Amigos do Fingidor

terça-feira, 31 de março de 2009

Parmigianino (1503-1540)

Pallas Athene.

pouco a pouco

Alexandre Serrão

fecharam a porta
com chave única
me deixando fora
a chorar
por te querer
quis a lâmina
que não afundou
quis a negra
que apagou

te trazendo
sem sombras
em destroços
participando comigo
do sonho que não dormiste
me dizes da divisa
a porta não descerra
o vidro não se quebra
o tempo fecha
não ameniza a espera
me jogas de teu medo

e torno à porta
a lâmina brilha
a negra se recusa
não mais apaga
não mais apaga

mas ela dá voltas
ouço
e o vidro estilhaça
pouco a pouco

segunda-feira, 30 de março de 2009

Théodore Chassériau (1819-1856)

Venus Anadyomene.

Estante do tempo

Durante a febre
Heliodoro Balbi (1876-1918)

Morrer! e ser lançado ao mar, no mar do Oriente...
No teu dorso senil, ondas do mar Vermelho!
E no deflúvio real do teu líquido espelho
Ir a Morte arrastando o meu corpo inda quente...

Meu loiro sonho! minha pobre alma! meu velho
Tronco! a flutuarem dentre os juncais da corrente...
E debater-me em vão! como em vão, loucamente,
No aranhol se debate um áureo escaravelho!

No alto do céu radioso o ocaso dos Oceanos...
Meu sangue a jorrar pondo vermelhas estrias
Na garganta de luz dos squalos e goelanos...

E eu só! e eu mudo! a rodopiar em caracóis!
Tenho, através as rubras órbitas vazias,
A ilusão imortal de um combate de sóis...

domingo, 29 de março de 2009

Simon Vouet (1590-1649)

Diana.

Minha pátria é minha língua

O sentimento dum ocidental
Cesário Verde (1855-1886)
A Guerra Junqueiro
I
Ave-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba,
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas;
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crônicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!.

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

sábado, 28 de março de 2009

Anne-Louis Girodet de Roussy-Trioson (1767-1824)

Mademoiselle Lange as Venus.

Poesia em tradução

Missa Negra
José Juan Tablada (1871-1945)

Noite de sábado! Calada
está a terra e negro o céu,
palpita em minha alma uma balada
de doloroso ritornelo.

O coração sangra ferido
pelo cilício das tristezas
e corre o chumbo derretido
da neurose em minhas veias.

Amada, vem! Dá a meu rosto
o edredom do teu regaço
e a minha loucura, docemente,
leva à prisão do teu abraço.

Noite de sábado! Em tua alcova
paira um perfume de incensário
o ouro brilha e a caoba
tem penumbras de santuário.

E além, no leito onde repousa
teu corpo branco, reverbera
como custódia esplendorosa
tua desfeita cabeleira.

Toma o aspecto triste e frio
da enlutada religiosa
e com o traje mais sombrio
veste tua carne voluptuosa.

Com o murmurinho das preces
quero a voz da tua ternura,
e com o óleo dos meus beijos
ungir de Deusa tua beleza.

Quero trocar o beijo ardente
dos meus versos de outros dias
pelo incenso reverente
das sonoras litanias.

Quero nos degraus de teu leito
dobrar tremendo o joelho...
fazer de altar o teu peito
e de tua alcova a capela.

E celebrar febril e mudo
sobre teu corpo sedutor
pleno de essências e desnudo
a Missa Negra do meu amor!

(Trad. Zemaria Pinto)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Emile Vernon (1872-1919)

The Pink Rose.

Motivo X

Lina Tâmega Peixoto

Quando a casa morava sozinha
e bandos de mansa alegria
andavam pela tarde,
a menina moía a floresta
nos grãos de mostarda,
colhia o musgo macio do mormaço,
punha a chuva na moringa
e descalçava o coração.

Assoprava as luzes do quarto
e os frutos de louça na tigela
endureciam a noite.
Lia em voz alta o livro
para que o corpo das palavras
lhe desse forma de moça.

