor fecundo.
Para que viver mais, quem sobre os ombros,
A cruz da vida tem pesado tanto,
E trá-la a tropeçar por entre escombros?
Disseram que eu morrera. No entretanto,
Como um fantasma vil causando assombros
Ainda arrasto o cadáver por enquanto.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Estante do tempo
Cromo
Maranhão Sobrinho (1879-1915)
Desce a tarde. Faísca o sol distante,
tingindo o céu de púrpura sagrada
e, dos montes, dourando, instante a instante,
a sinuosa e oblonga cumeada...
Do mar a face de ouro e azul plissada
faísca opalas vivas, coruscante
como um pedaço imenso da alvorada
entre as glórias e as pompas do levante!
De vez em quando, sobre a face imota
do mar, toda a fulgir de pedraria,
roça a asa de luz de uma gaivota...
E vão chegando, aos últimos fulgores
do sol que vai dourando as penedias,
longe, os barcos gentis dos pescadores...
Maranhão Sobrinho (1879-1915)
Desce a tarde. Faísca o sol distante,
tingindo o céu de púrpura sagrada
e, dos montes, dourando, instante a instante,
a sinuosa e oblonga cumeada...
Do mar a face de ouro e azul plissada
faísca opalas vivas, coruscante
como um pedaço imenso da alvorada
entre as glórias e as pompas do levante!
De vez em quando, sobre a face imota
do mar, toda a fulgir de pedraria,
roça a asa de luz de uma gaivota...
E vão chegando, aos últimos fulgores
do sol que vai dourando as penedias,
longe, os barcos gentis dos pescadores...
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Estante do tempo
Garça feliz
Quintino Cunha (1873-1943)
Um lago, a cuja flor, nas canaranas,
Impossível, traiçoeiro, repelente,
Um jacaré assustadoramente
Estruge e tange as gárrulas ciganas.
Depois margina a sombra das oeiranas,
Vendo uma garça, sorrateiramente,
Solta-lhe a cauda e um jato de repente
D’água, desfaz-se no ar em filigranas.
E, quando morta a triste garça eu via,
Como um toque ilusório de alegria,
No coração sensível da tristeza,
Rosna perto uma onça e o monstro solta
A embiara feliz, que as asas volta
Para o bonito Céu de azul-turquesa!
Quintino Cunha (1873-1943)
Um lago, a cuja flor, nas canaranas,
Impossível, traiçoeiro, repelente,
Um jacaré assustadoramente
Estruge e tange as gárrulas ciganas.
Depois margina a sombra das oeiranas,
Vendo uma garça, sorrateiramente,
Solta-lhe a cauda e um jato de repente
D’água, desfaz-se no ar em filigranas.
E, quando morta a triste garça eu via,
Como um toque ilusório de alegria,
No coração sensível da tristeza,
Rosna perto uma onça e o monstro solta
A embiara feliz, que as asas volta
Para o bonito Céu de azul-turquesa!
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Estante do tempo
Águas puras... águas barrentas...
Sebastião Norões (1915-1972)
Velho Madeira a deslizar profundo
por entre margens de vermelho e verde.
Meu velho rio – amálgama de águas
verdes e brancas e vermelhas e pretas.
Que escureza e que espessura fluem
dessa caudal eternamente enorme
na estação da grande cheia.
Em meio às canaranas e árvores, as barrancas descendo
e as garças jangadeando ilhotas ambulantes.
E as madeiras trazidas pelo líquido amarasmado,
– símbolo andejo a relembrar seu nome –
Velho Madeira a digerir molente
bastas terras caídas.
Semelhando, no andar moroso e langue,
a jibóia depois que a presa tem.
Que leveza e que beleza fluem,
nas suas águas de esmeralda e opala,
na época da seca.
Não mais troncos descendo, nem barrancos boiando,
águas pequenas, num correr suave,
gaivotas mostrando a flor branca das praias
e a pureza hospedando na liquidez de sonho.
Sebastião Norões (1915-1972)
Velho Madeira a deslizar profundo
por entre margens de vermelho e verde.
Meu velho rio – amálgama de águas
verdes e brancas e vermelhas e pretas.
