Amigos do Fingidor

terça-feira, 20 de julho de 2010

Jean-Honoré Fragonard (1732-1806)

L’Aurore.

Ciúme

Dedé Rodrigues


O Ciúme corrói minha armadura
e me lança em delírio à ira
à angústia ao medo ao terror...

E a Insegurança que rasteja
e bate à minha porta
é a visitante noturna
que vem se abrigar
em seu próprio horror:

– terra desolada
de onde parte em desatino
deixando somente
disforme abantesma,
seu rastro de dor.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Seppo Similä

The birth of Venus.

Estante do tempo

Destino
Benjamin Sanches (1915-1978)


Estou caminhando

Com destino certo,

Quando me cansar,

Estarei bem perto.

domingo, 18 de julho de 2010

François-Joseph Navez (1787-1869)

Retrato de Jacques-Louis David.

Minha pátria é minha língua

Musa impassível II
Francisca Júlia (1871-1920)



Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.

sábado, 17 de julho de 2010

Herbert James Draper (1863-1920)

The Water Nymph.

Poesia em tradução

A ilha
Giuseppe Ungaretti (1888-1970)



Numa orla onde era perene tarde
De selvas antigas, acesas, absortas,
Se adentrou
E súbito ouviu rumor de plumas
Que se soltara do estrídulo
Pulsar das águas tórridas,
E um espectro (enlanguescia
E refloria) viu:
Ao retornar viu
Que era uma ninfa: dormia
De pé abraçada a um olmo.
Em si de simulacro a chama verdadeira
Errando chegou a um prado onde
A sombra nos olhos se adensava
Das virgens como
A tarde ao pé das oliveiras;
Destilavam os ramos
Uma preguiçosa chuva de dardos,
Aqui ovelhas haviam dormitado
Sob o liso tepor,
Desfolhavam outras
A alfombra luminosa;
Eram as mãos do pastor vidros
Polidos de uma débil febre.


(Trad. Dora F. da Silva)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Joseph Heintz, the Elder (1564-1609)

The Rape of Proserpina.

Consequência

Denise Teixeira Viana



ó não perturbes
por favor
este sono brasileiro
que já nasci deformada
nasci virada
para o impossível

ó não perturbes
por favor
esta discussão acadêmica
que já nasci anêmica
e me atolei na invisível polêmica
da proposição doutoral

ó por favor
não perturbes
esta utopia americana
que já nasci leviana
e adotei a identidade
de falsa puritana

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Laurent de La Hyre (1606-1656)

Landscape with Peace and Justice embracing.

Amazonas

Celdo Braga

A Thiago de Mello


O rio se banha de luz
murmureja e vai seguindo
de porto em porto esculpindo
as margens do seu destino

Destino de ser caminho
de ser barco e navegante
de ser leme e comandante
do seu próprio caminhar

Canaranas, matupás
membecas e murerus
são ilhas de arribação
no regime das enchentes

Nas vazantes borda praias
onde o rito da desova
aninha nos tabuleiros
tartarugas tracajás

E no ciclo das areias
a vida eclode apressada
pra ser de novo tocada
pelo compasso do rio

Quantas vezes este rio
brincou comigo de pira
lavou roupas nas beiradas
foi a fonte do meu pão...

Em silencio e solitário
vai vencendo desafios
se envereda em paranás
bebe as águas de outros rios

Guarda os segredos dos lagos
se embrenha nos igapós
sabe notícia da mata
na boca do igarapé

Ao desfolhar a paisagem
de imagens já distantes
dos primeiros navegantes
acordando o seu silêncio

O rio acende memórias
de lendas de encantamentos
fragmentos de mistérios
que borbulham do seu leito

Carrega todos os sonhos
do olhar das ribanceiras
que se enche de esperança
ao ver o barco passar

Sempre que um gesto impensado
tolda as águas mancha a vida
o rio geme lá no fundo
a ferida que já sangra

O sol míngua no poente
brisa mansa maresia
o rio se aquieta e dorme
em noturna romaria

No amanhecer ainda brilha
a luz dos últimos astros
que à noite se banharam
no firmamento do rio

Rio de saber, santuário
onde os pajés, os sacacas
em mirações milenares
beberam da sua luz

Luz de versos que caminham
alumiando os barrancos
que choram terras caídas
à procura de outro de outro chão

Com jeito de cobra grande
o rio das águas barrentas
rumo leste busca o mar
talvez para se perder
talvez para se encontrar

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Gérard de Lairesse (1641-1711)

Diana and Endymion.

