quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
roteiro para depois da minha morte (i/iv)
Zemaria Pinto
quando minhas cinzas
se fizerem ao vento
e um soluço amargo
te oprimir o peito
lembra-te do dia
em que este poema
te sangrou as mãos
com o mais obsceno
dos pedidos: perdão!
quando minhas cinzas
se fizerem ao vento
e um soluço amargo
te oprimir o peito
lembra-te do dia
em que este poema
te sangrou as mãos
com o mais obsceno
dos pedidos: perdão!
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Sobejo
Dedé Rodrigues
Paira
nas retinas já cansadas
bela dança de fossados
e de amantes suicidas
esquecidos além-mar...
Lutam
na memória enfurecida
reis cruzados e templários
velhos mundos
outros sonhos...
minha parte do espólio!
Vago
como a musa enclausurada
nos despojos de Jerusalém
a mim me cabe
o consolo da rotina:
– remover as pedras
e desenterrar meus mortos!
Paira
nas retinas já cansadas
bela dança de fossados
e de amantes suicidas
esquecidos além-mar...
Lutam
na memória enfurecida
reis cruzados e templários
velhos mundos
outros sonhos...
minha parte do espólio!
Vago
como a musa enclausurada
nos despojos de Jerusalém
a mim me cabe
o consolo da rotina:
– remover as pedras
e desenterrar meus mortos!
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Estante do tempo
Hoje
I. Xavier de Carvalho (1872-1944)
Do meu peito o pomar, dantes risonho,
Hoje é sem chuva e até de orvalho enxuto,
O ar vive seco e o céu vive tristonho,
Sem água o espaço e a terra sem dar fruto.
O horror da morte a perpassar escuto
Por sobre tudo num pavor medonho!
Té os galhos, sem cor, estão de luto
Das carcomidas árvores do Sonho!
– Por toda aquela natureza em mágoa
Tudo sinto morrer à míngua d’água
Sem que o inverno do Céu jamais irrompa...
Na árida terra que o calor invade,
A única flor é o cactus da Saudade
Que desabrocha lânguida e sem pompa!
I. Xavier de Carvalho (1872-1944)
Do meu peito o pomar, dantes risonho,
Hoje é sem chuva e até de orvalho enxuto,
O ar vive seco e o céu vive tristonho,
Sem água o espaço e a terra sem dar fruto.
O horror da morte a perpassar escuto
Por sobre tudo num pavor medonho!
Té os galhos, sem cor, estão de luto
Das carcomidas árvores do Sonho!
– Por toda aquela natureza em mágoa
Tudo sinto morrer à míngua d’água
Sem que o inverno do Céu jamais irrompa...
Na árida terra que o calor invade,
A única flor é o cactus da Saudade
Que desabrocha lânguida e sem pompa!
domingo, 29 de novembro de 2009
Minha pátria é minha língua
Ponderação do rosto e olhos de Anarda – Soneto X
Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711)
Quando vejo de Anarda o rosto amado,
Vejo ao Céu e ao jardim ser parecido;
Porque no assombro do primor luzido
Tem o Sol em seus olhos duplicado.
Nas faces considero equivocado
De açucenas e rosas o vestido;
Porque se vê nas faces reduzido
Todo o Império de Flora venerado.
Nos olhos e nas faces mais galharda
Ao Céu prefere quando inflama os raios,
E prefere ao jardim, se as flores guarda:
Enfim dando ao jardim e ao Céu desmaios,
O Céu ostenta um Sol, dous sóis Anarda,
Um Maio o jardim logra; ela dous Maios.
Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711)
Quando vejo de Anarda o rosto amado,
Vejo ao Céu e ao jardim ser parecido;
Porque no assombro do primor luzido
Tem o Sol em seus olhos duplicado.
Nas faces considero equivocado
De açucenas e rosas o vestido;
Porque se vê nas faces reduzido
Todo o Império de Flora venerado.
Nos olhos e nas faces mais galharda
Ao Céu prefere quando inflama os raios,
E prefere ao jardim, se as flores guarda:
Enfim dando ao jardim e ao Céu desmaios,
O Céu ostenta um Sol, dous sóis Anarda,
Um Maio o jardim logra; ela dous Maios.
sábado, 28 de novembro de 2009
Poesia em tradução
A adormecida
Paul Valéry (1871-1945)
Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?
Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga.
Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,
Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela. Tua forma vela, e meus olhos: abertos.
(Trad. Augusto de Campos)
Paul Valéry (1871-1945)
A Lucien Fabre.
Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?
Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga.
Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,
Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela. Tua forma vela, e meus olhos: abertos.
(Trad. Augusto de Campos)
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Afrodisíaca
Urhacy Faustino
Diabruras
faço na cama
quando dizes
que me amas;
ao mesmo tempo relutas
e me arranhas,
se digo que és minha puta –
tenho culpa
se teu cheiro me assanha?
Diabruras
faço na cama
quando dizes
que me amas;
ao mesmo tempo relutas
e me arranhas,
se digo que és minha puta –
tenho culpa
se teu cheiro me assanha?
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Num campo de margaridas
Thiago de Mello
Sonhei que estavas dormindo
num campo de margaridas
sonhando que me chamavas,
que me chamavas baixinho
para me deitar contigo
num campo de margaridas.
No sonho ouvia o meu nome
nascendo como uma estrela,
como um pássaro cantando.
Mas eu não fui, meu amor,
que pena!, mas não podia,
porque eu estava dormindo
num campo de margaridas
sonhando que te chamava
que te chamava baixinho
e que em meu sonho chegavas,
que te deitavas comigo
e me abraçavas macia
num campo de margaridas.
Sonhei que estavas dormindo
num campo de margaridas
sonhando que me chamavas,
que me chamavas baixinho
para me deitar contigo
num campo de margaridas.
No sonho ouvia o meu nome
nascendo como uma estrela,
como um pássaro cantando.
Mas eu não fui, meu amor,
que pena!, mas não podia,
porque eu estava dormindo
num campo de margaridas
sonhando que te chamava
que te chamava baixinho
e que em meu sonho chegavas,
que te deitavas comigo
e me abraçavas macia
num campo de margaridas.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Dabacuri - amazônica 7
Zemaria Pinto
ondas nunca vistas,
temporal no Nhamundá
– as margens sumiram
fraterna harmonia:
mixira, caapi, cauim
– dabacuri
ondas nunca vistas,
temporal no Nhamundá
– as margens sumiram
fraterna harmonia:
mixira, caapi, cauim
– dabacuri
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Um desabafo
Gadi
Nasci pobre
nasci na dor
Pobre! Sou Zeferino, filho de Leonor
talvez o mundo não a conheça.
Claro! Ela é pobre e tem problemas de cabeça
vivemos na miséria e na clara deselegância
sem fé, sem estímulo, sem esperança.
Oh! Desgraça horrenda, minha fome grita
por amor a Deus, alguém me passa uma marmita
Pobreza é uma classe social
então a minha é uma imoral
Para mim, meu destino é morrer na miséria
nascer, crescer, passar fome e apodrecer minha matéria.
Nasci pobre
nasci na dor
Pobre! Sou Zeferino, filho de Leonor
talvez o mundo não a conheça.
Claro! Ela é pobre e tem problemas de cabeça
vivemos na miséria e na clara deselegância
sem fé, sem estímulo, sem esperança.
Oh! Desgraça horrenda, minha fome grita
por amor a Deus, alguém me passa uma marmita
Pobreza é uma classe social
então a minha é uma imoral
Para mim, meu destino é morrer na miséria
nascer, crescer, passar fome e apodrecer minha matéria.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Estante do tempo
Idílio
Tenreiro Aranha (1769-1811)
1.º
Um dia, que apressado
O manso gado trouxe ao seu aprisco,
Por poder sossegado
Ir banhar-me no rio, sem o risco
Da Onça tragadora
A cria vir roubar-me à mesma hora;
2.º
Quando já mergulhando,
Nas ondas té ao centro m’entranhava,
Ou sobre a água olhando
O delfim nadador arremedava;
E entanto o claro dia
C’os esforços da noite mal podia;
3.º
À praia me recolho;
E, tomando o vestido, um murmurinho
Sinto da esquerda! olho:
É um bando de Ninfas, que o vizinho
Igarapé descendo,
Com pressa ao largo rio vem rompendo.
