Amigos do Fingidor

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Israel Zohar

Nude at the window.

Minha pátria é minha língua

Hão de chorar por ela os cinamomos
Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)



Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: – “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria...
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhe sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: – “Por que não vieram juntos?”

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Jules-Élie Delaunay (1828-1891)

Nessus and Heracles.

Poesia em tradução

Meus livros
Jorge Luis Borges (1899-1986)




Meus livros (que não sabem que eu existo)

São tão parte de mim como este rosto

De fontes grises e de grises olhos

Que inutilmente busco nos cristais

E que com a mão côncava percorro.

Não sem alguma lógica amargura

Penso que as palavras essenciais

Que me expressam se encontram nessas folhas

Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.

Melhor assim. As vozes dos mortos

Vão me dizer para sempre.


(Trad. Josely Vianna Baptista)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Wilhelm von Schadow (1788-1862)

Mignon.

O bote

Cynthia Lopes



Posso sentir o cheiro do mar
mesmo a quilômetros de distância,
como um bicho, que sente o cheiro da
presa.

Posso enxergar você no escuro
das noites sem luar, feito animal,
grande felino que espreita sua
presa.

Posso ouvir sua respiração,
seus passos apressados pelas sendas
da floresta, seu medo, minha
presa.

todos os sentidos aguçados,
prontos para a investida, atrevida,
em sua carne, seja você o laço

ou o pássaro.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ticiano (1490-1576)

Self-portrait.

Canção para os fonemas da alegria

Thiago de Mello


A Paulo Freire

Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.

Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano,
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,

e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas

são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.

Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:

porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,

e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão

que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem,
mas um modo de amar – e de ajudar

o mundo a ser melhor.
                                   Peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:

ele atravessa os campos espalhando
a boa nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,

contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.

Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:

canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Martin Arriola

Nude.

Dabacuri - amazônica 10

Zemaria Pinto


início das férias –
no balanço do banzeiro
barco preguiçoso



barco vagabundo,
desliza à pele do rio
a árvore morta

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Joseph-Marie Vien (1716-1809)

Greek lady at the bath.

Alaga-me

Paulo Medeiros



Lânguida obscenidade

Um Amazonas em minha jangada

Inda te quero

Zeus meu, alagando-me

Antes do grito da alvorada

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Will Tuck

The birth of Venus.

Estante do tempo

Eu
Raimundo Monteiro (1882-1932)




Meus olhos tristes não choram
Mas a minha alma padece...
O orgulho que me enaltece
É como o orgulho de um rei!
Mágoas, que os outros deploram,
Dão-me coragem sem termo...
O meu espírito enfermo
Às tempestades lancei.

Árvore seca do monte
Ao sol e às chuvas morrendo,
Num desespero tremendo
Minore a insânia da dor...
Entre horizonte e horizonte,
Hirto e fatal agonizo...
Enquanto, longe, diviso
A nuvem leve do amor.

Nuvem de gaze tão leve
Que se desfaz na distância...
Como a azulada inconstância
Das ondas que vêm e vão!
E a fantasia se atreve
A colori-la com as tintas
Tão rubramente distintas
Da minha amarga paixão!

De tédio sofro e esmoreço
Como um beduíno sem rumo...
E em vãos temores consumo
O meu orgulho de um rei!
Mas, sempre audaz, reconheço
Que não fiz mal quando a vida,
Numa arrogância atrevida,
Às tempestades lancei!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Karl Russ (1779-1843)

The Legend of Agnesbrundel.

Minha pátria é minha língua

Duas Almas
Alceu Wamosy (1895-1923)



Ó tu que vens de longe, ó tu que vens cansada,
Entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho.
Vives sozinha sempre e nunca foste amada...

A neve anda a branquear lividamente a estrada,
E a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã quando a luz do sol dourar radiosa,
Essa estrada sem fim, deserta, horrenda e nua,
Podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sebastiano Ricci (1659-1734)

Diana and Callisto.

Poesia em tradução

À posteridade
Bertolt Brecht (1898-1956)



                                                 I

Não há dúvida que vivo numa idade escura!
Uma palavra sem malícia é um absurdo. Uma fronte suave
Revela um coração duro. Aquele que está rindo
Ainda não escutou
As terríveis notícias.