Sonho

Zemaria Pinto


o sonho que te sonhei
na noite em que não ligaste
começou num pesadelo:
te procurava assaltado
buscando por toda parte
por vielas escondidas
barrancos enlameados
barracos tão desdentados
que pareciam sorrir
escarnecendo de mim

– me vi perdido entre sombras
entre sombras que vivi
as mesmas que te guardavam
quando perdi-me de ti

no sonho que te sonhava
as lâminas rebrilhavam
sem nenhuma simetria
forjando um balé infame
de ritos cotidianos
e o sangue que o chão marcava
pelas trilhas do caminho
eram sinais decifrados
de sacrifícios inúteis
a um Deus sacrificado

– tentei gritar mas o grito
ecoou dentro de mim
a solidão de um vagido
no silêncio absoluto

quando por fim te encontrei
num leve vestido branco
entre o vasto plenilúnio
e a manhã dos girassóis
meu corpo se uniu ao teu
e o corpo com que sonhei
deixou de ser corpoenigma
com seus cheiros, com seu gosto
de mel e sal entranhados
na pele dos meus sentidos

(– no sonho me desencontro
do desencanto da vida
tecendo em tons de delírio
esta balada falida)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Caesar van Everdingen (1617-1678)

Bacchus with Nymphs and Cupid.

Tempo tempo

João Sebastião



A ti que não te dás tempo
vou te dizer sobre o tempo.

O presente é uma invenção
fadada a virar passado
a cada instante que passa.

O futuro, uma promessa
nunca dantes realizada
somatório de presentes
transmudados em passado.

E o passado, como passa?
O passado se repete
se reparte acumulado
em cada dobra de tempo
em cada lençol dobrado.

O passado se repete
nem sempre com o mesmo brilho
no choro de nossos filhos
nas histórias que se contam
nas contas que se recontam
nos contos de faz-de-conta.

Se repete feito farsa
às vezes, feito tragédia
mas quase sempre é comédia
a dividir nossas vidas
porque viver é mais nada
que nadar contra essa onda
que nos maltrata e consome
de procurar ser feliz.

E o que pouca gente sabe:
a felicidade é um grão
perdido pelo salão
abarrotado de vícios.

Grão de messe, grão de posse
ser feliz é uma ilusão
encantamento, magia
deve ter parte com o demo
pois dá uma puta alegria
despudorado tesão
parece até carnaval.

E a carne, fraca, possessa
de sorriso escancarado
despe a máscara que o tempo
engessou-lhe sobre a face
e vê-se então o que há por baixo:
um sorriso renovado
fresco, doce, quase ingênuo
de um tempo de ser feliz
que todos nós conhecemos
um pouco antes ou além
nalgum lugar do passado.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Heidi Taillefer

The birth of Venus.

Estante do tempo

Angústia Numeral 21
Antísthenes Pinto (1929-2000)


Dentro do meu relógio,

a minha dor.

As reticências da tarde

são cães esgueirando seus latidos.

Depois irei para o vale de ardências

ver os utensílios da manhã.

Dentro da minha dor

o relógio se apagou

e as estrelas apodreceram

no prato que trago perto,

queixo em minhas mãos.

Dentro de mim começo a sentir

raízes como se eu fosse um muro estatelando.

domingo, 11 de julho de 2010

Madeleine Lefebvre

Portrait of a girl.

Minha pátria é minha língua

Soneto do amor total
Vinicius de Moraes (1913-1980)


Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

sábado, 10 de julho de 2010

Eugène Giraud (1806-1881)

Retrato de Gustave Flaubert.

Poesia em tradução

O raio que não cessa
Miguel Hernández (1910-1942)



Um carnívoro punhal
De suave asa homicida
Mantém seu voo e seu brilho
Em redor de minha vida.

RaIo de metal crispado,
Faiscantemente caído,
Esporeia meu costado
Onde faz seu triste ninho.

Minha têmporas, janelas
Floridas da mocidade,
Estão negras e, com elas,
As cãs de meu coração.

Tão malvada é a natureza
Do raio que me esporeia
Que vejo meus verdes anos
Como a lua vê a aldeia.

