Aspiração
Violeta Branca (1915-2000)
Eu quisera que meu corpo fosse feito de flores...
Que minha carne tivesse
o reflexo de rosas claras ao clarão do luar.
E assim,
quando chegasses para o calor de meu beijo,
aspirarias no meu hálito o fresco perfume
de um jardim florido.
Eu quisera que meu corpo fosse feito de flores...
Que meus cabelos tivessem a morna fragrância
das relvas tenras.
E assim,
quando cerrasses os olhos
e, sorrindo, afagasses meu corpo ardente e jovem
tuas mãos teriam
a deliciosa volúpia
de acariciarem a primavera...
Eu quisera que meu corpo fosse feito de flores...
E assim,
quando meus braços brancos,
como uma coroa de louros
envolvessem a tua cabeça de deus pagão,
sentirias a sensação embriagante
de seres um fauno novo
perdido numa selva de lírios.
Amigos do Fingidor
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segunda-feira, 11 de outubro de 2010
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Estante do tempo
A vela que passou
Violeta Branca (1915-2000)
Singrando o mar,
uma vela
passou na noite triste...
Alguém, dentro dela,
ia cantando sob o luar
a mesma canção que cantei
quando partiste.
Quem cantava, não sei...
A vela passou na noite quieta...
Serias tu, marinheiro-poeta,
que ias cantando assim,
acordando a tristeza dentro de mim?
Pelo mar agitado a vela passou...
Tenho os olhos molhados
de quem chorou...
Violeta Branca (1915-2000)
Singrando o mar,
uma vela
passou na noite triste...
Alguém, dentro dela,
ia cantando sob o luar
a mesma canção que cantei
quando partiste.
Quem cantava, não sei...
A vela passou na noite quieta...
Serias tu, marinheiro-poeta,
que ias cantando assim,
acordando a tristeza dentro de mim?
Pelo mar agitado a vela passou...
Tenho os olhos molhados
de quem chorou...
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Estante do tempo
Poema das tuas mãos
Violeta Branca (1915-2000)
As tuas mãos nervosas, quentes, largas,
harpejam nos meus sentidos
a música ideal da emoção.
Para os teus dedos criadores,
sou o piano mágico vibrando
ao influxo de tua ardente inquietação.
Tuas mãos frementes,
arrancam angústias sonorizadas
de meus nervos,
que se retesam como cordas harmoniosas.
Tuas mãos imperiosas,
tuas mãos rebeldes,
cantam silenciosas aleluias de gestos,
quando compõem poemas de volúpia,
gritos incontidos de alegria pagã,
correndo ligeiras,
leves,
torturantes,
no teclado branco de meu corpo...
Violeta Branca (1915-2000)
As tuas mãos nervosas, quentes, largas,
harpejam nos meus sentidos
a música ideal da emoção.
Para os teus dedos criadores,
sou o piano mágico vibrando
ao influxo de tua ardente inquietação.
Tuas mãos frementes,
arrancam angústias sonorizadas
de meus nervos,
que se retesam como cordas harmoniosas.
Tuas mãos imperiosas,
tuas mãos rebeldes,
cantam silenciosas aleluias de gestos,
quando compõem poemas de volúpia,
gritos incontidos de alegria pagã,
correndo ligeiras,
leves,
torturantes,
no teclado branco de meu corpo...
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Estante do tempo
Eu
Violeta Branca (1915-2000)
A exaltação universal
trago-a,
quente e vermelha,
em cada gota de meu sangue.
No meu cérebro
passam, numa rapidez inquietante
de navalhas, ferindo,
os pensamentos,
que nem todos podem pensar.
A ressurreição
da claridade delirante de todos os dias de sol
corre em algemas gritantes
pelos meus gestos expressivos.
Meus nervos,
– cobras vibrantes – enroscam-se
pela árvore branca e sonora
de meu corpo jovem
e deixam restos de sensações fortes
na selva emocional
de minha alma!
Eu tenho uma sensibilidade de punhal!
E nos meus poemas
dança, em alegorias bizarras
e movimentos novos,
toda a instintiva
e incontida
volúpia universal!
Violeta Branca (1915-2000)
A exaltação universal
trago-a,
quente e vermelha,
em cada gota de meu sangue.
No meu cérebro
passam, numa rapidez inquietante
de navalhas, ferindo,
os pensamentos,
que nem todos podem pensar.
A ressurreição
da claridade delirante de todos os dias de sol
corre em algemas gritantes
pelos meus gestos expressivos.
Meus nervos,
– cobras vibrantes – enroscam-se
pela árvore branca e sonora
de meu corpo jovem
e deixam restos de sensações fortes
na selva emocional
de minha alma!