Ah, que tempo é este
Em que falar de árvores é quase um crime
Por ser de certo modo silenciar sobre injustiças!
E aquele que tranquilamente atravessa a rua
Não está fora do alcance de seus amigos
Em perigo?

É verdade: ganho minha vida
Mas, palavra de honra, é só por acidente.
Nada que eu faço me dá direito a meu pão.
Por acaso fui poupado: se minha sorte me abandona
Estou perdido.

Há quem me diga: come e bebe. Dá-te por satisfeito
Mas como é que posso comer e beber
Se meu pão foi arrebatado aos famintos
E meu copo d’água pertence aos sedentos?
E mesmo assim como e bebo.

Gostaria de ser sábio.
Os livros antigos nos informam o que é sabedoria:
Evita os embates do mundo, vive tua curta vida
Sem temer ninguém
Sem recorrer à violência
Pagando o mal com o bem –
Não a satisfação do desejo mas o alheamento
Passa por sabedoria.
Eu não posso fazer nada disso:
Não há dúvida que vivo numa idade escura!

                                                 II

Cheguei às cidades num tempo de desordem
Quando a fome imperava.
Cheguei entre os homens num tempo de levante
E com eles revoltei-me.
E assim passou-se o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

Comi meu pão entre massacres.
A sombra do assassínio pairou sobre meu sono
E nas vezes que amei, amei com indiferença.
Considerei minha natureza com impaciência.
E assim passou-se o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

No meu tempo as ruas conduziam à fama gulosa
O que eu dizia me atraiçoava ao carrasco.
Pouca coisa podia fazer. Porém sem mim
Os dominantes ter-se-iam sentido mais seguros.
Pelo menos era essa a minha esperança.
E assim passou-se o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

Pequena era a força dos homens. O objetivo
Ficava muito longe.
Fácil de ver, embora para mim
Quase inatingível.
E assim passou-se o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

                                                III

Vós que emergireis deste dilúvio
Em que nos afundamos
Pensai –
Quando falardes em nossas fraquezas –
Também na idade escura
Que lhes deu origem.
Pois assim passamos, mudando de país como de sapatos
Na luta de classes, desesperando
Quando só havia injustiça e nenhuma resistência.

Pois sabíamos até bem demais
O próprio ódio da imundície
Faz a fronte ficar severa.
A própria raiva contra a injustiça
Faz a voz ficar áspera. Ai de nós, nós que
Queríamos lançar as bases da bondade
Não pudemos nós mesmos ser bondosos.

Mas vós, quando afinal acontecer
Que o homem possa ajudar seu próximo
Não nos julgueis
Com muita severidade...


(Trad. Mário Faustino)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

René Magritte (1898-1967)

Liaison Dangereuse.

O corpo é o instrumento da alma

Andreia Gondim



O corpo é o instrumento da alma,
Ela sorri, corre, foge, cria expectativas,
Mas nunca se acalma,
Diante das sensações e tentativas.

O corpo sente frio e se esquenta,
Sente arrepios e não se aguenta,
Cresce, sente, tenta,
Quando perde não se lamenta.

A alma busca suas verdades,
E o corpo busca suas vaidades,
A alma ama,
E de saudades reclama.

A alma quer se enroscar,
Quer gritar,
Quer chorar,
Usando o corpo para falar.

A alma usa as pernas para correr,
Os olhos para entender,
A boca para dizer,
E o coração para fugir.

A alma nunca se acalma,
Não deixa para lá,
A alma nunca mente,
A tristeza que o corpo já não sente.

A alma a todo momento,
Algo está querendo,
Chamando de sentimento,
O que está dizendo.

A alma usa o corpo para mudar o mundo,
Vive tudo num segundo,
Mas seu instrumento com ela está
Para o que tiver que ser será.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Michelangelo da Caravaggio (1571-1610)

Bacchus.

carnaval

Rogel Samuel



no seu calor
eu que rebolar
a minha dor

na sua voz
eu que entoar
o amor

não sinto tanto
o vazio do meu
pranto

leve retrato

o meu carnaval
é no seu prato

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Tesfay

Dressing.

exercício nº 19

Zemaria Pinto




não quero a Palas penetrar sua imanência
o corpo etéreo, a torturada solidão
do olhar vazio a contemplar os horizontes
inatingíveis por humanas pretensões

eu quero sim a pele escura, os olhos míopes
de uma anti-helênica beleza, Diacuí
a torneada calipígia de suas ancas
dançando sôfrega e selvagem sobre mim

daí então vou distorcer o som da lira
cantar asneiras ancestrais, cantar leseiras
fazer barulho para o sono da cidade
depois dormir no leito impuro dos amantes

pois a Beleza, eu sentei-a no meu colo
e penetrei-lhe com a lascívia dos mortais

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

John William Godward (1861-1922)

A Pompeian Bath.