Recolho nestas pestanas
O sol da alma e do olho,
Flores de teia de aranha
De minhas tristezas colho.

Aonde irei que não vá
A perdição me buscar?
Teu fado é de praia e minha
Vocação é a do mar.

Descansar desta labuta
De tufão, de amor, de inferno
É impossível, e a dor
Fará meu pesar eterno.

Mas no fim te vencerei,
Ave, raio secular,
Coração, porque da morte
Ninguém me faz duvidar.

Anda, pois, anda, punhal
Voa, fere, que algum dia
Montarás, tempo amarelo,
Em minha fotografia.

(Trad. Mário Faustino)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pelagio Palagi (1775-1860)

The Nuptials of Cupid and Psyche.

Visão de São Paulo à noite – Poema Antropófago sob Narcótico

Roberto Piva (1937-2010)


Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas
          acende velas no meu crânio
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas
e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo
fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes
          chupando-se como raízes

Maldoror em taças de maré alta
na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida
a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria
          feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas
          definitivamente fantásticas
há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo
a lua não se apoia em nada
eu não me apoio em nada

sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas
teorias simples fervem minha mente enlouquecida
há bancos verdes aplicados no corpo das praças
há um sino que não toca
há anjos de Rilke dando o cu nos mictórios
reino-vertigem glorificado
espectros vibrando espasmos

beijos ecoando numa abóbada de reflexos
torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos
         enlouquecidos na primeira infância
os malandros jogam ioiô na porta do Abismo
eu vejo Brama sentado em flor de lótus
Cristo roubando a caixa dos milagres
Chet Baker ganindo na vitrola

eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas
         partidas do meu cérebro
eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes
         vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e
         abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos
         colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror
disparo-me como uma tômbola
a cabeça afundando-me na garganta

chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me
nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado
quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopeias libertas
ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
         correrias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em voltas das minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas
angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos
         entre a solidão e o sangue, entre as colisões, o parto
         e o Estrondo

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Abraham Janssens (1575-1632)

Venus and Adonis.

Quase toada

Artemis Veiga


(Para um menino-muito-meu-amigo)


Creio em ti, menino-vadio
e no teu silêncio puro
só quebrado
pelo pranto sem lágrimas
contido num único soluço
que tua voz não realiza...

Creio em ti, menino-grande
e nos teus sonhos encantados
que acalantam
segredos de coisas
eternas
nas curvas turvas
da madrugada...

Creio em ti, menino-noturno
e no teu silêncio grave
machucado
por presenças impossíveis
que mastigam
solidões gêmeas
entre gritos estrangulados...

Creio em ti, menino-trazverso
e nas tuas tramas
claras e cheias
de palavras perfeitas
urdidas
no riso matreiro
e no hálito de noite
que te inaugura
em azul-grávido
de certezas.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

François Clouet (1510-1572)

The bath of Diana.

Dabacuri – amazônica 17

Zemaria Pinto



cruzando o rio,

borboletas amarelas

– efêmera aventura



sob a chuva fina

adivinho Parintins

– ah, meu boi-bumbá

terça-feira, 6 de julho de 2010

José Maria de Medeiros (1849-1925)

Iracema.

Lembranças ao entardecer

Rafael Marques
(ao descobrir antigos poemas)



A manhã mescla-se à tarde.
O rosto de recente passado
descobre-se dos limos
e penumbras, a cada
lento e fascinado

escavar
de cartas.

Os olhos fúlgidos de agora
alentam letras de outrora:
alojados nos quartos
opacos dos fonemas estão
as falas, ruas e claustros.
A mesa imensa da solidão.

O afago de tua fala não mais
acolhe o imaginário baú das lembranças
gritantes, mas encobre
do presente, o astro que antes sorria
(agora quase morto).
Falta de calor numa chuva fria.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ella Azizi

Die Geburt der Venus - meine Intepretation.

Estante do tempo

Mar despovoado
Sebastião Norões (1915-1972)



Mar despovoado. O coração em largas sensações.
Uma gaivota rasgando o espaço inutilmente.
Na profundeza das águas o incógnito
e no céu sempre o mesmo azul e as mesmas esperanças.
Peixe isolado mostrando à flor do líquido
a razão de viver.
A vastidão comendo tudo.
E o vácuo ainda maior.
O pensamento se desabotoa célere
mas a amplidão é infinita.
Alcançar a Austrália ou alcançar o Alasca
é coisa que fica na vontade.

