Amigos do Fingidor

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Albert Lynch (1851-1912)

Gathering Flowers.

O sermão da selva (IV)

Max Carphentier


Bem-aventurados os que sustam o avanço dos desertos,
domando a areia e apascentando as dunas
com a flauta inumerável de árvores urgentes
que frutificam em paz e as cidades protegem
e mitigam de chuva os caminhos de fogo.
Bem-aventurados os que socorrem a fauna sacrificada
e salvam da extinção cantos indispensáveis,
belos saltos de cor, imponências felinas
e todas as claras provisões de ternura animal
que a magnífica fonte espalhara na selva.

Bem-aventuradas as mãos que multiplicam o verde e os verdes
movimentos do caule erguendo-se da terra,
e os longos círculos de sonho em que a flor se transfigura,
em que o fruto se entrega e em que as folhas resistem
na úmida e dadivosa sinergia.

Bem-aventurados os que cultivam e os que repartem as lendas,
filhas da solidão dos remos peregrinos,
das sombras que de noite andam de medo em medo
as redes embalando à luz das lamparinas.
Porque lenda é mensagem, e a selva sempre soube
que, além de alma e matéria, o homem é sonho.
Bem-aventurados todos os que antes da revelação eletrônica
já se comunicavam com as plantas, já as sentiam
e com elas partilhavam da luz e da emoção,
e as respeitam assim nessa comunidade da selva.

Bem-aventurados os que em lei, verso, vontade,
na retorta, na prece e na palavra
a selva defenderem e seus mistérios lerem
e fundarem a sua paz na paz da selva.
Porque o Reino será desses, daqueles que cumprirem
o destino de Deus neste transido
mundo que nos suporta enquanto o temos.


DEO GRATIAS

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Domenichino (1581-1641)

Diana and her Nymphs.

Dabacuri - amazônica 8

Zemaria Pinto


sol na cumeeira –
o barco desliza lento
buscando o nascente



fogo improvisado
para o almoço de domingo:
peixe moqueado

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Jan de Bray (1627-1697)

The Governors of the Guild of St Luke, Haarlem.

Convite

Carlos Tiago


É tempo de colher
o sonho plantado
por sorrisos e lágrimas.

O horizonte desenha sombras e flores.

É tempo de esquecer
as manhãs cinzas
ceifar os girassóis
plantados nas madrugadas.

O vento abraça olhares perdidos.

É tempo de desenhar
navios negreiros
em seus alçapões crianças brincarão de amarelinha.

É tempo dos sonhos
de plantar as flores da esperança
de acreditar no amor
em todas as palavras armadas de coragem.

O dia amanhece
em seus braços
uma criança sorri.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Michael Newberry

Venus.

Estante do tempo

Ódio
Octavio Sarmento (1879-1926)



Odiar, como eu te odeio, é uma coisa horrenda!...
É teres ante o olhar, em mágicos fulgores,
De um pélago sombrio a garganta estupenda,
Oculta sob um véu de rosas multicores:

Chegas-lhe à negra borda, incauto, pela senda
Que te indico a sorrir, remordendo-me em dores,
Pela senda fatal que a vingança tremenda
Abriu à tua vista, entre aromas e flores.

Mas, bruscamente, falha o solo aos pés e cais...
E eu te escuto rolar, entre pinchos mortais,
Por sobre a rocha viva, a humosa rocha vedra...

E agora, do alto, a rir de um riso mau de hiena,
Dobrado sobre o abismo, eu fito, na geena,
Trapos de carne em sangue, ao léu de pedra em pedra!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Nikolai Kuznetsov (1850-1929)

Portrait of Piotr Ilyich Tchaikovsky.

Minha pátria é minha língua

A rua da rimas
Guilherme de Almeida (1890-1969)



A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino

é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,

direita, estreita, bem feita, perfeita,

com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;

e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,

douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;

e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;

e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,

mas brando e brando, soltando, de vez em quando,

na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;

e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;

e de noite, no ócio capadócio,

junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;

e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que me mata...);

e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...