Que escureza e que espessura fluem
dessa caudal eternamente enorme
na estação da grande cheia.
Em meio às canaranas e árvores, as barrancas descendo
e as garças jangadeando ilhotas ambulantes.
E as madeiras trazidas pelo líquido amarasmado,
– símbolo andejo a relembrar seu nome –
Velho Madeira a digerir molente
bastas terras caídas.
Semelhando, no andar moroso e langue,
a jibóia depois que a presa tem.
Que leveza e que beleza fluem,
nas suas águas de esmeralda e opala,
na época da seca.
Não mais troncos descendo, nem barrancos boiando,
águas pequenas, num correr suave,
gaivotas mostrando a flor branca das praias
e a pureza hospedando na liquidez de sonho.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Estante do tempo
Saudade
Guimarães de Paula (1932-1996)
Um gosto antigo de lua
veio-me até a memória.
Aves mortas renasceram
no canto forte e metálico.
O vento trouxe os fantasmas
e os olhos riram de novo
o riso filho da infância
à aproximação de um boneco.
Tudo porque na lembrança
coisas, gestos e palavras
conservaram forma e cor.
Guimarães de Paula (1932-1996)
Um gosto antigo de lua
veio-me até a memória.
Aves mortas renasceram
no canto forte e metálico.
O vento trouxe os fantasmas
e os olhos riram de novo
o riso filho da infância
à aproximação de um boneco.
Tudo porque na lembrança
coisas, gestos e palavras
conservaram forma e cor.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Estante do tempo
Últimos momentos de D. Quixote
Paulino de Brito (1858-1919)
Morir cuerdo y vivir loco...
Cervantes – El Quijote
À cabeceira o bacharel e o cura;
Sancho, todo choroso, aos pés da cama;
o barbeiro, a sobrinha e a velha ama
além um pouco, em lúgubre postura.
Despojado de lança e de armadura,
eis como aquele herói de eterna fama,
já vendo a Morte, que a terreiro o chama,
vai dar fim à sua última aventura.
Lembra-se então do tempo em que ansioso
de acometer gigantes, pavoroso
procurava-os montado em Rocinante.
Lembra e sorri: por fim reconhecera
que no mundo de anões, em que vivera,
ele só, D. Quixote, era o gigante!
Paulino de Brito (1858-1919)
Morir cuerdo y vivir loco...
Cervantes – El Quijote
À cabeceira o bacharel e o cura;
Sancho, todo choroso, aos pés da cama;
o barbeiro, a sobrinha e a velha ama
além um pouco, em lúgubre postura.
Despojado de lança e de armadura,
eis como aquele herói de eterna fama,
já vendo a Morte, que a terreiro o chama,
vai dar fim à sua última aventura.
Lembra-se então do tempo em que ansioso
de acometer gigantes, pavoroso
procurava-os montado em Rocinante.
Lembra e sorri: por fim reconhecera
que no mundo de anões, em que vivera,
ele só, D. Quixote, era o gigante!
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Estante do tempo
A Muhuraida, Canto 6º (fragmentos)
Henrique João Wilkens (17??-18??)
Mas já na Habitação do eterno dano,
O Príncipe das Trevas, Monstro informe,
Já no Sucesso vendo todo Arcano
Da Providência Santa, deu o enorme
Sinal acostumado, que do humano
Inimigo Esquadrão, negro, disforme,
Veloz, qual pensamento, logo ouvido,
Se ajunta, na aparência, destemido.
Eia, lhes diz, briosos Companheiros!
Dignos todos de eterna, melhor sorte!
Já que igualar quisestes os primeiros,
A aquele Deus, que rege a Vida, a Morte,
Já que poder só imenso, prisioneiros
Fazer-vos pode, e por Barreira forte,
O imenso espaço por, que daqui dista
Ao Céu, que já se nega à nossa Vista.
Os olhos levantai, vede essas Feras,
(Pois serem racionais, só a forma indica)
Já quase a substituir-nos nas Esferas
Celestes destinadas; já publica
Veloz a Fama, conjecturas meras,
Que só a credulidade justifica.