Nem a amizade brotou verdadeira.
Agora só o repouso que não finda.
O afogamento para sempre de todas as ilusões
e a morte completa.

domingo, 4 de julho de 2010

Francesco Albani (1578-1660)

Diana and Actaeon.

Minha pátria é minha língua

Nobre
B. Lopes (1859-1916)



Quando eu voltar ao meu castelo, o Sonho,
Brasonado de um lis em campo de ouro,
Onde há muito me espera um anjo louro
De fina palidez e olhar tristonho,

A pedraria que nas rimas ponho
Refulgirá de novo, e o irial tesouro
Terá, então, um brilho imorredouro
E eu de novo terei o estro risonho.

Hoje ainda não! É um campo de batalha
Este viver acerbo e amargurado,
Onde um rebanho de ilusões tresmalha.

Breve, porém, em bálsamos imerso,
Na minha torre heráldica fechado,
Nobreza e graça cantará meu Verso!

sábado, 3 de julho de 2010

Hans Baldung (1484-1545)

Harmony of the Three Graces.

Poesia em tradução

Elogio de uma urna
Hart Crane (1899-1932)




Era uma face nórdica, meigo
Disfarce de exilado reunindo
Os olhos eternos de Pierrot
E a gargalhada de Gargântua.

Seus pensamentos, que me confiava
Do travesseiro, da colcha branca
Heranças eram – bem vejo agora –
Cavaleiros sutis da tempestade.

A lua torta no monte torto
Já nos levara a pressentir
O que, ainda vivo, o morto guarda
E certos cálculos da alma, iguais

Aos do relógio, renitente, empoleirado
Na antecâmara do crematório
Tocando até nosso elogio
De glórias próprias da ocasião.

Por mais que lembre cabelos de ouro
Não quero ver a testa partida
Nem ouço o som seco de abelhas
Atravessado no espaço lúcido.

Que vale a boa intenção destas
Palavras que solto e perco no fumo
Da primavera dos arrabaldes?
Se ao menos fossem troféus do sol!

(Trad. Mário Faustino)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828)

3 de maio de 1818.

Ritmo de pilão

António Nunes (1917-1951)



Bate, pilão, bate,
que o teu som é o mesmo
desde o tempo dos navios negreiros,
de morgados,
das casas-grandes,
e meninos ouvindo a negra escrava contando histórias de florestas, de bichos, de encantadas...

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e a casa-grande perdeu-se,
o branco deu aos negros cartas de alforria
mas eles ficaram presos à terra por raízes de suor...

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
desde o tempo antigo
dos navios negreiros...

(Ai os sonhos perdidos lá longe!
Ai o grito saído do fundo de nós todos
ecoando nos vales e nos montes,
transpondo tudo...
Grito que nos ficou de traços de chicote,
da luta dia a dia,
e que em canções se reflete, tristes...)

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e em nosso músculo está
nossa vida de hoje
feita de revoltas!...
Bate, pilão, bate!...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Hans Rottenhammer (1564–1625)

Minerva and the Muses.

As barrancas

Maria José Hosanah


                I


Na barra de tua saia,
as barrancas
bordadas na barra
de barro e madeira,
de gentes em bando.

A mulher que se quisera bela
vestira-se de branco,
de cimento e pedra,
de adorno em brinco,
mas mulher descalça.

Na barra de tua saia
rendada,
do barro que pisava,
dos bilros de estacas,
dos berros das gentes
– as barrancas.

A mulher que se quisera bela
ornara-se de rendas,
de salões cristal,
de painéis de lendas,
mas de pés descalços.

Na margem de tua saia,
madeiras moldadas,
marginais de lama,
barradas imagens,
entre o rio e fama
– as barrancas.

A mulher que se quisera bela
fizera-se ilha,
em verde e em rio,
em raízes-pilhas,
em rádios e palhas,
dúplice ao meio
d’argamassa barro.

