Amigos do Fingidor

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cuia

Simão Pessoa

(Poema feito a partir de um quadro do artista plástico Turenko Bessa)



De longe como Matisse
Que a desnudando vestisse
Ela revela a natureza
Que a esconde por inteiro

E a esconde por inteiro
Do olho que a devassa:
O vão desdobrado em quilha
Recoberto por limalha

De luz é sua textura
Que ao toque se adivinha
Como as bordas da pupila
Refletindo água-marinha

Tem a aparência furtiva
De uma fruta adocicada
Daquela que nos convida
Na a comer – a olhá-la.

De luminosos cristais
Sua curvatura se veste:
O gosto de qualquer fruta
Nela é as dobras da pele

É fruta de carne e osso
Silêncio sonho e medula.
É fruta de mil desejos
Na língua mais que na gula.

É uma paisagem de dunas
Com casulos emborcados.
É uma ópera intestina
De conchas no alagado

É uma onda sem mistério
Tirando arestas da areia.
É uma maçã que mordida
O baixo ventre incendeia

É o ovo da serpente
Como que moldado em pedra.
É a cúpula do teatro
Na sua forma geodésica

No mais não é uma cuia
Arquitetada por Gaudí.
É uma cuia (mas nativa)
De tacacá e açaí.

Que uma bunda não é nunca
O silêncio de uma tela:
É uma vontade profunda
De se perder dentro dela.