Amigos do Fingidor

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Peter Paul Rubens (1577-1640)

As três Graças.

o meu amor

Zemaria Pinto

os olhos do meu amor
são dois pássaros ariscos
são dois pássaros noturnos
são dois cometas errantes
são a luz do meu caminho
os olhos do meu amor

a boca do meu amor
tem a língua mais gostosa
que a minha boca beijou
tem palavras amorosas
tem um hálito de rosas
a boca do meu amor

são as mãos do meu amor
guarida do meu afeto
alívio do meu desejo
selo da minha alegria
estrelas do meu destino
são as mãos do meu amor

são os pés do meu amor
um cofre moldado em vento
onde súdito me curvo
e guardo beijos diários
dois pássaros peregrinos
são os pés do meu amor

as costas do meu amor
têm das flores o frescor
das plumas a maciez
e após as lutas do amor
quedam-se em banhos de orvalho
as costas do meu amor

os seios do meu amor
são duas ilhas encantadas
onde repouso das lutas
do banal cotidiano
são fontes de vinho e mel
os seios do meu amor

as coxas do meu amor
são como dois monumentos
sobre os quais se equilibram
os mistérios da existência
são o portal do paraíso
as coxas do meu amor

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Piet Mondrian (1872–1944)

Composition with Gray and Light Brown.

Enchente

Efraim Amazonas

Onde o rio agora habita
Nos campos fluviais?
Tomou o curso multiforme
(O que a morte dá).

Treme na rede pesqueira
(O céu em cada fio),
Exprime os meses nas ancas,
Enxutos no beira-rio.

O andaço na superfície
(A febre nas choupanas),
Rolam vozes de crianças
Nas águas acesas.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Odilon Redon (1840-1916)

O nascimento de Vênus.

Estante do tempo

Encontro das águas
(Rios Negro e Solimões)
Quintino Cunha (1873-1943)

Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este
É o rio Negro, aquele é o Solimões.
Vê bem como este contra aquele investe,
Como as saudades com as recordações.

Vê como se separam duas águas,
Que se querem reunir, mas visualmente;
É um coração que quer reunir as mágoas
De um passado, às venturas de um presente.

É um simulacro só, que as águas donas
Desta terra não seguem curso adverso,
Todas convergem para o Amazonas,
O real rei dos rios do Universo;

Para o velho Amazonas, Soberano
Que, no solo brasílio, tem o Paço;
Para o Amazonas, que nasceu humano,
Porque afinal é filho de um abraço!

Olha esta água, que é negra como tinta,
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.

Aquela outra parece amarelaça,
Muito, no entanto, é também limpa, engana;
É direito a virtude quando passa
Pela flexível porta da choupana.

Que profundeza extraordinária, imensa,
Que profundeza mais que desconforme!
Este navio é uma estrela, suspensa
Neste céu d’água, brutalmente enorme.

Se estes dois rios fôssemos, Maria,
Todas as vezes que nos encontramos,
Que Amazonas de amor não sairia
De mim, de ti, de nós que nos amamos!...

domingo, 28 de dezembro de 2008

Luca Giordano (1634-1705)

Venus punishing Psyche with a task.

Minha pátria é minha língua

Contemplando nas cousas do mundo desde o seu retiro, lhe atira com o seu apage, como quem a nado escapou da tromenta.
Gregório de Matos (1633?-1696?)

Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra, o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Claude Monet (1840-1926)

Impression, soleil levant.

Poesia em tradução

A terra desolada
T. S. Eliot (1888-1965)

I. O enterro dos mortos

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aléias de Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Big gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.

Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos [grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

Frisch weht der Wind
Der Heimat zu
Mein Irisch Kind,
Wo weilest du?


''Um ano faz agora que os primeiros jacintos me deste;
Chamavam-me a menina dos jacintos."
– Mas ao voltarmos, tarde, do Jardim dos Jacintos,
Teus braços cheios de jacintos e teus cabelos úmidos, não pude
Falar, e meus olhos se enevoaram, eu não sabia
Se vivo ou morto estava, e tudo ignorava
Perplexo ante o coração da luz, o silêncio.
Oed' und leer das Meer.

Madame Sosostris, célebre vidente,
Contraiu incurável resfriado; ainda assim,
É conhecida como a mulher mais sábia da Europa,
Com seu trêfego baralho. Esta aqui, disse ela,
É tua carta, a do Marinheiro Fenício Afogado.
(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)
Eis aqui Beladona, a Madona dos Rochedos,
A Senhora das Situações.
Aqui está o homem dos três bastões, e aqui a Roda da Fortuna,
E aqui se vê o mercador zarolho, e esta carta,
Que em branco vês, é algo que ele às costas leva,
Mas que a mim proibiram-me de ver. Não acho
O Enforcado. Receia morte por água.
Vejo multidões que em círculos perambulam.
Obrigada. Se encontrares, querido, a Senhora Equitone,
Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o horóscopo:
Todo o cuidado é pouco nestes dias.