No friso de tua saia
– Mana-os
guizos e risos,
bardos-bordados,
berros-barrados,
Maninha
as barrancas.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Noel-Nicolas Coypel (1690-1734)

The Rape of Europa.

exercício nº 12

Zemaria Pinto



à fronte guarda sombras de outras eras
e um par de olhos tão tristes, que canção
alguma alcança. fixas ancas lançam
o rabo que balança ao som do vento.

a branca estrada sob o ubre úmido
é o caminho da força eclipsada
à meia-lua que se forma em aura
no cósmico avatar da terra farta.

esta a imagem da Vaca, impura e bela.
à tortura ordenada indiferente,
as asas ruflam num ruído surdo
buscando o largo campo do universo:

a Vaca precipita-se no espaço,
o olhar perdido nalgum vão do éter.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Edwin Longsden Long (1829-1891)

The Eastern Favourite.

Adamas

Nelson Castro

Para Zemaria Pinto


Abro como um livro

O lado direito
à mão do poeta
e leio versos perfeitos
de rimas raras
em linhas transversas.
Beijo-a...
E sinto à flor da pele
a quinta-essência da poesia.

Abro como um livro

O lado esquerdo
à mão do poeta
e leio o mapa traçado
o itinerário que leva
à jazida encantada dos adamas.
Beijo-a...
E sinto uma lágrima
cair na mão do poeta
e no mesmo feérico instante
transforma-a em diáfano diamante.

Mas nada mais belo
quando as mãos do poeta
fecham-se em laço
de um lírico abraço
em celebração ao milagre da vida.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Judith Henkel

Botticelli – die Geburt der Venus.

Estante do tempo

Igapó
Américo Antony (1895-1970)



Há uma escura paragem de saudades
Onde a água esconde as tradições amigas...
Onde a água chora umas canções antigas...
Onde a água geme... e é quase divindade.

Lá o rio oculta amplas fadigas,
E as sombras abrem em flor de suavidade,
E espera, e dorme, e sonha a eternidade
De insetos de ouro, e prónubas formigas...

Teto de selva e leito de água e trevas
Onde aves de mil cores bebem alma
Dos beijos nidiquidrópicos da palma...

Estoar de pólen, luz de água lembrando
Retinas mortas... gerações primevas...
Líquidos olhos de pajés boiando...

domingo, 27 de junho de 2010

Clement Serneels (1912-1991)

Congolese nude.

Minha pátria é minha língua

Profissão de Fé
Carvalho Júnior (1855-1879)



Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.

Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos do lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.

Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpos de alfenim.

Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.

sábado, 26 de junho de 2010

François-Joseph Navez (1787-1869)

The nymph Salmacis and Hermaphroditus.

Poesia em tradução

Soneto
Félix Arvers (1806-1850)



Tenho n’alma um segredo e um mistério na vida:
É este amor imortal gerado num momento;
Sufoco-o, pois não espera alívio o meu tormento
– E não vê, quem o causa, a minha alma dorida!

Por ela – ai! –, passarei, sombra despercebida,
Sempre a seu lado e sempre só, e em desalento!
E hei de findar, morrer neste martírio lento,
Sem pedir, sem ousar, sem uma graça obtida.

Embora doce e terna, essa que me alanceia
Irá continuando o seu caminho, alheia
A este amor que em murmúrio a segue onde ela vá.

Presa ao dever, tranquila, honestamente bela,
Talvez pergunte, ao ler versos tão cheios dela:
“Que mulher será esta?” – e não compreenderá.


(Trad. Gondin da Fonseca)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Oleg Leonov

Bather.

Ao meu computador

Marco Catalão



Vamos morrer reunidos, meu irmão!
Em poucos anos, tu ficaste antigo;
e a obsolescência que ocorreu comigo
foi bem pior: roeu meu coração...

Ah! Esta noite é a noite do apagão!
Passei muito mais tempo aqui, contigo,
do que com a amante ou com o melhor amigo,
e é pra ti que os meus suspiros vão!

Não morrerão, porém, os teus arquivos!
Salvos num site obscuro, mas seguro,
eles perdurarão, absurdos, vivos,

pelo ciberespaço, a flutuar,
até encontrarem o leitor futuro
que os possa compreender... ou deletar.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ives Diey (1892-1984)

Título desconhecido.

Dúvida?

Ana Célia Ossame



À noite, uma fera indecifrável

sai de mim

e escreve teu nome nos muros,

nos ônibus, no suor dos copos,

no sereno das vidraças...

Depois a fera volta

e finge que é feliz.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sergei Semenovich Egornov (1860-1920)

Reclining nude on a draped sofa.