A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino

é uma rua qualquer, onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer

é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,

correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente,

para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito

e que rima com mocidade, liberdade, tranquilidade: RUA DA FELICIDADE...

sábado, 26 de dezembro de 2009

Claude-Marie Dubufe (1790-1864)

The Surprise.

Poesia em tradução

Sobre um retrato de Dante por Giotto
James Russel Lowell (1819-1891)


E este és tu, que pálido fitaste,
Com calmo e frio olhar imarcescível
As almas torturadas, e notaste
Cada pena, e passaste, inda impassível,
Salvo quando pra trás ousou lançar
Teu coração um proibido olhar,
E viu Francesca, como uma criança,
Montar serena teu corcel que avança
E com mão firme o seu orgulho dominar?

Com pálpebras descidas, fronte calma,
E olhar remoto, que interior divisa
Da bela Beatriz errando a alma
Em ilhas frescas da marinha brisa,
Atravessas das ruas o rumor,
Protegido de ouvi-lo pela flor
Que ela te deu, e a tua mão levanta,
Essa palma que vem da Terra Santa;
Aqui não há sinal da ruína e sua dor.

Mas há alguma coisa que contorna
Teus lábios, e de teu fado é profeta,
A sombra quando o eclipse inda não torna
Do negro disco a escuridão completa;
Alguma coisa que banir-te quer
Dos homens e vis fados do seu ser,
Ainda que Florença não houvesse
Fechado as suas portas, e tivesse
Deixado a tua eterna dor de te tolher.

Ai! o que segue destemidamente
Os ditames de uma alma de poeta
Vagueará, sem que o force o mundo insciente,
Em exilada solidão completa;
Mais que as muralhas de Florença forte
A muralha que o exclui, até que a morte
O solte, de amizade e lar, e faz
Que a sua oração seja a pedir a paz
Como a tua, ó guerreiro altivo contra a sorte!


(Trad. Fernando Pessoa)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Rosario Andrade

The judgement of Paris.

Galáxias (fragmento)

Haroldo de Campos (1929-2003)


circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do desgosto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de bordados rebordos estilo império para a megera miséria pois isto é popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol pois não tinha serventia metáfora pura ou quase o povo é o melhor artífice no seu martelo galopado no crivo do impossível no vivo do inviável no crisol do incrível do seu galope martelado e azeite e eixo do sol mas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoendo como um fio demente plangendo seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo esfaima circuladô de fulô circuladô de fulô circulado de fulôôô porque eu não posso guiá veja este livro material de consumo este aodeus aodemodarálivro que eu arrumo e desarrumo que eu uno e desuno vagagem de vagamundo na virada do mundo que deus que demo te guie então porque eu não posso não ouso não pouso não troço não toco não troco senão nos meus miúdos nos meus réis nos meus anéis nos meus dez nos meus menos nos meus nadas nas minhas penas nas antenas nas galenas nessas ninhas mais pequenas chamadas de ninharias como veremos verbenas açúcares açucenas ou circunstâncias somenas tudo isso eu sei não conta tudo isso desaponta não sei mas ouça como canta louva como conta prova como dança e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me esqueça me larga me desamarga que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento bagagem de miramundo na miragem do segundo que pelo avesso fui dextro sendo avesso pelo sestro não guio porque não guio porque não posso guiá e não me peça memento mas more no meu momento desmande meu mandamento e não fie desafie e não confie desfie que pelo sim pelo não para mim prefiro o não no senão do sim ponha o não no im de mim ponha o não o não será tua demão

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Sandro Botticelli (1445-1510)

Natividade mística.

Natal amazônico

Alcides Werk (1934-2003)
(para canto coral)

No reino das amazonas
há natais todos os dias,
que vêm rolando dos Andes
nas águas brancas e frias.