Cidade irreal,
Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.
Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: "Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!
O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?
Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?
Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,
Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!
Tu! Hypocrite lecteur! – mon semblable –, mon frère!"

(Trad. Ivan Junqueira)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Candido Portinari (1903-1962)

Sete cavalos.

Cavalo selvagem

Eliakin Rufino

eu sou cavalo selvagem
não sei o peso da sela
não tenho freio nos beiços
nem cabresto
nem marca de ferro quente
não tenho crina cortada
não sou bicho de curral
eu sou cavalo selvagem
meu pasto é o campo sem fim
para mim não existe cerca
sigo somente o capim
eu sou cavalo selvagem
selvagem é minha alegria
de ser livre noite e dia
selvagem é só apelido
meu nome é mesmo cavalo
cavalo solto no pasto
veloz carreira que faço
lavrado todo atravesso
caminhos no campo eu traço
eu corro livre galope
transformo galope em verso
eu sou cavalo selvagem
sou garanhão neste campo
eu sou rebelde alazão
sou personagem de lendas
sou conversa nas fazendas
sou filho livre do chão
eu sou cavalo selvagem
meu mundo é a imensidão

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Ticiano (1490-1576)

Bacchanal.

Natalicídio

Narciso Lobo

A estrela do natal explode
Nascente
Fosforescente

Torre de galhos fracos
Celofane
Cacos

Pedro assustou-se com a ausência de presentes
Sonhara viagens
Paraísos
Baratos
(e esganou a primeira criança que viu)
Celofane
Cacos

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Lucian Freud

Self portrait.

a casa perscrutada – espelho

Zemaria Pinto

quando a manhã se avizinha
polifônica, difusa
marcada na voz dos pássaros
e na luz que aos poucos abre
seu manto branco cobrindo
o corpo nu da cidade
revejo no espelho baço
meu rosto esculpido em sombras

as rugas, a calva
os olhos sem viço
o nariz inchado
os últimos dentes
a pele oleosa
poros dilatados
lábios engelhados
herpes recorrente

(o que foi feito de mim?
os sonhos despedaçados
são cicatrizes forjadas
sobre a pele macerada:
a incompletude do amor
a falência da família
a inoperância de Deus
o desconsolo da lida)

a lâmina deixa rastros
ao rastejar por meu rosto:
são caminhos improváveis
pelos quais nunca passei
aventuras passageiras
projetos que não vingaram
– o espelho reflete apenas
as ruínas semeadas

no espelho o rosto
recebe o sol
que o dia jorra
pela janela:
do queixo o sangue
flui numa gota
de desencanto
de desalento

(quem é esse que me fita
do lado de lá do espelho
os olhos embaciados
prenhes de noite e tristeza?
é o fantasma de mim mesmo
espectro do que não fui?
ou sou eu mesmo o fantasma
a me assombrar diariamente?)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Evelyn de Morgan (1850-1919)

Flora.

Flores incandescentes

Rosa Clement

Como um rio, ele molha as flores do meu vestido,
e em suas águas me convida a mergulhar.
Meu corpo se aquece,
meus pensamentos se incendeiam,
ao seu doce sussurrar...
Suas carícias são ondas mornas
que embalam e fazem desabrochar
as flores molhadas do meu vestido,
que nessas águas do rio,
logo se deixam levar...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Gustave Moreau (1826-1898)

O nascimento de Vênus.

Estante do tempo

Lembrando
Aurolina de Castro (1933-2004)

Manaus tranqüila
tinha ainda
provinciana fisionomia.

O sol forte ardia na pele.

O bonde,
abarrotado de gente,
nos trilhos cantava
a melodia solta
na garganta da tarde,
brilhando em duas longas
paralelas de aço.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Jean-Marc Nattier (1685-1766)

Marie Adelaide of France as Flora.

Minha pátria é minha língua

A um poeta
Olavo Bilac (1865-1918)

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Albert Joseph Moore (1841-1893)

Silver.

Poesia em tradução

Emily Dickinson (1830-1886)

Do Drama, a mais viva expressão é o dia comum,
Que nasce e morre à nossa vista;
Diversamente, a Tragédia,

Ao ser recitada, se dissipa
E é melhor encenada
Quando o público se dispersa
E a bilheteria é fechada.

"Hamlet" seria Hamlet,
Inda que Shakespeare não o criasse,
E "Romeu", embora sem mais lembranças
De sua Julieta,

Seria perpetuamente encenado
No coração humano –
Único teatro que, sabidamente,
O proprietário não consegue fechar.

(Trad.: Ivo Bender)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Wassily Kandinsky (1866-1944)

Yellow-Red-Blue.

Sabiá com trevas - IX

Manoel de Barros

O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum
convém se vestir de roupa de trapo.

Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta.
Uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
Enquanto vida houver

Ninguém é pai de um poema sem morrer

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Tarsila do Amaral (1886-1973)

Abaporu.