Dabacuri – amazônica 16

Zemaria Pinto



dando vez à chuva

o sol causticante sai

– verão no Madeira



de margem a margem,

a tarde tem uma cor

– borboletas amarelas

terça-feira, 22 de junho de 2010

Delphin Enjolras (1857-1945)

La lettre.

Natureza mortal

Roberto Gama Lopes



Eu vi a árvore descendo o rio
Com muitas outras presas em lamento
Sendo levadas para o esquecimento
Numa prisão de dor, calor e frio.

No ir e vir do banzeiro que assombra
Senti a dor deste triste arvoredo
Minh’alma tremia seguindo o cortejo
De morte daquela que fazia sombra.

As aves trinavam num coro tristonho
O destino errôneo do sofrido ninho
A trágica perda do seu habitat.

Tal qual essas aves perdi os meus sonhos
Olhando esses troncos deitados no rio
Descendo a corrente pra não mais voltar.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Gustave Moreau (1826-1898)

La Naissance de Vénus.

Estante do tempo

Súplicas
Elias Gavinho (1895-1935)



Ó ternas ilusões da minha mocidade,
Suaves como a luz, heróicas, graciosas
Voltai a mim, voltai, brancas e luminosas
Espargindo alegria a esta mútua saudade.

Vós sois da vida o deus, vós sois a hilaridade
De quimeras sem fim: imáculas, airosas,
Sois pérolas d’orvalho em tranças majestosas
Onde pompeia a luz feérica verdade.

Se de ilusões outrora, alegre, satisfeito,
Almejava um só fim, risonho e não funéreo,
Por que deixais agora arder-me em febre o peito?...

Ó minhas ilusões, ó meu viver aéreo,
Não mais me abandoneis: volvei-me o casto efeito
Desse viver feliz, num louco refrigério.

domingo, 20 de junho de 2010

Henri Rousseau (1844-1910)

le rêve.

Minha pátria é minha língua

Os versos que te fiz
Florbela Espanca (1894-1930)



Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

sábado, 19 de junho de 2010

Masters of the Fontainebleau School (1550-1590)

Diana Huntress.

Poesia em tradução

Romance da Menina Preta
Luiz Cané (1897-1957)



Toda vestida de branco,
muito engomadinha e quieta,
à porta de sua casa
estava a menina preta.

Grande laçarote branco
lhe ornamentava a cabeça;
e, pelo pescoço, muitas
voltas de contas vermelhas.

As outras crianças do bairro
brincavam com as companheiras.
As outras crianças do bairro
nunca brincavam com ela.

Toda vestida de branco,
muito engomadinha e quieta,
no seu silêncio sem lágrimas
chorava a menina preta.

Toda vestida de branco,
muito engomadinha e quieta,
dentro de um caixão de pinho
descansa a menina preta.

Um anjo branco à presença
de Deus a menina leva.
Não sabe a menina preta
se há de estar triste ou alegre.

Deus afaga-lhe a cabeça,
contemplando-a docemente,
e um lindo par de asas brancas
às suas espáduas prende.

Com seus dentes de canjica
sorri a menina preta.
Deus chama todos os anjos
e diz: “vão brincar com ela!”


(Trad. Cecília Meireles)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Canaletto (1697-1768)

Regatta on the Canale Grande.

Glauber morto

Ferreira Gullar



O morto
não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem na lapela
uma flor
                  não calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Léon François Comerre (1850-1916)

Girl with a golden wrath.

As mãos

Cláudio Fonseca



Vem-me sempre essa visão:
sou levado pela mão
em uma escadaria.

Tão antiga a outra mão...
E que forte a impressão
em sua anatomia!

Que saudade é essa mão?
Quem seria o charlatão
de ourivesaria

que repõe as nossas mãos,
com a doce ilusão
e uma simetria?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

John Duncan (1866-1945)

A Masque of Love.

aurora

Zemaria Pinto



aurora luz/escuridão
          quebra ruptura

aurora alumbramento
          dor choro prazer
          gozo solidão

aurora paz
          guerra terremoto enchente
          ternura encantamento

aurora acanhamento
          recolhimento
          explosão

aurora luz
aurora escuridão

                          – ou não?
                          – ou não?

terça-feira, 15 de junho de 2010

Aime-Nicolas Morot (1850-1913)

Nude with a japanese umbrella.