Mas temo, desprezada esta aparência,
Se realize a ruína co’evidência.
Ide pois precaver a contingência,
Não se perca da Presa a melhor parte;
As luzes lhe ofuscai da inteligência,
Empenhe-se Valor, destreza, e Arte.
Não se atribua nunca a Negligência
O desprezo do Aviso, pois reparte
O injusto Fado com desigualdade,
Poder, Ventura, e infelicidade.
Qual de Etna, ou de Vesúvio vasta entranha,
Fermentando indigesta Massa ardente,
Da repleção efeito, arroja estranha,
Temível, larga, ignífera Torrente;
No trânsito impetuoso quanto apanha
A cinzas reduzindo; indiferente
À dura penha, à flor, Jardim vistoso,
Casal humilde ou Povo numeroso.
Do Império assim das Trevas vai saindo,
Qual Torrente a Coorte, em Chama em volta;
O denso fumo os Ares já cobrindo,
Pestífero vapor, intenso solta.
Nas vastas Regiões se difundindo
Vai do Amazonas, Infernal Escolta;
Dos Átomos parece a qualidade
Neles se identifica, e quantidade.
(...)
Já aflitos, pensativos, despertando,
De ideia tal enfim preocupados;
Só mortes e vinganças respirando,
Já lhes tardava os ver executados.
Mas o Anjo Tutelar, que vigiando
Estava, e lamentando os enganados,
Armado do poder do Onipotente,
Tudo faz que se mude de repente.
Inspira a todos novo ardor, desejo,
De discernir o engano, e a verdade;
Ao Tentador infame, e seu Cortejo,
Sepulta na infeliz eternidade.
Faz, que ao rancor, universal festejo,
Entre os Muhras se siga, a brevidade
Do Embarque se procure; realizados
O fim proposto, os meios desejados.
Henrique João Wilkens (17??-18??)
Mas já na Habitação do eterno dano,
O Príncipe das Trevas, Monstro informe,
Já no Sucesso vendo todo Arcano
Da Providência Santa, deu o enorme
Sinal acostumado, que do humano
Inimigo Esquadrão, negro, disforme,
Veloz, qual pensamento, logo ouvido,
Se ajunta, na aparência, destemido.
Eia, lhes diz, briosos Companheiros!
Dignos todos de eterna, melhor sorte!
Já que igualar quisestes os primeiros,
A aquele Deus, que rege a Vida, a Morte,
Já que poder só imenso, prisioneiros
Fazer-vos pode, e por Barreira forte,
O imenso espaço por, que daqui dista
Ao Céu, que já se nega à nossa Vista.
Os olhos levantai, vede essas Feras,
(Pois serem racionais, só a forma indica)
Já quase a substituir-nos nas Esferas
Celestes destinadas; já publica
Veloz a Fama, conjecturas meras,
Que só a credulidade justifica.
Mas temo, desprezada esta aparência,
Se realize a ruína co’evidência.
Ide pois precaver a contingência,
Não se perca da Presa a melhor parte;
As luzes lhe ofuscai da inteligência,
Empenhe-se Valor, destreza, e Arte.
Não se atribua nunca a Negligência
O desprezo do Aviso, pois reparte
O injusto Fado com desigualdade,
Poder, Ventura, e infelicidade.
Qual de Etna, ou de Vesúvio vasta entranha,
Fermentando indigesta Massa ardente,
Da repleção efeito, arroja estranha,
Temível, larga, ignífera Torrente;
No trânsito impetuoso quanto apanha
A cinzas reduzindo; indiferente
À dura penha, à flor, Jardim vistoso,
Casal humilde ou Povo numeroso.
Do Império assim das Trevas vai saindo,
Qual Torrente a Coorte, em Chama em volta;
O denso fumo os Ares já cobrindo,
Pestífero vapor, intenso solta.
Nas vastas Regiões se difundindo
Vai do Amazonas, Infernal Escolta;
Dos Átomos parece a qualidade
Neles se identifica, e quantidade.
(...)
Já aflitos, pensativos, despertando,
De ideia tal enfim preocupados;
Só mortes e vinganças respirando,
Já lhes tardava os ver executados.