Posse

Danielle Mariam


Deitei em teu colo
tão quente
meu

Suguei teu leite
teus poros
chorei

Tomei teu tempo
quebrei teus óculos
dormi

E tu foste meu
abandonadamente
sem restrições

mas eu
boba
deixei que a brisa
entrasse pela janela
e tu olhaste o mundo
ele não era somente este quarto

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Kristin Joseph

The Rebirth of Venus.

Estante do tempo

Poetas malditos
Maranhão Sobrinho (1879-1915)


Quando, pelo clamor dos meus pecados, tive
de, à Treva Inferior, descer, à voz do Eterno,
ralando-me do Mal no aspérrimo declive,
como um deus rebelado e tonto de falerno,
sobre os antros mais nus, como Alighieri, estive
suspenso, a contemplar o delírio eviterno
das pompas sensuais de Gomorra e Ninive,
situadas ao pé de Stromboli do Inferno...

Gritos e imprecações, que as chamas retalhavam,
como gládios de bronze, em bárbaras campanhas,
de entre as lavas de sangue e sulfo se elevavam,
enquanto, aos olhos meus, nos infernais retiros,
o fogo, devorando o ventre das montanhas,
dava uns tons de grangrena às asas dos vampiros...

Com as unhas lacerando a púrpura sangrenta,
que, dos ombros de auroque, em pregas, lhe caía
vi Nero, inda exibindo a mesma fronte odienta
que, no incêndio de Roma, às chamas exibia...

Raivava como um cão, mostrando a saburrenta
língua e, a espaços, também, às escancaras, ria
epiléptico, ao ver as almas em tormenta
atravessando o horror da satânica orgia
de fogo, no solar do Príncipe Demônio,
para, empós, como os cães corridos, lazarentos,
encolher-se, entrevendo o vulto de Petrônio,
que, arrepanhando a toga e erguendo a ebúrnea fronte,
ia e vinha, a cantar, nos antros pestilentos
do Inferno, uma canção de amor de Anacreonte...

Entre uma legião de cetros e tonsuras,
Voltaire, viu-me e sorriu, com um sorriso endiabrado
de caveira, a expelir das órbitas escuras
ironias, de um tom de bronze avermelhado...

Blasfemava, estalando as hirtas ossaturas
do esqueleto e mostrando o braço descarnado,
num gesto de rebelde às lívidas alturas
e a enterrar-se ainda mais no Inferno, brado a brado...

Erguia, empós, o olhar da treva aos coruchéus
e escarrava, dizendo, em nojo, que o fazia
no orgulho de Lusbel, sobre a fronte de Deus!
E, quando assim falavam os seus lábios, à míngua
de fé, de gota em gota, entre assombrado, eu via
como um visgo de fogo a escorrer-lhe da língua...

Também lá te encontrei, Tristan Corbière, nas grutas
do Demônio, cantando umas canções remotas
como o oceano, que morde as praias de ouro, enxutas,
no virente esplendor das vivas bergamotas...

Tremia-te entre as mãos, em púrpuras volutas
de sons, a harpa do Mal, fazendo, sob as cotas
dos hoplitas do Inferno, o amor ao sangue e às lutas
triunfar transluminoso, em túmidos Eurotas...
Os teus olhos cruéis, em damas de palhetas
de ouro jalde, varando as vastidões aflitas
silenciavam do fogo as púrpuras trombetas
de bronze, que, a planger, nas místicas oblatas
sangrentas do Demônio, em helicinas malditas,
acordavam do Inferno as furnas escarlatas...