4.º
Queto me ponho a ouvi-las,
Por ver o que diziam, pois falando
Entre si vem: senti-las
Fácil me foi, mas eu vou duvidando
Que acertar possa o fio
Das cousas que diziam pelo rio.
5.º
“Vamos, ó Ninfas, vamos
“Render ao Maioral nossa homenagem.
“Parece que tardamos!
“Eia pois, avistemos a paragem,
“Onde o Chefe Subido
“Há dias, por doença, está detido.
6.º
“Estamos aqui juntas
“As Ninfas tutelares destes rios,
“E vem-nos adjuntas
“Muitas que os lagos têm por senhorios:
“Todas Martinho honremos,
“Façamos, Ninfas, tudo o que devemos.
7.º
“As ágoas mais sadias
“Para qui n’alta enchente encaminhadas
“Sejam, e nestes dias,
“As flores junto ao banho amontoadas,
“Os ventos chamaremos,
“E que brandos respirem, lhes rouguemos”.
8.º
Umas assim diziam;
Porém outras, parando, concertavam
Os versos que traziam,
Em que o bom Maioral muito louvavam;
Aquelas afinando
Os retorcidos búzios, e cantando:
9.º
Já uma entoa, como
Havia o bom Martinho navegado
O Amazonas, e como
O Guamá, Tocantins há visitado,
E a mil rios distantes
Por ver e dar auxílio aos Habitantes!
10.º
Cantam outras Deidades,
Como fora com festas recebido;
E quantas saudades
Os povos de seus rios têm sentido
Depois; como se sente
A nova da moléstia impertinente.
11.º
Prometem logo aquelas,
Qu’em melhorando, ao Deus da Medicina
Têm de levar Capelas
Da branca sumaumeira, muito fina,
C’os ramos enlaçados
D’umiri por cheirosos procurados.
12.º
“Oxalá que depressa
“As Tutelares Deusas destes rios
“Cumpram sua promessa...”
Clamei então; mas ah! meus votos pios
As Ninfas assustaram!
Todas ao seu destino se apressaram.
Tenreiro Aranha (1769-1811)
Ao Ilmo. e Exmo. Sr. Martinho de Souza e Albuquerque, Governador e Capitão-
General do Estado do Pará, achando-se a banhos fora da Capital
General do Estado do Pará, achando-se a banhos fora da Capital
1.º
Um dia, que apressado
O manso gado trouxe ao seu aprisco,
Por poder sossegado
Ir banhar-me no rio, sem o risco
Da Onça tragadora
A cria vir roubar-me à mesma hora;
2.º
Quando já mergulhando,
Nas ondas té ao centro m’entranhava,
Ou sobre a água olhando
O delfim nadador arremedava;
E entanto o claro dia
C’os esforços da noite mal podia;
3.º
À praia me recolho;
E, tomando o vestido, um murmurinho
Sinto da esquerda! olho:
É um bando de Ninfas, que o vizinho
Igarapé descendo,
Com pressa ao largo rio vem rompendo.
4.º
Queto me ponho a ouvi-las,
Por ver o que diziam, pois falando
Entre si vem: senti-las
Fácil me foi, mas eu vou duvidando
Que acertar possa o fio
Das cousas que diziam pelo rio.
5.º
“Vamos, ó Ninfas, vamos
“Render ao Maioral nossa homenagem.
“Parece que tardamos!
“Eia pois, avistemos a paragem,
“Onde o Chefe Subido
“Há dias, por doença, está detido.
6.º
“Estamos aqui juntas
“As Ninfas tutelares destes rios,
“E vem-nos adjuntas
“Muitas que os lagos têm por senhorios:
“Todas Martinho honremos,
“Façamos, Ninfas, tudo o que devemos.
7.º
“As ágoas mais sadias
“Para qui n’alta enchente encaminhadas
“Sejam, e nestes dias,
“As flores junto ao banho amontoadas,
“Os ventos chamaremos,
“E que brandos respirem, lhes rouguemos”.
8.º
Umas assim diziam;
Porém outras, parando, concertavam
Os versos que traziam,
Em que o bom Maioral muito louvavam;
Aquelas afinando
Os retorcidos búzios, e cantando:
9.º
Já uma entoa, como
Havia o bom Martinho navegado
O Amazonas, e como
O Guamá, Tocantins há visitado,
E a mil rios distantes
Por ver e dar auxílio aos Habitantes!
10.º
Cantam outras Deidades,
Como fora com festas recebido;
E quantas saudades
Os povos de seus rios têm sentido
Depois; como se sente
A nova da moléstia impertinente.
11.º
Prometem logo aquelas,
Qu’em melhorando, ao Deus da Medicina
Têm de levar Capelas
Da branca sumaumeira, muito fina,
C’os ramos enlaçados
D’umiri por cheirosos procurados.
12.º
“Oxalá que depressa
“As Tutelares Deusas destes rios
“Cumpram sua promessa...”
Clamei então; mas ah! meus votos pios
As Ninfas assustaram!
Todas ao seu destino se apressaram.
domingo, 22 de novembro de 2009
Minha pátria é minha língua
Tormento do Ideal
Antero de Quental (1842-1891)
Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o batismo dos poetas,
E assentado entre as formas incompletas
Para sempre fiquei pálido e triste.
Antero de Quental (1842-1891)
Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o batismo dos poetas,
E assentado entre as formas incompletas
Para sempre fiquei pálido e triste.
sábado, 21 de novembro de 2009
Poesia em tradução
E daí?
William Butler Yeats (1865-1939)
Estudante, os mais íntimos colegas
Já viam nele um grande gênio então;
Ele também; e agiu segundo as regras
Passando em claro as suas noites negras.
E daí? canta a sombra de Platão.
Seus escritos lhe dão notoriedade;
Ao cabo de alguns anos ganha tão
Bem que não passa mais necessidades;
Seus amigos, amigos de verdade.
E daí? canta a sombra de Platão.
Seus sonhos todos vêm à luz do dia:
Casa boa, mulher, filhos, carrão,
Horta e pomar onde tudo crescia,
Poetas e Sábios sobre ele choviam.
E daí? canta a sombra de Platão.
Obra completa, já maduro, tosse:
“Meu projeto de jovem concluí;
Que os tolos clamem; um senão que fosse;
Pois algo ao nível do perfeito eu trouxe.”
E a voz mais alto: E daí? E daí?
(Trad. Ivo Barroso)
William Butler Yeats (1865-1939)
Estudante, os mais íntimos colegas
Já viam nele um grande gênio então;
Ele também; e agiu segundo as regras
Passando em claro as suas noites negras.
E daí? canta a sombra de Platão.
Seus escritos lhe dão notoriedade;
Ao cabo de alguns anos ganha tão
Bem que não passa mais necessidades;
Seus amigos, amigos de verdade.
E daí? canta a sombra de Platão.
Seus sonhos todos vêm à luz do dia:
Casa boa, mulher, filhos, carrão,
Horta e pomar onde tudo crescia,
Poetas e Sábios sobre ele choviam.
E daí? canta a sombra de Platão.
Obra completa, já maduro, tosse:
“Meu projeto de jovem concluí;
Que os tolos clamem; um senão que fosse;
Pois algo ao nível do perfeito eu trouxe.”
E a voz mais alto: E daí? E daí?