O sermão da selva (II)

Max Carphentier

Bem-aventurados os que estudam e aqueles que advertem
sobre a imensa mancha do Thar no peito indiano
progredindo sua invasão rapinante
entre o Ganges purificador e o grande Indo deltáico,
submetendo a aflições medradas só no estéril
um quinto já da terra supliciada,
ninho e canção do pássaro Tagore.

Porque esses, considerando o deserto, respeitarão a selva
e participarão da festa de suas cores soltas
na flor que arde contrita em sua missão de aroma,
na asa que equilibra música nos ramos,
na criação que se abriga em seus covis de alfombra,
no fruto que suporta em seu corpo pendente
a força da vegetal misericórdia.
Esses preservarão a flora e as suas urnas
de alívio e refrigério, a flora onde flutuam
leves ânsias de céu no sono das orquídeas,
e a fragílima luz, as sedas matutinas
da túnica do estio urdida em borboletas.

E a selva terá sempre, contra a fome,
gestos de fruta-pão e, contra o medo,
as mãos cheias de amparo das palmeiras.
E a selva manterá a íntima castanha,
essa cabocla pérola protéica
presa nas ostras rudes dos ouriços;
assim também o guaraná velando,
na sua vigília de rubis calados,
os dons da aurora e os cálices do inverno.

Selva de cujos vasos o branco sangue do látex
é derramado por nós para remissão do homem.
Esse homem que é índio e quer o índio
a salvo da asfaltada garra urbana;
índio palestrador de fábulas meninas,
intérprete do vento e irmão da chuva;
índio senhor não inquilino dos remansos;
índio livre porque celebra o vôo e a nuvem limpa;
índio lembrando a hora de voltar
ao ritmo biológico, a hora de acabar
com essa pressa cardíaca das ruas.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Giorgione (1477-1510)

Sleeping Venus.

a casa perscrutada - cama

Zemaria Pinto

um salto no precipício –
o corpo solto no espaço
pluma flutuando ao léu

a cama não é apenas
um móvel a mais da casa
é território de sonho
é nave nuvem viagem
explosão de plenilúnios
metaespaço não-destino

o sono cotidiano
é noturna travessia
o corpo se preparando
para os embates do dia

disposta ao centro do quarto
equilibra-se assimétrica
entre aparatos diversos –
uma lua fluorescente
romances canções poemas
sussurros urros gemidos

na breve arena estendidos
os corpos entrelaçados
semelham lírios floridos
sobre o campo semeados

pluma flutuando ao léu
o corpo solto no espaço –
um salto no precipício

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Andre Derain (1880-1954)

Portrait of Matisse.

O amargo da terra

Bosco Ladislau

Saúdo-te por último,
meu caro amigo. Antes que regresses
novamente ao teu escuro quarto de pensão,
arrebentado, cego e traído
pela estúpida moral de todas as filosofias.
Eu venho de bares e mercados
tristes e impenetráveis
como as raízes de meu cérebro.
A vida dos encarniçados
que aí se exilam e se embriagam
é tão cheia de tragédias
que me faz dar gritos de agonia.
Por isso tenho repulsa à tranqüilidade
e a canções de amor.
Não tenho paz, senão quando vejo
a fome ausente de um operário
e um sorriso obstinado
na boca de uma mulher grávida.
Fora disso sou intratável
rebelde
louco
sem rumo;
vivo e cruzo a cidade
nas noites que se erguem sedutoras
como o sal terrestre.
No entanto, amigo,
sou como tu és: prefácio decadente
de uma raça extinta pela necessidade.
Ah, se morrêssemos de fartura
numa noite de domingo!
Entretanto, estamos presos à vida
que é a arte do impossível. Por ela
nos tornamos irmãos
entre jardins de papoulas.
Viva e claramente
não mais nos assustamos
quando dizem: “LO AMARGO DE LA TIERRA
CANTA ENCIMA DE LOS PUEBLOS!”,
porque temos
um relincho selvagem que se multiplica
sempre e sempre
no hoje e no amanhã;
porque somos a última geração que luta.
Nós, o ácido da Terra,
nascidos da discórdia
entre Deus e o Diabo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

William Bouguereau (1825-1905)

O nascimento de Vênus.

Estante do tempo

Nostalgia do mar
Violeta Branca (1915-2000)

Amanhã voltarás para o mar...
Teu destino é o mar...
Na deslumbrante exaltação das ondas verdes,
tua vida
– luminoso poema de mocidade e de sol –
tornar-se-á linda como uma alvorada rosicler.

Amanhã voltarás para o mar...
E na inquieta convivência das vagas
depressa olvidarás meu vulto de mulher.
Serei vela perdida
na grandeza infinita do oceano.
Serei a emoção esquecida
de um porto, que ficou em névoas, na distância...

Amanhã voltarás para o mar...
Enquanto eu ficarei numa tristeza longa, dolorosa,
tu, que trazes na alma altaneira
o orgulho e a boêmia do marinheiro,
partirás sorrindo.
E não terás para mim um pensamento de amor,
tua alegria será jovial e franca.
Mas sentirás que te acompanha sempre,
sempre
um perfume sutil de violeta branca...

domingo, 14 de dezembro de 2008

Francesco Hayez (1791-1882)

Meditation on the History of Italy.

