Amigos do Fingidor

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Réquiem em sol da tarde

Soares Feitosa

“Grita, para ver se alguém te responde”
(Jó, 5,1)

Sim,
a porteira do caminho do rio
ainda era a mesma.

A direção do rio também;
presumo não tenham mudado o rio.

O benjamim, disseram,
morrera na Seca do 93;
arrancaram-no pelo tronco.

Não replantaram sombra,
nem pássaro.

O banco de aroeira,
racharam-no em lenha de fogo;
O curral das vacas,
também racharam-no.

O chiqueiro das ovelhas,
à esquerda da casa
e o dos bodes,
à esquerda do das ovelhas,
sumiram todos.

O batente da porta-da-frente,
e abaixo dele, outro batente,
onde uma pedra,
com um caneco d’água
lavei os pés,
ainda estão lá,
os batentes;
e nos batentes também estavam
meus rastros em riscos de fogo,
que continuam.

Os canários amarelos,
os mofumbos florados,
não os vi;
nem Flor...
que também não vi.

Os armadores da rede,
na sala-da-frente, sim,
estavam no lugar,
outra vez
prontos para rangir.

E daquelas pessoas,
quando perguntei por elas,
fizeram-me um gesto distante.

Perguntei por mim,
ninguém sabia quem era.

Eu disse:
é um conhecido meu que gostava muito
daqui.

Perguntaram-me quem eu era.

Um amigo — disse —,
e fiz um gesto
ao tempo.

Ficaram sentidos por não saberem
nem de mim, nem do “outro”.

Uma criança pequena começou a gritar,
lá dentro.

A mãe correu
para acudir.

Despedi-me
sem dizer palavra.