Two female nude and still life.
Amigos do Fingidor
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Nha Codê
Ovídio Martins
Tiraram o lume dos teus olhos
e fizeram braseiro
para aquecer a noite fria;
noite de qualquer dia.
Roubaram o teu riso
e encheram de gargalhadas
de luz e de música
as suas reuniões frustradas.
Da tua pele fizeram tambor
para nos ajuntar no terreiro!
Dondê nha Codê?
Não
não mataram o meu filho
que eu sei que o meu filho não morre.
(Se choro
são saudades de nha Codê...)
Nha Codê vive
na evocação de um mundo distante
no riso e no choro das ervas rasteiras
na solidão dos campos
nas pândegas de marinheiros
na vida que nasce e morre
em cada dia que passa!...
...E em mim
essa saudade de nha Codê!
(A Osvaldo Alcântara)
Tiraram o lume dos teus olhos
e fizeram braseiro
para aquecer a noite fria;
noite de qualquer dia.
Roubaram o teu riso
e encheram de gargalhadas
de luz e de música
as suas reuniões frustradas.
Da tua pele fizeram tambor
para nos ajuntar no terreiro!
Dondê nha Codê?
Não
não mataram o meu filho
que eu sei que o meu filho não morre.
(Se choro
são saudades de nha Codê...)
Nha Codê vive
na evocação de um mundo distante
no riso e no choro das ervas rasteiras
na solidão dos campos
nas pândegas de marinheiros
na vida que nasce e morre
em cada dia que passa!...
...E em mim
essa saudade de nha Codê!
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Poemas
Jorge Tufic
I
Amo arrumar palavras. Porque sei
que há traças percorrendo
em rios os papéis.
Coisa difícil é dar. Difícil
como saber se damos quando damos
ou tiramos quando tiramos.
Mas as traças são cegas.
Cega a vontade de morrer
mais cega a de escrever.
Palavras são sangue, mesmo
as que gravadas sem propósito.
E ninguém mais do que as traças
sabe disso.
II
Ouvi um chamado distante,
sem voz. Em seguida a surpresa
de assistir à queda de um ovo
pintado com as cores do arco-íris.
─ Algum anjo brincalhão
Querendo tirar barrigada.
Depois outro ovo e mais outro,
tantos, de tantas cores,
que ao chegar em meu quarto
estava transfigurado. Decerto
não atendi ao chamado da poesia...
III
O poeta vai pela rua.
Ninguém está vendo o poeta
porque o poeta é transparente.
O poeta atravessa a ponte
o poeta desfolha a rosa
o poeta contempla o mar.
Ninguém está vendo o poeta.
Mas duvido que ninguém sinta
a sua presença abstrata.
I
Amo arrumar palavras. Porque sei
que há traças percorrendo
em rios os papéis.
Coisa difícil é dar. Difícil
como saber se damos quando damos
ou tiramos quando tiramos.
Mas as traças são cegas.
Cega a vontade de morrer
mais cega a de escrever.
Palavras são sangue, mesmo
as que gravadas sem propósito.
E ninguém mais do que as traças
sabe disso.
II
Ouvi um chamado distante,
sem voz. Em seguida a surpresa
de assistir à queda de um ovo
pintado com as cores do arco-íris.
─ Algum anjo brincalhão
Querendo tirar barrigada.
Depois outro ovo e mais outro,
tantos, de tantas cores,
que ao chegar em meu quarto
estava transfigurado. Decerto
não atendi ao chamado da poesia...
III
O poeta vai pela rua.
Ninguém está vendo o poeta
porque o poeta é transparente.
O poeta atravessa a ponte
o poeta desfolha a rosa
o poeta contempla o mar.
Ninguém está vendo o poeta.
Mas duvido que ninguém sinta
a sua presença abstrata.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Dabacuri – amazônica 12
Zemaria Pinto
casebre de palha
plantado à margem do rio
– pobreza e silêncio
o som da fúria –
saúvas trabalhando
na tarde ensolarada
casebre de palha
plantado à margem do rio
– pobreza e silêncio
o som da fúria –
saúvas trabalhando
na tarde ensolarada
terça-feira, 27 de abril de 2010
Invernal
Michele Pacheco
Vento norte é vento forte.
O pingo pinga terra quente.
Água pura, a chuva no solo
derrama, vira lama, o tempo
esfria e esquenta, esquenta e esfria.
