Les songes creux.
Amigos do Fingidor
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Retratos em preto e branco da primeira infância – Retrato n° 2
Inácio Oliveira
Quando chovia, as árvores
(em silêncio e secretamente)
iniciavam o milagre
das frutas.
Nós, os moleques, jogávamos bola
na grama molhada do pasto.
As cigarras encompridavam as tardes.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Estante do tempo
Bolero das águas
Anibal Beça (1946-2009)
O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento cálice
em submerso bolero de águas tantas.
A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a língua de couro, lixa tântala,
alisando palavras rebuçadas.
Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as oiças,
é rito muezim ditando a dança:
no dois pra cá me levo em dois pra lá,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.
Anibal Beça (1946-2009)
O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento cálice
em submerso bolero de águas tantas.
A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a língua de couro, lixa tântala,
alisando palavras rebuçadas.
Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as oiças,
é rito muezim ditando a dança:
no dois pra cá me levo em dois pra lá,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Minha pátria é minha língua
Conclusão
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.
Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.
Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.
De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.
Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.
Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.
De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
sábado, 29 de janeiro de 2011
Poesia em tradução
Visões de Akira Kurosawa
Ana Mercedes Vivas
Milhares de homens
caminham
pelo túnel do silêncio.
Arcanjos da vida galopam
sobre cavalos azuis
desalados?
Um beija-flor desce
pelo raio de luz
até um girassol
enamorado ao vento.
Máscara de sonho,
sombras enlutadas,
pombas brancas
estrelas
para beber o dia
passos de solidão
entre os mortos.
(Trad. Thiago de Mello)
Ana Mercedes Vivas
Milhares de homens
caminham
pelo túnel do silêncio.
Arcanjos da vida galopam
sobre cavalos azuis
desalados?
Um beija-flor desce
pelo raio de luz
até um girassol
enamorado ao vento.
Máscara de sonho,
sombras enlutadas,
pombas brancas
estrelas
para beber o dia
passos de solidão
entre os mortos.
(Trad. Thiago de Mello)
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Mar e lua
Chico Buarque
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
– Todo mundo conta –
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
– Todo mundo conta –
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Cuia
Simão Pessoa
De longe como Matisse
Que a desnudando vestisse
Ela revela a natureza
Que a esconde por inteiro
E a esconde por inteiro
Do olho que a devassa:
O vão desdobrado em quilha
Recoberto por limalha
De luz é sua textura
Que ao toque se adivinha
Como as bordas da pupila
Refletindo água-marinha
Tem a aparência furtiva
De uma fruta adocicada
Daquela que nos convida
Na a comer – a olhá-la.
De luminosos cristais
Sua curvatura se veste:
O gosto de qualquer fruta
Nela é as dobras da pele
É fruta de carne e osso
Silêncio sonho e medula.
É fruta de mil desejos
Na língua mais que na gula.
É uma paisagem de dunas
Com casulos emborcados.
É uma ópera intestina
De conchas no alagado
É uma onda sem mistério
Tirando arestas da areia.
É uma maçã que mordida
O baixo ventre incendeia
É o ovo da serpente
Como que moldado em pedra.
É a cúpula do teatro
Na sua forma geodésica
No mais não é uma cuia
Arquitetada por Gaudí.
É uma cuia (mas nativa)
De tacacá e açaí.
Que uma bunda não é nunca
O silêncio de uma tela:
É uma vontade profunda
De se perder dentro dela.
(Poema feito a partir de um quadro do artista plástico Turenko Beça)
De longe como Matisse
Que a desnudando vestisse
Ela revela a natureza
Que a esconde por inteiro
E a esconde por inteiro
Do olho que a devassa:
O vão desdobrado em quilha
Recoberto por limalha
De luz é sua textura
Que ao toque se adivinha
Como as bordas da pupila
Refletindo água-marinha
Tem a aparência furtiva
De uma fruta adocicada
Daquela que nos convida
Na a comer – a olhá-la.
De luminosos cristais
Sua curvatura se veste:
O gosto de qualquer fruta
Nela é as dobras da pele
É fruta de carne e osso
Silêncio sonho e medula.
É fruta de mil desejos
Na língua mais que na gula.
É uma paisagem de dunas
Com casulos emborcados.
É uma ópera intestina
De conchas no alagado
É uma onda sem mistério
Tirando arestas da areia.
É uma maçã que mordida
O baixo ventre incendeia
É o ovo da serpente
Como que moldado em pedra.
É a cúpula do teatro
Na sua forma geodésica
No mais não é uma cuia
Arquitetada por Gaudí.
É uma cuia (mas nativa)
De tacacá e açaí.
Que uma bunda não é nunca
O silêncio de uma tela:
É uma vontade profunda
De se perder dentro dela.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
legado
Zemaria Pinto
eis um pedaço de mim,
exposto
feito carne putrefata
eis um pedaço de mim,
ferida
aberta em pus, necrosada
eis um pedaço de mim,
retrato
de todo o horror do passado
eis um pedaço de ti,
devolvido
para que não esqueças de mim
(1978)
eis um pedaço de mim,
exposto
feito carne putrefata
eis um pedaço de mim,
ferida
aberta em pus, necrosada
eis um pedaço de mim,
retrato
de todo o horror do passado
eis um pedaço de ti,
devolvido
para que não esqueças de mim
(1978)
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Avarias
Francisco Calheiros
Não continua sendo útil minha espera.
Conquanto não valha a pena fazê-lo,
dou-me por realizado e sem mágoas.
Faz-se mister, porém, que as mágoas
não me exijam passaporte
nem me façam misantropo
das avarias que deixaste.
Não continua sendo útil minha espera.
Conquanto não valha a pena fazê-lo,
dou-me por realizado e sem mágoas.
Faz-se mister, porém, que as mágoas
não me exijam passaporte
nem me façam misantropo
das avarias que deixaste.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Estante do tempo
Estudo XII
Alcides Werk (1934-2003)
Impossível voltar. A caminhada
já foi longe demais, e não me encontro.
Há marcas fundas do caminho antigo,
mas não posso sentir, vivo agitado.
Vejo em volta de mim alguns pedaços
do meu ser dividido. E tento, às vezes,
fraco e mesquinho como um delinquente,
redescobrir a minha identidade.
Impossível voltar, e continuo.
Elaboro miragens e as persigo
com a determinação dos suicidas.
E, passo a passo, cada dia cumpro
a função de votar o que me resta
em sacrifício a ti, num rito amargo.
Alcides Werk (1934-2003)
Impossível voltar. A caminhada
já foi longe demais, e não me encontro.
Há marcas fundas do caminho antigo,
mas não posso sentir, vivo agitado.
Vejo em volta de mim alguns pedaços
do meu ser dividido. E tento, às vezes,
fraco e mesquinho como um delinquente,
redescobrir a minha identidade.
Impossível voltar, e continuo.
Elaboro miragens e as persigo
com a determinação dos suicidas.
E, passo a passo, cada dia cumpro
a função de votar o que me resta
em sacrifício a ti, num rito amargo.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Minha pátria é minha língua
Fanatismo
Florbela Espanca (1894-1930)
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...”
Florbela Espanca (1894-1930)
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...”
Assinar:
Postagens (Atom)