(Trad. Ivo Barroso)
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Não posso adiar a palavra
Helder Proença (1956-2009)
Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes
Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mãos
negras como breu o silêncio da resposta
Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres
em toda a terrae em todos os homens
Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a “Deus Pai todo poderoso criador dos céus e da terra”
Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais
as amaldiçoavam cada existência nossa
Quando te propus
abraçar a história, amor
tantas foram as esperanças comidas
insondável a fé forjada
no extenso breu de canto e morte
Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!
Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes
Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mãos
negras como breu o silêncio da resposta
Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres
em toda a terrae em todos os homens
Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a “Deus Pai todo poderoso criador dos céus e da terra”
Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais
as amaldiçoavam cada existência nossa
Quando te propus
abraçar a história, amor
tantas foram as esperanças comidas
insondável a fé forjada
no extenso breu de canto e morte
Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Maurice Quentin de La Tour (1704-1788)
Marcadores:
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Retratos
Selo d’água
Astrid Cabral
Como a retornar de um reino
de sombras, saí do rio
peixe interino enrolada
de limo e escamas d’água.
Mais que a pele, mais que os pêlos
a alma de medo molhada!
O mergulho na corrente
foi-me foice, faca, fio
líquida navalha rente
ao pescoço, pulso fugidio.
Sobrou-me o sombrio segredo
selo da morte na carne.
Oh garra gume de gelo!
Como a retornar de um reino
de sombras, saí do rio
peixe interino enrolada
de limo e escamas d’água.
Mais que a pele, mais que os pêlos
a alma de medo molhada!
O mergulho na corrente
foi-me foice, faca, fio
líquida navalha rente
ao pescoço, pulso fugidio.
Sobrou-me o sombrio segredo
selo da morte na carne.
Oh garra gume de gelo!
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Quando eu seguir teus passos
Rafael Marques
Quando eu seguir teus passos,
quero que me deixes a luz;
a mesma que me fez ver os laços
que me prendem aos lábios azuis
Da ternura constante que trazias.
Não vou andando certo agora,
amanhã entenderei as harmonias,
porque sei: vou no rumo da aurora.
Não vais ao meu lado
nem eu vou como antes,
álgido se fez o passado
refletido em secos instantes.
Casas, luzes, néon, alabastros,
o vento, a pena, palavras, papel:
imagens fugitivas com ânsias de astros
e logo espelhadas nos olhos do céu.
Maior sorte eu tive
e não sei o que construir
talvez o bom convívio que vive
onde estás e eu não posso ir.
Eu não vou como antes;
em falso, já andei a esmo;
formaste-me em doces instantes,
olho-me e não sou o mesmo.
Continuas sendo em teu imo,
enluarado fica onde passas;
como música em rosto de limo,
pousa nos livros, peitos e nas praças.
Quando eu seguir teus passos,
quero que me deixes a luz;
a mesma que me fez ver os laços
que me prendem aos lábios azuis
Da ternura constante que trazias.
Não vou andando certo agora,
amanhã entenderei as harmonias,
porque sei: vou no rumo da aurora.
Não vais ao meu lado
nem eu vou como antes,
álgido se fez o passado
refletido em secos instantes.
Casas, luzes, néon, alabastros,
o vento, a pena, palavras, papel:
imagens fugitivas com ânsias de astros
e logo espelhadas nos olhos do céu.
Maior sorte eu tive
e não sei o que construir
talvez o bom convívio que vive
onde estás e eu não posso ir.
Eu não vou como antes;
em falso, já andei a esmo;
formaste-me em doces instantes,
olho-me e não sou o mesmo.
Continuas sendo em teu imo,
enluarado fica onde passas;
como música em rosto de limo,
pousa nos livros, peitos e nas praças.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Estante do tempo
Elegias – Quinta
Guimarães de Paula (1932-1996)
Esta é a quinta estação da vida: a da lembrança,
a que reúne a primavera, o verão, o outono e o inverno,
e expressa a visão do que foi, do que é e do que será.
Opimas uvas foram esmagadas no passado e hoje
o vinho delas escorre e se bebido só produz ressaca...
Faces, mãos e sexos esmaecem sob a sépia do tempo
que – tal um polvo – aperta os seus tentáculos.
Das canções de ninar e dos colóquios de amor
apenas ecos longínquos reverberam em ouvidos agora imperfeitos.
O tato não mais capta a macia sensação do veludo da pele
que cobria ancas mornas e seios em fogo e
não percebe a ardência de púbis juvenis tumescentes na espera do cio.
Em tudo agora o que aflora é um titilar de saudade.
Há cinza, muita cinza se espalhando sobre antigas brasas
– rescaldo sem Phoenix...
Há musgo, muito musgo crescendo, pois o que era humano transformou-se em argila...
Há tédio, muito tédio consumindo a vida e
ninguém, ninguém pode ajudar ou amparar
porque tudo o que devia ser já foi escrito.
Jamais haverá retorno à primavera! Consumatum est!
Caput mortuum! Cinzas, cinzas
que os ventos da noite soprarão para o além!
enquanto teus gestos e o mês
chegando intocados
trazem o cálice para o esquecimento.
Guimarães de Paula (1932-1996)
Esta é a quinta estação da vida: a da lembrança,
a que reúne a primavera, o verão, o outono e o inverno,
e expressa a visão do que foi, do que é e do que será.
Opimas uvas foram esmagadas no passado e hoje
o vinho delas escorre e se bebido só produz ressaca...
Faces, mãos e sexos esmaecem sob a sépia do tempo
que – tal um polvo – aperta os seus tentáculos.
Das canções de ninar e dos colóquios de amor
apenas ecos longínquos reverberam em ouvidos agora imperfeitos.
O tato não mais capta a macia sensação do veludo da pele
que cobria ancas mornas e seios em fogo e
não percebe a ardência de púbis juvenis tumescentes na espera do cio.
Em tudo agora o que aflora é um titilar de saudade.
Há cinza, muita cinza se espalhando sobre antigas brasas
– rescaldo sem Phoenix...
Há musgo, muito musgo crescendo, pois o que era humano transformou-se em argila...
Há tédio, muito tédio consumindo a vida e
ninguém, ninguém pode ajudar ou amparar
porque tudo o que devia ser já foi escrito.
Jamais haverá retorno à primavera! Consumatum est!
Caput mortuum! Cinzas, cinzas
que os ventos da noite soprarão para o além!
enquanto teus gestos e o mês
chegando intocados
trazem o cálice para o esquecimento.
domingo, 15 de novembro de 2009
Minha pátria é minha língua
Para cantar de amor tenros cuidados
Cláudio Manuel da Costa (1729-1789)
Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu fúnebre lamento;
Se é que de compaixão sois animados:
Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.
Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino:
O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.
Cláudio Manuel da Costa (1729-1789)
Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu fúnebre lamento;
Se é que de compaixão sois animados:
Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.
Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino:
O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.
sábado, 14 de novembro de 2009
Poesia em tradução
Caçando faisões num milharal
Robert Bly
I
Que há de tão estranho numa árvore solitária em campo aberto?
É um chorão. Ando em volta dele.
O corpo, estranhamente atraído, não posso deixá-lo.
Finalmente me sento debaixo de toda essa tristeza.
II
É um chorão solitário em alqueires de milho.
Suas folhas se espalham em volta do tronco e em volta de mim,
Amarelas essa época, e manchadas de delicado negro.
Apenas o eco do milharal murmura no vento um segredo.
III
O sol é frio queimando por distâncias glaciais de espaço.
Tempos atrás sementes gelaram até a morte.
Por que então amo perscrutar
O sol penetrando na pele entregelada dos galhos?
IV
A mente derrama folhas solitárias anos a fio.
Mantém-se afastada com pequenas criaturas próximas às suas raízes.
Sinto-me feliz neste lugar antigo,
Um ponto facilmente avistado acima do milharal,
Como se eu fosse um filhote pronto para retornar à casa no fim do dia.