Minha pátria é minha língua

Fumo
Florbela Espanca (1894-1930)

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o vosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...

sábado, 13 de dezembro de 2008

Franz Xaver Winterhalter (1805-1873)

Madame Barbe de Rimsky-Korsakov.

Poesia em tradução

Poema 1 (dos 20 poemas de amor e uma canção desesperada)
Pablo Neruda (1904-1973)

Corpo de mulher, alvas colinas, coxas brancas,
ao mundo te assemelhas em teu ato de entrega.
O meu corpo selvagem de camponês te escava
e faz saltar o filho das entranhas da terra.

Fui um túnel vazio. De mim fugiam pássaros
e a noite me infiltrava sua invasão resoluta.
Para sobreviver forjei-te qual uma arma,
uma flecha em meu arco e pedra em minha funda.

Tomba porém a hora da vingança e eu te amo.
Corpo de pele e musgo, de leite ávido e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!

Corpo de mulher minha, persisto em tua graça.
Minha ânsia sem limites, meu caminho indeciso!
Sulcos escuros onde a sede eterna corre,
onde a fadiga corre, e a dor, este infinito.

(Trad. Domingos Carvalho da Silva)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Anders Zorn (1860-1920)

Ols Maria.

à flor da língua

Geraldo Carneiro

uma palavra não é uma flor
uma flor é seu perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-ímã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestígio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra, não: é só florilégio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Wojciech Gerson (1831-1901)

Le repos.

O rio comanda a vida

Aldisio Filgueiras

ímpetos sexuais
aríete
de coisas diluídas

o rio traz nos dentes
as rédeas
de nossas vidas

e sob o tropel
de seus ásperos cascos

liquefeita
em cópias
de figuras trágicas

a presença inócua
e dúbia
de nossos corpos o rio des-governa
quase impossível
regime
de forças hidráulicas

apenas usadas
por lisos cardumes
de peixes argutos
em ciranda elétrica

o rio põe e dispõe
que
manhas e tramas
tem esse rio
e orgulho de senhor

por exemplo

risca funda fronteira
e aliena
seu feudo do mundo
em líquido
estado de sítio

e pênis raivando
de ímpetos sexuais
– aríete
de coisas diluídas –
o rio traz nos dentes
as rédeas
de nossas vidas

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Jackson Pollock (1912-1956)

Number 8.

a casa perscrutada – cozinha

Zemaria Pinto

vida renovada em vida
para que a vida prossiga
na ritual comunhão

usina cotidiana
de metamorfoses múltiplas
a cozinha se limita
com o lixo e a roupa suja
na vulgar economia
do mais reles dia-a-dia

substantiva, ela nasce
de exercícios ordinários
de alta imaginação
onde peixe não é peixe
tomate não é tomate
e feijão não é feijão

antes, são corpos mortos
que se transmudam aos poucos
na linha de produção:
saladas, sopas, grelhados
escabeches, empanados
molhos, cozidos, guisados

a mesa posta é uma painel
de plástica arquitetura
cores frias, cores quentes
irradiando beleza
traduzida nas papilas
em aromas e sabores

a vida prossegue vida
renovada diariamente
na ritual comunhão

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Egon Schiele (1890-1918)

Mulher sentada com joelho dobrado.

Fila para entrar na fila

David Ranciaro

Na fila do ônibus
João pensa
na fila do pão
e se lembra da fila do INSS
que começa
na fila do dia do pagamento
e termina na fila
do pagamento de água
que fica ao lado da fila
do pagamento da luz
que é próxima à fila
do banco pagador da aposentadoria
que por sua vez
fica defronte da fila
do portão do cemitério

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Henry Pierre Picou (1824-1895)

Vênus.

Estante do tempo

Velho tronco
Hemetério Cabrinha (1892-1959)

Olha esse tronco de árvore esgalhado,
levado à toa pela correnteza.
Quem nos sabe contar o seu passado?
Quem nos diz sua história? Com certeza

Floriu, frutificou, teve seu fado,
foi luz, foi pão, foi ouro, foi grandeza,
teve um viver de inveja saturado,
foi um sorriso aberto à natureza.

Vê! como ele vai sereno, a esmo,
arrastando o cadáver de si mesmo
para um destino torturante, triste...

No entanto, quantas vezes não enchera
de frutos bons, a mão que o abatera!
...Como esse tronco muita gente existe!

domingo, 7 de dezembro de 2008

Marie-Guillemine Benoist (1768-1826)

Portrait d'une négresse.

Minha pátria é minha língua

Essa negra Fulô
Jorge de Lima (1893-1953)


Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
para vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

"Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco."

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô? Ó Fulô?
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
"minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou".

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô? Ó Fulô?
(Era a fala da Sinhá
chamando a negra Fulô.)
Cadê meu frasco de cheiro
que teu Sinhô me mandou?

— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa.
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô.)

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
cadê meu cinto, meu broche,
cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dele pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra Fulô?