A chuva reinventa, renova, refaz
paisagem sofrida ninguém queria mais.
Tempo de cheia, o inverno
faz brotar o banco de sementes
deste rico solo pobre.
Tons verdes, natureza viva.
Ora sol aquece, neblina o pico.
Ora chuva cai, congela neblina.
O clima maluco, caduco, insano
sustenta a Amazônia...
com seu eco endêmico.
Sábio traz o inverno, freia o verão.
A antítese certamente
nos, acompanhará
na próxima estação.
Vento norte é vento forte.
O pingo pinga terra quente.
Água pura, a chuva no solo
derrama, vira lama, o tempo
esfria e esquenta, esquenta e esfria.
A chuva reinventa, renova, refaz
paisagem sofrida ninguém queria mais.
Tempo de cheia, o inverno
faz brotar o banco de sementes
deste rico solo pobre.
Tons verdes, natureza viva.
Ora sol aquece, neblina o pico.
Ora chuva cai, congela neblina.
O clima maluco, caduco, insano
sustenta a Amazônia...
com seu eco endêmico.
Sábio traz o inverno, freia o verão.
A antítese certamente
nos, acompanhará
na próxima estação.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Estante do tempo
Tempestade maravilhosa
Paulo Monteiro de Lima (1925-1951)
Como está negro o céu da minha terra!
Que raios! Que trovões! Que vento aflito!...
Toda a tragédia universal se encerra
Neste pedaço enorme do infinito!...
O soluço nostálgico do vento
Roçando com furor pelo telhado,
Traz o eco terrível do lamento
Oriundo da dor de um condenado.
No farfalhar tristíssimo das folhas
Perpassa um sentimento pavoroso!...
A água que no esgoto corre em bolhas
Produz um marulhar quase assombroso!...
O uivo dos cachorros vagabundos
Confunde-se co’a voz da tempestade
E tem-se a impressão que trinta mundos
Pretendem desabar sobre a cidade...
....................................................
No meu quarto pequeno – onde a janela
Com toda precaução, vive fechada –
Soluça de pavor a minha bela,
Quase nua – na cama debruçada.
Eu vendo os seus contornos primorosos
E notando-lhe o arfar dos alvos seios,
Aperto-a nos meus braços carinhosos,
Procurando salvá-la dos receios.
Nesse instante, porém, um trovão forte
Reboa majestoso nas alturas
E ela, de nervoso, no transporte
Me aperta, mergulhada em formosuras.
E então, num frenesi maravilhoso,
– Sem mancha, sem pecado e sem cinismo –
Me beija, me procura e, quase em gozo,
Se deixa dominar pelo histerismo.
Aperto-a nos meus braços docemente...
Confundem-se no amor, nossos cabelos...
A voz da tempestade – agora ausente –
Não chega a perturbar nossos desvelos.
Dir-se-ia que ali, entre os amantes,
A sombra da loucura se encontrava.
As bocas se roçavam delirantes...
E o espectro da luxúria gargalhava.
Agora só se ouve o arfar dos peitos...
Palavras muito mal balbuciadas...
Suspiros assaz longos e imperfeitos...
Promessas pelo gozo entrecortadas.
...................................................
O espasmo chega ao fim. Neste momento
A carne saciou todo o desejo.
A formosa mulher solta um lamento
Ainda suplicando a luz de um beijo.
Depois, formosamente, ela adormece
E eu digo, ao contemplar-lhe a formosura:
– Meu Deus! esta mulher é a meiga prece
Rezada pela boca da natura!
Ó tempestade! Ó deusa dos espaços!
Redobra o teu furor bravo e profundo!
Pois quando esta mulher me está nos braços,
Eu me sinto mais forte do que o mundo!
Paulo Monteiro de Lima (1925-1951)
Como está negro o céu da minha terra!
Que raios! Que trovões! Que vento aflito!...
Toda a tragédia universal se encerra
Neste pedaço enorme do infinito!...
O soluço nostálgico do vento
Roçando com furor pelo telhado,
Traz o eco terrível do lamento
Oriundo da dor de um condenado.
No farfalhar tristíssimo das folhas
Perpassa um sentimento pavoroso!...
A água que no esgoto corre em bolhas
Produz um marulhar quase assombroso!...