Nas copas das piranheiras,
nos frutos dos araçás,
nos ninhos dos japiins,
nos gestos dos animais,

nos pássaros, nas florestas,
nas orquídeas, nos tajás
há lantejoulas de festas
de telúricos natais.

O pescador na canoa,
os curumins no terreiro,
a cabocla, a vida boa
à sombra do cacaueiro.

E quando chega dezembro
– o Natal do Bom Jesus,
parece que o céu se enfeita
e pinta o verde de luz.

Mas neste dia, em verdade,
o que mais me encanta aqui
é ver um jesus dormindo
na rede de um tapiri.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Stanislaw Wyspianski (1869-1907)

Wladyslawa Ordon-Sosnowska.

roteiro para depois da minha morte (iv/iv)

Zemaria Pinto


caminho por esta praça
como se em terra estrangeira
não reconheço ninguém
ninguém a mim reconhece

exceto os pombos
que se agitam a minha volta
as sombras que habitam a praça
são construções de silêncios
dissimuladas em falsos sorrisos

estanco no centro da praça:
se aperto o gatilho, espanto os pombos

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Gustave Courbet (1819-1877)

The Stone Breaker.

Muito puto

Miguel Ferreira de Souza


Hoje eu tô muito puto dessa vida
dessa vida mesquinha que o véu encobre
onde o pobre é cada vez mais pobre
e não encontra no conforto guarida

Onde a luta é cada vez mais renhida
e que só favorece quem é nobre
hoje eu tô muito puto, e não se descobre
o porquê da minha ira enfurecida

O porquê deste canto tão amargo
o porquê de eu estar assim neste cargo
já que eu respondo pelo meu canudo

Hoje eu tô muito puto com o sistema
com o meu, com o teu, com o nosso problema
com o mundo, com a vida, com tudo!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

François Boucher (1703-1770)

The birth of Venus.

Estante do tempo

Dona Ausente – IX
Mário Ypiranga Monteiro (1909-2004)


– Já se calaram todas as cigarras
no bucolismo dessas horas quedas.
Não vibram mais orquestrações bizarras
pelo silêncio bom das alamedas.

Amo-a demais. Às vezes sua ausência
a saudade deplora e eis-me a chamá-la
para que traga azul a esta querência
e um pouquinho de sol à minha sala.

Vem dela a minha glória e é dela o cheiro
de mocidade, que pelo ar se estrela.
Duvido que haja rosa em seu canteiro
que cheire tanto como a carne dela.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Eustache Le Sueur (1616-1655)

Diane découvrant la grossesse de Callisto.

Eu vi a linda Jônia
Alvarenga Peixoto (1744?-1792)


Eu vi a linda Jônia e, namorado,
fiz logo voto eterno de querê-la;
mas vi depois a Nise, e é tão bela,
que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se, neste estado,
eu não sei distinguir esta daquela?
Se Nise agora vir, morro por ela,
se Jônia vir aqui, vivo abrasado.

Mas ah! que esta me despreza, amante,
pois sabe que estou preso em outros braços,
e aquela me não quer, por inconstante.

Vem, Cupido, soltar-me destes laços:
ou faze destes dois um só semblante,
ou divide o meu peito em dois pedaços!

sábado, 19 de dezembro de 2009

Rich Hawk

Lady of the field.

Poesia em tradução

À amada
Safo (séc VII a.C.)


Ventura, que iguala aos deuses,
Em meu conceito, desfruta
Quem, junto de ti sentada,
As doces falas te escuta,
Goza teu mago sorrir.

Quando imagino em tal gosto
É minha alma um labirinto;
Expira-me a voz nos lábios;
Nas veias um fogo sinto;
Sinto os ouvidos zunir.

Gelado suor me inunda;
O corpo se me arrepia;
Foge-me as cores do rosto,
Como ao vir da quadra fria
Entra a folha a desmaiar.

Respiro a custo, e já cuido
Que se esvai a doce vida!
Arrisquemo-nos a tudo...
Contra uma angústia insofrida
tudo se deve tentar.


