Amigos do Fingidor

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ontem sonhei com três rinocerontes

Thiago de Mello



Ontem sonhei com três rinocerontes
que me chamavam, rosas no unicórnio,
pelo nome que tive de menino.
Mordidos pelos pássaros noturnos,
pupilas assombradas, me chamavam
a com eles partir, antes da aurora,
para o lugar onde as estrelas nascem,
enquanto se afundavam numa lama
coberta de ametistas e de garças.
Quero ficar. Mas antes que se afundem,
a pele, peço, a pele que me deixem,
em carne viva sigam pelos pântanos,
mas a pele me deixem, que proteja
o que no peito meu finda de infância.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Charles-Joseph Natoire (1700-1777)

Venus and Cupid.

o século

Zemaria Pinto




no espelho partido eu vi minha face torta
vi meu olho derramado
em órbitas desesperadas
meu olho tentando sobreviver
eu vi o mar nos meus olhos
e senti o gosto, o gosto horrível do sal
queimar minha língua impura
eu vi uma cortina de sangue sobre minha cabeça
ouvi o ranger dos dentes
o abrir e fechar das portas
– como é difícil, pai!
o espelho refletia a miséria dos meus olhos
a miséria que eu via embaçada
a insegurança de ser
cada vez mais forte dentro de mim
tudo o mais natural
tudo trêmulo, trânsito
– tão difícil de entender

no espelho partido vi minha face torta
uma mulher morta vestida com um punhal
patético como uma vida
natural como uma vida
– estético para planos dramáticos –
quem furou o olho do rei?
quem matou o filho do deus?
– como é difícil explicar um espelho!
a sala escura fechou-me para o mundo
foi o espelho partido a última visão
a face torta, a frase morta
a frase oca, a face louca
o espelho mentindo através dos séculos
– mentem mais os espelhos partidos

no espelho partido vi uma face torta
vi um olho derramado
vi o mar
e bebi o sal, o maravilhoso sal
que me abriu a boca às impurezas do mundo
e vi sangue, vi dentes
vi portas exangues
vi também uma mulher vestida de preto
com um punhal na mão
o rei o deus a sala eu vi
– eu vi o século refletido em um espelho justo!


                                                             (1974)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Luis Ricardo Falero (1851-1896)

La Favorite.

Metáforas da vida

Rayder Coelho




Um adulto não deveria chorar

ou até deveria chorar mais vezes

mas não com as dores do parto

ou com a partida de quem lhe deu a vida.



Mas com um desabrochar de uma rosa

de uma crisálida partida.

E as lágrimas assim como as crisálidas

já não seriam apenas lágrimas

mas metáforas da vida.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Ruth Poniarski

Birth of Venus.

Estante do tempo

Sonetos autobiográficos 1
L. Ruas (1931-2000)




Fecundar o próprio sêmen sem ter medo
De em si mesmo dar o ser ao monstro azul.
Escalar o próprio abismo desmedido
E sorrir a cada passo dado em falso.

Desmembrar a tessitura do mistério,
Dissecar a óssea face em frente ao espelho
Estancando a imagem tola no momento
Da mentira venerável — prece infame —...

E depois compor de novo a melodia,
Restaurar as cores todas distendidas,
Refazer o mesmo poema delicado

E ficar paradamente na vidraça
Contemplando a chuva grossa e intermitente
Escorrendo em borbotões pelas sarjetas.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Max Ernst (1891-1976)

The Clothing of the Bride.

Minha pátria é minha língua

A mulher e a casa
João Cabral de Melo Neto (1920-1999)




Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente de dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra:
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Frank Dicksee (1853-1928)

Beatrice.

Poesia em tradução

Este poema é dos pássaros

Gary Snyder




Pássaros em vórtice convergem sobre os tetos
Milhafres mergulham, pendem para a forma de neblina enrolada
Da costa: pontos mudando linhas em linhas na altura,
                       definido o futuro.
Espane fumaça dos olhos,
              poeira da mente,
Com o abano de rêmiges de águia.
Um falcão flutua rumo ao céu distante.
Uma marmota sibila entre rochas enormes.
Chuva nas colinas californianas.
Mariscos se prendem a pedras do mar
Sugando as marés da Primavera

Chuvas empapam o pardo restolho
Campos repletos de patos

Chuvas varrem o eucalipto
Estranhos pinheiros na costa
                      folhas agulheadas duas por feixe
O céu inteiro tremula ao vento
Andorinhões
Voando pela tempestade
Volteando por perto escutam silvo agudo de asas
Maçaricos
                    cinza pálido
                    lençóis pluviais desenrolando-se lentos,
Negros andorinhões.
                    ...os andorinhões declaram
Enquanto disparam: Vê agora ou jamais!