Ao romper as vigílias da fala
cantava a carnadura da alma.

quinta-feira, 26 de março de 2009

William Blake (1757-1827)

Hecate or the Three Fates.

Poema invisível

Donaldo Mello

Deixa-nos voar como pássaros
para dentro do Tempo.
Retraídos do vazio, imersos em nebulosa,
inventando novas galáxias, como passatempo.

Qual sinfonia do capim-gordura,
relva do cerrado, ao vento, anunciando
seca. Capim que retém o sol com
seus milhões de dedos e ternura.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Moacir Andrade

Paisagem amazônica.

Dabacuri - amazônica 1

Zemaria Pinto


caminho de terra –
o mato à margem exala
perfumes silvestres



arpão certeiro
o tucunaré debate-se
– festa em Nhamundá

terça-feira, 24 de março de 2009

Arnaldo Garcez

Mulher.

As tintas da natureza

Miguel Ferreira de Souza

Quando amanhece:
o sol desponta belo
dourado, amarelo
sob o azul do céu.

Quando anoitece:
a lua clareia o preto
sobre o meu poemeto
a noite desce o véu.

Quando chove:
a chuva a terra molha
para esverdear as folhas
e amarelar os frutos.

Quando é estio:
o sol a pele queima
e o calor sempre teima
em reinar absoluto.

Quando é primavera:
as flores se abrem lindas
com suas cores infindas
na estação mais bonita.

Quando é outono:
o tempo é decadência
assim se faz a ciência
da natureza infinita.

O verde das árvores
o azul do céu
de quem esse pincel
que a natureza pinta?!

O branco das nuvens
tudo com sua cor
quem é esse pintor?
E de quem são essas tintas?

segunda-feira, 23 de março de 2009

Walter Crane (1845-1915)

The Renaissance of Venus.

Estante do tempo

Rio Negro
Paulino de Brito (1858-1919)

Na terra em que eu nasci, desliza um rio
ingente, caudaloso,
porém triste e sombrio;
como noite sem astros, tenebroso;
qual negra serpe, sonolento e frio.
Parece um mar de tinta, escuro e feio:
nunca um raio de sol, vitorioso
penetrou-lhe no seio;
no seio, em cuja profundeza enorme,
coberta de negror,
habitam monstros legendários, dorme
toda a legião fantástica do horror!

Mas, dum e doutro lado,
nas margens, como o quadro é diferente!
Sob o dossel daquele céu ridente
dos climas do equador,
há tanta vida, tanta,
ó céus! e há tanto amor!
Desde que no horizonte o sol é nado
até que expira o dia,
é toda a voz da natureza um brado
imenso de alegria;
e voa aquele sussurrar de festas,
vibrante de ventura,
desde o seio profundo das florestas
até as praias que cegam de brancura!

Mas o rio letal,
como estagnado e morto,
arrasta entre o pomposo festival
lentamente, o seu manto perenal
de luto e desconforto!
Passa – e como que a morte tem no seio!
Passa – tão triste e escuro, que disséreis,
vendo-o, que ele das lágrimas estéreis
de Satanás proveio;
ou que ficou, do primitivo dia,
quando ao – “faça-se!” – a luz raiou no espaço,
esquecido, da terra no regaço,
um farrapo do caos que se extinguia!

Para acordá-lo, a onça dá rugidos
que os bosques ouvem de terror transidos!

Para alegrá-lo, o pássaro levanta
voz com que a própria penha se quebranta!

Das flores o turíbulo suspenso
manda-lhe eflúvios de perene incenso!

Mas debalde rugis, brutos ferozes!
Mas debalde cantais, formosas aves!
Mas debalde incensais, mimosas flores!
Nem cânticos suaves,
nem mágicos olores,
nem temerosas vozes
o alegrarão jamais!... Para a tristeza
atroz, profunda, imensa, que o devora,
nem todo o rir que alegra a natureza!
nem toda a luz com que se enfeita a aurora!