Mas o Anjo Tutelar, que vigiando
Estava, e lamentando os enganados,
Armado do poder do Onipotente,
Tudo faz que se mude de repente.
Inspira a todos novo ardor, desejo,
De discernir o engano, e a verdade;
Ao Tentador infame, e seu Cortejo,
Sepulta na infeliz eternidade.
Faz, que ao rancor, universal festejo,
Entre os Muhras se siga, a brevidade
Do Embarque se procure; realizados
O fim proposto, os meios desejados.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Estante do tempo
A medida do azul
Ernesto Penafort (1936-1992)
A medida do azul é o estender-se
do olhar por sobre os seres. Esse arguto
perceber que se tem de não mover-se
o objeto – já por ser absoluto.
A medida do azul é ver um luto
contido em toda flor e o abster-se
cada qual de assumir seu tom enxuto
e noutro que o não seu absorver-se.
A medida do azul, pelo contrário,
não é ver no horizonte o fim do olhar,
mas o ter desta vida aonde chegar,
pois ali tem o mundo o seu ovário:
e o retorno acontece, sempre estável,
eis que o azul é o início do infindável.
Ernesto Penafort (1936-1992)
A medida do azul é o estender-se
do olhar por sobre os seres. Esse arguto
perceber que se tem de não mover-se
o objeto – já por ser absoluto.
A medida do azul é ver um luto
contido em toda flor e o abster-se
cada qual de assumir seu tom enxuto
e noutro que o não seu absorver-se.
A medida do azul, pelo contrário,
não é ver no horizonte o fim do olhar,
mas o ter desta vida aonde chegar,
pois ali tem o mundo o seu ovário:
e o retorno acontece, sempre estável,
eis que o azul é o início do infindável.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Estante do tempo
Oráculo
L. Ruas (1931-2000)
Tenho pena, disse-me o meu Deus,
Daquele que é amado por mim.
Tenho muita pena.
Tenho pena, disse-me o meu Deus,
Porque aquele que eu amar
Jamais
Terá um só momento de paz.
Aquele que eu mais amar
Jamais terá dias tranquilos
Nem mesmo aos domingos
Ele poderá se divertir.
Por exemplo, não terá
Aquela paz necessária que é preciso ter
Para passar um dia inteiro, de calção,
Num balneário. E se sentir feliz.
E, à noite, não frequentará buates
Nem “dancings”, nem “night clubs”,
Porque já não terá mais em si
A tranquilidade inócua dos felizes.
Não digo que ele não vá. Isso não.
Ele vai, mas, não como os outros vão.
Porque o que ele busca nessas coisas
Não é mais felicidade. Nem prazer.
O que ele quer mesmo é me encontrar em tudo isso.
Porque eu o amo de tal modo
Que ele quer me encontrar em toda parte.
Aquele que eu amo, disse-me o meu Deus,
Fica besta que nem poeta enamorado:
Me julga ver em toda parte e em todo mundo.
E não se cansa nunca de me procurar.
Por ele, nunca mais me largaria
Nunca mais estaria longe de mim.
E este desejo de estar perto de mim,
Sempre,
É que o fere e o maltrata.
Um dos que eu mais amei, foi Paulo,
Aquele judeu nascido em Tarso.
Outro que também muito amei foi Francisco.
Aquele nascido em Assis, na Úmbria – Itália.
E vocês bem sabem as tolices que fizeram.
Se a causa de tudo aquilo não fosse meu amor
Eu vos digo que não aprovaria o que fizeram:
Não aprovaria ter Francisco brigado com seu pai
Nem Paulo ter apelado, tolamente, para César.
Isso não são coisas que um homem de bem deva fazer...
Mas, enfim, o culpado fui eu que muito amei.
É por isso, disse-me o meu Deus,
Que eu não amo todos os homens igualmente.
Porque eu não sei amar de outro modo
Só sei amar assim, desmedidamente.
Não sei amar como amam os homens “comportados”:
Com elegância , com medida, com “finesse”.
Porque eles são feitos com medida e com limites.
Mas eu sou o “sem limites”e o “sem medidas”.