Desbordes e Mallarmé oscularam-me a fronte
e passaram, por uma azul chama impelidos;
chamei-os e o rumor das lavas do Aqueronte
triste abafou-me a voz, cerceando-me os sentidos...
Quando acordei me vi perto da negra fonte,
entre um vivo clamor de pragas e gemidos,
diante do inquieto olhar de um cérbero bifronte
com os olhos como dois santelmos acendidos...

Vi, momento depois, em palidez exangue,
Rimbaud e Villiers de L'Isle Adam, chorando,
e o seu pranto infernal era de lodo e sangue...

E, quando recuei de agro pavor, Lilian
surgiu-me e, empós, se foi pelas trevas clamando:
Satã! Satã! Satã! Satã! Satã! Satã!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Padovanino (1588-1649)


Sleeping Venus with Putti.

Minha pátria é minha língua

À profissão de Frei João das Mercês Ramos
Junqueira Freire (1832-1855)



Entretanto o céu se levanta sereno
e pomposo como para um dia de festa.
(Carlos Lacretelle)

Eu também antevi dourados dias
        Nesse dia fatal:
Eu também, como tu, sonhei contente
        Uma ventura igual.

Eu também ideei a linda imagem
        Da placidez da vida:
Eu também desejei o claustro estéril,
        Como feliz guarida.

Eu também me prostrei ao pé das aras
        Com júbilo indizível:
Eu também declarei com forte acento
        O juramento horrível.

Eu também afirmei que era bem fácil
        Esse voto imortal:
Eu também prometi cumprir as juras
        Desse dia fatal.

Mas eu não tive os dias de ventura
        Dos sonhos que sonhei:
Mas eu não tive o plácido sossego
        Que tanto procurei.

Tive mais tarde a reação rebelde
        Do sentimento interno.
Tive o tormento dos cruéis remorsos
        Que me parece eterno.

Tive as paixões que a solidão formava
        Crescendo-me no peito.
Tive, em lugar das rosas que esperava,
        Espinhos no meu leito.

Tive a calúnia tétrica vestida
        Por mãos a Deus sagradas.
Tive a calúnia – que mais livre abrange
        Ó Deus! vossas moradas!

Iludimo-nos todos! – Concebemos
        Um paraíso eterno:
E quando nele sôfregos tocamos,
        Achamos um inferno!

Virgem formosa entre visão fantástica
        Que tão real parece!
Mas quando a mão chega a tocá-la quase,
        Lá vai, lá se esvaece!

Sonho da infância que nos traz aos lábios
        Um riso mais que doce:
Mas uma voz, um som... – some-se o sonho,
        Como se nunca fosse.

Tu, filho da esperança! – tu juraste
        O que também juramos.
Tu acreditas, inocente! – ainda
        O quanto acreditamos!

Oh! que não sofra as dores que nos ferem
        Teu jovem coração!
Que o futuro que esperas não se torne
        Terrível ilusão!

Que sobre nós – os filhos da desgraça –
        Levantes um troféu:
E que não aches, – como nós achamos –
        Inferno em vez de céu!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Giovanni Francesco Romanelli (1610-1662)

Ceres.

Poesia em tradução

Os mudos
Denise Levertov (1923-1997)




Esses suspiros que os homens
soltam quando passam por uma mulher na rua
ou nas escadas do metrô

a fim de lhe dizer que é uma fêmea
pois assim sentem suas carnes,

são talvez espécie de som,
canção muito feia, feia mesmo, sussurrada
por um pássaro de língua serrada
mas feita para música?

Ou são grunhidos
de surdos-mudos encurralados numa sala que
aos poucos se enche de fumaça?

Talvez as duas coisas.

Tais homens parecem que
só sabem soltar tais sussurros,
no entanto uma mulher, apesar de si mesma,

sabe que lhes chama atenção:
se ela não tivesse graça
passariam por ela em silêncio:

logo, não é só porque ela seja
um buraco quente. É uma palavra

em língua sofrida, longe de ser
primitiva nem primária;
língua prenhe, doentia, senilizada,

em decrepitude. Ela deseja
desfazer-se do sussurro, repug-
nada, mas não consegue,

o sussurro prossegue zurrando em seus ouvidos,
muda o ritmo de seus passos,
os cartazes rasgados em corredores que ecoam,

verbalizam-no, ele
se estremece e range à chegada do trem.
O pulso dela sombriamente

acelerava-se, mas os vagões
param estridentes
enquanto sua compreensão

prossegue transladando
“Vida após vida após vida prossegue

sem poesia,
sem decência,
sem amor”.