Ó meu rio natal!
Quanto, oh! quanto eu pareço-me contigo!
eu, que no fundo do meu ser abrigo
uma noite escuríssima e fatal!
Como tu, sob um céu puro e risonho,
entre o riso, o prazer, o gozo e a calma,
passo entregue aos fantasmas do meu sonho,
e às trevas de minh’alma!

domingo, 22 de março de 2009

Jacob Ferdinand Voet (1639-1700)

Maria Mancini como Cleópatra.

Minha pátria é minha língua

Lira I
Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810)
.
.
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que viva de guardar alheio gado,
de tosco trato, de expressões grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite,
e mais as finas lãs, de que me visto.
       Graças, Marília bela,
       graças à minha estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte:
dos anos inda não está cortado;
os pastores, que habitam este monte,
respeitam o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
que inveja até me tem o próprio Alceste:
ao som dela concerto a voz celeste,
nem canto letra que não seja minha.
       Graças, Marília bela,
       graças à minha estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,
só apreço lhes dou, gentil pastora,
depois que o teu afeto me segura
que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
de um rebanho, que cubra monte e prado;
porém, gentil pastora, o teu agrado
vale mais que um rebanho e mais que um trono.
       Graças, Marília bela,
       graças à minha estrela!

Os teus olhos espalham luz divina,
a quem a luz do sol em vão se atreve;
papoila ou rosa delicada e fina
te cobre as faces, que são cor da neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
teu lindo corpo bálsamo vapora.
Ah! não, não fez o Céu, gentil pastora,
para glória de amor igual tesouro!
       Graças, Marília bela,
       graças à minha estrela!

Leve-me sementeira muito embora
o rio, sobre os campos levantado;
acabe, acabe a peste matadora,
sem deixar uma rês, o nédio gado.
Já destes bens, Marília, não preciso
nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;
para viver feliz, Marília, basta
que os olhos movas, e me dês um riso.
       Graças, Marília bela,
       graças à minha estrela!

Irás a divertir-te na floresta,
sustentada, Marília, no teu braço;
aqui descansarei a quente sesta,
dormindo um leve sono em teu regaço;
enquanto a luta jogam os pastores,
e emparelhados correm nas campinas,
toucarei teus cabelos de boninas,
nos troncos gravarei os teus louvores.
       Graças, Marília bela,
       graças à minha estrela!

Depois que nos ferir a mão da morte,
ou seja neste, ou noutra serra,
nos corpos terão, terão a sorte
de consumir os dous a mesma terra.
Na campa, rodeada de chiprestes,
lerão estas palavras os pastores:
“Quem quiser ser feliz nos seus amores,
siga os exemplos, que nos deram estes”.
       Graças, Marília bela,
       graças à minha estrela!

sábado, 21 de março de 2009

John William Godward (1861-1922)

In the Tepidarium.

Poesia em tradução

Os deuses
Julio Cortázar (1914-1984)

Os deuses caminham entre coisas pisoteadas, segurando
as pontas dos seus mantos com gesto de asco.
Entre gatos podres, entre larvas abertas e acordeões,
sentindo nas sandálias a umidade dos farrapos corrompidos,
os vômitos do tempo.

Em seu céu despido já não moram, lançados
fora de si por uma dor, um sonho turvo,
estão feridos de pesadelo e lama, parando
para recontar seus mortos, as nuvens ao contrário,
os cães de língua quebrada,
a espreitar invejosos o abismo
onde ratos eretos disputam chiando
pedaços de bandeiras.

(Trad. Ari Roitman e Paulina Watch)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Santi di Tito (1536-1602/3)

Retrato de Maquiavel.
Não havia o tempo em calendários
João de Jesus Paes Loureiro

Não havia o tempo em calendários
nas escrituras da cidade e das ilhas.
Não havia o tempo de sonhar
e tempo a trabalhar.
Tempo para ser
e tempo de não-ser.
Havia sim o tempo para o tempo,
pois o tempo era integral
para si mesmo.
Não havia tempo do real
fora do tempo imaginário.
Era o tempo diverso em um só tempo.
O tempo-aquele igual a aquele-tempo.
Não havia o tempo de plantar
e tempo de colher.
Tudo era o tempo
de colher a plantar.
E de plantar colhendo.
Tempo individido
sem tempo para isso
ou tempo para aquilo.
Era o tempo superposto ao tempo
e cada tempo era sempre
o tempo todo.
Tempo do ser e do não-ser.
Era um só tempo real-imaginário
enlaçando a si mesmo.
Tempo único.
O tempo
só.
Unicotempo.

quinta-feira, 19 de março de 2009

William Whitaker

Wendy.