(Trad. Castilho)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Kazimir Malevich (1878-1935)

Suprematist Composition.

Quarenta anos

Clotilde Tavares
Para Allan Ginsberg


& eu
que uivei como um cão danado pelas esquinas da década de 60
& eu
que me encharquei de drogas & sexo & rock nos inferninhos da década de 70
& eu
que me banho de álcool & solidão nas páginas da década de 80

continuarei sendo aquela poetisa maldita meio beat meio louca meio rock meio boba & tão necessária quanto uma garrafa vazia de refrigerante ou um copo de papel usado?

continuarei derramando o meu sexo no asfalto das avenidas ensopadas de sangue & vidros partidos?

continuarei dividindo o meu rosto nos retrovisores dos táxis & xerocopiando o meu corpo em cada farmácia da esquina?

& se não tivesse feito tudo isso

& se não fizer tudo isso

vale a pena
ainda
estar viva?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Sophie Anderson (1823-1903)

Take the fair face of woman.

somos sombras

Rogel Samuel


nada sabe a nada
neste e no outro mundo

nada é
o que pensa que é

somos sombras
névoa que se dissipa na curva da estrada
ao sol da manhã

certa vez eu vi um monte enevoado
era uma alta montanha
longe, bem longe dos olhos
nunca me esqueci
era a cordilheira dos Himalaias
ao longe, bem longe
como uma visão excelente
de algo portentoso e belo

somos sombras
o mundo presente
e o mundo dos sonhos

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Simon Vouet (1590-1649)

The muses Urania and Calliope.

roteiro para depois da minha morte (iii/iv)

Zemaria Pinto


lucidez – idéia e luz

farra do pensamento

clareza e percepção

transparência e consciência

tudo num só enleio

Baco e Febo abraçados

único sinal vital

que me desejo

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Michele Desubleo (1602-1676)

A sea nymph.

A teoria de se fazer amor

Inácio Oliveira


O amor, para fazê-lo
É preciso muito, muito tempo;
Pouca, quase nenhuma pressa
E uma certa habilidade mística.

É preciso ter mãos leves e lésbias
Pousadas feito pássaro
Sobre o verão da carne
E ousar um determinado voo.

É necessário um divertimento
Dos ossos e dos músculos,
Algo como uma partida de futebol
Ao entardecer da vida.

É preciso uma certa displicência,
Um completo desprendimento
De todas as coisas;
Que nada no mundo interfira no amor.

É preciso um completo silêncio,
Um silêncio vegetal anterior às palavras,
Um silêncio de dois antigos olhares que se entrecruzam
Ouvindo o sangue nas veias correr.

É preciso redescobrir aquela antiga
Prática perdida pelos homens
De fazer uma rosa se abrir
Dentro dos olhos de uma mulher.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Carlo Maratti ou Maratta (1625-1713)

Birth of Venus.

Estante do tempo

Sonetos autobiográficos - 8
Luiz Ruas (1931-2000)


O cais está deserto. A noite é vasta.
O vento sopra fino. As águas negras
Paradas se repousam das fadigas
De naves que partiram soluçantes.

As luzes tremeluzem cochilantes
Dos negros postes magros penduradas.
Do guarda, os passos lerdos, sonolentos,
Acordam surdos ecos nas distâncias.

E a sombra do seu corpo se projeta
No longo tombadilho do silêncio
Escura e densa como ponte armada

Do cais para o silêncio da água negra,
Do fim para o começo de outro dia
Do pranto de quem fica ao de quem parte.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Etienne-Barthélemy Garnier (1759-1749)

Diana and Her Nymphs.