Essa negra Fulô!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Charles Mengin (1853-1933)

Sappho.

Poesia em tradução

Carme LI
Caio Valério Catulo (84-54 a.C.)
(a partir de uma ode de Safo – séc VII a.C.)

Ele me parece semelhante a um deus,
Ele, se não é sacrilégio dizer, supera os deuses,
O homem que, sentado diante de ti, muitas vezes
Contempla-te e ouve-te

Sorrindo docemente, o que arrebata a mim, infeliz,
Todos os sentidos, pois assim que te
Vejo, Lésbia, nem um fio de voz
Resta em minha boca,

A língua, porém, se paralisa; uma chama sutil
Se espalha pelos meus membros; com ruído interno
Tintinam meus ouvidos, os olhos se cobrem
Com dupla noite.

O ócio, Catulo, te faz mal;
No ócio te exaltas e te excitas demasiadamente.
O ócio, outrora, a reis e prósperas
Cidades levou à ruína.

(Trad.: Paulo Sérgio de Vasconcellos)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Amedeo Modigliani (1884-1920)

Reclining nude from the back.

Traduzir-se

Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Georges Seurat (1859-1891)

Die beiden Ufer.

Pétalas do Crisântemo - I

Roberto Evangelista

O viajante deita
e no sono continua a
caminhada.

Canaranas na
corrente: passam ilhas,
continentes.

Vôo de garças
em diamante: altíssima
geometria.

No casco da tarta-
ruga as rugas do
tempo em fuga.

Braço e remo,
doce impulso, abrem
n’água o sulco.

O peixe vivo
faz vibrar o coração
e o caniço.

O vôo poente
das andorinhas enverga
o horizonte.

No espelho das águas
a nave solar mergulha
flamejante.

Ave, palavra:
o ninho! E quanta vida
sustentas!

Pulsar, ah, o pulsar...
E cada coração é uma
estrela.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Giovanni Bellini (1430-1516)

Young woman at her toilet .

a casa perscrutada – quarto das meninas

Zemaria Pinto

limites da interdição:
um território incrustado
na impossível geografia
do meu reino ilimitado

hoje é o quarto das meninas
mas já foi portal de sonhos
oficina de vidências
porto de naus-esperanças
metamorfose em processo
permanente e corriqueiro

bonecas esfarrapadas
brincos, piercings, colares
batons, sutiãs, perfumes
o quadrilátero guarda
as marcas inevitáveis
do contínuo movimento

embora fixa no espaço
a câmara provisória
se transporta pelo tempo
em múltiplas dimensões
– mulheres que um dia foram
em crianças se revelam

um território impossível,
o velho reino incrustado
na geografia interdita:
limites do ilimitado

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Lawrence Alma-Tadema (1836-1912)

Pandora.

oLHo de PeixE

Grace Cordeiro
Para Max Rodrigues

Um minuto para o grito de paz de Israel.
Um minuto para a reverência ao trabalhista Tony Blair, primeiro-ministro inglês.
Trinta anos para o líder rebelde zairense Laurent Kabila colher seus frutos
Saló. Manias, Sangue. Pasolini. Libertinos ou Libertários?
Cem anos de Pixinguinha.
Duzentos anos de brincadeiras guerreiras.
Roubo não é pilhagem, é expropriação.
Tuyaka. Kinja. Comércio de bugigangas às avessas. O circo está na cidade.
Terra! Querer Terra!
Clava, Suor que nada, é dizimação mesmo! Deles!
Caos. Corpo. Fogo e Indignidade.

Sebastião Salgado para os seus.
A rede balança de sonhos crioulos, louros e alfamegatizados.
Iara será cortesã do século XXI, quando os alquimistas
Do capitalismo transformarem água em ouro,
Ela será matéria rara no meu bit sexual.
A floresta despida e prostituída sem vaselina alguma.

Bocage voltará fantasiado de Paulo Francis.
Lima Barreto terá clones; os bordeis bêbados
Do Porto de Lenha serão empestados por fingidores-
Gênios danificados (Humanos?!)
Um Coração sob Sotaina. Os Desertos do Amor.
Prosas Evangélicas e Carta do Barão P.
- Rimbaud desistiu de uma 10a. edição.

Fujimori fugiu para Nicarágua travestido de anjo pela
Rede Globo.
Caetano se embalsamou com seu terno lilás .
Jefferson Péres teve um infarto tentando soletrar
N-E-O-L-I-B-E-R-A-L-I-S-M-O,
Ele cansou de quebrar murinhos.

O menino que recebeu a carta do pai guerrilheiro morto
Tomou a virgindade da neta do ditador.
Pena! Ela não tinha nada a ver com a história.
Saiu o filme de Scott, Cidadão Kane sem Rosebud.

E eu, sem memória computadorizada, ainda lembro
Dela , que tinha na bunda o que Gorbatchev tinha
Na testa do mundo.
O grito saiu sem ecos: seios virados para as estrelas, ou
Era algo mais.