Como se eu fosse um cantador - I

Aureo Mello

Andei rondando pelo mundo afora
E quase me esqueci de ti, poesia.
E quão mais longe caminhando eu ia
Menos pensava em ti, meiga senhora.

Mas nesta noite novamente agora
Estou contigo aqui, rezando pia
Prece de rendição e de alegria
Porque afinal tu não te foste embora.

Como viver sem ti, poesia amada,
Se tremo ao defrontar-me ao pensamento
De um dia ver chegar enfim o nada

E como Alphonsus, escutar um sino
Com seu dobre pesado e macilento
Apagando o meu tempo de menino?

quarta-feira, 18 de março de 2009

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

After the bath.

buritis silvestres

Zemaria Pinto

o meu primeiro poema
foi escrito sob a sombra
dos buritizais em flor

não tinha papel nem lápis
apenas as mãos nervosas
e a boca ressecada
buscando tuas mãos geladas
e teu hálito de rosas

as palmas alvoroçadas
acenando contra o vento
da tarde o vasto silêncio
teciam a cada assobio
a melopéia do tempo

no chão de areia gravado
meu poema era um navio
de amarras soltas no mundo
à procura da ventura
de navegar outros rios

caía uma chuva fina
de frágeis cristais de luz
e buritis amarelos

terça-feira, 17 de março de 2009

Candido Portinari (1903-1962)

Retrato de Mário de Andrade.

Fúrias

Roberto Alencar

Carrega a existência o vento amarelo
e a lua branca morde nossas orelhas nos muros
os elevadores sombrios e falsos como uma balança
esmagam os livros antigos em busca do inefável leitor
a cor
qual será
da moça assassinada solidão
transforma o mercado em festa de símbolos
com fúrias secretas batem os homens duros
como computadores falam os matemáticos
ainda que escrevam com carinho aos amigos

segunda-feira, 16 de março de 2009

Odilon Redon (1840-1916)

O nascimento de Vênus.

Estante do tempo

Contrastes
Elias Gavinho (1895-1935)

Tristes crianças: – sempre abandonadas
Vagueiam pobremente pelas ruas,
Uns trapos encobrindo as pernas nuas,
Ao vento e ao frio quedam regeladas.

Quando a fome trouxer já definhadas
Em vingança cruel as frontes suas,
Quando não virem mais a luz das luas
E o róseo despontar das alvoradas,

Dirá a humanidade: – triste sorte,
Vaguear no mundo, errantes, sem um Norte
Sob as mil desventuras da matéria!...

Ó Deus, vem ver quão triste é a térrea vida:
Se uns vivem na opulência enternecida
Outros desaparecem na miséria!...

domingo, 15 de março de 2009

Édouard Manet (1832-1883)

Le Déjeuner sur l'herbe.

Minha pátria é minha língua

Eu sou trezentos...
Mário de Andrade (1893-1945)

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

sábado, 14 de março de 2009

Palma Vecchio (1480-1528)

A blonde woman.

Poesia em tradução

Soneto CXXXII
Francesco Petrarca (1304-1374)

Se amor não é, qual este sentimento?
Mas, se é amor, por Deus, que coisa é tal?
Se boa, por que o efeito assaz mortal?
Se má, por que é tão doce este tormento?

Se quero arder, por que choro e lamento?
Mas se não quero, o lamentar que val’?
Ó viva morte, ó deleitoso mal
Que manda em mim sem meu consentimento?

E tolo é lamentar-me, se o consinto.
Entre ventos contrários, frágil barca,
Me encontro em alto-mar, sem ter governo.

De erros tão cheia e de saber tão parca,
Que eu mesmo já não sei o que mais sinto,
A tremer no verão e a arder no inverno.