(Trad. Luiz Olavo Fontes)
Robert Bly
I
Que há de tão estranho numa árvore solitária em campo aberto?
É um chorão. Ando em volta dele.
O corpo, estranhamente atraído, não posso deixá-lo.
Finalmente me sento debaixo de toda essa tristeza.
II
É um chorão solitário em alqueires de milho.
Suas folhas se espalham em volta do tronco e em volta de mim,
Amarelas essa época, e manchadas de delicado negro.
Apenas o eco do milharal murmura no vento um segredo.
III
O sol é frio queimando por distâncias glaciais de espaço.
Tempos atrás sementes gelaram até a morte.
Por que então amo perscrutar
O sol penetrando na pele entregelada dos galhos?
IV
A mente derrama folhas solitárias anos a fio.
Mantém-se afastada com pequenas criaturas próximas às suas raízes.
Sinto-me feliz neste lugar antigo,
Um ponto facilmente avistado acima do milharal,
Como se eu fosse um filhote pronto para retornar à casa no fim do dia.
(Trad. Luiz Olavo Fontes)
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Mar e vento
Luciano Maia
A minha nau a um tempo derivou –
foi quando conheci da noite o mar.
Não me salvou a bússola: em vôo
uma ave azul as asas foi me dar.
A mostrar-me o horizonte ao céu se alçou
e por suas asas consegui me alçar
por sobre o vendaval que arrebentou
o cordame das velas pelo ar.
No céu diviso luzes e por vê-las
navega a minha nau um mar isento
de noites tormentosas. Singra pelas
ondas sem pressa e sem adiamento.
Segue o cardume alado das estrelas
pela mão oceânica do vento.
A minha nau a um tempo derivou –
foi quando conheci da noite o mar.
Não me salvou a bússola: em vôo
uma ave azul as asas foi me dar.
A mostrar-me o horizonte ao céu se alçou
e por suas asas consegui me alçar
por sobre o vendaval que arrebentou
o cordame das velas pelo ar.
No céu diviso luzes e por vê-las
navega a minha nau um mar isento
de noites tormentosas. Singra pelas
ondas sem pressa e sem adiamento.
Segue o cardume alado das estrelas
pela mão oceânica do vento.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
O porão de um barco tem suas redes
Milton Hatoum
O porão de um barco tem suas redes,
como o cemitério seus mortos.
As redes respiram um sono
como o rio respira seus mistérios.
Sono de terceira classe, sobre o aquático
e não dormitar à flor da terra, sono jazigo, mármore.
O porão de um barco tem suas redes,
como o cemitério seus mortos.
As redes respiram um sono
como o rio respira seus mistérios.
Sono de terceira classe, sobre o aquático
e não dormitar à flor da terra, sono jazigo, mármore.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Cenas da vida banal 6
Zemaria Pinto
beija-flor, no ar suspenso,
suga a papoula amarela.
lembra o amante apressado
que na ânsia de ir embora
esquece do gozo dela.
beija-flor, no ar suspenso,
suga a papoula amarela.
lembra o amante apressado
que na ânsia de ir embora
esquece do gozo dela.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
o tempo mensurável
João Sebastião
a chegada do circo
em 3 pequenos barcos
é a folia matinal
chove – e o ar que se respira
_____-é um misto de merda e mijo
Bão, Quara, Antônio Mocinha
disputam um cernambi retorto
domadores débeis
palhaços tristes
uma trapezista de alabastro
(quiçá estrela principal
dos dramas anunciados)
ajudam no desembarque mais leve
meus olhos
que nunca estiveram sob a lona
passeiam indiferentes
pelo enfadonho espetáculo
são 11 da manhã de um dia qualquer
numa cidadezinha sonolenta – 1968
– mergulho na urina quente dos leões
_-e me afogo em minha primeira
_-lição de ecologia
a chegada do circo
em 3 pequenos barcos
é a folia matinal
chove – e o ar que se respira
_____-é um misto de merda e mijo
Bão, Quara, Antônio Mocinha
disputam um cernambi retorto
domadores débeis
palhaços tristes
uma trapezista de alabastro
(quiçá estrela principal
dos dramas anunciados)
ajudam no desembarque mais leve
meus olhos
que nunca estiveram sob a lona
passeiam indiferentes
pelo enfadonho espetáculo
são 11 da manhã de um dia qualquer
numa cidadezinha sonolenta – 1968
– mergulho na urina quente dos leões
_-e me afogo em minha primeira
_-lição de ecologia
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Estante do tempo
Saudades
Torquato Tapajós (1853-1897)
Saudades tenho da terra
Dessa terra em que nasci;
Saudades – tenho da vida
Da vida que lá vivi.
Saudades – tenho dos bosques
Desses bosques e florestas,
Onde o gentio dorme as tardes
As horas mornas das sestas.
Saudades – tenho das tardes
– Saudades que trazem prantos
Em que ao longe o Amazonas
Gemia os seus tristes cantos.
Saudades – tenho das brisas
Que ao luar – pelo arvoredo –
Passam tristes soluçando...
E soluçando em segredo...
Saudades tenho das alvas
Das alvas praias d’areia,
Aonde em noite estrelada
Sorrindo brinca a sereia.
Saudades de meus amigos
Meus amigos verdadeiros;
Saudades de meus prazeres
Meus prazeres derradeiros.
Saudades de minhas manas
De minhas manas queridas;
De meus manos com quem tinha
Minhas dores repartidas.
Saudades tenho de tudo
De tudo – como ninguém –
Mas me ferem mais doridas
– De meu pai e minha mãe...
Torquato Tapajós (1853-1897)
À minha família
Saudades tenho da terra
Dessa terra em que nasci;
Saudades – tenho da vida
Da vida que lá vivi.
Saudades – tenho dos bosques
Desses bosques e florestas,
Onde o gentio dorme as tardes
As horas mornas das sestas.
Saudades – tenho das tardes
– Saudades que trazem prantos
Em que ao longe o Amazonas
Gemia os seus tristes cantos.
Saudades – tenho das brisas
Que ao luar – pelo arvoredo –
Passam tristes soluçando...
E soluçando em segredo...
Saudades tenho das alvas
Das alvas praias d’areia,
Aonde em noite estrelada
Sorrindo brinca a sereia.
Saudades de meus amigos
Meus amigos verdadeiros;
Saudades de meus prazeres
Meus prazeres derradeiros.
Saudades de minhas manas
De minhas manas queridas;
De meus manos com quem tinha
Minhas dores repartidas.
Saudades tenho de tudo
De tudo – como ninguém –
Mas me ferem mais doridas
– De meu pai e minha mãe...
domingo, 8 de novembro de 2009
Minha pátria é minha língua
Soneto
Menotti del Picchia (1892-1988)
Soneto! Mal de ti falem perversos,
que eu te amo e te ergo no ar como uma taça.
Canta dentro de ti a ave da graça
na gaiola dos teus quatorze versos.
Quantos sonhos de amor jazem imersos
em ti, que és dor, temor, gloria e desgraça?
Foste a expressão sentimental da raça
de um povo que viveu fazendo versos.
Teu lirismo é a nostálgica tristeza
dessa saudade atávica e fagueira
que no fundo da raça nos verteu
a primeira guitarra portuguesa
gemendo numa praia brasileira
naquela noite em que o Brasil nasceu...
Menotti del Picchia (1892-1988)
Soneto! Mal de ti falem perversos,
que eu te amo e te ergo no ar como uma taça.
Canta dentro de ti a ave da graça
na gaiola dos teus quatorze versos.
Quantos sonhos de amor jazem imersos
em ti, que és dor, temor, gloria e desgraça?
Foste a expressão sentimental da raça
de um povo que viveu fazendo versos.