A voz de Lucinha Cabral consola almas fujimundas* no
Casarão-bar da rua 24 de Maio.

A vida inteira que poderia ter sido e é.

* Palavra “emprestada” de um poema de Haroldo Campos. S/anotação.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Eugène Amaury-Duval (1808-1885)

O nascimento de Vênus.

Estante do tempo

Estudo I
Alcides Werk (1934-2003)

Este o lugar em que me entrego. Eu, que
sempre fui cuidadoso com meu sangue,
aqui vejo-o embeber-se em solo estéril
- sacrifício vazio a um deus extinto.

Gosto de freqüentar esta taberna,
onde me sirvo do meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora

embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
Na meia-luz da tasca entra uma lua

que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
vai caindo um poema sobre a mesa.

domingo, 30 de novembro de 2008

Bartolomeo Veneto (1502-1555)

 Retrato de uma mulher.

Minha pátria é minha língua

Luís Vaz de Camões (1524/5-1580)

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.

sábado, 29 de novembro de 2008

Candido Portinari (1903-1962)

 Retrato de Olga Benario Prestes.

Poesia em tradução

Romance da lua, lua
Federico García Lorca (1898-1936)

A lua veio à frágua
com sua anquinha de nardos.
O menino a olha olha.
O menino a está olhando.
No ar comovido
move a lua seus braços
e exibe, lúbrica e pura,
seus seios de duro estanho.
Foge, lua, lua, lua.
Se viessem os ciganos,
fariam com teu coração
colares e anéis brancos.
Menino, deixa que eu dance.
Quando vierem os ciganos,
te encontrarão sobre a bigorna
com os olhinhos fechados.
Foge, lua, lua, lua,
que já ouço seus cavalos.
Menino, deixa-me, não pises
minha brancura engomada.

O ginete se acercava
tocando o tambor da planície.
Dentro da frágua o menino
está com os olhos fechados.

Pelo oliveiral vinham,
bronze e sonho, os ciganos.
As cabeças levantadas
e os olhos semicerrados.

Como canta o bufo,
ai, como canta na árvore!
Pelo céu vai a lua
com um menino na mão.

Dentro da frágua choram,
dando gritos os ciganos.
O ar vela-a, vela.
O ar a está velando.

(Trad.: William Agel de Melo)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Lucas Cranach, o Velho (1472-1553)

Vênus.

Soneto 241 – Ensaístico

Glauco Mattoso

Chamemo-la de fase iconoclasta,
à minha poesia antes de cego.
Pintei, bordei. Porém não a renego.
Forçou-me a invalidez a dar um basta.

A nova não é casta, nem contrasta
com velhas anarquias. Só me entrego
ao pé, onde em soneto a língua esfrego.
Chamemo-la de fase podorasta.

Mas nem por isso é menos transgressiva.
Impõe-se um paradoxo na medida
da forma e da temática obsessiva:

na universalidade presumida,
igualo-me a Bocage, Botto e Piva.
Ao cego, o feio é belo, e a dor é vida.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

 The large bathers.

Romance do banho

Elson Farias

Era morena tostada,
forte, esbelta como um cão,
os cabelos eram claros
de saboroso castanho;
longas tiras escorriam
na costa vincada em curvas
– eram cobras encravadas
no dorso de uma raiz;
o calcanhar era firme,
seu andar arroliçado,
as ilhargas mal roçavam
nas pregas da saia fina.

*

Fendeu-se o cerrado verde
de patativas e anus,
filhos de caba, sol quente,
ventos gerais, água e mel;
ela vinha – balde, cuia,
dentes expostos, carnudos
os lábios, flor de papoula
a cantar e a se despir.

*

Ela vinha, mas menino
balador de passarinhos,
não sabia descobri-la;
pressentia apenas vagos
sons das patas elegantes
dos poldros do meu instinto,
rachando cones de pedra
no meu raciocínio mole.

*

Ela esfalfou-se nas águas,
misturou-se com os peixes,
camarões a beliscaram,
escamas, pés, gumes virgens;
o relampejo das palmas
como línguas de uma faca;
a sombra escura no fundo,
as coxas alvas e turvas;
peixes, menina de banho,
anáguas brancas ao sol.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Raphael (Raffaello Sanzio) (1483-1520)

La Fornarina.

a casa perscrutada – varanda

Zemaria Pinto

as estrelas na varanda
sussurram nos meus ouvidos
poemas de amor e ódio

insônia, pânico, estresse
a madrugada é uma fera
engendrada em pesadelos
figurados na vigília
que nos lacera a vontade
no severo dia-a-dia

o Cruzeiro aponta o norte
como um palhaço chorando
sobre a cidade invisível;
o luzeiro levantado
esparge trevas nos olhos
e muda o sono em ruína

se é tempo de temporal
os relâmpagos coriscam
rebrilhando a oriente
feito curumins brincando
– a chuva lava meu peito
na noite dentro da noite

na manhã descortinada
a dissonância dos pássaros
denuncia o novo tempo:
saindo da letargia
o corpo aos poucos se esperta
e entra em trabalho de sonho

o sol que a manhã levanta
reverbera em minha cara
poemas de amor e ódio

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Gustave Courbet (1819-1877)


Self-portrait or The desperate man.