Minha pátria é minha língua

Soneto CLXVIII
Antonio Lobo de Carvalho (1730-1787)


Este que vês aqui, formosa dama,
Entre moles testículos pendente,
Já foi em outro tempo raio ardente,
Hoje é pavio, que não solta chama:

Este que vês aqui, já foi o Gama
Dos mares onde navega tanta gente;
Hoje é carcaça velha, que somente
Dos estragos que fez conserva a fama:

Este que vês aqui, foi do trabalho
O maior sofredor (quem tal dissera?)
Hoje do amor é lânguido espantalho:

Este que vês aqui, na ardente esfera,
Já foi flor, já foi luz, já foi caralho;
Mas hoje não é já quem dantes era.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Michelangelo (1475-1564)

Creation of Adam.

A Deus

Michelangelo Buonarroti (1475-1564)


Quisera, ó Deus, querer o que não quero.
Por entre o coração de gelo e o fogo
Um véu de sombra cai, que esfria logo
A chama e faz meu cântico insincero.

Senhor, te amo com a boca, e desespero
De não sentir o amor no peito; e rogo
Que a tua graça seja o desafogo
Desta alma presa de um orgulho fero.

Rasga esse véu, Senhor! Rompe esse muro
Que com sua dureza me retarda
O sol de tua luz, no mundo extinta.

Manda o predito lume do futuro
À tua bela esposa, a fim de que eu arda
E na certeza desse amor te sinta.

(Trad. Ivo Barroso)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Michelangelo da Caravaggio (1571-1610)

The Cardsharps.

Mantenha

Alzira Cabral


Filha do teu adultério
existo
queiras ou não com a mesma pele.
Exilada
sobrevivo contente
na terra dos sem cor.
Com a boa vontade que ganhei
das gentes daqui,
sem ressentimentos nem vergonha
cultivo a mentira da tua grandeza
no existir dos meus descendentes.

E mando mantenhas, oh terra
através dos meus poemas vermelhos:

A cor que me deste!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Pierre-Narcisse Guérin (1774-1833)

Sappho on the Leucadian Cliff.

Balada

Elson Farias


O sol retorce a paisagem
sobre pés de pedra dura.
Estalam verdes do rio.
Peixes redondos, prateados
como escamas esmaltadas
nas tarrafas de chumbadas.

Uruás partem seus cascos
no barro virgem das grotas.
Alguidares se restauram.
No mormaço das mangueiras
as mulheres temporãs
tecem tarrafas chumbadas.

De torrentes concentradas
vive meu verso bisonho,
sustido em fibras telúricas
do sítio, favas de sol.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Hendrick de Clerck (1570-1629)

The Punishment of Midas.

roteiro para depois da minha morte (ii/iv)

Zemaria Pinto


não permita que eu vegete

ou degenere no abismo

da insanidade:

apressa o fim

sem temer a dor

que não irei sentir

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Frida Kahlo (1907-1954)

Self-portrait (dedicated to Leon Trotski).

Coronelismo virtual

Fátima Guedes
.

Da guarita virtual
A imagem viaja no tempo e no espaço.
Liga, desliga, religa
E fala, e fala, e fala
A fala que silencia
A sede de falar.

Eu, de mim
Calada, calada... só pensamentos
Cidadã de proveta?...
Eunucopata?!...
A mordaça adocicada e colorida
Adoça os sonhos
Cromatiza a retina
Acomoda e sossega a reflexão...

A matéria atravessa a distância distante
E arremessa sobre o pálido silêncio
A perpétua solidão.
Sufocante!...

A espinha atravessa a passagem
Drummond não pode mover a pedra
Vomitante!...

O engodo sobe e desce
desce e sobe...
Quem sabe
“um galo” ouve meu grito calado
lança o grito a outro galo
“tecendo a manhã” além do caos?...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Cristofano Gherardi (1508-1556) e Giorgio Vasari (1511-1574)

The Birth of Venus.

Estante do tempo

Horas roxas
Aníbal Teófilo (1873-1915)


É nas horas como esta, em que o céu dolorido
De uma cinza-lilás impalpável se abruma,
Que mais me abate e alenta este sonho em que lido
A finas frechas de ouro e carícias de pluma.