(Trad. Ivo Barroso)

sexta-feira, 13 de março de 2009

Peter Paul Rubens (1577-1640)

O rapto das filhas de Leucipo.

Historia

Alexei Bueno

Não é minha esta casa, aí entrarei no entanto.
Quebrarei o portão, marcharei entre as flores,
Encherei meu pulmão com os estranhos odores
Do jardim adubado a sêmen, sangue e pranto.

Porei a porta abaixo, enfrentarei o espanto
Dos vultos me fitando; e apesar dos bolores
Envergarei sem medo os trajes de idas cores,
Nas suas mãos beberei, entoarei seu canto!

Com os corpos rolarei de milhões de mulheres
Sem corpo. Ei-los que já me saúdam e me aclamam,
Meus perdidos avós, desamparados seres.

Estendem-me suas mãos como a um filho que os salva.
Deles vim, mas é a mim que eles agora clamam
A vida, como a um pai, um sol sonhando na alva.

quinta-feira, 12 de março de 2009

John Simmons (1823-1876)

Titania.

Butterfly

Simão Pessoa

Pode
pode ser
pode ser que
pode ser que nada
pode ser que nada mude
pode ser que nada mude agora
pode ser que nada mude agora é hora
pode ser que nada mude agora é hora de partir
pode ser que nada mude agora é hora
pode ser que nada mude agora
pode ser que nada mude
pode ser que nada
pode ser que
pode ser
Pode
pode ser
pode ser que
pode ser que mude
pode ser que mude sendo
pode ser que mude sendo assim
pode ser que mude sendo assim não
pode ser que mude sendo assim não vou partir
pode ser que mude sendo assim não
pode ser que mude sendo assim
pode ser que mude sendo
pode ser que mude
pode ser que
pode ser
pode

quarta-feira, 11 de março de 2009

Pietro Annigoni (1910-1988)

La Bella Italiana.

Canção do exílio agora

Zemaria Pinto

Olhando o marimenso à minha frente
e a multidão que sob o sol passeia,
minha lembrança voa muito longe,
além da geografia, além do tempo.

Vejo o teu rosto, então, multiplicado
em cada rosto que me passa rente,
e o espanto inicial, grito abafado,
desliza de meus olhos lentamente.

Guardado há tanto para o reencontro,
de minha boca parte um beijopássaro
em busca do teu corpocontinente.

Na areia fina escrevo estas palavras,
embora desejasse eternizá-las
nos movimentos
dos ventos
e das águas.

terça-feira, 10 de março de 2009

Jean-Léon Gérôme (1824-1904)

The Artist’s Model.

Lírico

Agnaldo Martins

Tuas mãos macias acariciavam meu corpo como uma escultura inacabada,
deixava-as escorrer sobre os lábios já em intensa erupção.
Elas foram ficando na frágil pele e em minhas sensações,
como se tocassem a argila mole e sedenta de beleza.
Os meus olhos vivos permaneciam chamando por seu toque,
cada vez que uma imagem nova se fazia à minha frente.
Fui calando, ouvindo o silêncio daquele corpo em sombras.

Não voltaste!

As lágrimas queriam brotar e o corpo estranhava,
como louco vivia à procura de respostas de afeto,
e encontrava a fúria, esse esmagamento de alma
que preenchia a noite desesperada.

Que voz ecoava naquela obscuridade?

segunda-feira, 9 de março de 2009

Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976)

Nascimento de Vênus.

Estante do tempo

Soror Teresa
Maranhão Sobrinho (1879-1915)

...E um dia as monjas foram dar com ela
morta, da cor de um sonho de noivado,
no silêncio cristão da estreita cela,
lábios nos lábios de um Crucificado...

Somente a luz de uma piedosa vela
ungia, como um óleo derramado,
o aposento tristíssimo de aquela
que morrera num sonho, sem pecado...

Todo o mosteiro encheu-se de tristeza,
e ninguém soube de que dor escrava
morrera a divinal soror Teresa...