O ai do samurai

Arnaldo Garcez

o ai do samurai
não é um grito de dor:
é a precisão do corte,
a velocidade da morte
na defesa da manhã

o ai do samurai
é poder gritar
no fio da lâmina
a lágrima prata
que acende a escuridão

o ai do samurai
é a coragem de resistir
aos covardes
que destroem o prazer
de (r)existir

o ai do samurai
é a liberdade da infância
pintando sua vingança
na cara-pálida do tempo
covarde

o ai do samurai
é o silêncio que povoa
nossa vontade de mudar
a cara desse país:
com arte
porrada
& poesia

o ai do samurai
não silencia!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Franz Goethe (1749-1832)

O nascimento de Vênus.

Estante do tempo

A Nova República
Farias de Carvalho (1930-1997)


Vou começar a construir meu mundo.
Este, que não suporto, me asfixia.
Os olhos já se cansam de assistir
à mecânica dança dos bonecos.

Um botão, e o sorriso encomendado
rasga a máscara fria do fantoche.
Outros botões, e seguem-se outros gestos
na estúpida intenção preconcebida.

Por isto eu quero um mundo. Hei de cercá-lo
com a alta tensão da sensibilidade
da Poesia inquilina do meu sangue.

Nele entrarão apenas os eleitos,
os que apanham as estrelas como rosas
e as dependuram, vivas, sobre o peito!

domingo, 23 de novembro de 2008

Marcel Duchamp (1887-1968)

 Nude Descending a Staircase (No. 2).

Minha pátria é minha língua

Paulo Leminski (1944-1989)

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios edens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer vai ser minha última obra

sábado, 22 de novembro de 2008

Gustave Moreau (1826-1898)

 Europa and the bull.

Poesia em tradução

Ode XI (Livro I)
Horácio (65-8 a.C.)


Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
melhor é suportar
tudo o que acontecer.

Quer Júpiter te dê muitos invernos,
quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.

Enquanto conversamos,
foge o tempo invejoso.

Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

(Trad.: Péricles Eugênio da Silva Ramos)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Albrecht Dürer (1471-1528)

Autorretrato com casaco de gola de pele.

Os limbos

Donaldo Mello

... os rubros olhos do leão
deixarão escorrer lágrimas de ouro
William Blake

Lentamente vou ouvindo
a melodia da verdade
interior. E a mão da Luz
conduz-me ao caminho.
À busca de outroamanhã,
desconhecido, inexistido
mas radioso e diáfano.
Puro de silêncio. Oração.
De mim esquecido, puro,
aventureiro nauta; elevação.

Cheio alforje.
Novamente
a dar as velas.
Iluminação.
“No vão da
sombra
que me foge”(*)


(*) Edmond Vandercammen, La porte sans mémoire, in A poética do devaneio, de Gaston Bachelard, p. 103.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Victor Meirelles (1832-1903)

Moema.

Makunaíma recria o mundo

Jorge Tufic

Depois das águas grandes,
o mundo ficou seco e oco.
Pedaços de carvão ficaram rolando no solo,
como ecos de pedras,
vozes de rio, gemidos de fogo.
Então, Makunaíma acordou.
E do barro de sua vigília
retirou aquele homem, sua forma de barro,
seu peito cavado.

No outro lado de Roraima
seus feitos continuaram.
Homens e mulheres foram sendo mudados
em rochas, antas e javalis.
Perto de Koimelemong, um cervo
mergulha na terra a cabeça-de-pedra.
Sobre uma grande onda na Serra de Aruaiang,
pousa uma cesta de luar.
A Serra do Mel parece conduzir
um silêncio de aragem
e vai sem ter vindo.

Muitas dessas pedras se elevam
no país dos ingleses, assim como peixes
e uma cesta que imita, por baixo,
um perfil de mulher.

A savana da Serra de Mairani
são braços, pernas e cabeça
de um ladrão de urucu.
Aí também se entreabrem umas nádegas de pedra.
Cachoeiras acima,
o movimento dos peixes adentra na rocha.

Uma pedra chamada Mutum
canta como este
quando alguém vai morrer.
Por um oco de salto,
vespas gigantes construíram suas casas
e zumbem na base mais profunda da serra.