Teu lirismo é a nostálgica tristeza
dessa saudade atávica e fagueira
que no fundo da raça nos verteu
a primeira guitarra portuguesa
gemendo numa praia brasileira
naquela noite em que o Brasil nasceu...
sábado, 7 de novembro de 2009
Poesia em tradução
Vida não Vivida
Alfred de Musset (1810-1857)
Era bela, como a estátua
Em mortuária capela,
Dormindo em leito de pedra,
Imóvel, pode ser bela.
Tinha bondade, se basta
Dar, ao acaso, sem dó,
Sem que Deus enxergue a esmola,
Se a esmola é dinheiro só.
Pensava, se o vão ruído
De um falar suave e lento,
Como gemido de arroio,
Denuncia o Pensamento.
Orava, se os olhos negros
Uma vez fitos no chão,
Outra vez ao céu erguidos,
Podem chamar-se oração.
Sorrira, se o refrigério
De uma brisa, na alvorada,
Chegasse a expandir a flor
Que se conserva fechada.
Chorava, se, argila inerte,
Seu coração ressequido
Gotas de celeste orvalho
Pudesse haver recolhido.
Amara, se no seu peito
Não velasse orgulho fútil,
Como em cima de um sepulcro
Se entretém lâmpada inútil.
Aparentava viver...
Sem ter vivido morreu...
Caiu-lhe das mãos o livro...
Nesse livro nada leu!
(Trad. Francisco Otaviano)
Alfred de Musset (1810-1857)
Era bela, como a estátua
Em mortuária capela,
Dormindo em leito de pedra,
Imóvel, pode ser bela.
Tinha bondade, se basta
Dar, ao acaso, sem dó,
Sem que Deus enxergue a esmola,
Se a esmola é dinheiro só.
Pensava, se o vão ruído
De um falar suave e lento,
Como gemido de arroio,
Denuncia o Pensamento.
Orava, se os olhos negros
Uma vez fitos no chão,
Outra vez ao céu erguidos,
Podem chamar-se oração.
Sorrira, se o refrigério
De uma brisa, na alvorada,
Chegasse a expandir a flor
Que se conserva fechada.
Chorava, se, argila inerte,
Seu coração ressequido
Gotas de celeste orvalho
Pudesse haver recolhido.
Amara, se no seu peito
Não velasse orgulho fútil,
Como em cima de um sepulcro
Se entretém lâmpada inútil.
Aparentava viver...
Sem ter vivido morreu...
Caiu-lhe das mãos o livro...
Nesse livro nada leu!
(Trad. Francisco Otaviano)
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Érato 1
Marcus Accioly
Ó amor (em vez dos fogos sob os ventos
e terras sobre as águas que cantei
pedindo à musa a voz dos elementos)
tu (só tu) neste livro eu cantarei
(sim) “tu só, tu”, mas não o “puro Amor”
de Luiz Vaz (ó pura poesia)
antes quero cantar o impuro (a dor
da carne que na carne se vicia)
amor que menos pensa do que goza
e goza quando pensa e sofre menos
(amor que dura o tempo de uma rosa
e o tempo de uma rosa é a própria vida)
amor que tem mais frutos que venenos
(ó Adão e Eva) a serpe está perdida
Ó amor (em vez dos fogos sob os ventos
e terras sobre as águas que cantei
pedindo à musa a voz dos elementos)
tu (só tu) neste livro eu cantarei
(sim) “tu só, tu”, mas não o “puro Amor”
de Luiz Vaz (ó pura poesia)
antes quero cantar o impuro (a dor
da carne que na carne se vicia)
amor que menos pensa do que goza
e goza quando pensa e sofre menos
(amor que dura o tempo de uma rosa
e o tempo de uma rosa é a própria vida)
amor que tem mais frutos que venenos
(ó Adão e Eva) a serpe está perdida
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
A solidão do morto
Almino Affonso
Na calçada,
inexoravelmente só,
um homem morto.
As pessoas
chegam
param
passam:
são baratas espantadas
como em dia de chuva.
Nenhuma lágrima:
o homem na solidão da morte.
Nas mãos
(rigidamente cruzadas ao peito),
onde o carinho
o amor
a lascívia
onde um resto ao menos de vida?
Nos sapatos
(cujas extremidades apontam
o céu
com irreverência),
ainda se vê o barro
do chão distante que pisaram.
Quantos caminhos trilharam
esses pés
agora juntos, atados, inertes?
A folha de jornal
cobre o morto indefeso:
mas ele não vê
mas ele não sente
mas ele não sabe...
Não há como fugir:
diante da morte
(só
na calçada
como um cão atropelado
ou numa cama
entre cambraias finas)
o homem,
pobre bicho-homem de palavras e gestos,
está só, infinitamente só.
Na calçada,
inexoravelmente só,
um homem morto.
As pessoas
chegam
param
passam:
são baratas espantadas
como em dia de chuva.
Nenhuma lágrima:
o homem na solidão da morte.
Nas mãos
(rigidamente cruzadas ao peito),
onde o carinho
o amor
a lascívia
onde um resto ao menos de vida?
Nos sapatos
(cujas extremidades apontam
o céu
com irreverência),
ainda se vê o barro
do chão distante que pisaram.
Quantos caminhos trilharam
esses pés
agora juntos, atados, inertes?
A folha de jornal
cobre o morto indefeso:
mas ele não vê
mas ele não sente
mas ele não sabe...
Não há como fugir:
diante da morte
(só
na calçada
como um cão atropelado
ou numa cama
entre cambraias finas)
o homem,
pobre bicho-homem de palavras e gestos,
está só, infinitamente só.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Cenas da vida banal 5
Zemaria Pinto
cabeça baixa, caminho
na multidão em desordem.
o que procuro não sei
a quem busco desconheço.
recomeço a cada esquina
a soturna travessia
na contramão dos silêncios
desatinado, fugindo
do banal cotidiano
que me impõe o pôr-da-tarde:
voltar pra casa sozinho.
cabeça baixa, caminho
na multidão em desordem.
o que procuro não sei
a quem busco desconheço.
recomeço a cada esquina
a soturna travessia
na contramão dos silêncios
desatinado, fugindo
do banal cotidiano
que me impõe o pôr-da-tarde:
voltar pra casa sozinho.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
A Via Láctea gira sobre si mesma?
Agnaldo Martins
A vida, ao mesmo tempo
rica, subterrânea, vasta.
Inconstante, me faz crer em seu poder invisível de criar coisas belas,
trágicas, sexuais, sensuais, amorosas, amistosas...
Rio caudaloso de surpresas,
capacidade filosófica de admiração epifânica das coisas,
dos acontecimentos do presente, matéria generosa!
Sonoridade pulsante em que interpenetro-me agora.
Essa montanha,
essa árvore,
essa flor que desabrocha
para o interno pacífico de uma criatura fértil até o seu âmago dolorido.
Esfuziantes cores de sol,
lilases vivos.
Em transição da fêmea para o macho,
arrebatamento luzidio do corpo,
bebedeira dionisíaca da razão
em suspiros que gravitam nas sombras,
perfazem o lugar escolhido pelos amantes
para as carícias secretas.
Escrita tênue de frases soltas
com a voz ao sopé do ouvido.
Serás tu o ser que me completa?
...Inquieta-me agora e depois do gozo
e domina minh’alma como um ser pacífico.
Onírico de tua beleza fluida
e inebriante,
no agora efêmero, na eternidade infinita...
Serás
somente minha!
A vida, ao mesmo tempo
rica, subterrânea, vasta.
Inconstante, me faz crer em seu poder invisível de criar coisas belas,
trágicas, sexuais, sensuais, amorosas, amistosas...
Rio caudaloso de surpresas,
capacidade filosófica de admiração epifânica das coisas,
dos acontecimentos do presente, matéria generosa!
Sonoridade pulsante em que interpenetro-me agora.
Essa montanha,
essa árvore,
essa flor que desabrocha
para o interno pacífico de uma criatura fértil até o seu âmago dolorido.
