Amigos do Fingidor

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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Federico Garcia

Rogel Samuel



Federico Garcia
       o som de uma luz trazida
       e aziaga
te cortava como lâminas
de três gritantes guitarras
       E, andaluz valente
passavas poesia no tempo

Federico Garcia
       guardas civiles de touros
e de praças
não te cobriam de pedras
       Por entre as rimas filtraram
vozes irmãs das estrelas
que trocariam contigo
       essa barca sob o sol

domingo, 27 de setembro de 2009

Minha pátria é minha língua

5ª Sinfonia de Beethoven
Solano Trindade (1908-1974)


5ª Sinfonia de Beethoven
Os dois tímbalos
parecem o mundo
partido ao meio

Eu gosto da barbaria dos tímbalos
como de todas as melodias
como de todos os sons
como de todas as cores
como todas as formas
Detesto limitações
eu gosto da barbaria dos tímbalos

5ª Sinfonia de Beethoven
Estou sofrendo
como as mulheres de parto
Eu gosto da barbaria dos tímbalos
Chove lá fora
e Garcia Lorca passeia na chuva

Barbusse está cheio de amor pela vida
e Beethoven escuta a própria Sinfonia
Não sei onde está o fim
nem o princípio das cousas
sei que gosto da barbaria dos tímbalos

Eu sou como a semente
que espera a terra
Eu serei plantado
e meus irmãos repousarão sobre mim
quando eu for uma árvore frondosa
Minha amada está despida para me receber
Seu corpo é como a 5ª Sinfonia
Seus olhos são como a 5ª Sinfonia
Seus seios
são como a 5ª Sinfonia
A minha amada é universal.

Oh! se eu pudesse pintar a 5ª Sinfonia
Chove lá fora
Van Gogh passa em passos largos
Gauguin está pintando as mulheres das ruas
e eu estou perdido
dentro de mim mesmo
porque não sei pintar
a 5ª Sinfonia de Beethoven

Onde estão os bárbaros?
Onde estão os civilizados?
Onde está o amor?
Onde está o ódio?
Estão na 5ª Sinfonia
As crianças marcham à minha frente
cantando uma canção de esperança

Ouçam todos os que me entendem
eu amo a 5ª Sinfonia de Beethoven
e não quero limites para viver.

sábado, 29 de novembro de 2008

Poesia em tradução

Romance da lua, lua
Federico García Lorca (1898-1936)

A lua veio à frágua
com sua anquinha de nardos.
O menino a olha olha.
O menino a está olhando.
No ar comovido
move a lua seus braços
e exibe, lúbrica e pura,
seus seios de duro estanho.
Foge, lua, lua, lua.
Se viessem os ciganos,
fariam com teu coração
colares e anéis brancos.
Menino, deixa que eu dance.
Quando vierem os ciganos,
te encontrarão sobre a bigorna
com os olhinhos fechados.
Foge, lua, lua, lua,
que já ouço seus cavalos.
Menino, deixa-me, não pises
minha brancura engomada.

O ginete se acercava
tocando o tambor da planície.
Dentro da frágua o menino
está com os olhos fechados.

Pelo oliveiral vinham,
bronze e sonho, os ciganos.
As cabeças levantadas
e os olhos semicerrados.

Como canta o bufo,
ai, como canta na árvore!
Pelo céu vai a lua
com um menino na mão.

Dentro da frágua choram,
dando gritos os ciganos.
O ar vela-a, vela.
O ar a está velando.

(Trad.: William Agel de Melo)