(Trad. Ary Gonzalez Galvão)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Leonardo da Vinci (1452-1519)

Cabeça de mulher.

let’s play that

Torquato Neto (1944-1972)



quando eu nasci
um anjo louco
um anjo solto
um anjo torto
veio ler a minha mão

não era um anjo barroco
era um anjo muito solto
louco louco muito doido
com asas de avião

e eis que o anjo me disse
apertando a minha mão
entre um sorriso de dentes
vai bicho
desafinar o coro dos contentes

let’s play that

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Salvador Dalí (1904-1989)

A persistência da memória.

3 haicais guilherminos

Jorge Tufic


Cadeira antiga.

Nela sentou-se a família,

agora a fadiga.



Uma ilha flutua

no espelho d’água. Vermelho

o alfange da lua.



Oculto no dom

que tem de não ser ninguém

o grilo é som.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Nicolas Bertin (1668-1736)

Phaéton on the Chariot of Apollo.

totem

Zemaria Pinto


a língua percorre ávida
o rosto molhado
os olhos cerrados
a boca afogada
os seios em fogo sob a água

minhas pernas sustentando
tuas pernas bailarinas
metamorfose dos corpos
fundidos, totem armado
no quadrilátero âmbar

cantam crianças
pássaros cantam
fulgor na tarde avermelhada
asas-deltas ultraleves
e um blues na sala solitária

a água no corpo
o corpo no corpo
bocas e pernas e mãos
teu gozo estremece
meu corpo
meu sêmen chove de mim

teu dorso incandescente
a parede fria
o grito sufocado
e a alegria
– ah, a alegria
   de fazer parte de ti!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Gustave Courbet (1819-1877)

O atelier.

beijo

João Sebastião


a secretária anota um recado
a tua voz rouca
                         apressada

era natal? carnaval? eleição?

aguardo novo chamado
e o beijo
                         extraviado
não o beijo ocasional das despedidas mecânicas
mas, o beijo
            beijobeijo
            beijomel
            beijoflor
            beijodor
            beijofel
            beijomaçã
            beijoflama

que não cabe na língua digital
de uma secretária eletrônica

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Jaroslaw Jasnikowski

The birth of Venus.

Estante do tempo

A Enchente
Quintino Cunha (1873-1943)


Sinistro cresce o rio bom de outrora,
Mas hoje um cruel, fazendo mil estragos,
Já não tem coração, não tem afagos,
Para si mesmo, o Solimões d’agora;

Mas, em compensação, há nisto uns vagos
Tons de alegria impressionadora:
É que alegres os peixes vão-se embora,
Pelos igarapés, para os seus lagos.

E, do oeiranal, pousadas tristemente,
Com a mesma tristeza com que a gente
Se prostra, às vezes, quando sente mágoas,

As garças olham como a praia há de
Em breve se esconder, naquelas águas,
As garças olham... tristes de saudade!...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Lawrence Alma-Tadema (1836-1912)

Sappho and Alcaeus.

Minha pátria é minha língua

Fermosos olhos
Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622)


Fermosos olhos, quem ver-vos pretende
A vista dera em preço, se vos vira,
Que inda por perder-vos a sentira,
A perda de não ver-vos não se entende;

A graça dessa luz não na compreende
Quem, qual ao Sol, a vós seus olhos vira,
Que o cego Amor, que cego deles tira,
Com vossos próprios raios a defende.

Não pode a vista humana conhecer
Qual seja a vossa cor, que a luz forçosa
Não consente mostrar tanta beleza;

Se eu, que em vendo-a ceguei, pude ainda ver,
Uma cor vi, porém, cor tão fermosa
Que me não pareceu da natureza.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Peter Paul Rubens (1577-1640)

A abdução de Ganimedes.

Poesia em tradução

A Era
Óssip Mandelstam (1892-1938)


Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
Colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue – dois séculos –
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral de horas novas.

Todo ser enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em torno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem de criança
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância.

Junta as partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta, e a vida se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século.
E a víbora na relva respira
O ouro da idade, áurea medida.