Esfuziantes cores de sol,
lilases vivos.
Em transição da fêmea para o macho,
arrebatamento luzidio do corpo,
bebedeira dionisíaca da razão
em suspiros que gravitam nas sombras,
perfazem o lugar escolhido pelos amantes
para as carícias secretas.
Escrita tênue de frases soltas
com a voz ao sopé do ouvido.
Serás tu o ser que me completa?
...Inquieta-me agora e depois do gozo
e domina minh’alma como um ser pacífico.
Onírico de tua beleza fluida
e inebriante,
no agora efêmero, na eternidade infinita...
Serás
somente minha!
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Estante do tempo
Poema das tuas mãos
Violeta Branca (1915-2000)
As tuas mãos nervosas, quentes, largas,
harpejam nos meus sentidos
a música ideal da emoção.
Para os teus dedos criadores,
sou o piano mágico vibrando
ao influxo de tua ardente inquietação.
Tuas mãos frementes,
arrancam angústias sonorizadas
de meus nervos,
que se retesam como cordas harmoniosas.
Tuas mãos imperiosas,
tuas mãos rebeldes,
cantam silenciosas aleluias de gestos,
quando compõem poemas de volúpia,
gritos incontidos de alegria pagã,
correndo ligeiras,
leves,
torturantes,
no teclado branco de meu corpo...
Violeta Branca (1915-2000)
As tuas mãos nervosas, quentes, largas,
harpejam nos meus sentidos
a música ideal da emoção.
Para os teus dedos criadores,
sou o piano mágico vibrando
ao influxo de tua ardente inquietação.
Tuas mãos frementes,
arrancam angústias sonorizadas
de meus nervos,
que se retesam como cordas harmoniosas.
Tuas mãos imperiosas,
tuas mãos rebeldes,
cantam silenciosas aleluias de gestos,
quando compõem poemas de volúpia,
gritos incontidos de alegria pagã,
correndo ligeiras,
leves,
torturantes,
no teclado branco de meu corpo...
domingo, 1 de novembro de 2009
Minha pátria é minha língua
Cérbero
Pedro Kilkerry (1885-1917)
É, não vens mais aqui... Pois eu te espero,
Gele-me o frio inverno, o sol adusto
Dê-me a feição de um tronco, a rir, vetusto
– Meu amor a ulular... E é o teu Cérbero!
É, não vens mais aqui... E eu mais te quero,
Vago o vergel, todo o pomar venusto
E a cada fruto de ouro estendo o busto,
Estendo os braços, e o teu seio espero.
Mas como pesa esta lembrança... a volta
Da aleia em flor que em vão, toda, transponho,
E onde te foste, e a cabeleira solta!
Vais corações rompendo em toda a parte!
Virás, um dia... E à porta do meu Sonho
Já Cérbero morreu, para agarrar-te.
Pedro Kilkerry (1885-1917)
É, não vens mais aqui... Pois eu te espero,
Gele-me o frio inverno, o sol adusto
Dê-me a feição de um tronco, a rir, vetusto
– Meu amor a ulular... E é o teu Cérbero!
É, não vens mais aqui... E eu mais te quero,
Vago o vergel, todo o pomar venusto
E a cada fruto de ouro estendo o busto,
Estendo os braços, e o teu seio espero.
Mas como pesa esta lembrança... a volta
Da aleia em flor que em vão, toda, transponho,
E onde te foste, e a cabeleira solta!
Vais corações rompendo em toda a parte!
Virás, um dia... E à porta do meu Sonho
Já Cérbero morreu, para agarrar-te.
sábado, 31 de outubro de 2009
Poesia em tradução
Correspondências
Charles Baudelaire (1821-1867)
A Natureza é um templo onde vivos pilares
Podem deixar ouvir confusas vozes: e estas
Fazem o homem passar através de florestas
De símbolos que o vêem com olhos familiares.
Como os ecos além confundem seus rumores
Na mais profunda e mais tenebrosa unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade,
Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores.
Perfumes frescos há como carnes de criança
Ou oboés de doçura ou verdejantes ermos
E outros ricos, triunfais e podres na fragrância
Que possuem a expansão do universo sem termos
Como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso
Que cantam dos sentidos o transporte imenso.
(Trad. Jamil Almansur Haddad)
Charles Baudelaire (1821-1867)
A Natureza é um templo onde vivos pilares
Podem deixar ouvir confusas vozes: e estas
Fazem o homem passar através de florestas
De símbolos que o vêem com olhos familiares.
Como os ecos além confundem seus rumores
Na mais profunda e mais tenebrosa unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade,
Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores.
Perfumes frescos há como carnes de criança
Ou oboés de doçura ou verdejantes ermos
E outros ricos, triunfais e podres na fragrância
Que possuem a expansão do universo sem termos
Como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso
Que cantam dos sentidos o transporte imenso.
(Trad. Jamil Almansur Haddad)
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Atabaques, violas e bambus
Paulo César Pinheiro
Foi depois de cruzar todo o oceano,
De chapéu, borzeguim e arcabuz,
Que pisava no chão de Santa Cruz
O aventureiro povo lusitano.
Veio junto com ele o africano,
Com seus cantos e danças e tabus,
Mestiçando-se, aqui, com os índios nus
Que cruzaram com o branco desumano.
Todos eles tocavam, todo ano,
Atabaques, violas e bambus.
Terra bela de araras e tucanos,
Capivaras e antas e tatus,
Papagaios, macacos e nhambus,
E outros tantos milhares de bichanos,
Fascinando zulus e alentejanos,
Sob um sol tropical de céus azuis.
E eram jongos, torés e caxambus
Pra afastar a tristeza e os desenganos,
Cantos religiosos e profanos,
Atabaques, violas e bambus.
Era duro o trabalho cotidiano
Com os negros cortando os babaçus,
Índios caçando as pacas e os jacus,
Sob o chicote do branco tirano,
Mas por cima de todo e qualquer dano
Os escravos chamavam seus vudus,
Com seus sambas e seus maracatus,
Capoeira, ijexá, coco praiano,
Esse som primitivo e quase insano,
Atabaques, violas e bambus.
Caravelas chegando, a todo pano,
Com gente arrebanhada em randevus,
Só demônios, satãs e belzebus,
Toda a corja pior do subumano,
Matador de aluguel, ladrão, cigano,
Pra cruzar por aqui os seus Exus
Com Iracemas, Cecis, Paraguaçus,
Alastrando doenças de mundano,
Tudo no ritmo afro-brasiliano,
Atabaques, violas e bambus.
Se vestiam no mato, salvo engano,
Os crioulos de bata e camisus,
os nativos de penas de ajurus,
invasores de bota a meio-cano,
Pra regalo do rei palaciano
Que, distante, lotava os seus baús,
Mas nas serras os uirapurus
Entoavam seu canto soberano,
Até mesmo pondo em segundo plano
Atabaques, violas e bambus.
Estou quase ficando veterano,
E ao Brasil já estou fazendo jus.
Todos esses poemas que eu compus,
Cada vez mais por eles eu me ufano.
Sou filho de um caboclo paraibano,
Macho da terra dos mandacarus,
E, era minha mãe, que deu-me à luz,
Filha de um pescador, rei do oceano.
Quer, portanto, meu canto, em vez de piano,
Atabaques, violas e bambus.
Foi depois de cruzar todo o oceano,
De chapéu, borzeguim e arcabuz,
Que pisava no chão de Santa Cruz
O aventureiro povo lusitano.
Veio junto com ele o africano,
Com seus cantos e danças e tabus,
Mestiçando-se, aqui, com os índios nus
Que cruzaram com o branco desumano.
Todos eles tocavam, todo ano,
Atabaques, violas e bambus.