Não creio que, do amor, a morte venha,
mas, sei que a vida de soror boiava
dentro dos olhos do Senhor da Penha...

domingo, 8 de março de 2009

William Bouguereau (1825-1905)

Alma Parens.

Minha pátria é minha língua

Ode descontínua e remota para flauta e oboé.
De Ariana para Dionísio.
(fragmento)
Hilda Hilst (1930-2004)

I

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas,
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto.

Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã, sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu, Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

II

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

III

A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.

A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
A uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?

IV

Porque te amo
Deverias ao menos te deter
Um instante

Como as pessoas fazem
Quando vêem a petúnia
Ou a chuva de granizo.

Porque te amo
Deveria a teus olhos parecer
Uma outra Ariana

Não essa que te louva

A cada verso
Mas outra

Reverso de sua própria placidez
Escudo e crueldade a cada gesto.

Porque te amo, Dionísio,
É que me faço assim tão simultânea

Madura, adolescente

E por isso talvez
Te aborreças de mim.

V

Quando Beatriz e Caiana te perguntarem, Dionísio,
Se me amas, podes dizer que não. Pouco me importa
Ser nada à tua volta, sombra, coisa esgarçada
No entendimento de tua mãe e irmã. A mim me importa,
Dionísio, o que dizes deitado, ao meu ouvido
E o que tu dizes nem pode ser cantado
Porque é palavra de luta e despudor.
E no meu verso se faria injúria

E no meu quarto se faz verbo de amor.

sábado, 7 de março de 2009

Claude Monet (1840-1926)

Wild Poppies, Near Argenteuil.

Poesia em tradução

Dá-me tua mão
Gabriela Mistral (1889-1957)

Dá-me tua mão e dançaremos;
dá-me tua mão e me amarás.
Uma flor única seremos,
uma só flor, e nada mais.

O mesmo verso cantaremos,
ao mesmo passo bailarás;
como uma espiga ondularemos,
como uma espiga, e nada mais.

Te chamas Rosa e eu Esperança,
porém teu nome esquecerás,
porque seremos uma dança
pela colina, e nada mais.

(Trad. Zemaria Pinto)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Franz Xaver Winterhalter (1805-1873)

Florinda.

Utopia

Juan Pablo Nierine

Acabei de sonhar uma utopia...
Sem nenhum homem,
E o silêncio do sono sem sonhos,
Lá não há zumbido de moscas,
Suor incômodo,
Nem o triste ronco do bando e seus afazeres.
Não existem poetas, filósofos, prostitutas,
Muito menos empreiteiros,
Algo assim,
Povoado de ninguém,
Semelhante ao que
O acúmulo de mortos vem realizando,
De encontro ao que o quarto vazio sempre proclama,
Algo como o tijolo silencioso,
Que ainda serei.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Yuqi Wang

Kora.

A noite dos magos

Cláudio Fonseca
Para Luiz Bacellar

Ele sentava ali,
na eternidade.
Não mais que um porão cheio de ratos,
atlas, adagas, moedas antigas,
bengalas, gravuras, discos, relíquias...

Livros e livros.
Obras de arte,
recortes, aranhas, ...monte de traste.

Ele ali –
...na eternidade.

Eu, escondido, na madrugada,
à hora em que a sala se transmutava.

Primeiro – acordes na flauta de Pã.
E entrava, alegre,
uma rã.

À mesa enorme, arturiana,
chegavam secretos, senhores, damas...
A luz vinha em tochas, em vidros azuis.
Dentro, profano – um luar cigano,
um cego chorava e cantava blues.

Depois, entre si trocavam grinaldas
de cobras, com escamas de esmeraldas.

Seus rostos e nomes mudavam constante.
Iam à estante, sumiam em livros.
Outros, medonhos, migravam em mitos.

Velhas estátuas tomavam vida
e voltavam em busca da forma antiga.
Cada relíquia que era tocada
gritava em dor. Pela escada
desciam, subiam, e sumiam fadas.

As velhas paredes viravam planos
de outras visões e arcanos.