É quando mais me oprime a saudade da espuma
Rósea, vida e fulgor de um semblante querido...
Do nosso extremo adeus, e do passado de uma
Vez para sempre agora em nuvens más perdido.

Horas que traduzis em delírios enfermos:
– Amplos quadros boreais, luares branqueando lousas,
Cortejos de ilusões fantasmeando por ermos...

Jamais vos maldirei, doces horas tiranas,
Que fazeis vir à luz a mais santa das cousas,
– O pranto, a prova real das fraquezas humanas.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Hans Holbein, the Younger (1497-1543)

Erasmus.

Minha pátria é minha língua

Sete de Setembro
Félix Xavier da Cunha (1833-1865)


Silêncio!... não turbeis na paz da morte
Os manes que o Brasil quase esquecia!...
É tarde!... eis que espedaça a lousa fria
De um vulto venerando o braço forte!

Surgiu!... a majestade traz no porte,
Onde o astro da glória se irradia...
Vem, grande Andrada, advinhaste o dia,
Vem juntar ao da pátria o teu transporte!

Recua?! não se apressa em vir saudá-la,
Cobre a fronte brilhante de heroísmo,
E soluça!... que tem?... Ei-lo que fala:

“Ó pátria que eu salvei do despotismo!
Lá vejo a corrupção que te avassala,
Não te conheço!...” E se afundou no abismo!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Alexandra Nedzvetckaya

Anna Akhmátova.

Poesia em tradução

Do Ciclo Versos sobre a Bela Dama
Aleksandr Blok (1880-1921)


No templo de naves escuras,
Celebro um rito singelo.
Aguardo a Dama Formosura
À luz dos velários vermelhos.

À sombra das colunas altas,
Vacilo aos portais que se abrem.
E me contempla iluminada
Ela, seu sonho, sua imagem.

Acostumei-me a esta casula
Da majestosa Esposa Eterna.
Pelas cornijas vão em fuga
Delírios, sorrisos e lendas.

São meigos os círios, Sagrada!
Doce o teu rosto resplendente!
Não ouço nem som, nem palavra,
Mas sei, Dileta - estás presente.


(Trad. de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Marcello Bacciarelli (1731-1818)

Calliope.

Arquitetura

Tanussi Cardoso


Um poema pronto
é um poema morto
Um filho solto
Palavras tontas
nos desvãos do tempo.
Um poema pronto
só cabe em seu corpo
Não se pertence
Vive além dele.
Um poema pronto
não se desespera
É leve como pluma
e forte como furacão.
Nem claro nem enigma
Não se perdoa.
Certo ou torto
só se percebe no olho
do outro,
               e na emoção.
Um poema pronto
é um poema morto.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Frederick Carl Frieseke (1874-1939)

Sleep.

A minha amada

Dori Carvalho


a minha amada
tem cheiro de flor do campo

a minha amada
tem pele de seda chinesa

a minha amada
tem gosto de damasco espanhol

a minha amada
invade todos os meus sonhos
e faz meu coração chorar de saudade

a minha amada
entra por todos os meus poros
e faz meu corpo tremer de desejo

a minha amada
faz minh’alma vagar todas as noites
entre o inferno e o paraíso

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Lauri Blank

Free Spirit of Art and Music.

roteiro para depois da minha morte (i/iv)

Zemaria Pinto



quando minhas cinzas

se fizerem ao vento

e um soluço amargo

te oprimir o peito

lembra-te do dia

em que este poema

te sangrou as mãos

com o mais obsceno

dos pedidos: perdão!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Giorgio Vasari (1511-1574)

Perseus and Andromeda.

Sobejo

Dedé Rodrigues


Paira
nas retinas já cansadas
bela dança de fossados
e de amantes suicidas
esquecidos além-mar...

Lutam
na memória enfurecida
reis cruzados e templários
velhos mundos
outros sonhos...
minha parte do espólio!

Vago
como a musa enclausurada
nos despojos de Jerusalém
a mim me cabe
o consolo da rotina:

– remover as pedras
e desenterrar meus mortos!