Terra bela de araras e tucanos,
Capivaras e antas e tatus,
Papagaios, macacos e nhambus,
E outros tantos milhares de bichanos,
Fascinando zulus e alentejanos,
Sob um sol tropical de céus azuis.
E eram jongos, torés e caxambus
Pra afastar a tristeza e os desenganos,
Cantos religiosos e profanos,
Atabaques, violas e bambus.
Era duro o trabalho cotidiano
Com os negros cortando os babaçus,
Índios caçando as pacas e os jacus,
Sob o chicote do branco tirano,
Mas por cima de todo e qualquer dano
Os escravos chamavam seus vudus,
Com seus sambas e seus maracatus,
Capoeira, ijexá, coco praiano,
Esse som primitivo e quase insano,
Atabaques, violas e bambus.
Caravelas chegando, a todo pano,
Com gente arrebanhada em randevus,
Só demônios, satãs e belzebus,
Toda a corja pior do subumano,
Matador de aluguel, ladrão, cigano,
Pra cruzar por aqui os seus Exus
Com Iracemas, Cecis, Paraguaçus,
Alastrando doenças de mundano,
Tudo no ritmo afro-brasiliano,
Atabaques, violas e bambus.
Se vestiam no mato, salvo engano,
Os crioulos de bata e camisus,
os nativos de penas de ajurus,
invasores de bota a meio-cano,
Pra regalo do rei palaciano
Que, distante, lotava os seus baús,
Mas nas serras os uirapurus
Entoavam seu canto soberano,
Até mesmo pondo em segundo plano
Atabaques, violas e bambus.
Estou quase ficando veterano,
E ao Brasil já estou fazendo jus.
Todos esses poemas que eu compus,
Cada vez mais por eles eu me ufano.
Sou filho de um caboclo paraibano,
Macho da terra dos mandacarus,
E, era minha mãe, que deu-me à luz,
Filha de um pescador, rei do oceano.
Quer, portanto, meu canto, em vez de piano,
Atabaques, violas e bambus.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Rock and roll
Almir Graça
Olho nas cartas
elas me mostram reis
que eu nunca fui nunca serei
Olho na prata, no ouro,
no ferro, na bola, na lata,
até na fumaça,
onde está você,
que eu não sei?
Traduzo dos astros
meu destino eu escapo
nos meus sapatos
caminhos que não tracei
Chove na rua
na calçada
minha alma molhada
foge de mim
uma lágrima
não sei se chorei
Búzios, I ching, florais
guias, cristais
cadê o amor?
Eu não reconheço mais
Não me reconheço mais
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Cenas da vida banal 4
(para o Engels Medeiros)
mais que a calva insinuante
mais que a barriga disforme
o que mais me mete medo
na voraz fome do tempo
vem sob a forma inocente
de um branco fio de cabelo
florescendo entre os pentelhos
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Poetaprendiz
Celestino Neto
Eu escrevo torto
por linhas tortas
meus versos rotos
minhas rimas amorfas
eu escrevo torto
por linhas tortas
amante das trevas
devoto da luz
saio da linha
saio da minha
saio da rima
saio de mim
meu lirismo se escondeu atrás do fim
versos meus, confessionários
perdoai as agruras
deste pretenso poeta
sem itinerário
versos meus, guias
acasalai a brandura
deste aprendiz da poesia
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Estante do tempo
Morto vivo
Antísthenes Pinto (1929-2000)
fronte caída:
lágrima lavrada
no pedestal da fonte.
além o sobreposto
mar de ossos
esgarçando rastros
– fuzis de gritos!
de bruços:
reencontrar a rota
do meu mapa branco.
fazer-me bala,
deslocar-me uníssono
como um cão de aço.
morto
mais vivo. ___________morto pensante
de bruços:
grave loucura clara:
vivo morto morto vivo.
Antísthenes Pinto (1929-2000)
fronte caída:
lágrima lavrada
no pedestal da fonte.
além o sobreposto
mar de ossos
esgarçando rastros
– fuzis de gritos!
de bruços:
reencontrar a rota
do meu mapa branco.
fazer-me bala,
deslocar-me uníssono
como um cão de aço.
morto
mais vivo. ___________morto pensante
de bruços:
grave loucura clara:
vivo morto morto vivo.
domingo, 25 de outubro de 2009
Minha pátria é minha língua
Soneto 20
Diogo Bernardes (1530?-1605?)
Um firme coração posto em ventura,
Um desejar honesto, que se enjeite
De vossa condição, sem que respeite
A meu tão puro amor, a fé tão pura:
Um ver–vos de piedade, e de brandura
Imagem sempre, faz–me que suspeite
Que alguma brava fera vos deu leite,
Ou que nascestes de uma pedra dura.
Ando buscando causa que desculpe
Crueza tão estranha; porém quanto
Nisso trabalho mais, mais mal me trata,
Donde vem que não há quem nos não culpe;
A vós, porque matais quem vos quer tanto;
A mim, que tanto quero a quem me mata.
Diogo Bernardes (1530?-1605?)
Um firme coração posto em ventura,
Um desejar honesto, que se enjeite
De vossa condição, sem que respeite
A meu tão puro amor, a fé tão pura:
Um ver–vos de piedade, e de brandura
Imagem sempre, faz–me que suspeite
Que alguma brava fera vos deu leite,
Ou que nascestes de uma pedra dura.
Ando buscando causa que desculpe
Crueza tão estranha; porém quanto
Nisso trabalho mais, mais mal me trata,
Donde vem que não há quem nos não culpe;
A vós, porque matais quem vos quer tanto;
A mim, que tanto quero a quem me mata.
sábado, 24 de outubro de 2009
Poesia em tradução
Annabel Lee
Edgar Allan Poe (1809-1849)
Há muitos anos, há distantes, longos anos,
______Num certo reino à beira-mar,
Vivia alguém, – uma donzela, – Annabel Lee,
______(Vocês se devem recordar)
Alguém que só pensava em mim, e a quem eu tinha
______Amor imenso, amor sem par.
Eu era criança, e ela era criança, – Annabel Lee! –
______Naquele reino à beira-mar!
Mas nos amávamos com um amor que era, na terra, mais que Amor:
______(Não o podeis avaliar!)
Amor que os anjos, seus irmãos, de asas de neve,
______Olhavam do alto, a cobiçar.
Por isso foi que há muito tempo, há muito tempo,
______Naquele reino à beira-mar,
Soprou um vento, – um vento frio, – e Annabel Lee
______Sentiu-se, aos poucos, esfriar...
E então vieram seus parentes de alta estirpe,
______Vieram para m'a levar;
E a enclausuraram num sepulcro, – ó dor! ó dor! –
______Naquele reino à beira-mar.
Não eram, os anjos, tão felizes como nós,
______Viviam a nos invejar.
Sim! Foi por isso (toda gente bem o sabe,
______Naquele reino à beira-mar)
Que um vento frio me roubou Annabel Lee,
______Que um vento frio a fez gelar.
Mas nosso amor era mais forte, mais profundo
______Do que o dos outros, neste mundo,
______De mais idade e mais pensar.
E nem os anjos, lá das rútilas estrelas,
______Nem os demônios sob o mar,
Hão de, jamais, em dia algum, as nossas almas
______Uma da outra separar.
Pois nunca, – ó bela Annabel Lee! – sem me trazer sonhos de ti,
______Fulge, de noite, a luz do luar!
Nunca as estrelas, meu amor, despontam no alto, – que o fulgor
______Não sinta, em mim, do teu olhar!
E toda a noite, enamorado, eu vou dormir aí a teu lado,
Ó benquerida! – ó benquerida! – ó minha noiva e minha vida!