Viam-se torres. Em suas janelas
passava cortejo e uma donzela.
Sóis penetravam, lentos, nos rios,
deixando fagulhas de ouros frios.
Vi caravanas em dunas gigantes.
Tribos Masais logo adiante.
Celtas forjando bronzes e lendas.
Keats passando... todo poemas.

(Um dia, na sala, quase alvorada,
um galeão espanhol saiu das águas.)

Os magos, sinceros em seus ofícios,
brindavam às vezes, com o suicídio –
quando perdiam o fervor à Arte
ardiam em piras – círios de mártires!
(Suas origens teriam sido
de linhas puras
de infinito.)

Eu ansiava, noites e dias,
ser o jogral dessa confraria.
Lorca, Pessoa, Rilke... enfim,
que um dia tocassem meu pobre Mim.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Frida Kahlo (1907-1954)

The Little Deer.

Momento

Zemaria Pinto

não sou anjo nem mulher
apenas sou esse sopro
de carne e sal e espuma
sobre uma concha de vento
ou um lençol de cetim

nem menina nem mulher
apenas esse perfume
entre almíscar e alfazema
e um leve cheiro marinho
entre o mênstruo e o mureru

nem poeta nem mulher
apenas essa menina
enredada na tristeza
que toma conta de mim
olhando correr o rio

anjo menina mulher
apenas sou esse gesto
forjado pelo desejo
tatuado em fogo e beijo
em meu peito de poeta

terça-feira, 3 de março de 2009

Gottlieb Schick (1776-1812)

Sonho vazio

Dâmea Mourão

Pálpebras à mostra
Instante de deleite
no mundo que se abre
à noite
porém, a íris escondida
se olha por dentro

Já não há mais calma
nem alma
apenas demora
olhos arregalados
temor da aurora

segunda-feira, 2 de março de 2009

Chelin Sanjuan

El nacimiento de Venus.

Estante do tempo

A procissão do tempo
Mady Benzecry (1933-2003)


A procissão do tempo passa, triste,
silenciosa, calma, inacabável.
Das horas o cortejo interminável,
se arrasta para o que não existe.
Por que o caminhar já não desiste
o Amanhã eterno, inatingível?
Que glórias, que prazer inteligível,
que força, os seus clarões impele e assiste?

E a procissão caminha sem cessar...
Dias exaustos, Horas tão cansadas,
pelos Minutos e Segundos amparadas
seguem o trajeto sem poder parar.
A que este infortúnio comparar?
O fim que alcança no princípio está,
se começa, jamais acabará!
Será eterno, ou longo caminhar?

E, já cansados desta sucessão,
soluçam os Dias e esbravejam tanto,
que a Natureza se desfaz em pranto
e acompanha a peregrinação.
Mas não suporta tanta provação:
Ela é perfeita! E a trajetória imensa,
embotaria a sua beleza intensa.
Desiste. Fica. E os dias lá se vão...

E passam meses e anos rastejantes
que o tempo louco a persistir obriga,
e já demente, sem querer, castiga
a humanidade com seus pés errantes.
Calça-lhe os sonhos, corta-lhe os instantes,
tudo devasta em seu grande furor,
arrasta ânsias, leva-lhe o amor,
no desfilar das procissões clamantes...

A humanidade toda já só pranto
tenta deter a marcha incontrolável,
ousa enganar o tempo inabalável,
que lhe empalida as faces e extingue o encanto.
Mas, na tremenda luta ela esmorece tanto
que morre. E os dias continuam indo,
os amanhãs eternos vão surgindo
cobrindo o Ontem com seu negro manto.

Nada mais fica... Tudo se esgotando...
Dias iguais vão se sucedendo,
o que tem vida está sempre morrendo,
e o que está morto, em pó se transformando.
O mundo inteiro o tempo vai levando!...
Aonde irá? Para onde se dirige?
É a pergunta que hoje nos aflige
enquanto imperturbável o Tempo vai passando!...

domingo, 1 de março de 2009

Harmensz van Rijn Rembrandt (1606-1669)

Self-portrait.

Minha pátria é minha língua

Cântico Negro
José Régio (1901-1969)

"Vem por aqui" – dizem-me alguns com os olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
– Sei que não vou por aí!