Vergônteas de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos.


(Trad. Haroldo de Campos)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Jean-Honoré Fragonard (1732-1806)

Uma jovem lendo.

vovó lavava os pés de vovô

Nilza Menezes



vovó lavava os pés de vovô

obediente.

minha mãe já se rebelava

racionando sexo e carinho.

apertada entre essas duas mulheres

tento encontrar caminhos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Giorgio de Chirico (1892-1964)

Heitor e Andrômaca.

Canção da Manaus 1900 et...

Aldisio Filgueiras


um homem nu
com as mãos no bolso
passarela passarela

de gravata e paletó
um homem nu
passarela passarela

um homem nu
e seu espelho
passarela passarela

um homem nu
e seu espanto

um homem nu
e seu duplo

um homem nu
e seu outro
(o seu ciúme)
passarela passarela
com as mãos no bolso

de gravata e paletó
um homem nu
e o seu eu
de europeu
passarela passarela

um homem nu
com as mãos no bolso
passarela passarela

um homem nu, sem dúvida

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

René Magritte (1898-1967)

Mnazna.

exercício nº 9

Zemaria Pinto


Em minha face, onde o tempo se define
nos limites de fantasmas cartográficos,
cicatrizes da distante pubescência
e monturos de poemas sob os olhos,

vagueiam mórbidos vultos de panteras,
pássaros torturados, cavalos mancos.
Pelos flancos do meu rosto pendem pedras
e rasteira capoeira sob espinhos.

Refletida pelo espelho intemporal,
minha cara transmutada em trinta séculos
trilha os rastros incessantes da agonia.

Submergido em meu semblante lacerado,
vejo o tempo como um rio de águas vorazes:
já não sou quem fui ou quem serei ou quando.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Claude Monet (1840-1926)

A ponte de Argenteuil.

Teares

Rosa Clement


Se a aranha no teto tece,
aqui embaixo também teço,
tricoto no escuro espaço
e fios de pensamentos
em sonhos desembaraço.

Ela espera a calmaria
sem desfile de ruídos.
Eu insisto em devaneios
para tecer as lembranças,
combinando os entremeios.

Meu tear vai fabricando
com deslumbre do passado
os tecidos mais brilhantes,
vai cerzindo os esgarçados,
e compõe dias distantes.

Vejo a aranha em pleno plano,
sábia da paz planejada,
só esperando a comida.
Sou eu agora essa presa
em sua trama perdida.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Margit Björklund

The birth of Venus.

Estante do tempo

A Pororoca
Hemetério Cabrinha (1892-1959)


Calmo, sereno, plácido, espelhante,
Nas horas de luar, frias e brancas,
O Mearim, gargalhando nas barrancas,
Se estende, estica e perde-se distante.

O céu, como uma concha de safira
Emborcada por toda a Natureza,
Enche a paisagem de real grandeza
Enquanto o rio pelo chão se estira.

A floresta conserva-se parada;
Nenhuma folha quebra-lhe o silêncio.
E o intérmino trajeto, o rio vence-o
Calmo dentro da noite enluarada.

Mas, um rumor, ao longe, de repente,
Ecoando à distância, estruge, esturra...
Uma invisível força o rio empurra
De encontro às margens assombrosamente.

As águas fervem, tumultuam, crescem
Alagando, destruindo, aniquilando,
Num furor infernal arrebatando
Árvores altas que nas águas descem.

As raízes do solo se deslocam
Sob a fúria dos bruscos elementos.
Ondas revoltas, vagalhões violentos,
Na agonia das margens se rebolam.

Em derredor das ribeirinhas zonas
Nada fica que o rio não ameace;
Como se no seu dorso galopasse
Um tropel de raivosas amazonas.

Embarcações desgarram-se, afundando,
Quebrando amarras, rebentando mastros.
E a Pororoca, em seus sinistros rastros,
Rola por entre abismos esturrando.

Depois... Volta o silêncio. O rio desce;
Plácido e manso o curso continua.
Enquanto branca e só se esconde a lua
Como se nada acontecido houvesse...

Mesmo assim somos nós, nas nossas trocas
De amores e emoções. Tranquilamente,
Quando mal esperamos, de repente
Rebentam n’alma doidas pororocas.