______Aí nessa campa à beira-mar,
______Onde ressoa voz do mar!
(Trad. Gondin da Fonseca)
Edgar Allan Poe (1809-1849)
Há muitos anos, há distantes, longos anos,
______Num certo reino à beira-mar,
Vivia alguém, – uma donzela, – Annabel Lee,
______(Vocês se devem recordar)
Alguém que só pensava em mim, e a quem eu tinha
______Amor imenso, amor sem par.
Eu era criança, e ela era criança, – Annabel Lee! –
______Naquele reino à beira-mar!
Mas nos amávamos com um amor que era, na terra, mais que Amor:
______(Não o podeis avaliar!)
Amor que os anjos, seus irmãos, de asas de neve,
______Olhavam do alto, a cobiçar.
Por isso foi que há muito tempo, há muito tempo,
______Naquele reino à beira-mar,
Soprou um vento, – um vento frio, – e Annabel Lee
______Sentiu-se, aos poucos, esfriar...
E então vieram seus parentes de alta estirpe,
______Vieram para m'a levar;
E a enclausuraram num sepulcro, – ó dor! ó dor! –
______Naquele reino à beira-mar.
Não eram, os anjos, tão felizes como nós,
______Viviam a nos invejar.
Sim! Foi por isso (toda gente bem o sabe,
______Naquele reino à beira-mar)
Que um vento frio me roubou Annabel Lee,
______Que um vento frio a fez gelar.
Mas nosso amor era mais forte, mais profundo
______Do que o dos outros, neste mundo,
______De mais idade e mais pensar.
E nem os anjos, lá das rútilas estrelas,
______Nem os demônios sob o mar,
Hão de, jamais, em dia algum, as nossas almas
______Uma da outra separar.
Pois nunca, – ó bela Annabel Lee! – sem me trazer sonhos de ti,
______Fulge, de noite, a luz do luar!
Nunca as estrelas, meu amor, despontam no alto, – que o fulgor
______Não sinta, em mim, do teu olhar!
E toda a noite, enamorado, eu vou dormir aí a teu lado,
Ó benquerida! – ó benquerida! – ó minha noiva e minha vida!
______Aí nessa campa à beira-mar,
______Onde ressoa voz do mar!
(Trad. Gondin da Fonseca)
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Onda
Antonio Cicero
Conheci-o no Arpoador,
garoto versátil, gostoso,
ladrão, desencaminhador
de sonhos, ninfas e rapsodos.
Contou-me feitos e mentiras
indeslindáveis por demais:
eu todo ouvidos, tatos, vistas,
e pedras, sóis, desejos, mares.
E nos chamamos de bacanas
e prometemo-nos a vida:
Comprei-lhe um picolé de manga
e deu-me ele um beijo de língua
e mergulhei ali à flor
da onda, bêbado de amor.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
10 haicais inéditos
Luiz Bacellar
Meus haicais –
voando como satélites
pelo mundo…
As teias de aranha
(rotas bandeiras de guerra)
voam no vasculho.
Grande estardalhaço:
o ouriço da castanheira
estronda no chão.
A porta arrombada…
e os ladrões levaram
toda a vaidade.
Céu pentagramado –
na pauta das nuvens
a clave de sol.
E a bolinha de ping
pong dança no topo
do chafariz da pracinha.
Topo do repuxo –
borboletinha amarela
tenta em vão pousar.
Tentando pousar
no topo do chafariz
a borboleta amarela.
E o Jacques Costeau?
Afrescalhou o nosso
bravo delfim roxo…
Com o ipê florido
uma chuva (e de ouro)
entope a sarjeta.
Meus haicais –
voando como satélites
pelo mundo…
As teias de aranha
(rotas bandeiras de guerra)
voam no vasculho.
Grande estardalhaço:
o ouriço da castanheira
estronda no chão.
A porta arrombada…
e os ladrões levaram
toda a vaidade.
Céu pentagramado –
na pauta das nuvens
a clave de sol.
E a bolinha de ping
pong dança no topo
do chafariz da pracinha.
Topo do repuxo –
borboletinha amarela
tenta em vão pousar.
Tentando pousar
no topo do chafariz
a borboleta amarela.
E o Jacques Costeau?
Afrescalhou o nosso
bravo delfim roxo…
Com o ipê florido
uma chuva (e de ouro)
entope a sarjeta.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Cenas da vida banal 3
Zemaria Pinto
a secretária passeia
sua bundinha de louça
entre fones, faxes, ais.
num transe de transamor
fecho os olhos e contemplo
por baixo da pele jeans
a carne dura da moça
manga, manguita, mangaba
delírios frutropicais.
a secretária passeia
sua bundinha de louça
entre fones, faxes, ais.
num transe de transamor
fecho os olhos e contemplo
por baixo da pele jeans
a carne dura da moça
manga, manguita, mangaba
delírios frutropicais.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Cenário Primaveril
Gracinete Felinto
No comando da beleza
tomam as rédeas, todas as flores
é o nobre prenúncio
da estação das cores
No contínuo processo néctar
os seres de sabedoria nata
transportam o pólen ao estigma
glorificando, assim, a polinização
E com o murchar das flores
não encerra a trajetória
existe ainda no ovário, o fruto
que, às vezes, substitui o pão
Neste cenário primaveril
espelha-se o ciclo notório
do mecanismo da natureza
que encadeia a vida.
No comando da beleza
tomam as rédeas, todas as flores
é o nobre prenúncio
da estação das cores
No contínuo processo néctar
os seres de sabedoria nata
transportam o pólen ao estigma
glorificando, assim, a polinização
E com o murchar das flores
não encerra a trajetória
existe ainda no ovário, o fruto
que, às vezes, substitui o pão
Neste cenário primaveril
espelha-se o ciclo notório
do mecanismo da natureza
que encadeia a vida.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Estante do tempo
O Desterrado
Francisco Gomes de Amorim (1827-1891)
Como são brancas as flores
Deste verde laranjal!
É doce a sua fragrância,
Como a deste roseiral;
Mas têm mais suave aroma
As rosas de Portugal.
O solo destas florestas
O brilhante e o oiro encerra;
São imensos estes rios,
Imensos o vale e a serra;
Porém não têm a beleza
Dos campos da minha terra.
Estes astros são mais belos?
É mais belo o seu fulgor?
Mas luzem no céu do exílio
Não lhes tenho igual amor.
Ai! astros da minha terra
Quem me dera o vosso alvor!
De amores embriagada
A rola suspira aqui;
Com estes vivos perfumes
Tudo ama, folga, e ri!
Mas oh! que tem mais encantos
A terra aonde eu nasci!
Lá era a lua mais linda,
Mais para os olhos as flores;
As noites da primavera
São ali mais para amores;
E nos bosques de salgueiros
Também há meigos cantores.
Oh! não; não é belo o sítio
Do meu desterro infeliz
Onde tudo – a toda a hora –
Que sou proscrito me diz.
Não, não há terras formosas
Senão as do meu país!
Francisco Gomes de Amorim (1827-1891)
Na foz do rio Negro, em 1842
Como são brancas as flores
Deste verde laranjal!
É doce a sua fragrância,
Como a deste roseiral;
Mas têm mais suave aroma
As rosas de Portugal.
O solo destas florestas
O brilhante e o oiro encerra;
São imensos estes rios,
Imensos o vale e a serra;
Porém não têm a beleza
Dos campos da minha terra.
Estes astros são mais belos?
É mais belo o seu fulgor?
Mas luzem no céu do exílio
Não lhes tenho igual amor.
Ai! astros da minha terra
Quem me dera o vosso alvor!
De amores embriagada
A rola suspira aqui;
Com estes vivos perfumes
Tudo ama, folga, e ri!
Mas oh! que tem mais encantos
A terra aonde eu nasci!
Lá era a lua mais linda,
Mais para os olhos as flores;
As noites da primavera
São ali mais para amores;
E nos bosques de salgueiros
Também há meigos cantores.
Oh! não; não é belo o sítio
Do meu desterro infeliz
Onde tudo – a toda a hora –
Que sou proscrito me diz.
Não, não há terras formosas
Senão as do meu país!
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