Amigos do Fingidor

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Andre Derain (1880-1954)

Two female nude and still life.

Nha Codê

Ovídio Martins

(A Osvaldo Alcântara)



Tiraram o lume dos teus olhos
e fizeram braseiro
para aquecer a noite fria;
noite de qualquer dia.
Roubaram o teu riso
e encheram de gargalhadas
de luz e de música
as suas reuniões frustradas.
Da tua pele fizeram tambor
para nos ajuntar no terreiro!
Dondê nha Codê?
Não
não mataram o meu filho
que eu sei que o meu filho não morre.

(Se choro
são saudades de nha Codê...)

Nha Codê vive
na evocação de um mundo distante
no riso e no choro das ervas rasteiras
na solidão dos campos
nas pândegas de marinheiros
na vida que nasce e morre
em cada dia que passa!...

...E em mim
essa saudade de nha Codê!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

John Keaton

Sea and Sky.

Poemas

Jorge Tufic




I


Amo arrumar palavras. Porque sei
que há traças percorrendo
em rios os papéis.

Coisa difícil é dar. Difícil
como saber se damos quando damos
ou tiramos quando tiramos.

Mas as traças são cegas.
Cega a vontade de morrer
mais cega a de escrever.

Palavras são sangue, mesmo
as que gravadas sem propósito.
E ninguém mais do que as traças
sabe disso.


II


Ouvi um chamado distante,
sem voz. Em seguida a surpresa
de assistir à queda de um ovo
pintado com as cores do arco-íris.

─ Algum anjo brincalhão
Querendo tirar barrigada.

Depois outro ovo e mais outro,
tantos, de tantas cores,
que ao chegar em meu quarto
estava transfigurado. Decerto
não atendi ao chamado da poesia...


III


O poeta vai pela rua.
Ninguém está vendo o poeta
porque o poeta é transparente.

O poeta atravessa a ponte
o poeta desfolha a rosa
o poeta contempla o mar.

Ninguém está vendo o poeta.
Mas duvido que ninguém sinta
a sua presença abstrata.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Angel Zarraga (1886-1946)

Self-portrait with model.

Dabacuri – amazônica 12

Zemaria Pinto



casebre de palha
plantado à margem do rio
– pobreza e silêncio



o som da fúria –
saúvas trabalhando
na tarde ensolarada

terça-feira, 27 de abril de 2010

Nicolás Jiménez Alpériz (1865-1928)

(Título desconhecido.)

Invernal

Michele Pacheco




Vento norte é vento forte.
O pingo pinga terra quente.
Água pura, a chuva no solo
derrama, vira lama, o tempo
esfria e esquenta, esquenta e esfria.

A chuva reinventa, renova, refaz
paisagem sofrida ninguém queria mais.
Tempo de cheia, o inverno
faz brotar o banco de sementes
deste rico solo pobre.

Tons verdes, natureza viva.
Ora sol aquece, neblina o pico.
Ora chuva cai, congela neblina.

O clima maluco, caduco, insano
sustenta a Amazônia...
com seu eco endêmico.
Sábio traz o inverno, freia o verão.
A antítese certamente
nos, acompanhará
na próxima estação.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Pelagio Palagi (1775-1860)

Nascita di Venere.

Estante do tempo

Tempestade maravilhosa
Paulo Monteiro de Lima (1925-1951)




Como está negro o céu da minha terra!
Que raios! Que trovões! Que vento aflito!...
Toda a tragédia universal se encerra
Neste pedaço enorme do infinito!...

O soluço nostálgico do vento
Roçando com furor pelo telhado,
Traz o eco terrível do lamento
Oriundo da dor de um condenado.

No farfalhar tristíssimo das folhas
Perpassa um sentimento pavoroso!...
A água que no esgoto corre em bolhas
Produz um marulhar quase assombroso!...

O uivo dos cachorros vagabundos
Confunde-se co’a voz da tempestade
E tem-se a impressão que trinta mundos
Pretendem desabar sobre a cidade...

....................................................

No meu quarto pequeno – onde a janela
Com toda precaução, vive fechada –
Soluça de pavor a minha bela,
Quase nua – na cama debruçada.

Eu vendo os seus contornos primorosos
E notando-lhe o arfar dos alvos seios,
Aperto-a nos meus braços carinhosos,
Procurando salvá-la dos receios.

Nesse instante, porém, um trovão forte
Reboa majestoso nas alturas
E ela, de nervoso, no transporte
Me aperta, mergulhada em formosuras.

E então, num frenesi maravilhoso,
– Sem mancha, sem pecado e sem cinismo –
Me beija, me procura e, quase em gozo,
Se deixa dominar pelo histerismo.

Aperto-a nos meus braços docemente...
Confundem-se no amor, nossos cabelos...
A voz da tempestade – agora ausente –
Não chega a perturbar nossos desvelos.

Dir-se-ia que ali, entre os amantes,
A sombra da loucura se encontrava.
As bocas se roçavam delirantes...
E o espectro da luxúria gargalhava.