Aqui fora, Makunaíma dá os últimos retoques
nos bichos domésticos.
Depois disso ele deita na terra molhada
e se deixa esvair em milhares de seres
que nadam para o rio.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Zinaida Serebriakova (1884-1967)

Ballerinas in the dressing room.

a casa perscrutada – sala

Zemaria Pinto

Território traduzido
em ícones improváveis
no céu inferno diário

O olhar do Cristo cubista
impõe-se ao campo do olhar
de quem navega por cá.
O Cristo dilacerado
nosotros desesperados
a crucial via-crúcis
refletida nas palavras
e nos gestos refletida
num movimento a um só tempo
espiral e circular

Sob o Cristo comungamos
a rotineira heresia
da fome transfigurada

O homem sentado ao bar
andrógino olhar vazado
retrato da solidão
combina ametista e fogo
angústia, fuga e paixão.
Mais acima a ironia
das cúpulas invertidas
cópulas apodrecidas
símbolos disseminados
pela pálida parede

Em silêncio nos quedamos
em provisório transporte
a míticos promontórios

Noutra margem, parelhados
herméticos aparelhos
conectam a casa ao mundo
sob os olhos de um guerreiro
identidade e desejo
da implausível liberdade.
Ele olha para o Cristo
o Cristo para ele olha
em algum ponto infinito
esses olhares se chocam

No céu inferno diário
os ícones se traduzem
na improvável geografia

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Lucien Lévy-Dhurmer (1865-1953)

Eva.

Todo corpo

Cândida Alves

Todo corpo
toda vida explica
nos seus rastros
sempre uma notícia
escrita nos seus traços
todos os anseios
no mover dos braços

todo corpo
traz um benefício
sobre suas curvas
e algum sacrifício
com lembranças turvas
marca suas dobras

todo corpo amado
ou desolado chora
toda sua virtude
e seu pecado aflora

todo corpo
mostra seus segredos
e encontra outros medos
quando abre os olhos

todo corpo
uma mente oculta

todo corpo é alma
enquanto vida pulsa

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Alexandre Cabanel (1823-1889)

O nascimento de Vênus.

Estante do tempo

Coração
Jonas da Silva (1880-1947)


Meu coração é um velho alpendre em cuja
Sombra se escuta pela noite morta
O som de um passo e o gonzo de uma porta
Que a umidade dos tempos enferruja.

Quem vai passando pela estrada torta
Que leva ao alpendre, dessa estrada fuja!
Lá só se encontra a fúnebre coruja
E a Dor, que à prece o caminhante exorta.

Se um dia, abrindo o casarão sombrio,
Um abrigo buscasses contra o frio
E entrasses, doce criatura langue,

Fugirias tremente, vendo a um lado,
A Crença morta, o Sonho estrangulado
E o cadáver do Amor banhado em sangue!

domingo, 16 de novembro de 2008

Pablo Picasso (1881-1973)

Ambroise Vollard.

Minha pátria é minha língua

Bocage (1765-1805)



Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura:

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na Eternidade!

sábado, 15 de novembro de 2008

Edward Munch (1863-1944)

Puberdade.

Poesia em tradução

Ariel
Sylvia Plath (1932-1963)

Estancamento no escuro
E então o fluir azul e insubstâncial
De montanha e distância.

Leoa do Senhor
como nos unimos
Eixo de calcanhares e joelhos!... O sulco

Afunda e passa, irmão
Do arco tenso
Do pescoço que não consigo dobrar.

Sementes
De olhos negros lançam escuros
Anzóis...

Negro, doce sangue na boca,
Sombra,
Um outro vôo

Me arrasta pelo ar...
Coxas, pêlos;
Escamas e calcanhares.

Branca
Godiva, descasco
Mãos mortas, asperezas mortas.

E então
Ondulo como trigo, um brilho de mares.
O grito da criança

Escorre pela parede.
E eu
Sou a flecha,

O orvalho que voa,
Suicida, unido com o impulso
Dentro do olho

Vermelho, caldeirão da manhã.

(Trad.: Ana Cândida Perez e Ana Cristina César)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Tamara de Lempicka (1898-1980)

Andromeda.

O Soldador de Palavras

Majela Colares

Fazer poemas é soldar palavras,
fundir o signo – literal sentido –
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido

sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.

Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.

A idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas... por fim, poemas.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Luis Ricardo Falero (1851-1896)

A fada dos lírios.

Geografia provinciana

Astrid Cabral

Manaus um ponto perdido
no mapa. Ali, desgarrada
entre paredes de verde.
Mas iam e vinham navios
trazendo franjas do mundo.
Europa e Península Ibérica
surgiam das próprias pedras
das avenidas e esquinas:

a Itália na taberna
de seu Vicenzo Arenaro.
Também no livro de Dante
que o sapateiro traduzia
rodeado de crianças
a mostrar-lhes céus e infernos
toda a celeste geografia.

Seu Genaro, já grisalho
fundava o reino de Espanha
atrás de barris de vinho
tinas mantas de banha
vinagres azeites doces
réstias de alho e cebola.

Seu Carvalho, o português
vendia bolos e broas
à vontade do freguês
mais rala-rala e refrescos
de guaraná e groselha.
Síria China e Argentina
vinham na gorda maleta
do turco mais seus bigodes:
damascos crepes Chambleys.

A França era ali na Madame
Marie
e no Aux Cent Mille Paletots
a moda do dernier cri.

E passavam barbadianas
sob chapelões de palha
ao sol dos dias em brasa.
E um fugitivo das Guianas
testemunhava a Ilha do Diabo!

O mundo estava em Manaus
Manaus estava no mundo.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008