(Trad. Paulo Vizioli)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Joaquin Sorolla y Bastida (1863-1923)

Bacante.

Lições de arquitetura

Ferreira Gullar

Para Oscar Niemeyer


No ombro do planeta
(em Caracas)
Oscar depositou
para sempre
uma ave uma flor

(ele não faz de pedra
nossas casas:
faz de asa)

No coração de Argel sofrida
fez aterrizar uma tarde
uma nave estelar
                           e linda
como ainda há de ser a vida

(com seu traço futuro
Oscar nos ensina
que o sonho é popular)

Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos
com matéria dura:
o ferro o cimento a fome
da humana arquitetura

nos ensina a viver
no que ele transfigura:
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo

Oscar nos ensina
que a beleza é leve

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Jean-Marc Nattier (1685-1766)

Marie Adelaide of France as Diana.

A sombra

Cláudio Fonseca

Oh Morte, vem calada
como costumas vir na flecha
(Anônimo sevilhano)


Dormes nesta hora. A sombra enorme
veio olhar teu corpo em abandono.
E as coisas que amaste, em tua volta
começam a dissipar-se... como um sonho.

As luzes do teu dia tecem o manto.
Eu vejo a tua aurora derradeira.
Hoje, ao acordares deste sono,
o pouco que te resta é a vida inteira.

E a casa já aguarda o gesto triste –
as mãos abrindo a agenda... de utopia.
No campo um musgo aflora, que por certo
apagará teu nome, e o deste dia.

E o dia (amanhã com nomes outros)
matura, nesta hora, seus enredos.
As naus já estão partindo... e sem retorno.
A tua ficará entre os rochedos.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Oscar Ortiz

La Espera.

Dabacuri – da natureza das coisas 3

Zemaria Pinto




no alto da mangueira,

o sanhaço faz seu ninho

– vida renovada




manhã de novembro,

aragem primaveril

– promessa de sol

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Norman Engel

Standing nude.

Na frente de casa

Davi Soledade


Ela saia às sete.
Sempre com seus lisos cabelos pretos impecavelmente penteados.
Sua face alva como a neve parecia-me demais inerrônea.
Tudo esteticamente perfeito… feições divinas.

Ela cursava letras.
Em suas mãos pálidas cortadas por esverdeadas veias
Havia sempre um livro diferente a cada semana.
Hemingway, Bukowski, Dostoiévski, Carlos Drummond, Thiago de Mello.
Eram seus preferidos; como ela gostava de ler!

No canto superior de seus lábios convidativos ao beijo
Havia uma sutil cicatriz.
Uma particularidade que me fazia almejá-la ainda mais.

Eu nunca soube a história daquela cicatriz.
E nem a de sua dona.

Ela voltava da faculdade à tarde, lenta.
Da janela de casa eu a observava.
Era sempre a mesma rotina.
E eu assistia aquela epopeia morna com um apreço latente.

Quando ela saia à rua, raríssimas vezes,
Eu passava ao seu lado, em sentido contrário.
E contemplava sua beleza, discretamente.
E ela contemplava aquela face embasbacada tentando conter-se.

Ela passava por mim quase muda.
Comunicava do seu íntimo uma sutil antipatia por mim.
Por que aquele desprezo?
Só porque eu era decassilabamente incorreto?

Da janela de casa eu não a tinha visto chegar.
Naquele dia só ouvi o choro de seus pais.
Eu não estava bem.
E meus lábios nunca tocariam aquela cicatriz.

Eu nunca desconfiei que aquela epopeia morna teria fim.
Ela nunca desconfiou que um dia não fosse voltar.
Ela nunca desconfiou que não terminaria de ler Crime e Castigo.
E ela nunca desconfiou que na frente de sua casa morava um poeta.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011