O uivo dos cachorros vagabundos
Confunde-se co’a voz da tempestade
E tem-se a impressão que trinta mundos
Pretendem desabar sobre a cidade...
....................................................
No meu quarto pequeno – onde a janela
Com toda precaução, vive fechada –
Soluça de pavor a minha bela,
Quase nua – na cama debruçada.
Eu vendo os seus contornos primorosos
E notando-lhe o arfar dos alvos seios,
Aperto-a nos meus braços carinhosos,
Procurando salvá-la dos receios.
Nesse instante, porém, um trovão forte
Reboa majestoso nas alturas
E ela, de nervoso, no transporte
Me aperta, mergulhada em formosuras.
E então, num frenesi maravilhoso,
– Sem mancha, sem pecado e sem cinismo –
Me beija, me procura e, quase em gozo,
Se deixa dominar pelo histerismo.
Aperto-a nos meus braços docemente...
Confundem-se no amor, nossos cabelos...
A voz da tempestade – agora ausente –
Não chega a perturbar nossos desvelos.
Dir-se-ia que ali, entre os amantes,
A sombra da loucura se encontrava.
As bocas se roçavam delirantes...
E o espectro da luxúria gargalhava.
Agora só se ouve o arfar dos peitos...
Palavras muito mal balbuciadas...
Suspiros assaz longos e imperfeitos...
Promessas pelo gozo entrecortadas.
...................................................
O espasmo chega ao fim. Neste momento
A carne saciou todo o desejo.
A formosa mulher solta um lamento
Ainda suplicando a luz de um beijo.
Depois, formosamente, ela adormece
E eu digo, ao contemplar-lhe a formosura:
– Meu Deus! esta mulher é a meiga prece
Rezada pela boca da natura!
Ó tempestade! Ó deusa dos espaços!
Redobra o teu furor bravo e profundo!
Pois quando esta mulher me está nos braços,
Eu me sinto mais forte do que o mundo!
domingo, 25 de abril de 2010
Minha pátria é minha língua
Encruzamento de linhas
Felipe de Oliveira (1891-1933)
Núcleo de convergência no bojo da noite oval.
Lanterna Verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada)
Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.
Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.
Felipe de Oliveira (1891-1933)
Núcleo de convergência no bojo da noite oval.
Lanterna Verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada)
Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.
Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.
sábado, 24 de abril de 2010
Poesia em tradução
As Ondinas
Heinrich Heine (1797-1856)
Beijam as ondas a deserta praia;
Cai do luar a luz serena e pura;
Cavaleiro na areia reclinado
Sonha em hora de amor e de ventura.
As ondinas, em nívea gaze envoltas,
Deixam do vasto mar o seio enorme;
Tímidas vão, acercam-se do moço,
Olham-se e entre si murmuram: “Dorme!”
Uma – mulher enfim – curiosa palpa
De seu penacho a pluma flutuante;
Outra procura decifrar o mote
Que traz escrito o escudo rutilante.
Esta, risonha, olhos de vivo fogo,
Tira-lhe a espada límpida e lustrosa,
E apoiando-se nela, a contemplá-la
Perde-se toda em êxtase amorosa.
Fita-lhe aquela namorados olhos,
E após girar-lhe em torno embriagada,
Diz: “Que formoso estás, ó flor da guerra,
Quanto te eu dera por te ser amada!”
Uma, tomando a mão ao cavaleiro,
Um beijo imprime-lhe; outra, duvidosa,
Audaz por fim, a boca adormecida
Casa num beijo à boca desejosa.
Faz-se de sonso o jovem; caladinho
Finge do sono o plácido desmaio,
E deixa-se beijar pelas ondinas
Da branca lua ao doce e brando raio.
(Trad. Machado de Assis)
Heinrich Heine (1797-1856)
Beijam as ondas a deserta praia;
Cai do luar a luz serena e pura;
Cavaleiro na areia reclinado
Sonha em hora de amor e de ventura.
As ondinas, em nívea gaze envoltas,
Deixam do vasto mar o seio enorme;
Tímidas vão, acercam-se do moço,
Olham-se e entre si murmuram: “Dorme!”
Uma – mulher enfim – curiosa palpa
De seu penacho a pluma flutuante;
Outra procura decifrar o mote
Que traz escrito o escudo rutilante.