Por isso não amo todos igualmente:
Escolho entre muitos os que podem
Suportar as minhas exigências. Os mais fortes.
Porque depois de algum tempo ficam fracos
E consumidos pelo meu amor que os devora.
Eu sei, disse-me o meu Deus, que muitos gostariam
Que eu os amasse como amei Francisco e Paulo.
Mas eles não sabem muito bem o que desejam.
Eu sei que eles não resistiriam ao muito amor
Porque são limitados e muito fracos.
Por isso não amarei todos igualmente
Porque mesmo os mais fortes quase não resistem.
Ainda hoje acho graça dos doutores, disse Deus,
Que querem explicar as cantigas de João da Cruz
E as visões da minha Tereza D’Avila
Como um simples caso de psicopatologia.
E, depois, disse Deus, eu mesmo quis que houvesse
Entre os homens e, mesmo, em minha Igreja,
Um certo clima de paz e de sossego
Para que as coisas fossem feitas devagar
Como convém que se faça entre os humanos.
Porque só eu sei fazer, com rapidez,
Coisas bem feitas, bem perfeitas.
Mas os homens não sabem e é preciso,
Por isso, dar-lhes tempo e alguma paz.
Mas, aqueles que eu amo perdem a paz
E querem fazer tudo logo de uma vez.
E não deixam mais ninguém ficar em paz.
Atrapalham mesmo os meus Pontífices
No governo da Igreja se eu não chego
A tempo de impedir que assim o façam.
Porque os meus Pontífices são os meus Pontífices.
E eu os quero assim. Mas, nem sempre
Meus Pontífices são meus amados também.
Tenho muita pena, disse Deus,
Daquele que é amado por mim.
Porque é muito triste ver um homem
Pequeno, limitado, circunscrito,
Querendo satisfazer o meu amor
Ilimitado.
Tenho muita pena, disse Deus,
E, muitas vezes, também choro
Quando, a sós, ele chora,
Me suplica e implora
Para que me afaste dele.
Tenho muita pena, mas, não posso
Fazer nada por ele senão mesmo
Mais amá-lo, mesmo que não queira.
L. Ruas (1931-2000)
Tenho pena, disse-me o meu Deus,
Daquele que é amado por mim.
Tenho muita pena.
Tenho pena, disse-me o meu Deus,
Porque aquele que eu amar
Jamais
Terá um só momento de paz.
Aquele que eu mais amar
Jamais terá dias tranquilos
Nem mesmo aos domingos
Ele poderá se divertir.
Por exemplo, não terá
Aquela paz necessária que é preciso ter
Para passar um dia inteiro, de calção,
Num balneário. E se sentir feliz.
E, à noite, não frequentará buates
Nem “dancings”, nem “night clubs”,
Porque já não terá mais em si
A tranquilidade inócua dos felizes.
Não digo que ele não vá. Isso não.
Ele vai, mas, não como os outros vão.
Porque o que ele busca nessas coisas
Não é mais felicidade. Nem prazer.
O que ele quer mesmo é me encontrar em tudo isso.
Porque eu o amo de tal modo
Que ele quer me encontrar em toda parte.
Aquele que eu amo, disse-me o meu Deus,
Fica besta que nem poeta enamorado:
Me julga ver em toda parte e em todo mundo.
E não se cansa nunca de me procurar.
Por ele, nunca mais me largaria
Nunca mais estaria longe de mim.
E este desejo de estar perto de mim,
Sempre,
É que o fere e o maltrata.
Um dos que eu mais amei, foi Paulo,
Aquele judeu nascido em Tarso.
Outro que também muito amei foi Francisco.
Aquele nascido em Assis, na Úmbria – Itália.
E vocês bem sabem as tolices que fizeram.
Se a causa de tudo aquilo não fosse meu amor
Eu vos digo que não aprovaria o que fizeram:
Não aprovaria ter Francisco brigado com seu pai
Nem Paulo ter apelado, tolamente, para César.
Isso não são coisas que um homem de bem deva fazer...
Mas, enfim, o culpado fui eu que muito amei.