Bate à porta

Cândida Alves



Bate à porta

come, dorme, sai e

bate a porta

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Venus rising from the sea.
Autor desconhecido.

Estante do tempo

Inverno
Álvaro Maia (1893-1969)



                             I


Vai morrendo a alegria dos estios,
num retintim de pompas e fanfarras:
bandos de pombos em revoos sombrios,
periquitos em loucas algazarras...

A água se espalha em volumosos fios,
que a terra escarvam, ferem como garras...
Fogem do espaço os fracos vozerios
das aves, das abelhas, das cigarras...

Os rios, como veias rebentadas,
dão o sangue lustral – a água que escorre –
às margens, em torrentes e enxurradas...

Há vozes pela selva, em canto eterno
– voz de saudades ao verão que morre,
– voz de exorcismos ao vindouro inverno!

domingo, 13 de junho de 2010

Giovanni Antonio Pellegrini (1675-1841)

Allegory of Painting.

Minha pátria é minha língua

Soneto para o Século XX
Pethion de Vilar (1870-1924)




Dizem que a arte de Goethe é uma arte anacrônica
Coeva do mamute e das larvas primárias;
Que Homero não passou de uma abantesma trágica
Vislumbrada através de névoas milenárias;

Dizem que todos nós lembramos uns ridículos
Idólatras senis de coisas funerárias,
E andamos a colher – incuráveis maníacos –
Em cinzas hibernais, flores imaginárias;

Dizem que a Poesia há muito está cadáver;
Que a rima faz cismar num guiso de funâmbulo
Monótono, a tinir no trampolim do Verso...

Que importa? se a bendita, essa loucura mística
Entorna em nossa Mágoa o leite do papáver
E abre à nossa volúpia o azul de outro Universo?

sábado, 12 de junho de 2010

Andre Lhote (1885-1962)

Bacchante.

Poesia em tradução

Ave viúva pousada
Percy Bysshe Shelley (1792-1822)



Ave viúva pousada
Chorando por seu amado
Sobre um ramo regelado

Acima o vento gelado
Se arrasta sobre o riacho
A congelar-se lá embaixo

Folha alguma, a floresta, recobria
Sobre o solo nenhuma flor subia

E pouco movimento lá no ar
Só a roda de moinho a soar.


(Trad. José Lino Grünewald)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Gyula Tornai (1861-1928)

Portrait of Jaroslava, the artist's daughter.

Segundo ato

Beatriz Escorcio Chacon



Eu já fui amorosa
e cálida
tive até um diário
água-com-açúcar
com cadeado.
Eu agora sou tão
apaixonada
que abro pernas
e pingo sangue
diariamente
na lira dos meus tantos anos.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

William Merritt Chase (1849-1916)

Back of a Nude.

Coração couraçado

Astrid Cabral



Tempestades em oceanos

ou em copos d’água

e não peço a Deus balsas

barcaças nem praias.

Só um coração couraçado.

Desses que no lombo

das ondas vão sem tombos

o convés em festa.

                               Iluminado.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Noel-Nicolas Coypel (1690-1734)

The bath of Diana.

Dabacuri – amazônica 15

Zemaria Pinto


verde verde verde
ora mais claro, ora escuro
verde verde, sempre



vida à beira-rio:
igreja, escola, seis casas
– o mais é imenso

terça-feira, 8 de junho de 2010

Charles-Antoine Coypel (1694-1752)

Molière portrait.

Sonho de Poema

Rosa Clement



Há um belo poema no meu sonho
que nunca vem comigo quando acordo
pois só enquanto durmo é que recordo
de todas as estrofes que componho.

Meu semblante se torna mais risonho
e surpresa com minha arte transbordo
em risos certa que trarei a bordo
de minha mente os versos que disponho.

Porém a ilusão é um defeito
do sonho que me traz a poesia
e a vaidade que me invade o peito.

Então sinto que tudo está desfeito.
As palavras não são as que eu queria
e o meu poema fica preso ao leito.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Jorg Dubin

The birth of Venus.

Estante do tempo

Luar amazônico
Mavignier de Castro (1891-1970)



Verão. Rio em deflúvio. A lua cheia
alonga perspectivas pela mata;
só a fauna da noite ali vagueia
à sombra errante que o luar dilata...

