Amigos do Fingidor

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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Circunavegação

Donaldo Mello
Ao prof. Tenório Telles, rousseauniano-amazônico



Estrada de rio
linha d’água
sem número.
Carta que não chegou,
sobrescrição inocente,
curtiu polis-posteaux.

Tempos idos.

Pra seu governo,
quantas moradas há entre rios:

“Vivo no Solimões.
Nasci na costa da Cabaleana,
em frente à ilha do Marrecão,
e próximo à ilha do Supiá.
Terra do Seu Telles”, bem lá...

Estradas de rio,
linhas d’água.
Inúmeros caminhos amazônicos.
inimagináveis endereços que
banzeiros levam por um fio.

Vida pulsando.

Amazonas boreal
latitude austral.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Salexistência

Tenório Telles


Salário

Sal
          salga meus sonhos
                     meus olhos

Sal
          que fere
          minhas chagas
                     salmouradas
          salgada existência

A vida por um salário
          salexistência

O sal da terra
          salga-nos os ossos.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Elegia do adeus

Tenório Telles
Para Anisio Melo



Este canto é para celebrar
não a tua ausência
ou o teu corpo silencioso,
frágil e despovoado de sonhos.

Este canto é para celebrar
o que deixaste plantado
no coração dos amigos,
dos familiares e filhos:
nos jardins de todos
que te quiseram bem.

Este canto é para celebrar
teu coração generoso
e o menino que o habitava
– que resistia a ficar grande
com a casmurrice dos adultos.

Caminhante dessas r(o)tas,
cumpriste a travessia:
carregando no peito a delicadeza das flores
e no ser, sonhos que, como pássaros,
fugiram para longe – e te acompanham
nessa que será a viagem definitiva
dessa travessia feita de perdas,
de dores, sonhos, de anseios
que poderiam ter sido...
– flores caídas no bosque da existência.

Aqui jaz teu corpo,
que como um passarinho
abatido pela sorte inglória,
acolhe a ternura e a proteção
dos que te acompanharam
e choram tua partida.

O que fica de ti
é essa lembrança
de saudade e dor.
O que fica de ti
é o testemunho de uma vida
feita de simplicidade e trabalho.
O que fica de ti
é a delicadeza e humanidade
dos versos que nasceram das tuas mãos.
O que fica de ti
é a gratidão de todos
que aprenderam contigo
o milagre da criação:
de dar forma ao informe
de dar vida ao inefável.
O que fica de ti
são as grandes janelas
da velha casa
onde tua mãe te ensinou
a sonhar e brincar com as cores do arco-íris.
A mesa onde ensinavas
a magia das cores aos teus alunos
e recebias com pão e vinho os amigos.
A velha máquina onde imprimias tuas palavras
– agora silenciosa e órfã dos teus sentimentos,
do teu poder de encantamento.

Vai bom amigo e cumpre
com a coragem e serenidade habituais
essa última imposição do destino.
Que a tua chegada à outra margem
desse mar de náufragos
seja tranquila e que o ventos
protetores te conduzam.

O que levas é o que deixas:
tua poesia,
as cores com que enalteceste a vida,
os teus amigos.
Deixas especialmente
teu exemplo de bondade.

Vai em paz, bom amigo.
Em mim fica o testemunho
da tua passagem
por este mundo
– precário mundo:
deserto de esquecimento,
cidadela da solidão,
jardim de silêncio
– de lírios brancos
– de rubras rosas
– de agudos cardos:

Em que somos matéria e sonho,
sangue e poesia: forma em construção.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Epifania poética

Nelson Castro
Para Tenório Telles

Estilhaçado sobre o nada, o vitral
reflexo d’um mito derrotado.
No espelho outra face espectral
reflete como metáfora.

A pedra gênese do mal
reflete o bem ausente
o sentimento antípoda à virtude
reflete a forma estranha
a violência simbólica, a vil atitude.

O equilíbrio distante...
nos aproxima do abissal
ou nos torna estátua de sal
preciosos instantes perdidos
a cada virada da ampulheta.

O livro apócrifo, a liberdade
do império dos sentidos
tem nos feitos neo-escravos
de nossos próprios instintos.

Assim o sentido da vida
é um libelo de um tempo sem utopia
de um lugar sem jardim sem poesia
reflexo inverso de ser feliz.
Porém...
nem tudo está perdido
o poeta ratifica
no poema em matéria densa
a presença do amor para sempre escrita.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Destino

Tenório Telles


Para te saudar
a manhã luminosa
derrama sua torrente de cores

Fiapos áureos
são tecidos pelas horas
e o tempo com seu olhar fosforescente
esculpe teu rosto terno

A vida é uma tapeçaria
de acontecimentos
e circunstâncias cotidianas

Como um quadro
que se inscreve na memória
teus dias e destino se desenrolam

Nessa travessia
em que tudo se esvai
só a lembrança que guardo de ti
há de ficar – como a borboleta amarela
que pousava nos arbustos
que margeavam os caminhos da infância

Que possas levantar
as velas do teu barco
e que os ventos protetores
te conduzam para águas calmas
e possas cumprir tua geografia de sonhos

Esperarei o retorno de tuas viagens
as notícias de um tempo
feliz para o homem
os relatos dos teus triunfos
teu canto temperado pelo mar
e as dores purgadas sob o furor dos ventos

Que o teu destino se cumpra
e possas chegar à outra margem
onde encontrarás as miragens que te seduziam

E então saberás que estão em ti
os tesouros
que buscaste.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Canção da esperança

Tenório Telles
(Para Michele)

Neste tempo desolado
de sonhos subtraídos
e utopias amortalhadas
– ergo este canto para celebrar
a esperança entressonhada.

Neste tempo de partos sem flores
de silêncio e de almas violadas
– ergo este canto para celebrar
a semente que arde em luz.

Neste tempo de vidas fraturadas
de olhos imantados e corações ressecados
– ergo este canto para celebrar
a inocência e o brilho da infância.

Neste tempo de morte e de sombras
de guerras e de campos devastados
– ergo este canto para celebrar
a vida e os que tombam pela liberdade.

Contra toda desesperança
contra toda cegueira e emudecimento
contra toda indiferença

– Ergo este canto para celebrar
a manhã, os rios
as florestas e seus enigmas
– Ergo este canto para celebrar
os pássaros – suas cores e cantos
as flores. o ser humano e a utopia
e também os olhos da amada.

É para vós
este canto de esperança
– que mesmo sendo pranto – ­
se eleva como música luminosa.

É para vós
este canto de exaltação
– que floresça em vossos olhos
– que se faça verdade em vossas bocas
e nasça como verdade em nossas vidas.