Esta, risonha, olhos de vivo fogo,
Tira-lhe a espada límpida e lustrosa,
E apoiando-se nela, a contemplá-la
Perde-se toda em êxtase amorosa.
Fita-lhe aquela namorados olhos,
E após girar-lhe em torno embriagada,
Diz: “Que formoso estás, ó flor da guerra,
Quanto te eu dera por te ser amada!”
Uma, tomando a mão ao cavaleiro,
Um beijo imprime-lhe; outra, duvidosa,
Audaz por fim, a boca adormecida
Casa num beijo à boca desejosa.
Faz-se de sonso o jovem; caladinho
Finge do sono o plácido desmaio,
E deixa-se beijar pelas ondinas
Da branca lua ao doce e brando raio.
(Trad. Machado de Assis)
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Circences (fragmento)
Alckmar Santos
Em tudo se intromete o tempo, e o viço
Que em nós já coloria a face, agora
Já dana o corpo e entrega, sem demora,
A carne ao pó, e a alma a todo abismo.
É quase certa a dor, e o sempre olvido
Imprime essas suas marcas e atordoa,
Pois que nascemos todos em má hora
– É a vida que vivemos só ruído! –
Se a morte é ela, então, esse espetáculo
Que temos de montar sem mais vontade,
Enquanto o mais das gentes, todos pábulos,
Dão vivas e mais vivas com alarde,
Que seja então um circo em que, bem alto,
Se dê a ouvir a voz de quem se evade!
Em tudo se intromete o tempo, e o viço
Que em nós já coloria a face, agora
Já dana o corpo e entrega, sem demora,
A carne ao pó, e a alma a todo abismo.
É quase certa a dor, e o sempre olvido
Imprime essas suas marcas e atordoa,
Pois que nascemos todos em má hora
– É a vida que vivemos só ruído! –
Se a morte é ela, então, esse espetáculo
Que temos de montar sem mais vontade,
Enquanto o mais das gentes, todos pábulos,
Dão vivas e mais vivas com alarde,
Que seja então um circo em que, bem alto,
Se dê a ouvir a voz de quem se evade!
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Entre cemitério e última classe
Milton Hatoum
Entre cemitério e última classe
há uma diferença motriz:
um é plano jazigo e só gira
com todos os vivos da Terra e suas tumbas.
Enquanto o porão, com seu espaço casulo, gira
no ritmo da Terra e, ainda, com a fluência da água.
Porão e túmulo jamais serão um único frasco.
O porão poderá ser tumulto
ou redoma de ossos falatórios.
Redoma, lugar hemisfério
onde se enxerga fora – longe do leme – o celeste.
Ou lugar que desfia, tecendo ao inverso,
destelhando o sono do homem
que já córrego, não mais será mistério.
Entre cemitério e última classe
há uma diferença motriz:
um é plano jazigo e só gira
com todos os vivos da Terra e suas tumbas.
Enquanto o porão, com seu espaço casulo, gira
no ritmo da Terra e, ainda, com a fluência da água.
Porão e túmulo jamais serão um único frasco.
O porão poderá ser tumulto
ou redoma de ossos falatórios.
Redoma, lugar hemisfério
onde se enxerga fora – longe do leme – o celeste.
Ou lugar que desfia, tecendo ao inverso,
destelhando o sono do homem
que já córrego, não mais será mistério.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
poema de todas as ausências
from ginsberg/to dedé (ou vice-versa)
ar-condicionado
diamante risca o vinil,
um poema de ginsberg sobre poetas suicidados
não há torquato – pronome pessoal intransferível
não ana c. – pássaro de nuvens céu cinza copacabana:
lua sobre bourbon street – brilhando ouro cabelo
ferrão – esta noite
blues chorosos, canções, verão, mãe eu
concorrerei à presidência,
oh! darling
e o poeta enlouqueadormecido pela mescalina
apodrece diante do espelho
seu crânio calvo, seus lábios
chupadores de caralhos, sua
vida inútil de lavador de
pratos e analista de dados
da parede pendem poemas, pôsteres de
guevara e joplin, retratos
de carol e baudelaire,
além de um falso van gogh
na estante, entre miríades de sonhos e sons,
marcianos loucos materializam
suas fantasias de luzes
fosforescentes
mas nada disso me vale porra nenhuma
se você não está aqui!
Assinar:
Postagens (Atom)









