Soneto
Félix Arvers (1806-1850)
Tenho n’alma um segredo e um mistério na vida:
É este amor imortal gerado num momento;
Sufoco-o, pois não espera alívio o meu tormento
– E não vê, quem o causa, a minha alma dorida!
Por ela – ai! –, passarei, sombra despercebida,
Sempre a seu lado e sempre só, e em desalento!
E hei de findar, morrer neste martírio lento,
Sem pedir, sem ousar, sem uma graça obtida.
Embora doce e terna, essa que me alanceia
Irá continuando o seu caminho, alheia
A este amor que em murmúrio a segue onde ela vá.
Presa ao dever, tranquila, honestamente bela,
Talvez pergunte, ao ler versos tão cheios dela:
“Que mulher será esta?” – e não compreenderá.
(Trad. Gondin da Fonseca)
Amigos do Fingidor
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sábado, 26 de junho de 2010
sábado, 24 de outubro de 2009
Poesia em tradução
Annabel Lee
Edgar Allan Poe (1809-1849)
Há muitos anos, há distantes, longos anos,
______Num certo reino à beira-mar,
Vivia alguém, – uma donzela, – Annabel Lee,
______(Vocês se devem recordar)
Alguém que só pensava em mim, e a quem eu tinha
______Amor imenso, amor sem par.
Eu era criança, e ela era criança, – Annabel Lee! –
______Naquele reino à beira-mar!
Mas nos amávamos com um amor que era, na terra, mais que Amor:
______(Não o podeis avaliar!)
Amor que os anjos, seus irmãos, de asas de neve,
______Olhavam do alto, a cobiçar.
Por isso foi que há muito tempo, há muito tempo,
______Naquele reino à beira-mar,
Soprou um vento, – um vento frio, – e Annabel Lee
______Sentiu-se, aos poucos, esfriar...
E então vieram seus parentes de alta estirpe,
______Vieram para m'a levar;
E a enclausuraram num sepulcro, – ó dor! ó dor! –
______Naquele reino à beira-mar.
Não eram, os anjos, tão felizes como nós,
______Viviam a nos invejar.
Sim! Foi por isso (toda gente bem o sabe,
______Naquele reino à beira-mar)
Que um vento frio me roubou Annabel Lee,
______Que um vento frio a fez gelar.
Mas nosso amor era mais forte, mais profundo
______Do que o dos outros, neste mundo,
______De mais idade e mais pensar.
E nem os anjos, lá das rútilas estrelas,
______Nem os demônios sob o mar,
Hão de, jamais, em dia algum, as nossas almas
______Uma da outra separar.
Pois nunca, – ó bela Annabel Lee! – sem me trazer sonhos de ti,
______Fulge, de noite, a luz do luar!
Nunca as estrelas, meu amor, despontam no alto, – que o fulgor
______Não sinta, em mim, do teu olhar!
E toda a noite, enamorado, eu vou dormir aí a teu lado,
Ó benquerida! – ó benquerida! – ó minha noiva e minha vida!
______Aí nessa campa à beira-mar,
______Onde ressoa voz do mar!
(Trad. Gondin da Fonseca)
Edgar Allan Poe (1809-1849)
Há muitos anos, há distantes, longos anos,
______Num certo reino à beira-mar,
Vivia alguém, – uma donzela, – Annabel Lee,
______(Vocês se devem recordar)
Alguém que só pensava em mim, e a quem eu tinha
______Amor imenso, amor sem par.
Eu era criança, e ela era criança, – Annabel Lee! –
______Naquele reino à beira-mar!
Mas nos amávamos com um amor que era, na terra, mais que Amor:
______(Não o podeis avaliar!)
Amor que os anjos, seus irmãos, de asas de neve,
______Olhavam do alto, a cobiçar.
Por isso foi que há muito tempo, há muito tempo,
______Naquele reino à beira-mar,
Soprou um vento, – um vento frio, – e Annabel Lee
______Sentiu-se, aos poucos, esfriar...
E então vieram seus parentes de alta estirpe,
______Vieram para m'a levar;
E a enclausuraram num sepulcro, – ó dor! ó dor! –
______Naquele reino à beira-mar.
Não eram, os anjos, tão felizes como nós,
______Viviam a nos invejar.
Sim! Foi por isso (toda gente bem o sabe,
______Naquele reino à beira-mar)
Que um vento frio me roubou Annabel Lee,
______Que um vento frio a fez gelar.
Mas nosso amor era mais forte, mais profundo
______Do que o dos outros, neste mundo,
______De mais idade e mais pensar.
E nem os anjos, lá das rútilas estrelas,
______Nem os demônios sob o mar,
Hão de, jamais, em dia algum, as nossas almas
______Uma da outra separar.
Pois nunca, – ó bela Annabel Lee! – sem me trazer sonhos de ti,
______Fulge, de noite, a luz do luar!
Nunca as estrelas, meu amor, despontam no alto, – que o fulgor
______Não sinta, em mim, do teu olhar!
E toda a noite, enamorado, eu vou dormir aí a teu lado,
Ó benquerida! – ó benquerida! – ó minha noiva e minha vida!
______Aí nessa campa à beira-mar,
______Onde ressoa voz do mar!
(Trad. Gondin da Fonseca)
sábado, 25 de julho de 2009
Poesia em tradução
Se
Rudyard Kipling (1865-1936)
Se podes calmo estar entre homens que se agridem,
a cabeça pendendo – e disso te acusando;
se podes crer em ti quando os outros duvidem,
mas concordar em que prossigam duvidando:
se podes esperar, sem que a espera te canse,
ou mintam sobre ti – sem que mintas, no entanto,
ou, sendo odiado embora, o ódio te não alcance,
e não pareças – inda assim – ou sábio, ou santo;
se sonhas, mas não é por sonhos dominado;
se pensas, mas não vês, só nisso, o alvo da mente;
se o Triunfo, ou o Desastre, encontras ao teu lado
e tratas esses dois tartufos igualmente:
se disseste a verdade – e a pode ver torcida
em ardil de impostor; se rotas, em pedaços,
as coisas por que tu sacrificaste a vida,
curvado as reconstróis com os teus doridos braços;
se podes arriscar tudo o que é teu – mas tudo –
num lance só – cara ou coroa! – e, num momento,
perder, e começar de novo, e ficar mudo,
sem uma queixa, uma palavra de lamento:
se podes obrigar teu corpo, na verdade
exausto em carne e em alma, a erguer-se e a te servir,
quando em ti nada houver senão tua Vontade
que não se rende e lhe comanda: “Resistir!”;
se te ouvem multidões e a virtude é contigo,
ou frequentas os reis e o bom-senso te guia;
se não podem ferir-te, o amigo ou o inimigo,
e se, confiando em ti – de mais, ninguém confia:
se, de cada minuto, enches cada segundo
com um passo para a frente em luminoso trilho,
então eu te direi que dominas o Mundo
e direi muito mais: que és um Homem, meu filho!
(Trad. Gondin da Fonseca)
Rudyard Kipling (1865-1936)
Se podes calmo estar entre homens que se agridem,
a cabeça pendendo – e disso te acusando;
se podes crer em ti quando os outros duvidem,
mas concordar em que prossigam duvidando:
se podes esperar, sem que a espera te canse,
ou mintam sobre ti – sem que mintas, no entanto,
ou, sendo odiado embora, o ódio te não alcance,
e não pareças – inda assim – ou sábio, ou santo;
se sonhas, mas não é por sonhos dominado;
se pensas, mas não vês, só nisso, o alvo da mente;
se o Triunfo, ou o Desastre, encontras ao teu lado
e tratas esses dois tartufos igualmente:
se disseste a verdade – e a pode ver torcida
em ardil de impostor; se rotas, em pedaços,
as coisas por que tu sacrificaste a vida,
curvado as reconstróis com os teus doridos braços;
se podes arriscar tudo o que é teu – mas tudo –
num lance só – cara ou coroa! – e, num momento,
perder, e começar de novo, e ficar mudo,
sem uma queixa, uma palavra de lamento:
se podes obrigar teu corpo, na verdade
exausto em carne e em alma, a erguer-se e a te servir,
quando em ti nada houver senão tua Vontade
que não se rende e lhe comanda: “Resistir!”;
se te ouvem multidões e a virtude é contigo,
ou frequentas os reis e o bom-senso te guia;
se não podem ferir-te, o amigo ou o inimigo,
e se, confiando em ti – de mais, ninguém confia:
se, de cada minuto, enches cada segundo
com um passo para a frente em luminoso trilho,
então eu te direi que dominas o Mundo
e direi muito mais: que és um Homem, meu filho!
(Trad. Gondin da Fonseca)
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