É por isso, disse-me o meu Deus,
Que eu não amo todos os homens igualmente.
Porque eu não sei amar de outro modo
Só sei amar assim, desmedidamente.
Não sei amar como amam os homens “comportados”:
Com elegância , com medida, com “finesse”.
Porque eles são feitos com medida e com limites.
Mas eu sou o “sem limites”e o “sem medidas”.
Por isso não amo todos igualmente:
Escolho entre muitos os que podem
Suportar as minhas exigências. Os mais fortes.
Porque depois de algum tempo ficam fracos
E consumidos pelo meu amor que os devora.
Eu sei, disse-me o meu Deus, que muitos gostariam
Que eu os amasse como amei Francisco e Paulo.
Mas eles não sabem muito bem o que desejam.
Eu sei que eles não resistiriam ao muito amor
Porque são limitados e muito fracos.
Por isso não amarei todos igualmente
Porque mesmo os mais fortes quase não resistem.
Ainda hoje acho graça dos doutores, disse Deus,
Que querem explicar as cantigas de João da Cruz
E as visões da minha Tereza D’Avila
Como um simples caso de psicopatologia.
E, depois, disse Deus, eu mesmo quis que houvesse
Entre os homens e, mesmo, em minha Igreja,
Um certo clima de paz e de sossego
Para que as coisas fossem feitas devagar
Como convém que se faça entre os humanos.
Porque só eu sei fazer, com rapidez,
Coisas bem feitas, bem perfeitas.
Mas os homens não sabem e é preciso,
Por isso, dar-lhes tempo e alguma paz.
Mas, aqueles que eu amo perdem a paz
E querem fazer tudo logo de uma vez.
E não deixam mais ninguém ficar em paz.
Atrapalham mesmo os meus Pontífices
No governo da Igreja se eu não chego
A tempo de impedir que assim o façam.
Porque os meus Pontífices são os meus Pontífices.
E eu os quero assim. Mas, nem sempre
Meus Pontífices são meus amados também.
Tenho muita pena, disse Deus,
Daquele que é amado por mim.
Porque é muito triste ver um homem
Pequeno, limitado, circunscrito,
Querendo satisfazer o meu amor
Ilimitado.
Tenho muita pena, disse Deus,
E, muitas vezes, também choro
Quando, a sós, ele chora,
Me suplica e implora
Para que me afaste dele.
Tenho muita pena, mas, não posso
Fazer nada por ele senão mesmo
Mais amá-lo, mesmo que não queira.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Estante do tempo
Ofício
Farias de Carvalho (1930-1997)
Ruir-me e sem contudo haver ainda
sequer simples começo construído,
saber-me morto e nunca ter vivido
além do gesto que não foi. A infinda
flagelação do instante pressentido
(e só) é o postilhão dessa berlinda
onde o ir-se já sabe mais a vinda
e onde me instalo lúcido e perdido.
Ruir-me e sem poder cantar na queda
o pânico do abismo. Não poder
legar o sonho em ruína para os salvos.
Ruir-me. Como súbito o silêncio
estraçalhado por um grito. E ir-me
ruindo nesse afã de construir-me.
Farias de Carvalho (1930-1997)
Ruir-me e sem contudo haver ainda
sequer simples começo construído,
saber-me morto e nunca ter vivido
além do gesto que não foi. A infinda
flagelação do instante pressentido
(e só) é o postilhão dessa berlinda
onde o ir-se já sabe mais a vinda
e onde me instalo lúcido e perdido.
Ruir-me e sem poder cantar na queda
o pânico do abismo. Não poder
legar o sonho em ruína para os salvos.
Ruir-me. Como súbito o silêncio
estraçalhado por um grito. E ir-me
ruindo nesse afã de construir-me.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Estante do tempo
Das águas grandes
Alcides Werk (1934-2003)
O barco passando e a onda molhando
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.
(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.
Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)
O barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que veem.
E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja – que não seja séria,
falar de tudo – menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.
Alcides Werk (1934-2003)
O barco passando e a onda molhando
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.
(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.
Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)
O barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que veem.
E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja – que não seja séria,
falar de tudo – menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.
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