Eu tenho uma sensibilidade de punhal!
E nos meus poemas
dança, em alegorias bizarras
e movimentos novos,
toda a instintiva
e incontida
volúpia universal!
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Estante do tempo
Nostalgia do mar
Violeta Branca (1915-2000)
Amanhã voltarás para o mar...
Teu destino é o mar...
Na deslumbrante exaltação das ondas verdes,
tua vida
– luminoso poema de mocidade e de sol –
tornar-se-á linda como uma alvorada rosicler.
Amanhã voltarás para o mar...
E na inquieta convivência das vagas
depressa olvidarás meu vulto de mulher.
Serei vela perdida
na grandeza infinita do oceano.
Serei a emoção esquecida
de um porto, que ficou em névoas, na distância...
Amanhã voltarás para o mar...
Enquanto eu ficarei numa tristeza longa, dolorosa,
tu, que trazes na alma altaneira
o orgulho e a boêmia do marinheiro,
partirás sorrindo.
E não terás para mim um pensamento de amor,
tua alegria será jovial e franca.
Mas sentirás que te acompanha sempre,
sempre
um perfume sutil de violeta branca...
Violeta Branca (1915-2000)
Amanhã voltarás para o mar...
Teu destino é o mar...
Na deslumbrante exaltação das ondas verdes,
tua vida
– luminoso poema de mocidade e de sol –
tornar-se-á linda como uma alvorada rosicler.
Amanhã voltarás para o mar...
E na inquieta convivência das vagas
depressa olvidarás meu vulto de mulher.
Serei vela perdida
na grandeza infinita do oceano.
Serei a emoção esquecida
de um porto, que ficou em névoas, na distância...
Amanhã voltarás para o mar...
Enquanto eu ficarei numa tristeza longa, dolorosa,
tu, que trazes na alma altaneira
o orgulho e a boêmia do marinheiro,
partirás sorrindo.
E não terás para mim um pensamento de amor,
tua alegria será jovial e franca.
Mas sentirás que te acompanha sempre,
sempre
um perfume sutil de violeta branca...
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Estante do tempo
Minha lenda
Violeta Branca (1915-2000)
À sombra de um igapó escuro e parado,
branca como as areias e as espumas,
e mais triste que um gesto de adeus,
com a forma de uma vitória-régia imensa,
desmaiada de indiferença,
eu florescia...
Tupã, uma noite,
olhou-me com os olhos de luar
e se enamorou de mim.
E, numa fala que lembrava a suavidade
do riso das águas
correndo sobre pedras, disse:
“És triste e bela. E por isso
terás a glória suprema,
que é maior que o triunfal poema
que canta o uirapuru em voz tão clara.
Toma a pedra muiraquitã,
desce ao fundo dos rios:
vais ser Iara”.
Depois...
Numa hora de encantamento e beleza,
com os cabelos enfeitados de aguapés
e no corpo o fascínio dos mistérios,
prendi a alma ingênua de um marujo incauto.
E o deus lendário da Amazônia,
sentindo o amor palpitar no meu canto,
voltou a me falar.
Nesse dia os seus olhos
tinham lampejos de sol
e a voz o ressoar da pororoca:
“Não mereces mais a glória de ser Iara.
Não ficarás aqui nem um dia sequer.
Vais receber o teu castigo...”
...E transformou-me em mulher.
Violeta Branca (1915-2000)
À sombra de um igapó escuro e parado,
branca como as areias e as espumas,
e mais triste que um gesto de adeus,
com a forma de uma vitória-régia imensa,
desmaiada de indiferença,
eu florescia...
Tupã, uma noite,
olhou-me com os olhos de luar
e se enamorou de mim.
E, numa fala que lembrava a suavidade
do riso das águas
correndo sobre pedras, disse:
“És triste e bela. E por isso
terás a glória suprema,
que é maior que o triunfal poema
que canta o uirapuru em voz tão clara.
Toma a pedra muiraquitã,
desce ao fundo dos rios:
vais ser Iara”.
Depois...
Numa hora de encantamento e beleza,
com os cabelos enfeitados de aguapés
e no corpo o fascínio dos mistérios,
prendi a alma ingênua de um marujo incauto.
E o deus lendário da Amazônia,
sentindo o amor palpitar no meu canto,
voltou a me falar.
Nesse dia os seus olhos
tinham lampejos de sol
e a voz o ressoar da pororoca:
“Não mereces mais a glória de ser Iara.
Não ficarás aqui nem um dia sequer.
Vais receber o teu castigo...”
...E transformou-me em mulher.
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