Agora só se ouve o arfar dos peitos...
Palavras muito mal balbuciadas...
Suspiros assaz longos e imperfeitos...
Promessas pelo gozo entrecortadas.

...................................................

O espasmo chega ao fim. Neste momento
A carne saciou todo o desejo.
A formosa mulher solta um lamento
Ainda suplicando a luz de um beijo.

Depois, formosamente, ela adormece
E eu digo, ao contemplar-lhe a formosura:
– Meu Deus! esta mulher é a meiga prece
Rezada pela boca da natura!

Ó tempestade! Ó deusa dos espaços!
Redobra o teu furor bravo e profundo!
Pois quando esta mulher me está nos braços,
Eu me sinto mais forte do que o mundo!

domingo, 25 de abril de 2010

Eugène Amaury-Duval (1808-1885)

Baigneuse antique.

Minha pátria é minha língua

Encruzamento de linhas
Felipe de Oliveira (1891-1933)



Núcleo de convergência no bojo da noite oval.
Lanterna Verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada)

Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.

Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.

sábado, 24 de abril de 2010

Herbert James Draper (1863-1920)

The Pearls of Aphrodite.

Poesia em tradução

As Ondinas
Heinrich Heine (1797-1856)



Beijam as ondas a deserta praia;
Cai do luar a luz serena e pura;
Cavaleiro na areia reclinado
Sonha em hora de amor e de ventura.

As ondinas, em nívea gaze envoltas,
Deixam do vasto mar o seio enorme;
Tímidas vão, acercam-se do moço,
Olham-se e entre si murmuram: “Dorme!”

Uma – mulher enfim – curiosa palpa
De seu penacho a pluma flutuante;
Outra procura decifrar o mote
Que traz escrito o escudo rutilante.

Esta, risonha, olhos de vivo fogo,
Tira-lhe a espada límpida e lustrosa,
E apoiando-se nela, a contemplá-la
Perde-se toda em êxtase amorosa.

Fita-lhe aquela namorados olhos,
E após girar-lhe em torno embriagada,
Diz: “Que formoso estás, ó flor da guerra,
Quanto te eu dera por te ser amada!”

Uma, tomando a mão ao cavaleiro,
Um beijo imprime-lhe; outra, duvidosa,
Audaz por fim, a boca adormecida
Casa num beijo à boca desejosa.

Faz-se de sonso o jovem; caladinho
Finge do sono o plácido desmaio,
E deixa-se beijar pelas ondinas
Da branca lua ao doce e brando raio.

(Trad. Machado de Assis)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Ilya Repin (1844-1930)

Portrait of Leo Tolstoy.

Circences (fragmento)

Alckmar Santos




Em tudo se intromete o tempo, e o viço
Que em nós já coloria a face, agora
Já dana o corpo e entrega, sem demora,
A carne ao pó, e a alma a todo abismo.

É quase certa a dor, e o sempre olvido
Imprime essas suas marcas e atordoa,
Pois que nascemos todos em má hora
– É a vida que vivemos só ruído! –

Se a morte é ela, então, esse espetáculo
Que temos de montar sem mais vontade,
Enquanto o mais das gentes, todos pábulos,

Dão vivas e mais vivas com alarde,
Que seja então um circo em que, bem alto,
Se dê a ouvir a voz de quem se evade!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Eduard Steinbruck (1802-1882)

Die Nymphe der Dussel.

Entre cemitério e última classe

Milton Hatoum



Entre cemitério e última classe
há uma diferença motriz:
um é plano jazigo e só gira
com todos os vivos da Terra e suas tumbas.
Enquanto o porão, com seu espaço casulo, gira
no ritmo da Terra e, ainda, com a fluência da água.
Porão e túmulo jamais serão um único frasco.
O porão poderá ser tumulto
ou redoma de ossos falatórios.

Redoma, lugar hemisfério
onde se enxerga fora – longe do leme – o celeste.
Ou lugar que desfia, tecendo ao inverso,
destelhando o sono do homem
que já córrego, não mais será mistério.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Jan Massys (1510-1575)

Venus Cytherea.

poema de todas as ausências

from ginsberg/to dedé (ou vice-versa)



ar-condicionado

diamante risca o vinil,
um poema de ginsberg sobre poetas suicidados
não há torquato – pronome pessoal intransferível
não ana c. – pássaro de nuvens céu cinza copacabana:

lua sobre bourbon street – brilhando ouro cabelo
                             ferrão – esta noite
blues chorosos, canções, verão, mãe eu
                             concorrerei à presidência,
                             oh! darling

e o poeta enlouqueadormecido pela mescalina
                             apodrece diante do espelho
                             seu crânio calvo, seus lábios
                             chupadores de caralhos, sua
                             vida inútil de lavador de
                             pratos e analista de dados

da parede pendem poemas, pôsteres de
                             guevara e joplin, retratos
                             de carol e baudelaire,
                             além de um falso van gogh

na estante, entre miríades de sonhos e sons,
                             marcianos loucos materializam
                             suas fantasias de luzes
                             fosforescentes

mas nada disso me vale porra nenhuma
                                  se você não está aqui!