Álgido, estreito igarapé serpeia,
qual sinuosa lâmina de prata...
Que melopéia o urutauí flauteia
na solidão lunar da terra grata!

Amanhece; mas imitando um rito
sobre a mata flutua um véu de neve...
E o Sol – pátena de ouro do Infinito,

espera que no altar da selva nua,
o Sacerdote imaterial eleve
a imagem eucarística da lua!

domingo, 6 de junho de 2010

Karel van Mander (1548-1606)

Garden of Love.

Minha pátria é minha língua

Nosce te ipsum
Martins Fontes (1884-1937)



Quem serei? Quem sou eu? Não me conheço
e tu, meu sósia, te conheces já?
Estudaste a tua alma pelo avesso,
tua mortalidade que será?

Nota-me bem. Feito do mesmo gesso,
que o mesmo em tudo sejas. Oxalá!
E, sendo assim, contigo me pareço,
e, o que és, comigo se parecerá.

Verás, a olhar-me, tua imagem cara,
que a face é minha, mas o rosto é teu,
e a exatez a aparência desmascara.

Relembrarás alguém que ontem morreu,
e, reencarnado em mim, hoje te encara,
sem saber quem tu és, ou quem sou eu.

sábado, 5 de junho de 2010

Frederik Goodall (1822-1904)

The Finding of Moses.

Poesia em tradução

Cabeça empinada, lá vem ele...
Georg Heym (1887-1912)



Cabeça empinada, lá vem ele por sobre os telhados
Arrastando seus cabelos amarelos,
O feiticeiro quieto, subindo para os aposentos do céu
Pelo sinuoso atalho de flores bem estrelado.

Embaixo, todos os animais na floresta e nas brenhas
Têm as cabeças limpas e penteadas,
Cantando o coral lunar. Mas as crianças,
De camisões brancos, ajoelham-se nas camas.

O mar infinito de minh’alma
Baixa devagar em suave maré.
Sou todo verde por dentro. Vou desaparecendo
Como um balão de vidro.


(Trad. Claudia Cavalcanti)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Henri Matisse (1869-1954)

Decorative figure.

A uma virgem

Campos D’Oliveira (1847-1911)

(Improviso)


Motora dos meus martírios!
Causa da minha saudade!
Ingênua e casta deidade!
Minha terna inspiração!
Condói-te da triste sorte
Do jovem que te ama tanto,
Que por ti verte agro pranto
Gerado no coração!

Rasga-me o peito, se queres,
E vê nele a intensa chama,
Que há três anos o inflama
Em cruas dores, sem fim...
De padecer já cansado
Vou sentindo a morte dura
Arrastar-me à sepultura,
E na flor da idade assim!...

E podes ser tão tirana,
Que possas ver indif’rente
D’anos dez’nove somente
Morrer o teu trovador?!
Ai! Não! Alenta-me a vida,
Reprime esta dor infinda
Dando-me só, virgem linda,
O teu puro e casto amor!...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Cayetano de Arquer Buigas

Título desconhecido.

Rio Negro

Simão Pessoa



Invejo o silêncio escuro destas águas

como objeto de límpida inocência

onde o deslumbramento transitório

deste agressivo rio-mar

repousa equivocado e gasto.

Sou fluido e gesto

na paisagem radiante

que estas águas anunciam

além do pólen e da luz.

Como sede no deserto

assim me quero água:

retratando a fauna entristecida,

refazendo a flora devastada.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Juliette Aristides

Título desconhecido.

exercício nº 10

Zemaria Pinto



Às portas do Encantado me detenho
olhando o chão lavado por silêncios
buscando abismos, marcas de outras lendas
no lânguido rumor do riocorrente

E tu, Náiade minha, guardiã
do negronegro espelho espedaçado
em nenúfares lunares debruçada
feito Ofélia, em orquídeas mergulhada

desarma-te por fim de clava e clave
e assoma-te guerreira à montaria
à pele, à carne e ao fogo dos sentidos

À cabeceira de teu leito jazo
adormecido por noturnas vagas
de gozo e gozo e gozo e gozo e gozo

terça-feira, 1 de junho de 2010

Correggio ou Antonio Allegri (1490-1534)

Jupiter and Io.

Amigo poeta

Darlene Fernandes



Conheço um poeta

               que escreve

palavras

               no ar nítido

para enxergarmos

                         letras

invisíveis.